O Herdeiro do Mundo

280 - A Queda de um Patriarca

Romeo agora era como um monstro insano tentando matar Rael. Seus olhos estavam injetados com uma fúria sanguinária e a aura de Romeo era estrondosa. Isabela, Keylla e até mesmo Verônica não seriam páreas para ele naquele momento. O poder de Romeo há muito já passava o de um reino final no nível 10. Mas Rael estava indiferente, defendendo e sorrindo com desdém após cada golpe recebido.

 

― ‘Como ele pode ser tão forte? Como?’ ― Verônica estava espantada com o poder de Rael. Era possível ver sangue fluindo do braço direito de Rael após cada defesa, mas Rael não parecia ligar para isso, pois o prazer de ver Romeo a cada instante mais descontrolado o fazia continuar sorrindo e apenas se manter na defensiva.

 

                Para Romeo, naquele momento não havia mais nada ao redor e não havia mais ninguém ali, além dele mesmo e de Rael. Ele não olhava em qualquer outra direção, e quem escolhia o local da luta era Rael. Bastava ele ficar próximo a algum canto e lá estaria Romeo lançando técnicas, ataques e mais habilidades numa fúria incessante para cima do rapaz. Mas não importava a força de Romeo, Rael sempre defendia e esquivaria sem maiores problemas.

 

                Qualquer um que assistia podia ver que Rael tinha vantagem, mesmo sendo algo inacreditável. Romeo já havia perdido totalmente a sanidade. Engolindo mais Tabletes e mais Pílulas de Sangue da Cultivação, ele não estava mais ligando para o corpo ou saúde.

 

― POR QUE VOCÊ NÃO MORRE!? POR QUE NÃO SIMPLESMENTE MORRE DE UMA VEZ!? ― Romeo gritava. Lágrimas de sangue caíam de seus olhos, Romeo estava praticamente se suicidando na tentativa matar Rael. Rael percebeu que se aquela batalha prosseguisse dessa forma, Romeo iria se tornar um cadáver sem ao menos Rael fazê-lo sofrer com um pouco mais de dor. Embora o corpo de Romeo estivesse dolorido devido ao uso excessivo de pílulas e Tabletes, ele não parecia sofrer porque não o demonstrava enquanto tentava matar Rael.

 

― Chega! ― disse Rael de repente, sumindo e aparecendo como um borrão nas costas de Romeo. Ele estendeu a enorme mão direita e acertou um tapa de mão aberta fortemente no centro das costas de Romeo. Mesmo com toda defesa rochosa, o poder de Rael facilmente atravessou suas defesas e atingiu o homem.

 

― AAAAAAAAAH! ― Romeo gritou enquanto parecia perder as forças e começou a cair do céu. Rael desceu junto e o segurou pelas vestimentas, de forma a não deixá-lo cair com força total. Romeo caiu no chão e ficou de quatro ali parado. O poder banhava seu corpo descontroladamente e energia saia por todas as partes. Como Rael estava mais perto, conseguiu sentir o forte odor de sangue que exalava do patriarca. A energia que saia de Romeo estava misturada a sangue, o golpe que Rael dera anteriormente causou confusão em suas veias espirituais, as misturando com as veias do corpo, e isso estava dando a Romeo uma dor insuportável, que fazia qualquer pessoa normal gritar e implorar pela morte.

 

― ‘Ele está morrendo...’ ― Rael entendeu rapidamente.

 

                Romeo estava gritando sentindo uma dor lancinante por todas as partes do corpo, seu grito era desesperador e faria pessoas próximas se assustarem até o fundo de suas almas. Ninguém poderia imaginar metade da dor que ele estava sentindo. Alguns não conseguiam entender se essa dor era corporal ou sentimental, de alguém que estava perdendo tudo. Para Romeo era ambos.

 

― AAAAAAAAAAAH, HAHAHAHAH! ― Em meio a dor, o patriarca simplesmente começou a rir. Seus olhos pareciam uma cascata de sangue. Sua expressão ficou distorcida e ele começou a gritar e rir freneticamente enquanto se levantava.

