O Herdeiro do Mundo

273 - A Grande Verdade

Romeo agora se tremia, quase destruindo seus próprios dentes enquanto apertava a boca. O resultado daquela batalha era inacreditável. Não só ele pensava assim, os elders e todos os guardas sobreviventes também. Elisa, a alguns metros atrás de Romeo, nem piscava, tamanho era sua surpresa.

 

                Dois elders foram derrotados por Mara e Natalia. Os elders derrotados eram as elites do clã Torres, não era como qualquer guarda que elas enfrentaram antes. O poder exibido por aquelas duas garotas não tinha precedentes. Mas o que deixou Romeo mais espantando foi sua filha. Se ela desde o começo tivesse o atacado para matar, seu alvo Juarez, não teria durado tanto assim.

 

O ar ficou extremamente pesado. Ninguém conseguia pensar que aquelas duas em menos de um ano iriam evoluir tanto, sendo capazes de vencer até mesmo dois elders de elite do clã Torres.

 

― O elder Ramon está mesmo morto? Isso não é um sonho? Oh céus, esse dia está realmente muito estranho ― disse um dos guardas.

 

                As expressões dos outros elders eram muito feias, eles conheciam muito bem a força dos dois elders derrotados.

 

― Mara, você ousou mesmo tirar a vida de um elder?! Você está procurando a morte! ― Rugiu o elder Léo, ligeiramente irritado. Podia-se notar veias vermelhas pulsando em seu rosto magro, enquanto ele parecia formar caretas furiosas.

 

― Traidora! Você morrerá por seus crimes! ― gritou outro elder furioso.

 

― Vocês são retardados? Acham mesmo que eu iria deixá-lo me matar em vez de matá-lo? Se vocês quiserem o mesmo fim, bastam tentar a sorte! ― gritou Mara de volta, sem aparentar nenhuma gota de medo. Mara era como uma tigresa selvagem, mesmo em frente a leões.

 

O elder Léo fez uma expressão ainda mais feia, então ele se moveu como um borrão, pegou o elder Juarez ferido no chão e desapareceu com ele, provavelmente o levando para algum local para ser devidamente tratado. Segundos depois, ele voltou para o seu ponto, mas ainda tinha um olhar furioso em direção a Mara.

 

― Eu nunca pensei que Natalia fosse se tornar tão poderosa, eu ainda me lembro dela no terceiro reino há um ano... O que será que aconteceu em tão pouco tempo? ― perguntou um dos guardas olhando para outro.

 

― Mara também não era tão forte assim. Diziam os boatos que seus pais usavam um tipo de ritual para aumentar a força dela, mas pararam há bastante tempo por causa de algum motivo estranho ― respondeu o outro.

 

― E o que você acha que as deixou tão poderosa?

 

― Você não percebeu ainda? As duas ficaram assim depois de se casarem com o jovem mestre Samuel. Agora que a notícia explodiu, estão dizendo que... o jovem mestre Samuel tem algum tipo de pacto com demônios, e por isso a força dele e de suas companheiras aumentam tão rápido ― disse o homem.

 

                É claro que todos os tipos de comentários estavam rolando agora que eles viram a força das duas. Isso era inevitável, uma vez que ninguém tinha qualquer explicação sensata.

 

― Romeo, devolva meus pais agora! ― Rugiu Mara, caminhando em direção a eles com Natalia ao lado. As meninas não estavam 100% devido a armadura já danificada, mas elas não podiam ficar de braços cruzados uma vez que as coisas chegaram a esse ponto.

 

                Romeo deu um passo a frente tomado pela fúria, mas foi impedido pela uma mão de um dos elders.

 

― O senhor não deve agir, não precisa sujar suas mãos com esse lixo, nós mesmos resolveremos isso ― disse o elder que tinha segurado Romeo. Esse elder usava um capuz escuro para esconder uma cabeça careca. Ele era muito magro.

 

                Nenhum dos elders estavam calmos, terem visto um companheiro sendo morto e outro aleijado tinham deixado eles extremamente furiosos. Eles, melhor que ninguém, conheciam a verdadeira força daqueles dois.

 

― Permita-me tirar a vida de Mara, senhor ― pediu um dos elders, tentando conter seu nervosismo.

