O Herdeiro do Mundo

317 - Sob Controle

Capítulo em áudio-->https://www.youtube.com/watch?v=C6xRHe_vens

 

Quando o Espectro viu Natalia prestes a dizer as palavras que ele ansiava ouvir desde o início da contenda, se encheu de felicidade. Ele poderia ser um espirito da morte, mas ele tinha objetivos para com o seu mestre, e tais objetivos eram como sonhos para ele. Uma vez realizado, ele se sentiria completo e incrivelmente mais fortalecido, como se sua existência finalmente tivesse algum valor.

 

― E-eu... ― quando Natalia estava prestes a concluir sua rendição, tudo ao redor se rachou novamente, como um espelho estilhaçado. A mudança de cenário estava ocorrendo mais uma vez, mas agora o espectro tinha um olhar de perplexidade para o lado que até o momento não havia nada.

 

O Mundo Morto voltou a ser o mesmo de antes, repleto de cores sombrias. Rachaduras gigantes mais uma vez poderiam ser vistas no horizonte distante. Natalia percebeu que estava de volta naquele território aleatório do Mundo Morto, deduzindo que todo o cenário de antes era apenas um tipo de ilusão gerada pelo espectro para fazê-la desistir.

 

Quando Natalia viu a causa da destruição do cenário criado pelo Espectro ficou um pouco atordoada. Agora ela podia ver claramente dois homens idênticos a Rael. Um estava sofrendo nas mãos do Espectro e o outro estava ao lado, com a mão direita apontada na direção do esqueleto macabro. A mão direita de Rael segurava algo que irradiava uma energia escura.

 

― Ela ia dizer que nunca desistiria de viver, seu ser imundo! ― disse Rael friamente.

 

― Como você poderia portar isso? Como?! ― O Espectro estava visivelmente surpreso e assustado ao ver o artefato que o controla nas mãos de Rael.

 

Rael não respondeu. O jovem se concentrou e apertou ainda mais a mão com o artefato da morte. O Espectro começou a rugir, levando suas mãos ossudas na região que seria o seu tórax, como se sentisse uma dor insuportável no local. O Rael aprisionado por ele desapareceu, virando fumaça e evaporando no ar. Natalia continuou silenciosamente analisando a cena, sem ainda entender bem o que de fato ocorria.

 

Os raios negros que saiam do artefato em posse de Rael cobriam o Espectro, fazendo-o se contorcer cada vez mais. Rael continuava se aproximando, mantendo a cruz na mão estendida, sem parar de lançar a energia que banhava o Espectro e causava agonia nele.

 

― Sua única opção de sobreviver agora é se tornando parte de Natalia. Você não tem mais nenhuma escolha, espirito maligno, renda-se agora! ― disse Rael friamente e continuou a lançar constantemente a energia do artefato no esqueleto, que agora estava completamente vulnerável.

 

― Rael... É você mesmo? O que está acontecendo? O que houve com o outro? ― Natalia estava confusa, observando Rael pressionar o espectro. A bela moça não sabia o que pensar, pois achava que o outro seria o verdadeiro, mas se enganou.

 

― Eu usei o meu poder para adquirir um artefato que controlasse esse esqueleto, e assim pude vir aqui para te ajudar. Eu sou o verdadeiro, aquele outro era uma ilusão criada por ele para te enganar e te fazer desisti ― Rael explicou calmamente, mas sem tirar os olhos do Espectro e nem parar o que estava fazendo.

 

― Você conseguiu, Natalia, resistiu sozinha até aqui! Eu estou admirado, você se tornou muito forte! ― disse Rael com um sorriso caloroso e verdadeiro para a sua segunda esposa. A moça sentiu o seu coração quente, e agora confirmou que esse era o seu Rael. Ela não tomou qualquer atitude precipitada e ficou apenas assistindo Rael continuar o que fazia.

 

O Espectro parou de lutar e se mostrou submisso no chão, caído de joelhos. Rael cessou a energia e se virou para Natalia. Agora, no pescoço da moça, surgira uma pequena e escura cruz, idêntica a que Rael segurava. Essa era a marca de que ela havia enfrentado e vencido o Espectro Sombrio. Aquele esqueleto macabro agora não tinha mais qualquer vontade própria e seus princípios se resumiam apenas a servir obedientemente a Natalia.

