O Herdeiro do Mundo

324 - Torneio do Novo Mundo

O local onde o torneio seria realizado tratava-se de uma arena já feita para tais funções, e era semelhante a arena do clã Torres, com várias divisões para as pessoas acomodarem-se. Era um imenso local, parecido também com a arena do castelo imperial do mundo de onde Rael viera, porém, um pouco menor. O que a diferenciava das demais arenas já reconhecidas era que não havia bancos para o público sentar, todos ficavam de pé e podiam se apoiar em uma barra de ferro que ficava na altura da cintura e tinha a finalidade de dividir as outras alas. O público era posto nessas divisórias, que era bem similar a uma escada, e quanto mais longe da arena, mais alta aquela divisa estaria. Apenas na parte central da arena, um nível acima do solo, que existia um local onde havia bancos, era o local reservado para toda a família real.

 

Rael não teve muita sorte e conseguiu uma ala no décimo nível, a única coisa que ele desejava era poder ficar de frente a ala do rei, e conseguiu, embora aquele local fosse muito longe da arena. Para entrar, ele inventou uma desculpa para os guardas e lhes pagou dez moedas de ouro. Rael havia dito que seus pais já tinham entrado e esquecido dele do lado de fora, como o preço da entrada era apenas uma moeda, ele teve que suborná-los e dar-lhes um valor a mais.

 

Rael agora podia ver diretamente o rei e todos os guardiões locais, eram homens mais velhos que ocultavam o seu poder de uma incrível maneira, mas ainda assim era perceptível para Rael.

 

― ‘Os protetores do rei são décimos reinos? Além disso, eu não sinto nenhum poder mais forte que um decimo reino neste local, e nenhum deles tem muita resistência física. Aparentemente, a fundação do cultivo deles é fraca durante a transição dos reinos’ ― pensou Rael após sua breve análise para verificar as auras dos mais poderosos.

 

                O rei era um homem de altura média, e seus longos cabelos eram lisos e dourados. Ele usava trajes vermelhos elegantes, com uma magistral coroa de ouro em sua cabeça. Usava também um cinto dourado e grosso, e seus trajes vermelhos avantajados, tinham emblemas de um Sol. Rael entendeu que esse era o brasão que representava a casa do rei ou do reino em questão, mas isso pouco importava para ele.

 

― ‘O rei está no nono reino e parece ser bem mais novo que seus protetores. Tem a aparência de um homem com seus cinquenta anos. No geral, não seria ruim ter esse nível de cultivo no meu mundo, mas somente ele e o...’ ― Rael ainda estava pensando, quando analisou quem estava sentado ao lado do rei em uma aconchegante poltrona. Este outro homem tinha traços parecidos com o rei e os mesmos cabelos praticamente. Rael considerou que os dois poderiam ser irmãos, sendo esse homem ao lado o mais novo, aparentando ter uns trinta e cinco anos, no máximo: ― ‘... Esse outro homem é ainda mais novo, e também está no nono reino.’ ― Isso não chocou Rael nem um pouco, tudo ainda estava muito abaixo do padrão, ainda mais comparado a ele, suas esposas e seus discípulos.

 

                Ao lado do homem que estava na junto do rei havia uma jovem muito bonita. Era uma moça loira, com mais ou menos 16 anos de idade, tinha altura mediana e era magra. Possuía belos olhos verdes, um longo cabelo dourado que caía até embaixo da cintura. Sua silhueta e curvas eram perfeitas e não havia onde Rael reclamar ou colocar defeito. No geral, era uma jovem muito atraente que, no mesmo instante, despertou a atenção do menino ruivo. A moça usava um conjunto provocante de seda azul: suas calças tinham aberturas laterais, dando assim uma ótima visão de suas belas pernas, e na parte de cima vestia um tipo de corpete do mesmo material que a calça, este era ornamentado com pingentes dourados, tanto em sua barra, o que dava um caimento perfeito em seu ventre, como em suas mangas caídas nos ombros. Para completar, a moça usava um véu azul de tecido delicado com certa transparência, que cobria parte de seu rosto.

 

― ‘Admito, ela é muito bonita mesmo. Esse torneio não parece ser apenas por status, mas Emilia e a minha Isabela são muito mais bonitas’ ― pensou Rael após sua análise: ― ‘E ela é um gênio, já está no quinto reino nível três! No meu mundo, ela seria considerada muito poderosa, nem consigo imaginar o resultado caso eu a ajudasse a evoluir’ ― Rael apenas pensou, mas não tinha interesse em se envolver com qualquer coisa além, ele só queria mesmo fazer sua análise sobre esse mundo novo.

