O Herdeiro do Mundo

265 - Sentimento Doloroso

Um vento frio soprava na noite, alguns galhos e folhas de árvores próximas balançavam suavemente.

 

                No penhasco, Rael encarava o rendido e aleijado Reges de joelhos. O homem fingia não ter medo e não ligar para as dores de seu corpo, mas era possível ver um suor frio descendo de seu corpo, ele se tremia enquanto tentava manter um olhar desfocado. Talvez estivesse concentrado na tentativa de ignorar a dor em seu corpo, ou a humilhação de ter sido derrotado avassaladoramente para um simples júnior, que no passado fora jogado do mesmo penhasco que ele agora encarava a frente.

 

                Reges nunca havia pensado que o garotinho aleijado que ele matou anos atrás voltaria outro dia buscando vingança. Ele sequer lançou qualquer pensamento sobre aquele ocorrido, isso nunca passou por sua cabeça. Agora, ali estava ele, pagando com a própria vida por essa pequena passagem outrora ignorada, algo que para ele era tão pequeno e insignificante que não merecia mais do que um simples esquecimento.

 

                A cada segundo que passava, o corpo de Reges perdia mais sua energia de anos de cultivo, e a perda de sangue ia ficando mais grave. Rael sentiu que ele teria agora poucos minutos de vida, mas o ponto do corpo dele estava exatamente onde Rael queria.

 

― Você consegue ver o que o destino guardou para você? Porque eu consigo. Seis anos atrás fui eu a cair daqui por sua causa, e hoje os papéis se inverteram ― Rael encarou abaixo a queda com dezenas de metros. Ele estava em pé ao lado de Reges com as mãos para trás.

 

― Você não me assusta, não importa o que diga ― Reges cuspiu no chão, tentando transparecer imponência. Mas Rael podia ver o suor frio descendo em seu rosto e até uma parte do corpo estremecendo devido as dores. Mesmo que ele tentasse ocultar com toda sua vontade a dor e o medo, eles ainda estavam ali sobre ele.

 

― Só fala bobagens. Enfim, parece que está quase na hora, hoje será você que voará rumo ao fundo desse penhasco ― disse Rael, falando tão naturalmente que não parecia estar prestes a tirar uma vida. Rael estava calmo, afinal, o momento de concretizar sua vingança se aproximava cada vez mais.

 

― Não importa! Você não vai me ouvir gritar, eu estou pronto para isso ― disse Reges sem se virar para Rael, ele continuava tentando parecer durão.

 

                Rael não se incomodou com suas palavras. Seria sim bom ouvi-lo implorar, gritar, ficar aterrorizado, mas no final nada disso importava porque, de um jeito ou de outro, Reges seria morto ao cair penhasco abaixo.

 

― Não espero que você grite, não espero que você chore. Só espero que você passe pela mesma dor que eu passei naquele dia ― disse Rael.

 

― Isso é impossível! Afinal, minha morte não foi encomendada pelos meus próprios pais! Eu nunca vou saber qual a sensação de ser odiado pela própria família! Hahahaha! ― Reges não tinha medo de provocar Rael. Ele riu forçadamente como se quisesse se forçar a pensar em qualquer outras coisa além da dor e de sua humilhação.

 

― Aaaaah! ― Reges gritou e ficou pálido quando a ferida de seu braço arrancado foi apertada pelos dedos do clone. O clone chegou a enfiar os dedos na ferida, fazendo um pequeno jato de sangue surgir. Logo, Reges estava tremendo e respirando com bastante dificuldade.

 

― Você é mesmo durão, hein... ― Rael zombou do lado com um sorriso frio. Por alguns instantes, Reges respirou apressadamente para se recuperar da infernal dor que sentiu agora pouco em sua ferida.

 

― E daí se gritei um pouco?... Isso não muda o fato de que é você quem está me matando por sua própria vingança. Pelo menos não é um pedido dos meus p... Aaaaah! ― novamente a ferida foi mexida. Reges podia se rebater de todos os modos, mas não conseguia escapar do clone. Rael ficava apenas olhando friamente de lado. Os gritos de Reges no entanto foram bastante satisfatórios para os ouvidos de Rael.

 

― Simplesmente deplorável, igual aos outros quatro ― disse Rael e se virou, recuando alguns passos para trás.