 

Rael sabia de tudo naturalmente. Por ele estar usando um artefato mágico tirado do tempo infinito de seu poder, também tinha conhecimento do que o artefato fazia e todo o seu funcionamento. Por isso o jovem sabia que agora o Espectro não causaria mais nenhum mal a sua esposa.

 

― Eu preciso voltar, Natalia. Se eu demorar mais tempo, essa coisa vai me esgotar completamente. ― disse Rael, mostrando o artefato na mão. Mesmo que ele não tivesse mais usando a cruz contra o Espectro, o artefato ainda continuaria a sugar sua energia constantemente ― Eu preciso devolver isso de onde eu tirei.

 

― Você vai me deixar aqui sozinha? ― Natalia perguntou com medo, pois ainda não expirou o tempo necessário para vencer o espectro.

 

― Agora é você quem controla todo esse mundo. O Espectro Sombrio está sob o seu controle. Eu quero que você ponha tudo no lugar, e que procure por algumas almas que estão aqui. Quero que encontre Rita, os pais dela, Janete e seus irmãos, e, também, Thais. Quando os encontrar, ponha todos em um lugar seguro, que quando eu estiver pronto irei trazê-los de volta a vida ― explicou Rael.

 

Natalia não reclamou. Ela começou a se sentir estranha mesmo antes da explicação de Rael. Ela sentiu como se esse mundo estivesse se abrindo para ela. Ela também observou o Espectro inerte e vulnerável ao lado de Rael e sentiu uma estranha sensação de poder sobre aquele ser. Ela sentiu que de fato tinha comando sobre aquele esqueleto, que antes a torturava insanamente para assumir o controle.

 

― O Mundo Morto vai se fechar, independente se você controlá-lo ou não. Por isso você precisa ser rápida e separar os nossos em um local seguro. Agora, eu preciso voltar. Estaremos te esperando do outro lado ― disse Rael e estendeu a mão, fazendo surgir um portal negro atrás dele.

 

― Rael, espere por mim! Temos um trato, se lembra?! ― A voz de Violeta vibrou pelo ar e Rael olhou de lado, vendo aquela bela ruiva se aproximar voando apressadamente: ― Eu fiz a minha parte! Pode perguntar a ela se quiser, eu fiz tudo que pude para garantir que ela sobrevivesse! ― Violeta chegou respirando com dificuldade, mostrando fortes sinais de cansaço. Rael não precisou perguntar, ele apenas olhou para Natalia e ela acenou em confirmação.

 

― Entre. ― disse Rael, acenando com a cabeça para o portal. Ele parecia indiferente, mas estava satisfeito e feliz por saber que sua Violeta ficaria mais forte com essa fusão. Violeta atravessou e partiu sumindo no portal. Rael olhou uma última vez para Natalia, sorriu amavelmente e depois entrou, deixando a jovem sozinha no local.

 

Natalia se aproximou lentamente do Espectro, agora sem nenhum medo. Aos poucos ela foi se sentindo mais poderosa e confiante:

 

― Levante-se, tenho alguns trabalhos para você. ― disse sutilmente Natalia. Quando ela deu a ordem para o espectro, sua tatuagem escura em forma de cruz brilhou, e o Espectro obedientemente se levantou tão como um ser sem vontade, aguardando suas ordens.

 

― Primeiro, eu quero que você...

 

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No mundo dos vivos, Rael surgiu com Violeta. Ele reapareceu no mesmo ponto, e Alice ainda aguardava o seu retorno. A jovem violadora prontamente deu uma pequena flutuação à frente, mostrando uma leve preocupação e alegria por ver Rael retornar bem do mundo dos mortos.

 

― Eu preciso devolver isso ― disse Rael fechando os olhos, ainda com a cruz em punho. Houve alguns segundos em silêncio, no qual Violeta e Alice apenas observavam, e a cruz sumiu da mão fechada de Rael. Em seguida, ele voltou ao normal abrindo seus olhos, mas com uma expressão bastante desgastada.

 

― Alice, está tudo bem com Natalia, ela venceu o Espectro. Repasse essa mensagem para os outros. Cuide de mim e leve Violeta para junto da nossa. Diga para Alexia que elas devem fazer a parte delas. Violeta protegeu Natalia como o combinado ― disse Rael forçando um sorriso.