 

― Ninguém vai lutar sozinho! Essas duas não são mais as mesmas simples jovens de um ano atrás. Agora elas são como dois demônios, se lutarmos sozinhos, é provável que elas nos matem um a um. Vamos todos de uma vez! ― dessa vez foi Léo quem disse. Léo era o elder que aparentava ser o mais velho e experiente.

 

                Se, em qualquer outro dia, alguém ouvisse que os elders de elite do clã Torres queriam se juntar para atacar apenas duas mulheres com idade abaixo dos 20 anos, iriam rir descontroladamente, até o fundo de suas almas. Mas, depois de virem pessoalmente a força das duas beldades, não restava outra alternativa. Eles teriam que trabalhar juntos para não correr o risco de haver mais perdas.

 

― Droga... ― disse Mara baixinho, ela claramente estava preocupada. Uma coisa era lutar contra um elder,  enfrentar todos de uma vez seria complicado.

 

― Matem as duas, e façam isso bem rápido! ― Disse Romeo em um tom extremamente frio, ele ainda estava se controlando para não cuidar delas pessoalmente.

 

                Elisa ficou angustiada, era verdade que ela não se importava com Mara, mas ela não queria deixar Natalia ter o mesmo fim. Se ela fosse tentar ajudar as duas, então seu marido entraria na batalha e a mataria no mesmo instante. Ela não podia fazer nada a não ser assistir. Era assim agora e tinha sido assim sempre.

 

― Vocês ouviram, vamos!

 

Zuuup Vraaaap!

 

Tudo aconteceu tão rápido que ninguém sequer teve tempo de reação. Um portal roxo tinha surgido atrás do elder careca e de repente um braço tinha atravessado suas costas, rompendo toda a sua defesa instantaneamente. Com um puxão, algo vermelho pulsante fora arrancado de dentro do peito e se mantinha nas mãos de um jovem ruivo, já conhecido por todo o clã.

 

― SAMUEL! ― várias pessoas exclamaram surpresas. Guardas, elders, e até suas belas esposas.

 

                Como os elders e Romeo estavam todos próximos, eles involuntariamente saltaram para o lado, fugindo uns dez metros do jovem. O elder careca ficou ali se tremendo e babando boquiaberto enquanto via seu próprio coração sendo mostrando em frente a seus olhos. Samuel era tão frio como um demônio.

 

― Isso foi por você ter chamado minhas esposas de lixo. Qualquer um que ousar ofender uma mulher minha deve pagar com a morte ― disse Samuel e espremeu o coração. O elder careca se tremia enquanto via seu próprio coração sendo destruído entre os dedos de Rael, ele só podia assistir e aguardar a morte certa, não havia mais nada que ele pudesse fazer. Seu peito continuava a jorrar sangue, e segundos após caiu no chão. Se tremeu por mais alguns segundos e finalmente pereceu.

 

Vrooooom!

 

A mão direita de Rael se cobriu em chamas intensas e todo o coração sangue e restos do que sobraram do elder pegaram fogo. As mangas de seu sobretudo ficaram intactas, como se nunca tivessem sujados, as chamas queimaram apenas os restos do coração espremido.

 

O fogo exibido por Rael era tão forte que a temperatura ficou extremamente alta apenas por ele conjurar o poder em um braço.

 

                O aparecimento de Rael e sua ação repentina, causou uma paralisia em todos. Ninguém estava conseguindo se mover ou falar direito.

 

― Então quer dizer que todos vocês pretendiam matar minhas esposas? ― perguntou Rael se virando casualmente para eles. O semblante de Rael estava muito calmo, mesmo após ter retirado uma vida. Ele havia chegado aqui assim que Mara havia matado Ramon, ele tinha acompanhado tudo enquanto estava invisível.

 

                Até mesmo Romeo estava em estado de alerta, por um momento ele até pensou que Rael tinha trazido reforços e no primeiro instante ele e os elders fugiram recuando, mas Rael estava sozinho aparentemente.

 

― Vocês não iriam atacar minhas esposas? Vamos lá, estou esperando para ver quem é o primeiro que vai ter coragem ― disse Rael firme. Rael parecia outra pessoa, ele estava mais seguro hoje do que em qualquer outro dia, e por isso os provocava abertamente.