 

― ‘Decepcionante. Esse é um resumo geral do que esse mundo me parece. Claro, possui alguns poucos gênios, mas poucos entusiasmos, nada que poderia me assustar. Acho que não preciso temer ninguém ao estar por aqui’ ― concluiu Rael. Ele ficaria um pouco mais para ver as lutas e acompanhar os últimos detalhes. Talvez, de repente, possa surgir pessoas mais poderosas na arena ou na batalha, mas isso Rael estava achando que seria bem difícil de ocorrer devido ao diagnóstico recém finalizado.

 

                Havia um velho juiz no centro da arena segurando uma caixa verde nas mãos. Esta parecia uma pequena e estranha máquina. O juiz utilizou uma Pedra do Eco para chamar a atenção de todos:

 

― Boa noite a todos! O torneio pela mão de nossa jovem mestra Alessa Lurial, filha de Leon Lurial, o lorde das Terras Ardentes, está prestes a ter início! Venho lembrar a todos que nenhum participante pode ter uma idade superior a dezoito anos. Se houver alguém no público que deseja entrar neste torneio pode vir imediatamente para se inscrever, os desafiantes devem descer agora para o centro da arena e vir falar comigo! ― anunciou o homem e esperou alguns instantes.

 

                Dois jovens e um pequeno menino desceram de seus lugares e se dirigiram para a arena, os dois jovens estavam no quinto reino e se vestiam muito bem. Rael pensou que ambos certamente teriam vindo de famílias nobres.

 

― ‘Aquele menino!’ ― Rael ficou chocado ao ver o pequeno garoto loiro que ele encontrou da última vez. Esse menino nem idade para aquelas coisas tinha e estava ali para disputar a mão de uma mulher.

 

― ‘Esse menino já tem interesse em mulheres? Quando eu tinha a idade dele, acreditava firmemente que tinha sido gerado de uma mijada! Ainda bem que Alexia e Rika não podem mais ler a minha mente’ ― Pensou Rael e suspirou.

 

                O juiz utilizou um tipo de espelho para analisar idade e poder dos participantes. Este espelho informava apenas a idade e reino do participante. O público parecia bastante surpreso em ver um pequeno menino entrando no torneio e aos poucos teve inicio a um pequeno burburinho.

 

― Quem é aquele menino? Ele está louco? O que vai fazer lá embaixo com tão pouco poder e sendo tão novo? ― perguntou alguém próximo a Rael.

 

― Você ainda não ouviu falar dele? Aquele jovem é Isaac, o gênio número um que venceu o torneio de jovens talentos realizados pelas pequenas famílias. Ele é um membro do clã Mão de Ferro, e graças a vitória dele no torneio, o clã ganhou um dirigível! Este menino venceu vários gênios durante todo o torneio! ― Respondeu outro homem que estava ao lado do que tinha feito a primeira pergunta.

 

― Espere, aquele ali é Isaac? Esse menino é o tal garoto possuidor de uma velocidade absurda e força fora do comum? Não pode ser... Mas ele não parece ser tão forte como dizem... ― disse o primeiro novamente.

 

― Ele não parecia tão forte durante o torneio também. Eu estive lá e vi com meus próprios olhos o que ele é capaz de fazer, acredito que a jovem mestra Alessa vai cair nas mãos dele. Inclusive ela e o pai estavam naquele torneio e sabem disso tão bem quanto eu. ― disse o segundo. Rael continuou ouvindo os rumores sobre o jovem circulando e ficou surpreso. Algumas pessoas de fato não conheciam o menino, mas a maioria parecia ter alguma informação do mesmo.

 

― ‘Para pessoas sem resistência, aparentemente esse menino é o oposto de todos, acho que assistir essas lutas será bom de alguma forma’ ― Pensou Rael, agora um pouco mais interessado. Ele notou que a jovem Alessa tinha um brilho nos olhos quando observava Isaac, que ainda estava na arena. O juiz conferia agora o menino, aparentemente os dois jovens já haviam passado no teste.

 

                Depois do juiz confirmar a aprovação dos três, ele murmurou algo para um anel e uma porta grande abaixo da ala real foi aberta. Um grupo de muitos jovens, a maioria no quarto e quinto reino, saíram para se juntar aos três. Entre eles havia um jovem gordo muito bem vestido: loiro, de altura mediana e aparência refinada. Esse jovem estava cercado de moças bonitas que o alisavam e se esfregavam em seu corpo enquanto riam e pareciam brincar. Essas três mulheres eram realmente bastante bonitas.

 

― ‘Ele parece muito com alguém da família real... Seria ele algum sobrinho do rei?’ ― pensou Rael.

 

― Vejam, é o príncipe Alisson! Parece que ele deseja tomar a mão da própria prima em casamento. Ouvir dizer que ele é o que tem mais chances de vitória, pois já alcançou no sexto reino e seu cultivo é monstruoso! ― comentou alguém aleatório.

