O Herdeiro do Mundo

305 - Fora de Controle

Capítulo em áudio  --> https://www.youtube.com/watch?v=q6bmIoUFY84

 

Trovões rugiam cruzando os céus numa imensa velocidade. Naquele momento, Rika não segurou seu poder para ir de encontro com Rose, que passava por uma situação de vida ou morte. Podendo sentir a brusca diminuição da essência de sua filha, a celestial sabia que Rose estava morrendo e, como mãe, ela destruiria a própria vitalidade se fosse necessário para salvar a filha. Para ter aquele poder de movimentação, por exemplo, ela estava consumindo sua própria vitalidade loucamente sem pensar em consequências.

 

― ‘Se eu já tivesse em 100%... Que droga!’ ― Rika pensou em seu desespero. Os últimos degraus da transformação eram os mais demorados. Atualmente a celestial estava em 98% de seu poder.

 

Rael tinha terminado de matar o último oponente quando se virou após o grito de Rika, e a viu subir com aquela velocidade de voo absurda.

 

― ‘Só existe uma pessoa por quem Rika agiria assim, a única pessoa importante para ela, Rose!’ ― O pensamento de Rael foi tão rápido quanto os trovões em que Rika se transformou. Rael abriu um portal roxo e, sem nem pensar, avançou para dentro do mesmo. Ralf saltou mergulhando e sumindo ao tocar Rael, voltando para o corpo do mesmo enquanto cruzava o portal.

 

Rael surgiu perto da rocha ilusória da entrada do esconderijo e se deparou com a cena daquele homem cruel com sua mão rasgando as costas de sua delicada Rose, enquanto a moça gritava sem ter forças para escapar. Esses dois estavam a cerca de dez metros de Rael. Arthur provavelmente estava tentando destroçar o coração daquela jovem celestial, mas estava com dificuldades porque o corpo de Rose não era igual ao de um humano comum. O coração de Rose e seus pontos vitais eram protegidos por uma poderosa energia, mesmo que ela fosse fraca, não seria tão simples tirar sua vida. Ainda assim, Arthur era um reino final, e como tal, não era alguém fraco. Ele estava quase fechando a mão no coração da moça para terminar o trabalho o esmagando de uma vez.

 

― VOCÊ OUSA...! ― Rael gritou em fúria e seus olhos se encheram de intenção de matá-lo assim que ele entendeu a cena. Ver Rose em perigo deixou Rael completamente furioso. Ele nem pensou sobre ser Arthur o executor. Como um borrão, que prosseguiu em menos de um simples pensamento, Rael já estava ao lado de Arthur com o braço direito tomado em poderosas chamas que varriam o ar ao redor. A temperatura geral do ambiente tinha até mesmo aumentado.

 

Arthur nem teve tempo de reagir quando sua cabeça explodiu com um poderoso soco de Rael. Tudo que ele ouviu foi um grito e, quando se virou para olhar, já estava recebendo o golpe. Naquele momento de fúria sem igual, o poder de Rael superou em muito poder de um reino final.

 

BOOOOOOOM!

 

Não restou nada além de uma poeira negra, que subiu desaparecendo no ar, do corpo inteiro de Arthur. Rael, no instante seguinte, já cancelou as energias do corpo para não ferir Rose indiretamente e desfez sua armadura.

 

― Rael! ― A jovem celestial, tão pura quanto a lua, avançou tremendo e chorando, caindo nos braços de Rael. Ela o abraçou mesmo com o seu corpo fragilizado. O ferimento em suas costas jorrava bastante sangue, deixando esvair quase completamente a sua vida. Mas tudo que ela pensou foi em Rael ou em sua mãe no momento em que estava morrendo, essas eram as pessoas que ela mais amava e, se fosse para morrer, que fosse ao lado de um deles.

 

Rael não demorou a conjurar o seu poder curativo. Uma intensa e harmoniosa aura esverdeada cercou e envolveu completamente o corpo de Rose. Os poderes curativos de Rael estavam em um nível tão avançando que mesmo sem usar os símbolos o seu poder era monstruoso.

 

O buraco nas costas da jovem se fechou rapidamente como se não restasse mais nada, mesmo assim ela não soltou Rael. Ela continuou abraçada com esse jovem enquanto seu frágil corpo ainda estremecia.

 

Rael nunca pensou que seria tão assustador presenciar essa jovem celestial quase perdendo a vida. Rose era quietinha, não incomodava ninguém e nunca o perturbava pedindo um tempo para ficarem juntos. Ela poderia reclamar e dizer que estava com saudades quando o visse, mas jamais o cobraria por atenção. Rose jamais o aborrecera brigando por causa de suas outras mulheres. Essa era maneira dela, uma jovem gentil e fácil de se fazer amizade, que não tinha qualquer frescura. Uma jovem pura, bela e que amava doces.