 

                Reges ficou ali respirando com dificuldade sentindo a ferida pulsar violentamente. Um suor frio continuava descendo de seu rosto e seu coração ainda estava acelerado. É claro, todos esses detalhes eram visados pelo clone e passados mentalmente para Rael, então mesmo que Reges fingisse não estar sofrendo, aquilo ficava óbvio.

 

― Chegou sua hora, lixo! ― disse Rael, se dirigindo para as costas de Reges.

 

― Eu não tenho nenhum medo... ― Reges queria gargalhar, mais ficou com receio do clone mexer em sua ferida novamente.

 

― Apenas morra. ― Rael disse casualmente e não teve dó quando apunhalou Reges com uma adaga. Mesmo que Reges já tivesse alguns ferimentos, ele o apunhalou por cima dos que ele já tinha. Reges gemeu quase curvando todo o corpo tamanho eram a dores. A sensação de não ter cultivo e sentir aquelas dores terríveis eram como um pesadelo sem fim.  Ele não conseguiu suportar e soltou um forte grito de desespero. Depois disso, Rael o chutou violentamente para frente. O clone se afastou e Rael se aproximou para ver o corpo caindo do abismo.

 

― Aaaaaah! ― Reges gritou enquanto caía. Rael ficou na beirada, assistindo o corpo cair. Um sorriso emergiu no rosto de Rael e ele logo saltou atrás.

 

Paaaaf!

 

O corpo caiu, batendo a cabeça nas rochas afiadas e sangue se espalhou por todas as partes. O grito de Reges só foi interrompido no momento de sua morte, quando seus ossos e sua pele estouraram nas pedras. Rael pousou suavemente ao lado do corpo desfigurado. Com um pé, deu um empurrão no corpo todo torto e mole do morto para virá-lo. Rael encarou a região que seria o rosto de Reges e constatou que ele tinha chorado um pouco em sua queda, mesmo que fossem lágrimas de sangue.

 

                Rael levantou o braço direito que foi coberto em chamas violentas. Ele não quis usar essa habilidade contra Reges, preferiu treinar seus portais e também queria aleijá-lo antes de matá-lo. Mas, depois de morto, Rael estendeu o braço e as chamas avançaram, incinerando o corpo a frente até virar cinzas.

 

― Você não é digno sequer de possuir um enterro. Sua família jamais encontrará o seu maldito corpo ― disse Rael friamente e em seguida conteve o braço, encarando as cinzas do que sobrou de Reges. Depois, saltou para o topo do penhasco, voltando para o lado de seu clone, que estava parado aguardando em silêncio.

 

Quando o clone de Rael destruiu a base de cultivo de Reges, ele também causou dano na ligação da alma, dessa forma mesmo morto fora da barreira o clã não receberia imagens de Reges. Neide tinha avisado isso a Rael antes e ele já havia se preparado. Quanto mais Rael conhecia sobre seus poderes, maior se tornava suas habilidades. Por isso era fácil para ele manipular esses pequenos detalhes. Seu clone naturalmente copiaria as habilidades aprendias.

 

                Olhando mais vez para o local que há seis anos fora assassinado, Rael se sentiu ligeiramente estranho, parecia que um enorme peso tinha sido retirado de sua cabeça, agora que o principal dos quatro homens do passado havia sido morto. Ele suspirou e sorriu agradecido por finalmente ter avançado mais nessa vingança.

 

                Mesmo sem Rael saber porquê, embora ele estivesse satisfeito com aquele resultado, ele ainda sentiu um intenso aperto no peito. Matar Reges da mesma forma fez com que ele literalmente voltasse no tempo e se lembrasse de sua última dor, quando ainda pensava que Romeo e Elisa eram seus pais. Aquilo conturbou seus pensamentos e afligiu o seu peito, e ele começou a lutar para fingir que estava completamente bem.

 

― ‘Eu preciso voltar... Quero sair daqui’ ― pensou Rael.

 

                Com um pensamento, o clone se desfez e Rael fez o portal surgir. Rael o atravessou e voltou para a ilha. Ele foi atrás dos braços de Reges e pegou seu bracelete do infinito.

 

― Reges era o homem de maior confiança de Romeo, vamos ver o que ele tinha ― Enquanto Rael analisava o conteúdo do bracelete, sentiu duas poderosas energias se aproximando. Ralf chegou primeiro e apenas alguns segundos depois, Neide.

 

― Genro? Você conseguiu? ― perguntou ela com um tom cuidadoso, descendo ao lado de Rael. Ralf estava um pouco mais afastado, a uns dez metros. Ele não sabia se Rael estava fazendo algo importante.