 

― Eu torço para que outra pessoa vença. Apesar dele ser um príncipe, acho-o repugnante como pessoa. Jovem mestra Alessa não merece se casar uma coisa dessas ― comentou uma mulher.

 

― Se o filho do rei vai participar, os outros participantes não terão chances. Nem esse pequeno gênio chamado Isaac será um problema para ele. Pelo que sei, Isaac venceu apenas gênios de pequenas famílias. Contra um gênio de elite como o príncipe Alisson, certamente não terá chance.

 

― É o príncipe Alisson! E ele trouxe três de suas mais belas concubinas. Queria ter apenas uma daquelas para mim.

 

― Cale a boca, seu idiota! Gente pobre como nós não podemos nem pensar nisso. Se tivermos uma esposa mediana nessa vida já deveríamos ser gratos por toda a vida.

 

                Os comentários aleatórios se espalhavam cada vez mais e, por conta desses rumores, Rael entendeu rapidamente do que se tratava:

 

― ‘Interessante... Será que o menino loiro está nesse torneio para salvar a bela jovem desse primo? Porque eu tenho certeza de que ele será capaz de vencê-lo. Embora ainda não tenha visto as técnicas de batalha desse mundo, apenas baseado na resistência apresentada naquele dia involuntariamente, já posso supor que ele sairá vitorioso.’ ― Rael concluía sua análise minuciosa sobre a situação. Ele começou se interessar pelo andamento daquela batalha porque achou familiar, trazia lembranças de seu primeiro torneio, sobre o qual enfrentara Heitor.

 

― ‘Naquele dia eu não sabia que estaria prestes a entrar em uma relação especial com Natalia, estava ali apenas para me vingar do clã, e decidi a protegê-la no último instante, me aproveitando das próprias regras deles. Esse meu ato acabou me entregando o coração de Natalia, e eu...’ ― Enquanto Rael recordava, se encheu de saudades da bela jovem. Ele já gostava muito de Natalia, mas depois que ela herdou o poder do Espectro ficou ainda mais linda e sensual, de um modo que se tornou viciante senti-la. A jovem agora parecia ter uma sensualidade quente e devassa, contrastando ao jeito doce e tímido de antes.

 

                Rael só foi esquecer Natalia quando o rei Theo se levantou para dar um pequeno discurso, usando uma pedra do eco. Ele agradeceu pela presença de todos os presentes e desejou um bom torneio para os participantes, embora tenha admitido que já estava com um vencedor em mente.

 

― Minha sobrinha Alessa já foi escolhida pelo meu filho Alisson. Infelizmente, mesmo que o meu irmão Leon não queira entregar de boa fé o coração de sua filha ao meu filho, ela ainda se tornará a esposa dele. ― O rei brincou com o irmão do lado, que riu e disse algumas palavras baixas o suficiente para apenas o rei ouvir. O rei baixou a pedra do eco e disse algo de volta para o irmão caçula, os dois trocavam algumas palavras que a plateia não poderia ouvir e depois retomou ao discurso, falando até dar início ao torneio.

 

                Naquela altura, Rael já não esperava por pessoas mais poderosas, ele iria apenas assistir algumas batalhas e depois se afastaria sem mais interesse em procurar por pessoas mais fortes que ele. Se não fosse pelo menino loiro levantando seu interesse, ele provavelmente veria apenas duas lutas para entender as técnicas e depois iria embora.

 

                Rael não deixou de observar que, entre  os participantes, havia pessoas de armaduras mais pesadas. Geralmente estes usavam espadas leves ou pesadas; outros de armaduras mais leves que usavam arcos e, por último, alguns participantes com mantos leves e fracos. Estes utilizavam cajados como armadura. Foi essa peculiaridade que chamou a atenção de Rael. Ele já tinha visto pessoas assim pela cidade, mas não imaginou que eles seriam preparados para lutar também.

 

― ‘O que um cultivador tem na cabeça para utilizar um pedaço de madeira ou ferro como esse para lutar? Aquelas roupas são tão frágeis que até um vento forte seria capaz de rasgá-las.’ ― Apesar de Rael já ter ouvido o termo mago, ele não o conhecia bem. Esses cetros que os tais magos tinham em punho lembrava-o da arma de Emilia. Mas Emilia era uma cultivadora ímpar, uma violadora bastante poderosa, e aquele tipo de arma era a combinação perfeita para suas poderosas habilidades.

 

                Os jovens foram separados para o canto da arena e conforme o juiz tirava seus nomes e números de sorteio da caixa verde, eles avançavam para o centro. A luta seria de um contra um normalmente, e podia tanto matar o oponente quanto fazê-lo desistir.