 

Rael sorriu e apertou a jovem de volta, agora sem medo. Rose não precisava dizer que amava Rael, nem ele precisava dizer isso para ela. Eles dois se entendiam tão bem que quase poderiam se comunicar através de olhares ou ações. Rael sentiu um imenso alívio em todo o seu ser por ter chegado a tempo de salvá-la da morte certa.

 

― Você não deveria ter saído, Rose... Está muito perigoso aqui fora... ― disse Rael, passando a mão nas costas dela e cheirando seus belos cabelos azuis. Não havia mais cheiro de sangue nem marcas nas roupas. O poder de Rael purificou as manchas de sangue e também concertou o vestido rasgado da jovem pela mão de Arthur. Tudo estava em um mais perfeito estado, como se ela nunca tivesse sido atacada.

 

― Eu estava preocupada... Não sabia onde mamãe estava, nem você... desculpe... ― a jovem agora curada não sentia mais dores, nem o mal-estar devido a perda de sangue. Sua recuperação foi imediata e ela até mesmo sorria para Rael. Mas seu corpo ainda tremia pelo medo de quase ter morrido. Ela sentiu praticamente o que a mãe sentira quando estava se sacrificando por todos naquele dia contra os devoradores. O sentimento de quase morrer e ficar longe da mãe, de Rael e dos outros amigos deixou Rose em um estado de pânico sem precedentes.

 

― Estamos seguros agora, relaxe... ― disse Rael, beijando os cabelos da jovem com carinho. Rose continuou se tremendo abraçada a Rael com medo de soltá-lo.

 

Nesse momento, furiosos trovões rugiram e raios cruzaram os céus do horizonte e desceram pousando próximos a eles. Rika surgiu com uma face pálida e veias espalhadas por todo o seu belo corpo. Rika respirava com dificuldade enquanto olhava aliviada para Rael e sua filha.

 

― Mãe? ― Rose só soltou Rael quando se virou para certificar que realmente era sua mãe que estava sentindo. As duas trocaram rapidamente um lampejo de olhar e a mãe já se tornou um borrão avançando-a em um abraço.

 

― Minha filha! ― A celestial correu e se abraçou fortemente Rose enquanto chorava. Rael deu um passo de lado deixando as duas a vontade. Ele, melhor do que ninguém, conhecia aquele sentimento de perda, e apenas a dor de pensar em perder Rose também o deixou fortemente desconcertado.

 

Por um segundo, nenhuma disse nada uma para a outra. As celestiais ficaram abraçadas fortemente e se tremiam enquanto lágrimas surgiam nos olhos das duas. A mãe, por sentir que iria perder sua filha segundos antes e a filha, por imaginar que nunca mais poderia ver sua mãe. Essa dor não era algo fácil de ser explicada, por isso as lágrimas corriam de seus olhos. Elas só tinham uma a outra como família e o fato de quase perder esse vínculo as deixaram completamente sem chão. Elas podiam ter Rael e também as violadoras, mas não era a mesma coisa. Rose e Rika estavam juntas a um pouco mais de uma centena de anos, as duas não podiam ser tão facilmente separadas.

 

― Filha, eu disse para você não sair. Por que você não ouviu a mamãe? ― perguntou Rika, passando carinhosamente a mão no rosto da filha após se separarem um pouquinho, um espaço suficiente para Rose olhá-la nos olhos. Os olhos de Rika eram de pura ternura com sua filha, não havia como alguém não perceber o quanto Rika a amava.

 

― Desculpa, mãe... Eu estava preocupada com você e Rael... ― repetiu a jovem novamente, em um tom comovente.

 

― Quem foi que te atacou? Quem ousou tocar e machucar você?

 

― Foi um homem, eu não sei quem foi... Rael o matou e me curou ― disse a jovem no mesmo tom. Os olhos de Rika caíram em Rael novamente. Havia um olhar brilhante nos olhos da sedutora celestial. Ela tinha entendido tudo e só perguntou para confirmar. Rika sentiu sua filha morrendo e segundos depois, a sensação desapareceu quando sua filha repentinamente melhorou. Na hora que sentiu Rose em perigo, a celestial saiu tão desesperada para salvá-la, que nem ao menos se lembrou dos poderes de Rael de criar portais e chegar instantaneamente em qualquer lugar. Se Rael não tivesse percebido e não tivesse vindo antes dela, agora, com certeza, Rose teria sucumbido nas garras de Arthur. Rika também percebeu essa onda de pensamentos e mais uma vez se maravilhou com o gesto Rael. Seu coração esquentou mais ainda quando se lembrou de tudo que Rael fez e continuava fazendo por elas duas.