 

O choque ainda estava na face dos elders e nos guardas. Eles ainda estavam tentando entender como Rael surgiu de repente, e bem na cola deles. A única mais aliviada era Elisa no canto. Por incrível que pareça, ela tinha ficado feliz com a presença de Rael.

 

― Ele está no reino nono? Força de Expansão nível um... ― disse um dos elders de repente.

 

                Mara e Natalia perceberam que Rael estava em um novo reino, elas sabiam que ele escondia dois reinos inteiros. Sendo o caso, Rael finalmente tinha atingido o décimo primeiro reino, o mesmo reino que elas.

 

― Você por fim, decidiu aparecer... ― disse Romeo depois de se recuperar um pouco. Vendo Rael, parecia que a fúria de Romeo tinha sido despertada. Agora que ele percebeu que Rael estava de fato sozinho, ele tinha ficado muito mais corajoso.

 

― Eu apareço onde e quando eu quiser, não tenho nenhum medo de você ou dos insetos que são seus elders ― disse Rael sem se importar. Mesmo dizendo tais palavras, ele ainda continuava frio.

 

― Você não será perdoado. Nem você, nem suas esposas, mas se me entregar Isabela, eu posso garantir que todos terão uma morte rápida e indolor ― disse Romeo depois de alguns segundos.

 

― Morte rápida? Igual a essa que eu acabei de fornecer para essa barata aqui? Você não é capaz, mesmo se tivesse mais cinco de você dando suporte. ― Disse Rael de forma a provocar Romeo. Isso fez Romeo apertar os dentes e travar os punhos, como se estivesse prestes a saltar em Rael.

 

― Você quer Isabela? Eu devo dizer que Isabela é minha, e você não vai tocar em um só fio de cabelo dela. Nesse momento ela está bem escondida, em um local que você nem sequer sonha que existe ― Rael continuou provocando.

 

Creek! Creek! Creek!

 

Os dedos de Romeo estralavam de tanta força que estava colocando em mãos. Sua aura começou a romper e os outros cinco elders restantes recuaram, saindo de perto do patriarca.

 

― Você estava mesmo a escondendo, você ousou se levantar contra mim. Agora eu percebo que perdeu toda a vontade de viver. Eu vou realizar seu sonho e acabar com sua vida pessoalmente ― disse Romeo prestes a saltar em Rael.

 

― Vai fazer isso de novo? Igual como fez seis anos atrás? ― perguntou Rael, causando uma súbita confusão em todos. Essa resposta fez Romeo parar seu movimento confuso.

 

                Um silêncio correu por todo o clã. Várias e várias pessoas se entreolhavam como se estivessem confusas. Ninguém além de Mara e Natalia entendiam as palavras de Rael.

 

― O que você quer dizer com isso? ― perguntou Romeo, alguns segundos após.

 

― Quem não se lembra do menino sem o braço direito de nome Rael? Oh, em falar nisso, me lembrei que eu já matei Reges e todos os quatro homens que o acompanharam naquele dia para fazer o serviço sujo ― disse Rael repentinamente.

 

                Rael todos conheciam, era impossível alguém não lembrar do nome que havia sido a vergonha do clã Torres por vários anos. Mas entender até então que o jovem Samuel era Rael, ninguém ainda estava ligando os pontos.

 

― Eu não sei sobre o que você está falando... ― disse Romeo tentando disfarçar o assunto, ele pensou que Rael na realidade estava o acusando de matar o próprio filho, como se soubesse o seu segredo. Se as pessoas descobrissem sobre isso, Romeo perderia ainda mais a face.

 

― Não sabe? Como não sabe? Você e sua esposa foram os mandantes do assassinato do próprio filho e não estão sabendo? ― Rael não estava se importando o quanto os outros soubessem sobre isso, ele estava apenas se importando com Romeo e Elisa, desde que esses dois hoje soubessem sobre seus pecados, para Rael já estava bom.

 

                Com Rael presente, Mara e Natalia não eram mais o centro das atenções, as duas passaram até Rael e disseram rapidamente enquanto avançavam.