 

― Cuidar de você?...! ― Quando Alice ainda estava perguntando, Rael sorriu se aproximando e literalmente caiu nela em um abraço, coisa que a deixou visivelmente surpresa e agitada.

 

― Rael! O que pensa que está fazendo, seu idiota! Você quase me beijou! Rael, me solte! Rael...?!

 

― Ele desmaiou, Alice. Está muito fraco ― disse a outra Violeta para que Alice parasse de reclamar. Alice parou e olhou curiosa para o lado, vendo o jovem dormindo despreocupado do lado dela. Alice se sentiu estranha por saber que Rael confiava tanto assim nela. Esse tipo de sensação ela já não tinha a bastante tempo. Tudo bem que ela era uma violadora despertada por ele, mas seu histórico não era muito bom e Rael sabia de todas coisas que ela fez no passado. Mas, mesmo assim, ali estava ele mostrando que não se importava com nada disso e que confiava sua vida nela.

 

― Você é muito idiota, Rael. ― disse a violadora inexpressivamente, segurando o jovem com cuidado. Violeta estava ao lado e só pôde ficar esperando.

 

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No céu, as nuvens começaram a se dissipar. Os poucos espíritos que ainda atacavam aos poucos foram virando fumaça e desaparecendo sozinhos. Em pouco tempo não restava mais nenhum espírito maligno no mundo dos vivos, e a única que possuía aura de morte remanescente era Violeta.

 

Alexia e as violadoras se reuniram atrás do templo em que Natalia estava. A pequena soberana preparou no chão o desenho do ritual que seria utilizado para a fusão das duas belas mulheres. Alice ficou do lado com Emilia, assistindo a tudo em silêncio. Elas não se aceitavam ainda, mas o que poderiam fazer? Elas eram aliadas e despertadas pelo mesmo homem. Elas teriam que conviver com isso, quer queiram ou não.

 

Próximas ao templo estavam Isabela e Keylla, sentadas lado a lado com Rael entre elas no colo. As duas não estavam mais com suas esferas flutuantes. Nesse momento elas não estavam mais em estado de combate, por isso suas esferas haviam desaparecido. As duas cuidavam de Rael como se fosse o maior tesouro que elas possuíam. Enquanto Keylla, que tinha a cabeça de Rael em seu colo, fazia cafuné no cabelo, Isabela segurava e apertava a mão de do jovem de uma maneira delicada e cuidadosa.

 

Mara estava andando de um lado a outro na frente da entrada do templo, mal esperando a hora de Natalia se recuperar e sair. A moça já sabia que Natalia estava bem e que era só questão de tempo até ela sair daquele local. Ela também lançava olhares de preocupação para Rael, mas já tinha duas pessoas zelando por ele. Isso deixava Mara mais sossegada em relação ao seu marido.

 

Apesar das nuvens terem se dissipado, ainda estava escuro, isso porque agora era de fato noite. Facilmente era visível a lua cheia junto com várias estrelas espalhadas no céu. Finalmente tudo havia se acalmado.

 

Enquanto Rael dormia com suas guardiãs, o ritual da fusão entre as duas Violetas foi preparado cuidadosamente por Alexia. Tudo deu certo e as duas se tornaram uma só violadora. O poder de Violeta subiu de nível assim que a outra se fundiu a ela. Violeta começou a inspecionar suas próprias mãos curiosa sobre seus ganhos obtidos, ela estava cheia de expectativa em como seria o seu poder aumentado em uma considerável parcela.

 

― Como está se sentindo? ― perguntou Alexia em seu estado naturalmente sério. Alexia havia ministrado o ritual porque foi um pedido de Rael, mas desde aquele incidente em que Violeta e Emilia a confrontaram e rejeitaram sua amizade, ela não gostava muito das duas. Tão pouco de Alice, com quem vivia discutindo. O máximo que a soberana fazia era ser educada com as violadoras, contanto que elas fossem com ela.

 

― Estou me sentindo bem, também sinto o conhecimento da outra se fundindo ao meu... ― disse Violeta, e agora ela tinha a fórmula que anularia o efeito da Alada Brilhante. A bela ruiva se encheu de entusiasmo a saber que as violadoras não mais cairiam por motivos de fraqueza.

 

― Se terminou bem, então irei ver Natalia ― disse Alexia, se virando sem muito interesse.