 

― HAHAHAHA! Vejam, seus lixos! Esse é o grandioso clã Torres! Eu sou o homem mais forte de todo o Continente Sul! Vejam-me e morram de inveja até o fundo de suas almas! HAHAHAHA! ― Romeo gritou depois de ficar de pé. Ele continuava rindo alucinadamente e gritando de dor, seu corpo inteiro tremia e ainda transbordava em poder, um poder que ele não mais controlava. Era como se seu corpo não suportasse tanta energia e a estivesse expelindo em demasia.

 

― ‘O corpo dele está se auto destruindo, uma destruição de dentro para fora. O golpe que dei antes apenas acelerou o processo que iria ocorrer a qualquer momento’ ― Rael pensou, analisando o caso com calma.

 

― HAHAHAHA! O clã Torres é o mais poderoso! Ninguém pode com o clã Torres! HAHAHAHA!

 

                Todos podiam ver Romeo caminhar de um lado a outro soltando uma intensa aura vermelha sangue que a cada momento ficava mais forte. Enquanto ele gritava, as palavras a expressão dele era miserável e contorcida de dor, isso era mesclado com um sorriso doentio que ficava trocando de um modo para outro.

 

                Rael nem precisou fazer nada para fazê-lo sofrer, apenas assistir o fim dele chegando a cada instante já era mais do que satisfatório. A dor que Romeo sentia estava por toda a parte de seu corpo, não chegava nem aos pés do que Reges sentiu na época.

 

― HAHAHAHAHAHA! AAAAAAAH! ― Ele rugia rindo e gritava em seguida, era uma mistura de dor com insanidade. As vezes ele caia no chão, se levantava em seguida de novo e olhava em volta enquanto parecia ver um monte de gente, mas essas pessoas não estavam ali ao lado dele.

 

― EU SOU O HOMEM MAIS FORTE! O MAIS PODEROSO! O CLÃ TORRES REINARÁ PARA SEMPRE EM QUALQUER LUGAR E ERA! HAHAHAHAHA! AAAAAAAH!

 

                As pessoas só podiam olhar e ficar chocadas com a loucura repentina de Romeo. Ninguém sabia se ele estava fingindo para esconder sua vergonha ou se estava fingindo para que Rael o deixasse em paz. Na verdade, não parecia ser fingimento, talvez até mesmo sua consciência tivesse sido obstruída devido ao súbito aumento de energia corporal.

 

                Rael permanecia parado, agora inexpressivo, acompanhando essa cena se desenrolar a poucos metros em sua frente. Romeo continuava ali soltando aura com cor de sangue e rindo, gritando e olhando em volta como se visse pessoas que não existisse.

 

― VENHA, ELISA! FAÇA SEU DISCURSO PARA ESSES SENHORES! DIGA A ESSES INFELIZES QUEM É O PODEROSO HOMEM QUE COMANDA O CLÃ MAIS FORTE DO MUNDO! ― Romeo não olhou para Elisa dizendo aquilo, ele olhou em uma direção aleatória. Mesmo assim, muitas pessoas olharam para Elisa, que estava a poucos metros atrás de Natalia, ali parada, cabisbaixa. Era triste ver o homem que a escolheu preso naquela situação doentia e deplorável.

 

                As pessoas tiveram mais pena de Elisa do que do próprio Romeo, porque a expressão de Elisa era muito arrasada. Em um só dia, ela perdeu seu marido e descobriu que o filho que deveria estar morto estava vivo, e com raiva deles.

 

                Quem podia imaginar que um dia Romeo, o homem considerado o mais poderoso no continente Sul, cairia dessa maneira perante a todos?

 

                Rael já tinha feito seu braço azul voltar ao normal. Agora não estava mais utilizando a Essência Demoníaca, ele não precisava. Romeo não estava mais em condições de lutar, mesmo que seu corpo jorrasse uma imensa quantidade de poder, esse poder não era mais controlável. Além disso, o homem havia enlouquecido e perdeu todo o senso de realidade.

 

― HAHAHAHA! AJOELHEM-SE PERANTE A MIM, LIXOS! HAHAHA! HAHAHAHA! AAAAAAAAAAAAAH!

 

                O ar em volta de Rael de repente pareceu ser cortado e três figuras surgiram. Alexia surgiu, trazendo consigo Rayger e Neide. Neide e Rayger pareciam estar em perfeito estado, como se eles nunca tivessem sido capturados e acorrentados. Rael olhou inexpressivos para eles, mas apenas o seu olhar já dizia muita coisa por si só.