 

Rika sabia o quanto Rael deixava sua filha feliz, o quão bem ele a tratava e o quanto o mesmo gostava dela. Nada era forçado entre os dois, a celestial lia a mente um do outro e saberia se algo fosse forçado entre eles. Ela também sentiu que Rael sofreu por quase perder sua filha. Essa onda de pensamentos e sentimentos só a fez gostar ainda mais do jovem a frente. Ela sentiu que valorizava Rael muito pouco pelo que ele verdadeiramente merecia.

 

No começo, ela havia escolhido Rael por não ter escolha melhor. Mas esse jovem já tinha provado seu valor mais vezes do que precisava provar. Salvou sua filha, mesmo sem as conhecer, a salvou e ainda mostrava todos os esses sentimentos reais que fluíam livremente em sua mente.

 

Como mãe, e também como mulher, Rika estava muito feliz por ter escolhido Rael, muito mais do que ela havia ficado antes, quando foi salva pelo jovem. Quando ela pensou que no início queria forçar Rael a ajudá-la a salvar sua espécie, ela sentiu que tinha o ofendido devido a tudo o que ele fez e faz por elas.

 

Rika continuava a deixar lágrimas rolarem de seus perfeitos olhos azuis, que pareciam o mais belo dos oceanos. Ela soltou sua filha completamente e se aproximou de Rael:

 

― Esta é a segunda vez que você salva a minha filha. Eu jamais conseguirei lhe agradecer o suficiente. Obrigada, Rael, muito obrigada! Você nunca me decepciona e vejo que nunca me decepcionará! ― Rika abraçou o jovem a frente e seu corpo tremia de emoção e, também, de fraqueza. Ela hoje havia consumido uma quantidade exorbitante de energia vital para destruir Nero, e consumiu ainda mais nesse voo para salvar sua única filha.

 

Como Rika era um ser celestial, sua vitalidade se recuperaria com passar dos dias, mas ela precisaria descansar bem. Nesse momento, no entanto, ela estava frágil e fraca. Se ela tivesse chegado nesse estado e encontrado Arthur atacando Rose, não se teria certeza dela sair vitoriosa do combate, talvez ela só tivesse vindo para morrer também por não suportar viver sem ela. Rael, involuntariamente, acabou salvando as duas, literalmente.

 

― Você e Rose são minhas mulheres. É natural que eu cuide bem de vocês duas ― disse Rael, abraçando-a de volta com carinho.

 

― A forma que eu saí... Eu não me lembrei de você... Eu... ― Rika tentou se explicar, em como ela abandonou Rael para ir atrás de sua filha.

 

― Rika, eu sei o quanto Rose é importante, eu também faria o mesmo ― disse Rael sem hesitar, fazendo a bela celestial se emocionar ainda mais. Aquelas palavras tocaram fundo na alma de Rika: ― Eu faria o mesmo por você também. Vocês duas são importantes para mim, as duas ― repetiu Rael em seguida, fazendo o coração de Rika disparar.

 

― Desculpe por ter feito você beber o elixir hoje cedo, foi um tremendo erro ― disse Rika sem jeito, ao se lembrar da consequência daquele fato, enquanto se soltava do rapaz.

 

― Tudo bem, Rika, desde que você não repita aquilo novamente. Eu não preciso de nenhum elixir para passar um tempo com você ― disse Rael, com um sorriso um tanto tímido. Nesse momento, Rose se aproximou e abraçou os dois sorrindo, fazendo-os se unirem novamente em um novo abraço. Foi um gesto rápido e eles logo se soltaram.

 

― O que vai fazer agora, Rael? ― perguntou Rika.

 

― Eu tenho que verificar os outros lugares. Se fomos atacados no acampamento e Rose foi atacada aqui, os outros lugares podem estar sofrendo da mesma maneira, ou pior. ― disse Rael.

 

― Eu iria com você, mas preciso descansar. Também seria melhor alguém ficar de vigia no esconderijo, para coisas como essa não se repetirem ― disse Rika puxando sua filha pelo ombro para perto dela, Rose ficou aninhada na lateral de sua da mãe, olhando Rael um pouco deprimida, sabendo que o jovem já estava de partida. Rael concordou, se preparando para partir para outro lugar.

 

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No clã Torres, o caos explodia cada vez mais. Romeo, os elders mortos e os outros cultivadores mais fracos tinham surgido e estavam a atacar todos deliberadamente, lançando poderosos ataques para todas as direções. Rayger, Neide e vários outros cultivadores estavam lutando para contê-los.

 

BOOOOOOOOM! ZUUUUP! BOOOOOOOOOOM! AAAAAAAH! BOOOM!

 

Gritos, explosões e lampejos de velocidades poderiam ser ouvidos por várias partes do território.