 

― Tudo deu certo. ― disse Rael, forçando um tom sério, ainda fazendo sua análise. Era como se ele não quisesse se virar para Neide. Rael ainda sentia um forte aperto no peito e por isso fingia estar ocupado com sua análise.

 

― Genro, você não precisa ser duro consigo mesmo. Eu sei que está sofrendo. Você deve ter se lembrado de suas dolorosas lembranças... ― Neide não mais se segurou e partiu, segurando e abraçando o jovem a frente. Mesmo que Rael quisesse manter a calma e fingir que estava tudo bem, no fundo ele não estava, seu coração ainda doía amargamente mesmo após boa parte da vingança concluída. Quando Neide o abraçou, ele instantaneamente soltou o bracelete no chão e ficou ali parado, rendido sobre os braços de sua sogra, que empurrou a cabeça dele contra o próprio ombro.

 

― Genro, você pode contar comigo. Não sou sua mãe, mas sou sua sogra. Sou sua família agora, e para mim você é tão precioso quanto um filho meu ― Neide disse com carinho e massageou as costas e o cabelo de Rael. Rael não resistiu e finalmente soltou algumas lágrimas, abraçando a mulher de volta e fechando os olhos.

 

                Enquanto os dois se mantiveram abraçados por alguns instantes, Ralf ficou olhando e abaixou a cabeça, escorando no chão enquanto deitava o corpo. Ralf entendia que Rael estava sofrendo emocionalmente, porque na maior parte do tempo ele estava com Rael. Rael podia ter a experiência de quase duas vidas, mas ele ainda não havia recuperado todas as suas memórias. E, no geral, Rael ainda era um rapaz de 16 anos. Mesmo que em muitas das vezes ele quisesse parecer forte, ele ainda não era totalmente maduro para suportar.

 

― Você sempre pode contar comigo. Sempre! ― disse Neide, massageando as costas de Rael. Ela sentiu que ele estava instável e foi consolá-lo. Neide estava servindo como uma verdadeira mãe, algo que Violeta tentou no passado, mas nem chegou perto. Violeta não podia ter feito esse papel, uma vez que ela tinha desejos sexuais pelo jovem. Neide, por outro lado, não sentia nada além de afeto, respeito e amor materno para com Rael. Rael nunca teve isso antes de uma pessoa assim, todas as mulheres que ele conheceu sempre desenvolviam sentimentos diferentes por ele, Neide foi a primeira mulher a não ocorrer isso.

 

                Rael chorou por algum tempo e se manteve fortemente abraçado com a mulher. Não havia nenhum intenção maliciosa por conta de nenhum dos dois. Mesmo se Rayger chegasse agora encontrando esse ato, ele não sentiria nem mesmo uma ponta de ciúmes. Neide o tempo todo se manteve massageando as costas de Rael e dizendo palavras carinhosas para confortá-lo.

 

― Desculpe por isso... ― Quando Rael se soltou dela, ele ainda se sentia um pouco sem jeito. Neide continuava com seu olhar terno.

 

― Genro, eu não tenho direito de ter nenhum lugar importante em sua vida além de sogra, mas se você alguma vez precisar desabafar, pode sempre contar comigo ― disse a mulher suavemente.

 

― Obrigado ― respondeu Rael. E ficou alguns instantes em silêncio. Depois ele se agachou e pegou o bracelete de Reges novamente.

 

― Era de Reges? ― perguntou Neide, mudando de assunto.

 

― Sim... eu estava analisando antes ― explicou Rael, mostrando sinais de melhora. Neide percebeu que o desabafo dele já teve certo resultado e ficou satisfeita. Agora ela já poderia dar novas notícias sem muito medo.

 

― Eu tenho outra noticia pra te dar ― disse Neide.

 

― Pode falar.

 

― Romeo capturou o antigo grupo de Isabela. Ele vai executá-los em dez dias ― explicou Neide.

 

                Rael parou por alguns instantes ouvido isso, mas depois continuou analisando os itens dentro do bracelete com sua mente.

 

― Parece que Romeo está querendo adiantar sua morte. Mas, se ele deu dez dias significa que por enquanto ainda não vai fazer nada com eles ― disse Rael.

 

― Genro, se você quiser, meu marido e eu...

 

― Não, sogra. Você e Rayger ficarão fora disso. Eu vou lutar com ele quando a hora chegar. Essa é a minha vingança e eu não quero ninguém me apoiando diretamente ― disse Rael sem pensar muito.