 

― Genro... ― Neide não disse mais nada, seu olhar era sereno quando olhava Rael. Rayger também ficou em silêncio olhando o estado ordinário do irmão. Embora Rayger quisesse parecer indiferente, seus olhos ainda entristeceram ao ver aquela cena. Mesmo que ele Romeo não se dessem bem atualmente, aquele homem ainda era seu irmão. Não se podia evitar de lembrar de várias coisas do tempo que passou junto a Romeo.

 

― HAHAHAHAHAHAHAHA!

 

                Alexia se aproximou de Rael com um ar curioso. Ela estava ali desde o começo, quando Romeo capturou Rayger e Neide, ela estava acompanhando invisível para garantir que ninguém importante para eles morressem. Quando Mara e Natalia foram resgatá-los, Alexia apareceu para elas e explicou que os dois já estavam bem, disse para que elas não contassem nada a ninguém sobre ela e que voltassem para o campo de batalha.

 

                Alexia também segurou Keylla e Isabela, só deixando as duas agir quando fosse preciso. Por isso Keylla ameaçou Mara e reclamou dizendo que Mara só a enfrentava porque sabia que ela estava ali, Alexia não iria deixar Keylla matá-la. O tempo todo Alexia se manteve por trás das cortinas. Ela teria desarmado as estátuas se não fosse Mara a fazer com a explicação de Elisa.

 

― ESPOSA, VOCÊ VÊ? QUANDO EU TIVER FILHOS, ELES SERÃO AS LENDAS DE TODO O CONTINENTE SUL! ELES SERÃO LENDAS, E EU JAMAIS SEREI ESQUECIDO! JAMAIS! HAHAHA!

 

― Ele não está mentindo. Mas está mesmo louco ― disse Alexia, agora ao lado de Rael.

 

                A atenção de muitas pessoas foi atraída pela pequena e bela menina que agora se fazia ali presente em meio ao caos. Além disso, quando ela surgiu, trouxe Rayger e Neide em sua companhia. Mas embora as pessoas tentassem analisar o poder dela, só conseguiam vê-la no reino um.

 

                Em algum momento, Romeo caiu de costas no chão rindo freneticamente e lutou para se levantar, mas não conseguiu mais. O patriarca ficou ali respirando com dificuldade, como se estivesse se afogando no próprio ar junto ao sangue. Ele tossiu algumas vezes e em seguida pereceu. Sua boca e seus olhos expeliram grandes quantidades de sangue mesmo após sua morte. Suas roupas destruídas estavam repletas de sangue. Romeo morreu enlouquecido, afogado em sua própria insanidade.

 

                Durante alguns segundos, Rael ficou ali parado sem esboçar nenhuma expressão, olhando o corpo do homem a frente, esse era o homem que havia sido o principal pesadelo de Rael por muitos anos.

 

― Finalmente, acabou... ― disse Rael lentamente com uma expressão sonhadora e olhou para o céu, como se estivesse esperando por algo. Ele não soube explicar, mas mesmo matando o homem que ele mais odiava ainda se sentia vazio, como se não tivesse completado todos os seus objetivos.

 

― Hehehe... ― Rael esboçou um sorriso e forçou uma risada, mas foi um riso amargo que logo se desfez e a expressão imponente voltou ao seu rosto. Ele ficou ali parado olhando os céus em silêncio, como se refletisse mais uma vez tudo que vivenciou nas mãos de Romeo e Elisa.

 

                Por eternos segundos, a maioria das pessoas ao redor ficaram silenciosas, alguns guardiões cochichavam com outros sobre o fato de Rael na verdade ter sido o filho de Romeo. Esse segredo não mais estava sendo escondido e agora muitos sabiam da maior verdade de todas. Isso iria se espalhar como uma bomba incontrolável nos próximos dias, mas Rael não se importava mais para isso.

 

                Natalia continuava abraçada com Mara em silêncio. Ela não culpou Rael por nada, ela viu com seus próprios olhos que Romeo não podia ser perdoado, não dava para ignorar todos os seus atos cometidos. Sem mencionar que Romeo mesmo se auto destruiu.

 

                Elisa ficou em silêncio, parada, cabisbaixa, sem mostrar nenhuma resistência. Fosse o que fosse que Rael pretendesse fazer com ela, ela iria aceitar o seu miserável destino. Ela se sentia culpada e não podia evitar pensar em toda parte da culpa que tivera ao longo dos anos.

