O Herdeiro do Mundo

309 - A Condição de Natalia

Capítulo em áudio-->https://www.youtube.com/watch?v=cCE8P5Dcmvw

 

No clã Torres, as coisas estavam começando a ficar mais calmas. Com a ajuda de Ralf e com Rayger livre de Romeo, eles estavam limpando mais facilmente seus inimigos. Os homens mortos estavam desaparecendo e não retornando mais.

 

Ralf mantinha um olho onde Elisa estava. Se ela estivesse passando qualquer mínimo sufoco, ele já desceria e mataria seus alvos, limpando os inimigos ao redor dela. Os cultivadores junto a Elisa já estavam se acostumando com a cena. Ralf lançaria olhares brilhantes para Elisa, esfregaria o focinho nela, a cheiraria e faria vários atos carinhosos. Esses atos enchiam o coração dos homens em volta de temor, porque eles podiam ver que esse imenso tigre gostava muito dela e, se alguém ousasse ofendê-la, seria destroçado miseravelmente por Ralf no mesmo instante.

 

Ocasionalmente, Ralf lançava seus olhares para os homens próximos a Elisa. Ele quase podia dizer com os olhos que se eles deixassem ela se machucar, a situação seria ainda pior para eles. Os homens engoliam salivas e se tremiam diante do olhar impiedoso de Ralf. Não era difícil eles cercarem Elisa para não deixar que ela lutasse de frente contra novos inimigos, porque o medo de deixar ela se machucar era pior do que virar linha de frente e morrer nas mãos dos mortos-vivos.

 

Os outros membros do clã vivos também já tinham se acostumados a serem ignorados por aquele enorme tigre dourado mesmo sem ninguém dizer nada. A besta Rank S+ cruzaria todo o clã limpando apenas os mortos e deixava os vivos em paz, mesmo que alguns as vezes lançassem ataques para ele por serem surpreendidos, Ralf facilmente esquivava ou defendia com suas asas poderosas e partia sem sequer revidar. Com esse tipo de cena, logo todos foram percebendo que a besta só estava presente para ajudar, embora nem todos fizessem ideia de onde ela surgira.

 

― Então você está na área, garotão! ― disse Neide com entusiasmo, quando parou no ar encontrando Ralf em uma de suas voltas. Ralf parou flutuando e batendo as asas enquanto observava Neide. Infelizmente ele havia chegado atrasado e não tinha como debater em números de mortos, mas mesmo assim lançou um sorriso afiado, que não era tão afiado assim, para a bela mulher adulta e amistosa. Ela sorriu de volta naturalmente para o animado tigre.

 

― Quero agradecer pela ajuda, Ralf. Agora meu marido e eu que cuidamos desse clã ― disse Neide. Ralf balançou a cabeça positivamente continuando a sorrir, mas qualquer um que visse a cena de longe, diria que ele estava ameaçando Neide e prestes a atacá-la.

 

Se ele pudesse dizer algo, teria dito que ela não precisava agradecer, mas ele só conseguia acenar com um sim ou não, embora entendesse perfeitamente o que ela dizia. Mesmo que ele fizesse sons com a boca, ela não iria entender. Então, ele geralmente optava pelo sim e pelo não nas conversas com humanos para facilitar a comunicação.

 

De repente, Ralf notou Elisa com problemas de novo e voou mais uma vez para ajudá-la, o que atraiu a atenção de Neide, que ficou olhando curiosa para o que acontecia.

 

Antes de sair, Neide observou essa cena e ficou em silêncio, vendo como Ralf protegeu Elisa. Ralf parecia gostar muito da mesma. No final, ele até mesmo cheirou e lambeu ela mais uma vez, deixando Neide boquiaberta, porque ela não entendia o motivo de Ralf gostar tanto de Elisa. Neide não sabia a verdade sobre Elisa ter se passado por Nastácia no passado, e até o momento somente Rael, Emilia, Violeta, Rika e Rose sabiam desse segredo. Depois disso, ela foi cuidar de mais alguns poucos inimigos que restava. Os inimigos já estavam quase no fim.

 

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Alexia estava descendo dos céus carregando Verônica em uma bolha de energia protetora. Verônica dormia cansada dentro da bolha, ela e Alexia tinham viajado por muitos lugares procurando o velho Sábio da Montanha até finalmente encontrá-lo e descobrir que ele era nada além de um servo qualquer. Quem estava por trás dos velhotes tidos como sábios era um deus poderoso que retinha os contratos, não sendo possível quebrá-lo.

 

Quando Alexia viu todo o planeta coberto por nuvens de morte, ela ficou de olhos arregalados. Ela tinha dado um ano para aquele caos ter início, mas pelo visto tinha sido bem antes do que ele havia determinado.