 

― Se é assim que você deseja, tudo bem. Eu voltarei ao clã e ficarei um pouco com o meu marido, ficaremos de olho e passaremos todas as informações a você ― disse ela.

 

― Faça isso ― disse Rael depois de passar todo o dinheiro, ervas e outras armas de Reges para o seu próprio bracelete.

 

― Genro, se cuide! Se precisar de qualquer coisa, basta dizer ― disse Neide sempre em um tom caloroso. Depois, ela lançou um último olhar para Ralf e levantou quatro dedos. ― Acho que você ganhou essa de mim, Ralf ― disse Neide e em seguida subiu voando. Ralf tinha levantado a cabeça e mostrado os dentes com um sorriso bestial assim que Neide mostrou quantos ela havia matado, isso indicava claramente que o enorme tigre tinha vencido.

 

― Eu mal consegui enfrentar Reges agora, como será contra Romeo e Elisa juntos? Preciso cultivar um pouco antes de ir para essa batalha ― observou Rael. Ele também não sentiu nenhum aumento de poder, mesmo tendo matado Reges. Violeta havia dito que essa habilidade com o tempo iria ficar cada vez mais fraca de acordo com que se fica mais poderoso. Será que essa habilidade já não funcionaria mais?

 

― ‘Rael, sou eu, Violeta. Se puder, venha agora no esconderijo. Eu tenho que te mostrar algo com urgência!

 

                Rael já tinha usado muitas vezes o portal roxo e, portanto, estava um pouco desgastado e cansado. Então, ele decidiu partir da maneira mais natural.

 

_____________________________________________________________________________

                Voltando ao esconderijo, Rael foi recebido por suas guardiãs. As duas estavam preocupadas e Rael explicou que estava tudo bem. Ele nem sequer estava ferido e isso aliviou os corações das belas moças. Rose e Rika foram as segundas a cercarem Rael, mas ouvindo as explicações dele para as guardiãs também ficaram aliviadas.

 

― Você tá bem famoso aqui, hein! Em pensar que agora todas essas beldades se preocupam tanto com você... Isso deve te deixar bastante feliz ― disse Emilia, sentada em um dos sofás. Ela tinha acompanhado toda a cena.

 

                Assim como Rael chegou e as mulheres se aglomeraram, logo elas se dissiparam, sabendo que Rael tinha um assunto com Violeta. Uma das portas do quarto foi aberta e uma linda adolescente de cabelos brancos como a neve olhou Rael quando ele ia passando pelo corredor. Rael disse um “olá” simples para a moça e sorriu. Mas, em vez dela responder, ela fechou a porta com um “humf” e voltou para dentro. Rael não ligou, ele já entendia um pouco o temperamento enjoado de Alice.

 

                Agora, além da cozinha, havia outra expansão de outra sala. Era uma sala a direita a qual Rael entrou em um novo corredor e saiu em um tipo de sala de experimentos para alquimia. Havia várias estantes com garrafas, livros e outras coisas a mais. Rael encontrou a princesa Nastácia estudando alquimia ao lado de Violeta. Violeta estava mostrando para ela algumas receitas enquanto juntava ervas.

 

― Você finalmente veio ― disse Violeta satisfeita fazendo uma pausa. A princesa do lado lançou um olhar tímido para Rael, depois passou caminhando por ele deixando os dois a sós.

 

― Ensinando ela a fazer poções? ― perguntou Rael.

 

― Sim, irei tomá-la como minha aprendiz pessoal ― disse Violeta e retirou de sua aura três pílulas vermelhas como sangue e as estendeu para Rael.

 

― O que é isso?

 

― Pílulas Especiais De Sangue para cultivo. Elas são outro tipo diferente, não é como as que você conhece. Essas pílulas podem ajudar tanto você como uma violadora a cultivar mais rápido ― explicou Violeta.

 

                Rael pegou a pílula na mão e analisou. Ele sentiu uma leve fragrância de sangue.

 

 

― Uma humana perfeita é muito difícil de ser encontrada. Mas, uma vez encontrada, o sangue dela pode ser usado para fornecer pílulas únicas. Essas pílulas podem ajudar em seu cultivo, ela é a única pílula que vai funcionar em você e em nós nesse mundo pequeno. Essa pílula vai acelerar seu cultivo em duas vezes por sete dias, cada uma.

_______________________________________________________________________________
Capítulo patrocinado por: Vitor Araujo Lima