 

― Irmão, você e sua esposa me decepcionaram! Me traíram e planejaram contra mim, junto ao rebelde do meu próprio filho! ― gritou Romeo em fúria, depois de trocar poderosos golpes contra Rayger. Nesse momento Romeo, estava no terceiro nível, o mesmo no momento de sua morte.

 

Rayger e Neide entendiam por cima porque Romeo e os mortos haviam voltado, mas naquele momento procuravam não pensar nisso. Eles só podiam lutar e tentar se proteger enquanto não descobriam algo que poderia ser feito contra o fato dos mortos estarem voltando para matar mais ainda.

 

― Ele não se rebelou, meu irmão! Ele estava cumprindo sua vingança contra um pai assassino! Você não tem direito algum de nos acusar por um crime que você mesmo cometeu! ― Rayger rugiu de volta, enviando socos em Romeo, que o faziam recuar no ar.

 

― AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

 

Gritos após gritos podiam ser ouvidos dos homens que Neide matava com sua espada gigante enquanto voava de um lado a outro, limpando o clã dos invasores enquanto o marido segurava o oponente principal.

 

Rayger e Romeo continuavam a travar uma batalha quase acirrada, mesmo que Rayger tinha um pouco mais de vantagem. Lutas e mais lutas estavam ocorrendo. Pessoas fugiam do clã desesperadas ou se escondiam na floresta, isso porque na capital também estava acontecendo coisas parecidas. Pessoas com corpo de aura de morte tinham surgido e estavam atacado a capital sem pestanejar. Isso estava acontecendo em muitas cidades.

 

Na agora residência Torres, Anita e Alana ouvindo os sons e se levantaram do sofá aflitas.

 

― Nosso pai real! ― Alana no mesmo instante se dirigiu para a porta e Anita a seguiu atrás. Mara se levantou já preparando para impedir as duas quando, repentinamente, uma dor alucinante afetou suas costelas, no local onde Heitor havia ferido. Mara se contorceu e caiu de volta no sofá, sentindo como se sua carne, costelas e ossos estivessem sendo triturados. Ela começou a gemer baixinho de dor, mas não pôde ser ouvido pelas irmãs, que já estavam na porta.

 

BOOOOM! AAAAAAAAH! BOOOOM! AAAAAAAAAH!

 

Os sons de fora explodiam por toda a parte e a casa só não balançava e não era destruída por conta da barreira preparada por Rael mas, muitos estrondos chegavam a ser ouvidos do lado da casa. Certamente tinha cultivadores caindo por cima ou na parede lateral da casa.

 

As irmãs abriram a porta e deram de cara com um cenário quase apocalíptico. Casas em chamas, pessoas voando de um lugar a outro. Outras eram arremessadas gritando de dor ou, até mesmo, mortas. Rajadas de energias cruzavam os céus, poderes e técnicas. Parecia que o mundo estava mesmo se acabando.

 

― SOCOOOOOORRO!

 

Gritos e pedidos de socorros espalhavam-se por todo o lugar. Anita e Alana ficaram espantadas ao verem tal cena. Isso era completamente inacreditável. Era a essência do puro caos.

― Nosso pai real! ― Alana saiu correndo para fora sem pensar nas consequências, ela imaginou o pai cercado por inimigos e sendo morto miseravelmente.

 

― Alana, não! ― Anita correu atrás, avançando junto a irmã, e as duas saíram no meio do caos.

 

No quarto, Natalia acordou no momento em que as duas saíram. Ela olhou em volta um pouco perdida e de repente se lembrou de Heitor. Seu corpo tremeu e seu coração disparou enquanto ela olhava em volta, completamente assustada. A última lembrança dela era de Heitor a cercando e estando prestes a atacá-la.

 

BOOOOM! AAAAAAAAAH! BOOOOM! SOCORROOOOO! BOOOOM!

 

Ouvindo os sons, Natalia foi desperta para a realidade e ignorou o próprio medo. Ela pulou da cama e desceu as escadas, encontrando sua prima Mara naquele estado.

 

― Mara! ― Natalia correu como um borrão tentando ajudar a própria prima. A mesma estava pálida e suando enquanto se contorcia segurando com as mãos o local que ardia sem parar. Natalia podia ver sangue escorrendo do local. Mara não quis aborrecer seus pais porque eles estavam ocupados cuidando de assuntos importantes e pensou que pudesse aguentar até a chegada de Rael. Na realidade, ela sentia que Heitor não mentia, sentindo que ninguém realmente poderia curá-la, exceto o seu marido.

 

― As princesas... Saíram... O bebê... ― Mara disse baixinho, ainda se contorcendo olhando a porta aberta. Natalia olhou e entendeu o que havia ocorrido, mesmo com poucas palavras.

 

 

― Ativar: Rael! Rael, eu preciso de ajuda. Mara está ferida e passando muito mal! Estamos em casa, venha quando puder.