 

― ‘Isso não pode ser... O Espectro ainda demoraria a ficar tão poderoso... Então, por que agora?’ ― a soberana se perguntou enquanto mergulhava descendo pelos céus. Seu pequeno coração disparou enquanto ela pensava em Natalia. Ela tinha algumas coisas em mente que poderia salvar Natalia, mas agora, com o Espectro mais poderoso, seria difícil seguir com seus planos. Por mais que ela não tenha conseguido o contrato de volta, ela conseguiu alguns outros artigos que poderiam ser usados e tinha cerca de 80% de certeza que ajudaria a salvar Natalia, porém ao chegar e se deparar com o céu desse jeito e todo o resto, essa chance caiu para menos de 10% de sucesso.

 

― ‘Quanto mais poderoso ele estiver, mais difícil será enfrenta-lo’ ― ela pensou e suspirou. Como um borrão, ela seguiu diretamente para onde Rael estava. Desde que Rael continha seu registro, ela o acharia em um piscar de olhos.

 

― ‘Rael, Natalia e Mara estão juntos, isso significa que ela ainda não teve o corpo possuído, a não ser que ele esteja fingindo ser ela’ ― a soberana pensou após sua análise. Ainda transportando a matriarca Verônica, que dormia esgotada, Alexia pousou na frente da residência da matriarca Ana. Ela tinha visto o mundo destruído de cima enquanto passava, então não ficou tão surpresa com o estado da pequena cidade.

 

Rael estava lá parado com todos os outros, eles estavam em silêncio quando a pequena Soberana entrou com um olhar curioso. Seus pequenos olhos viajaram até Natalia e rapidamente se aliviaram ao perceber que era de fato Natalia a estar lá.

 

― Alexia... ― Rael disse, observando a entrada da mesma no salão.

 

― O que aconteceu por aqui? Por que teve tantas mortes nesse lugar? Que droga aconteceu com todo o continente? Eu sinto aura de morte por todos os cantos desse mundo! ― disse ela.

 

― Fomos invadidos pelo continente Norte. Eles tinham muitos reinos finais em seu poder. Por isso houveram tantas mortes assim... ― contou Rael. Antes de Alexia chegar, ele já tinha se comunicado com Violeta e Emilia, ambas voltaram para o esconderijo após limparem seus pontos. Nesse momento o mundo estava novamente calmo, mas era apenas uma questão de tempo para tudo recomeçar.

 

Sem dizer nada, Alexia se aproximou de Natalia, flutuou um pouco, subindo alguns centímetros e tocou na cabeça dela. Ninguém disse nada, e apenas Rael e Mara sabiam da verdadeira intenção daquela inspeção. Natalia não lutou contra a análise de Alexia e deixou que a mesma inspecionasse o seu poder.

 

― Natalia, como está se sentindo emocionalmente? Você sentiu alguma mudança ultimamente na maneira de você pensar, algo em você mudou? ― perguntou Alexia curiosa. Mara abriu a boca para responder, mas decidiu ficar em silêncio, esperando sua própria prima dizer.

 

― Eu... Eu me sinto mais corajosa, me sinto mais forte mentalmente ― disse Natalia sendo sincera. Alexia escutou com alívio a resposta da jovem. E depois virou-se para Rael, seu olhar era um misto de ansiedade e desânimo.

 

― Rael, venha comigo. Deixe todos dentro da barreira e me siga, por favor ― disse ela saindo para fora da residência. O corpo de Verônica flutuava dentro de uma bolha vermelha, essa bolha lentamente seguiu para dentro, mesmo sem Alexia ordenar, transportando Verônica pelo corredor e encontrou um quarto vazio, empurrando a porta e entrando, a bolha parou cima da cama e foi liberando Verônica. Verônica já tinha a marca de Rael em relação as barreiras, então ela podia ir e vir de qualquer lugar.

 

Do lado de fora, depois de caminharem um pouco e ficarem na distância suficiente para os outros não ouvirem a conversa, Alexia parou. Ela parecia bastante preocupada, e Rael por outro lado estava cheio de expectativa, esperando que ela desse boas notícias.

 

― Eu não consegui encontrar o contrato, Rael. O tal Sábio era na verdade um servo, como eu tinha imaginado anteriormente... ― disse ela, fazendo a expressão de Rael desanimar um pouco.

 

― Como é? Um servo? ― Rael ficou abismado.

 

― Sim, um servo. Ele trabalha para um deus que tem um monte desses servos, espalhando essa prole de Espectros Sombrios, destruindo e consumindo mundos fracos. Quando nós o encontramos, ele já tinha acabado de sair de outro planeta após ter seu contrato adquirido.