 

                Quando os dois primeiros jovens entraram na arena, o juiz desceu com os demais participantes e ativou um dispositivo que estava em mãos, era um pequeno controle prateado. Com o mecanismo ativado, grades grossas e firmes emergiram do chão por um espaço que cercava toda a arena de formato quadrangular. As grades atingiram cerca de três metros de altura. Havia também uma regra de que o vitorioso seria aquele que conseguisse atirar o seu inimigo para fora dessa grade.

 

                As lutas começaram e os resultados eram rápidos. A luta geralmente eram decididas entre cinco ou seis movimentos. Rael entendeu porque as pessoas de roupas leves utilizavam cajados, cada um tinha um poder das leis que aumentavam suas técnicas mágicas elementais. Rael viu tanto técnicas de guerreiro, quanto de magos e arqueiros.

 

― ‘A maioria das técnicas são parecidas com as do meu mundo. Porém, os fundamentos são bem diferentes. Se for colocar em comparação, esse mundo é muito mais atrasado. As técnicas que eles possuem são como as falhas das nossas. Eles não sabem fazer o poder deles ter um ciclo constante e uniforme em todas as bases. Uma pessoa comum do meu mundo pode ser tanto um bom mago aqui quanto um lutador ou arqueiro. Aqui não, eles se dividem em categorias e se focam de maneira errada. Não é por menos que eles são tão atrasados, todos os seus fundamentos são defeituosos quando comparados aos do meu mundo’ ― constatou Rael, depois de avaliar algumas batalhas e conhecer várias técnicas.

 

                Devido aos cultivadores desse mundo serem frágeis, as batalhas eram curtas porque eles não suportavam muitos danos. É claro que os cultivadores desse mundo ainda seriam muito mais resistentes do que uma pessoa humana comum, mas em relação ao quinto reino do mundo de Rael – o Domínio da Resistencia – todos seriam como papéis molhados. Uma queda alta já seria capaz de matá-los, com exceção daquele misterioso menino loiro.

 

                Em falar neste tão comentado menino, seu número acabou de ser sorteado pelo juiz, como todos estavam sendo naturalmente, e subiu na arena para lutar contra um jovem rapaz. Esse oponente usava uma armadura pesada e uma lança.

 

Todos os novos lutadores tinham de saltar as grades para dentro. Quando precisavam remover alguém em estado grave, eles abriam uma porta e socorriam o ferido com uma maca, acompanhado por alguns cultivadores com energia curativa.

 

O menino loiro sacou uma lança prateada grande e a encostou no chão. Quando Rael a viu ficou completamente chocado: Em volta da lança fluía um intenso poder das leis, tão poderoso que fazia o ar a sua volta ser puxado. Esse poder era absurdamente considerável, e ninguém parecia notá-lo, além do próprio Rael. O ar ao redor do pequeno garoto continha uma silenciosa e imponente aura elétrica, que explodia em pequenas bolhas de energia.

 

― ‘Esse menino não é tão simples quanto eu pensei que seria. Talvez ele seja um ser renascido, ou até mesmo um deus...’ ― Pensou Rael, ainda com um ar incrédulo.

 

                A lança do menino, se comparada com a lança do jovem poderoso, não parecia haver muita diferença física para os demais. A diferença era que o jovem forte segurava a dele com as duas mãos e ela só tinha uma ponta de dois gumes afiada e objetiva, sendo até um pouco mais curta e mais grossa. Já a do menino, era mais longa, com a lâmina em apenas um lado em um formato de “P”, com duas bases de lâminas nos dois lados. O juiz anunciou o início da luta e os autorizou a começar o combate. A plateia imediatamente entrou em silêncio. Alguns conheciam o menino loiro, enquanto outros já tinham ouvido falar, então a ansiedade do público pelo resultado era evidente.

 

                Rael notou que a jovem Alessa continuava com um olhar intenso direcionado para o menino. Se eles não se conhecessem, no mínimo já tinham se encontrado antes, porque o menino também olhou para ela algumas vezes durante as outras batalhas. Rael observava a cena sem muito interesse, era apenas coisa de rotina porque ele acabou achando estranho um menino tão novo se interessar por uma jovem.

 

                O jovem de armadura tentou convencer o menino loiro a desistir da batalha e o mesmo acabou rindo de volta, dizendo que era ele quem precisava desistir.

 

 

― Desistir, eu? Você nunca ouviu falar de mim, pelo visto. Eu sou o jovem mestre chamado Isaac, sou o menino gênio do clã Mão de Ferro, que venceu o torneio Jovens Talentos dos Pequenos Clãs. Se não me conhece ainda, farei-o me conhecer hoje, e certamente se arrependerá por isso ― disse o menino loiro com um sorriso frio. Seu oponente pareceu se irritar com as palavras, pois apertou a lança nas mãos, apontou-a para o garoto e avançou em um forte grito.




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