 

― Alexia, obrigada. Sei que não fez exclusivamente por mim, mas ainda assim te agradeço profundamente ― disse Violeta. Alexia não se virou, apenas continuou avançando após fazer um sinal de mão como se fosse um acenar de costas.

 

Violeta ainda estava se analisando quando seu corpo piscou e uma figura exatamente igual a sua surgiu, caminhando para o lado. Aos olhos de Emilia e Alice, agora tinham duas violetas, e cada uma delas fazendo suas próprias vontades. Elas conheciam o clone de Violeta e sabia que ele só se moveria com a vontade da original. Mas agora as duas pareciam pensar por conta própria.

 

― Eu estou viva! Finalmente sou de carne e osso mais uma vez! ― disse Violeta, no caso, o seu clone. Essa era a Violeta que tinha voltado do mundo dos mortos. Agora, o clone da violadora Violeta sempre teria a consciência da Violeta que era do outro mundo.

 

Alice, Emilia e a própria Violeta ficaram observando-a em silêncio. Essa Violeta se admirava cheia de entusiasmo e curiosidade. Primeiro, ela passou as mãos nos cabelos, depois tocou os próprios lábios. Ela piscou, respirou suavemente e se deixou escutar o coração pulsando enquanto sentia o vento em volta.

 

― Eu realmente sinto que sou de verdade, como você, em sua versão original ― disse ela, olhando a Violeta principal.

 

― Sim, é claro que você é de verdade. Nós duas sabemos que você é um clone real criado do poder da minha habilidade ― disse a violadora em seu olhar sério e natural de volta para a clone, que agora é controlado pela outra Violeta.

 

― Nosso poder, você quis dizer. Esqueceu que eu também o tinha anteriormente? ― perguntou o Violeta e, como um borrão, se moveu para frente de Emilia. Alice e Emilia chegaram a se assustar com o súbito movimento e quase reagiram, mas pararam ao perceber o que ela fez. O clone repentinamente agarrou Emilia pela cabeça e a tomou os lábios em um beijo intenso de língua, fazendo Emilia quase perder o ar enquanto arregalava os olhos, surpresa pelo ato daquela mulher. O beijo durou vários segundos sobre os quais Emilia não conseguia se recuperar facilmente.

 

― Eu estou mesmo viva! Posso sentir o meu corpo vivo novamente, de todas as formas possíveis! ― disse a clone animada, ainda lambendo os lábios, sentindo o sabor do hálito de Emilia. Emilia, por sua vez, estava levemente agachada com falta de ar e ainda um pouco atrapalhada. A violadora não pensou que seria envolvida em um tipo de teste feito pelo clone agora independente de Violeta.

 

― Você está muito empolgada com essa ressurreição. É melhor voltar e se acalmar. ― disse Violeta original, um pouco irritada com essa ação de sua clone.

 

― Tudo bem ― disse o clone, sorrindo despreocupada. Violeta avançou e desapareceu ao tocar no corpo original. Antes o clone só sumiria, mas agora tinha a parte espiritual de Violeta e essa parte precisava retornar sempre.

 

Violeta original recebeu todas as memórias e sensações do beijo com Emilia. Como uma fusão, elas continuariam compartilhando todas as experiências entre si num todo.

 

― Emilia, me desculpe... Eu não tive culpa... ― disse Violeta para Emilia, visivelmente embaraçada.

 

― Eu entendo, Violeta, não precisa se explicar... Ufa! Agora que toda essa bagunça acabou, só quero voltar para casa e dormir por dias! Irmã mais velha Alice, poderia abrir um portal para nós irmos embora? ― pediu Emilia. Alice não se importou de abrir um portal para o esconderijo e deixar Emilia entrar.

 

― Você vem conosco? ― perguntou Alice com um olhar inexpressivo para Violeta. Violeta olhou uma última vez para Rael, notando que ele estava seguro com suas guardiãs. Depois ela olhou para Alexia e percebeu que não havia mais com o que se preocupar. Ela fez um sim com a cabeça e seguiu em direção ao portal. Alice olhou uma última vez para Rael e atravessou o portal por último, o fechando logo em seguida.

 

 

Alexia ficou perto de Mara, esperando junto com a moça o retorno da doce Natalia. As duas mal viam a hora de recebê-la de volta.




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