 

― E ninguém vê isso? Planetas sendo inteiramente consumidos por esse tipo de coisa?! ― Rael ficou chocado com a descoberta.

 

― Mundos Pequenos existem em centenas de milhares. Ninguém liga se algumas poucas centenas são destruídos repentinamente.

 

― O que? Milhares? ― Rael ficou chocado.

 

― Sim, são muitos, talvez até incontáveis. Quanto menor o grau de poder, mais planetas existirão. Planetas de nível Deus são cerca de algumas poucas unidades. O universo é uma coisa enorme, Rael. Quando você era o Herdeiro no auge de seu poder, você o tinha inteiramente sob os seus pés.

 

― Se você não conseguiu nada referente a Natalia... O que faremos agora?

 

― Agora, temos duas opções: A primeira é lacrar e aprisionar Natalia, fazendo ela e o Espectro Sombrio ficarem presos, semelhante ao que que as violadoras fizeram com o Imperador Demônio. Faremos isso para ganhar tempo até que você tenha poder suficiente para ajudá-la. A segunda opção é fazê-la lutar contra o Espectro e tentar dominá-lo, antes que ele a domine. Se ela conseguir dominar o Espectro, ela não somente será mais poderosa, como também terá habilidades especiais referente ao poder dele.

 

― Dominar o Espectro Sombrio? ― Rael disse cuidadosamente.

 

― Não é tão fácil. Quando o Espectro perceber nosso plano, ele vai lutar dentro da mente de Natalia e nós não poderemos interferir. Ele vai fazer de tudo para dilacerar a mente de Natalia e, se ele vencer, a mente dela se perderá no infinito.

 

― Se perder no infinito?

 

― Deixará de existir, Rael, e nem mesmo você no auge do seu poder poderia salvá-la depois disso. O corpo de Natalia estará lá e ela parecerá viva, mas na verdade é o Espectro controlando todas as ações dela. De todo modo, eu tenho uma estimativa que ele vai tomar o corpo dela em menos de uma semana. Quando isso acontecer, eles irão lutar mentalmente de qualquer maneira, nós não podemos ajudar porque somos seres vivos, a menos que um de nós morra e ajude do outro lado.

 

― Mas não é uma luta mental?

 

― É mental, mas será travada no Mundo Morto. O Espectro a levará para lá e irá atormentá-la até que ela desista e perca a sanidade. O corpo físico dela não sofrerá qualquer dano. Você não fez muitos amigos, e todos os que estão mortos são basicamente inimigos seus ― disse Alexia, com um certo pesar na voz.

 

― Então, lacrar Natalia seria a nossa única opção? ― perguntou Rael em seguida.

 

― O lacre mais forte que eu conheço que pode segurar alguém com Espectro tem a duração de mil anos. Durante mil anos você não poderá libertá-la, mesmo que mude de ideia antes. Uma vez que o lacre for criado, ela será enviada para essa dimensão e a mente dela junto ao Espectro serão congelados. Depois de mil anos você poderá romper o lacre e ajudar ela. A vida dela será congelada e tudo que ocorrer nesses mil anos, para ela terá sido apenas como uma noite de sono. Ela perderá as pessoas que ama, perderá muitas coisas.

 

― Isso não é justo... Se não fosse tanto tempo assim... ― disse Rael relutante.

 

― As duas opções são horríveis, não vou mentir para você.

 

― Quais são as chances dela vencer o Espectro Sombrio? ― perguntou Rael.

 

― Ela não precisa exatamente vencê-lo. O Espectro Sombrio vai torturar o espirito dela, cortar, fatiar, judiar de inúmeras maneiras, e tudo que ela precisa fazer durante esse período é aguentar. Se ela conseguir resistir a tamanha tortura por seis horas, então ela vence e o Espectro se torna parte dela, mas ela é quem irá controlá-lo. No entanto, se ela desistir e pedir para parar, o Espectro vai apagar a existência mental dela e ela se torna nada além de um casulo. Ela morrerá, Rael, se ela morrer mentalmente apenas o corpo prevalecerá. O corpo dela reunirá toda energia morta desse mundo e levará ao seu mestre, se tornando mais um corpo de morte.

 

― Eu achei que o deus mestre viria buscar a energia recolhida.

 

― Esse é diferente do que pensei. Ele está formando um exército de Espectros da Morte.

 

― Exército de Morte?

 

― É um exército formado por contratos com Espectros Sombrios. Todos os planetas acabam entrando no mesmo fim. Ninguém jamais resistiu a tortura de um Espectro. Quando o planeta morre e é dominado pela aura da morte, a pessoa em questão ou o objeto utilizado vai de encontro ao seu mestre e se torna um de seus homens. O corpo de Natalia continuará a existir, mas ela será apenas uma mulher sem vontade obedecendo a algum deus, junto a outras centenas de pessoas no mesmo estado.