 

― Vou procurar meus pais, Romeo os capturou e eles devem estar aqui ― disse Mara. Rael fez um sim entendendo a situação e as duas correram juntas, avançando para dentro da residência. Um dos elders apenas moveu um passo na direção delas e Rael já o olhou fixamente. Apenas o olhar de Rael o fez congelar, ele se lembrou do que aconteceu com o outro elder e ficou ali parado. Romeo não se preocupou com as duas, ele não tinha deixado os pais de Mara tão fáceis de serem encontrados, por isso não estava preocupado.

 

― Oh, já que vocês parecem está confusos sobre essa história, deixe-me clarear a mente de vocês. Meu nome verdadeiro não é Samuel Raymonde, eu sou Rael Torres! Fui eu a criança que há 6 anos vocês mandaram matar ― disse Rael em um tom calmo. Então calmamente ele puxou a manga do braço direito.

 

― Eu não tinha o braço direito antes, e quem me deu foi minha mestra, depois que eu retornei a vida ― enquanto exibia o braço direito, Rael continuava falando. ― Meus cabelos também não eram ruivos, eles eram escuros. Mas, devido a linhagem que minha mestra me passou, eu fiquei com o cabelo vermelho. Agora vocês estão entendendo? Eu sou Rael Torres, o garoto aleijado que 6 anos atrás vocês mandaram matar ― Rael explicou tudo bem calmamente.

 

                Romeo, que estava prestes a se mover, de repente travou. Seus olhos estavam tão arregalados que não havia como serem mais abertos que aquilo. Do outro lado era Elisa. Essa, além de ter olhos arregalados, parecia ter caído em algum tipo de pesadelo sem fim.

 

― Eu ainda me lembro da cabana de madeira que fizeram para mim ao lado da muralha, me lembro das vezes que tinha que entrar escondido na cozinha para ter o mínimo de alimentação... Das vezes que era humilhado e dos olhares de ódio que todos me davam, das vezes que fui espancado quase até a morte por motivo nenhum. Me lembro de ser a maior piada de todo o Continente Sul. Eu me lembro de tudo como se fosse hoje. Naquele dia, sobre o penhasco, antes de Reges me apunhalar e mandar penhasco abaixo, ele me disse que os mandantes eram vocês dois, Romeo e Elisa Torres. Eu jurei que, se eu saísse vivo, voltaria e me vingaria de cada um de vocês.

 

                Com Rael começando a dar tantos detalhes, a verdade começava a se tornar irrefutável. Romeo havia começado a se tremer, porque agora ele percebia que não tinha uma filha prodígio, ele tinha dois filhos e um mais monstruoso que o outro. Mas ambos os filhos foram desprezados e ele sequer os colocou em seus olhos, inclusive tinha mandado matar um deles.

 

                Elisa havia caído no chão devastada, seu estado era cinco vezes pior que o do marido. Além dos olhos arregalados, ela estava trêmula e de boca aberta, como se quisesse dizer algo a si mesmo e não estivesse conseguindo encontrar palavras.

 

                Ao redor, vários cochichos começaram a se espalhar. Essa notícia tinha abalado a todos. Nesse momento, Mara e Natalia voltaram de dentro, aparentando estar mais aliviadas.

 

― Acharam? ― perguntou Rael, ignorando o resto.

 

― Sim. Eles estão bem, estão se recuperando ― disse Mara. Tanto ela como Natalia pararam perto de Rael e elas mesmas adivinharam que Rael já tinha contado a verdade devido a cara que todos estavam fazendo, não havia outra explicação para tamanho espanto.

 

― Mara, Natalia, fiquem a um espaço seguro de mim. Quando a luta começar, eu não quero que vocês me apoiem. Apenas assistam, essa é minha luta! ― disse Rael. As duas fizeram um sim sem teimosia e tomaram distância, como Rael havia pedido. Agora elas não estavam mais usando suas armaduras.

 

                Mas, mesmo com o retorno delas, tudo ainda continuava ali estagnado. O choque da explicação de Rael era muito grande e Romeo e Elisa ainda não haviam conseguido se recuperar do baque. Qualquer um podia ver que Elisa estava em um estado muito pior que Romeo, e ele não estava nada bem.

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Capítulo patrocinado por: Marcos Vinicius Mota Kliemann




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