 

                Neide abraçou Rael mais uma vez, fazendo o papel quase materno. Rael abraçou Neide de volta, esquecendo um pouco dos céus, mas dessa vez não chorou. Ele apenas ficou com o rosto escondido no ombro dela em silêncio. Rayger ficou ali parado do lado, ele não era tão bom quanto a esposa em termos de ser consolador e carinhoso. E mais a frente estava o corpo de Romeo, a expressão do patriarca ainda era um misto de sorriso com dor, uma expressão de completa loucura.

 

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                Após algum tempo, os últimos homens escondidos pelo clã Torres foram encontrados e aglomerados em um determinado local. As duas barreiras foram desativadas e as pessoas poderiam ir e vim novamente. Logo, o território Torres voltou a ficar movimentado e as pessoas iam e vinham curiosas sobre os últimos acontecimentos e como iria ficar as coisas no futuro.

 

                Verônica deixou seus homens cuidando dos homens rendidos do clã Torres e foi falar com Rael sobre o que deveria ser feito agora. Em breve Rael iria abolir a escravidão então não era muito sensato escravizá-los.

 

― Vou deixar meu tio Rayger e minha sogra decidirem isso. Deixarei o meu tio sendo o novo patriarca desse local ― explicou Rael para Verônica. Quando Verônica veio falar com ele, todos em volta deram espaço para deixá-los a sós. Mara, mesmo não gostando muito da ideia, também saiu de perto enquanto Verônica conversava com Rael. Ela não sabia que tipo de relação esses dois tinham, mas sabia da promessa que Rael tinha para com ela e respeitou.

 

― Você disse que iria precisar do meu poder Visão Passageira, ficarei a disposição para quando você quiser o meu apoio ― disse Verônica em um tom meigo.

 

― Eu mandei arrumar um quarto para você na antiga residência do patriarca. Espero que não se incomode de ficar aqui por alguns dias. Eu irei precisar sim do seu poder e quero que fique por perto ― respondeu Rael. Ele estava no salão do trono em pé, encarando o trono onde Romeo muitas vezes esteve.

 

                Os outros estavam espalhados pelo salão em pequenos grupos, até alexia estava junto.

 

― Ficarei e te ajudarei em qualquer coisa que você precisar ― Verônica sorriu levemente, se aproximou e deu um beijo quente no rosto de Rael, depois se virou, mantendo seu sorriso e se retirou, deixando os outros se reaproximarem de Rael.

 

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                Dois dias se passaram. O clã Torres entrou em estado de reconstrução. Rayger Neide tomaram posse da residência principal do clã. Sendo os novos líderes, eles deveriam morar nessa residência, onde ficava o pilar das almas.

 

                Os homens rendidos foram todos perdoados e fizeram um Pacto de Sangue cada um deles, sendo leais para a família do novo patriarca.

 

                Romeo e os homens mortos foram todos enterrados devidamente e cada qual teve suas próprias famílias acompanhando. Elisa, Mara, Rayger, Neide e Natalia acompanharam o enterro de Romeo junto a algumas outras pessoas, mas Rael não se interessou, ele ficou de longe apenas os olhando.

 

                Com Romeo morto e Rael assumindo a sua identidade verdadeira, ele seria considerado o novo patriarca do clã Torres, mas ele passou esse direito ao próprio tio, deixando sua esposa Mara extremamente feliz. Ela sempre quis ver seu pai como o patriarca.

 

                Elisa se mudou para uma casa mais simples, próxima a de Rael enquanto esperava o que seria resolvido sobre ela.

 

Natalia pediu que se Rael fosse escravizar sua mãe, que a mãe se tornasse escrava dela. Ela não queria a mãe dela sendo humilhada por outros. Rael pensou sobre isso e depois concordou, deixando Natalia satisfeita.

 

 

Os homens do império vieram e fizeram os preparativos, Elisa se tornou escrava de Natalia e com isso ela estava cumprindo sua sentença imposta por Rael, mas Natalia pediu segredo, para que ninguém mais soubesse. Rael concordou porque dentro de seus planos está a abolição da escravidão, e a única que ficaria presa nessa medida seria Elisa, no mais absoluto segredo.

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Esse capítulo saiu como um presente do dia das mães.