 

― Isso é um absurdo... ― disse Rael.

 

― Por isso, dificilmente ele notará que um de seus Espectros falhou. Existe tantos outros planetas de nível pequeno que ele nem vai perceber.

 

― Um exército de Espectros... Qual é o poder de um deles em sua forma final?

 

― É apenas um pouco mais fraco que uma violadora ― disse Alexia por fim.

 

― Nossa única opção é fazer Natalia aguentar a tortura ― disse Rael se decidindo.

 

― Sim, é a única opção, mas ela não vai conseguir sozinha, mesmo estando com a mente muito mais decidida. Ninguém aguentaria tantas horas ininterruptas de tortura. Ela vai ceder, eu tenho certeza.

 

― Mas você não tem nada para ajudar?

 

― Eu tenho algumas coisas que podem protegê-la por um tempo, mas o Espectro está muito poderoso e nada que eu tenha vai segurar isso por muito tempo.

 

― Quais são as chances de Natalia resistir? Por favor, seja sincera.

 

― Se ela quiser muito ficar viva para continuar com seus entes queridos irá se esforçar mais, mas não temos como saber o quanto. No entanto, resistir é a única opção. Considerando que ela seja forte e tente resistir o máximo além do limite, eu acredito que temos 10% de chance dela vencê-lo.

 

― Só 10%?! Isso é muito pouco! Tão baixo, mesmo com a sua ajuda, Alexia? ― Rael ficou estupefato.

 

― Se ela tivesse ajuda e pudesse fugir do Espectro enquanto está no teste de enfrentá-lo, então isso poderia aumentar muitas vezes, mas não temos essa ajuda do outro lado.

 

― E se eu for? Eu posso fazer alguma coisa, não posso? Eu já estive no Mundo Morto uma vez, basta você me mandar e eu vou protegê-la e fugir com ela durante o tempo necessário.

 

― Não é tão simples assim. Você ir não quer dizer que conseguirá voltar. Além disso, o tempo seria curto. Você ficaria com ela por no máximo trinta minutos, e isso não cobre nem mesmo uma das seis horas que ela irá precisar. Sem mencionar que você também estará sujeito a ser absorvido e se tornar mais lenha na fogueira. Perder você está fora questão, Rael. Mesmo que eu goste muito de Natalia, eu não arriscaria enviar você para uma possível morte.

 

― Então não temos chance alguma! É um absurdo! ― Disse Rael com certa revolta em sua voz. Contar com apenas 10% não era algo que valeria a pena, Rael e Alexia sabiam disso e se entristeceram.

 

― Seja o que você escolher, eu irei lhe apoiar. Se escolher lacrar iremos lacrá-la e, se escolher lutar, iremos fazê-la lutar. Mas você não tem muito tempo para isso, e quanto mais tempo passar, menores serão nossas chances.

 

― Eu não vou aprisioná-la por mil anos, isso não faz sentido... ― disse Rael mordendo os lábios. Como ele poderia ficar mil anos sem sua segunda esposa? Natalia continuava sendo especial no coração de Rael, sem mencionar Mara, que também não aprovaria essa decisão.

 

― Eu ouvi a conversa entre vocês dois e não pude deixar de querer dar um palpite ― disse uma voz já conhecida, fazendo Alexia e Rael se virarem para se deparar com uma mulher ruiva que eles dois conheciam muito bem. Violeta estava com aura da morte rondando o corpo dela.

 

― Você...! ― disse Rael, se lembrando da devoradora.

 

― Eu mesma ― disse ela sorrindo graciosamente. Ela não estava com cristais pelo corpo e parecia apenas uma simples cultivadora comum agora. Seu poder, é claro, ainda passava em muito o de um reino final.

 

Alexia levantou a mão para destruí-la e ela rapidamente começou a falar.

 

― Espere um pouco, eu estou interessada em ajudar! Contanto que vocês ouçam um pedido meu. Eu juro que dessa vez não tenho más intenções! ― disse Violeta antes de Alexia atacar. Alexia manteve a mão estendida e estava pensando se ouviria ou não o que a devoradora diria.

 

 

― Eu tenho pelo menos o direito de falar, certo? Eu não os ataquei, vim de boa vontade e até já salvei as violadoras uma vez, sem que ninguém soubesse. Eu estou do lado de vocês, não quero me tornar uma existência vazia e ser sugada por aquela coisa imunda do outro lado. Rael, Alexia, eu imploro a vocês para que ouçam o meu pedido. E lhes adianto que tanto a Violeta de vocês quanto eu só teremos a ganhar com isso.




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