O Herdeiro do Mundo

260 - A União dos Três

Quando Keylla chegou no esconderijo, a primeira coisa feita foi deixar as irmãs se abraçarem. Enquanto Beatriz abraçava fortemente Isabela, Keylla inspecionou Isabela e se sentiu satisfeita. De fato, ela podia sentir um grande afeto por essa mulher. Assim como sente por Rael, ela já tinha essa sensação de antes mesmo de conhecer. Embora ela sentisse afeto por Isabela, esse afeto não era maior do que o seu por Rael.

 

― Irmã mais velha, eu senti tantas saudades de você desde que partiu! Eu queria tanto te ver! Você ta incrível, como sempre! ― Beatriz soltou a irmã depois e de um longo e forte abraço enquanto falava.

 

― É bom ver você também, Beatriz ― disse Isabela sorrindo de volta.

 

― Por onde você estava? Ouvi boatos de que estavam caçando você... ― Beatriz se lembrou dos rumores que ouviu sobre sua irmã ter ofendido o patriarca Romeo.

 

― Estive no Continente Norte por um tempo, até Rael ir me buscar ― explicou ela.

 

― Continente Norte? ― Beatriz se sentiu curiosa. Não era muito comum falarem do Continente Norte, por isso nem mesmo Beatriz sabia muito a respeito.

 

― É, eu não tive outra opção ― explicou Isabela.

 

― Pelo menos você está bem, isso que importa ― disse Beatriz, recuperando a compostura depois da surpresa.

 

― Eu mandei varias cartas para você, mas pelo visto você não as recebeu ― disse Isabela, em um tom desamparado.

 

                Embora os sentimentos de uma guardiã por outros fossem contidos, eles não desapareciam completamente. Ainda restava um pouco de lucidez e razão para que esses sentimentos não se perdessem completamente apenas entre si mesmo. Mas era tão pouco que jamais iria atrapalhar o julgamento delas. Vamos a um exemplo comum: Se Beatriz estivesse em perigo com um desconhecido e Isabela tivesse de salvá-la, ela iria salvar a irmã sem pensar duas vezes devido a moça ainda ser a sua irmã de criação. Se Beatriz tentasse pôr a vida de Rael em perigo, Isabela iria matá-la imediatamente devido ao seu instinto de proteção. Proteger Rael estaria acima de qualquer sentimento dela. Esses sentimentos ainda estavam ali contidos, mas era mais fracos que seus instintos.

 

― Rael cuidou de mim, e agora ele é o meu mestre! Ele me ajudou desde então. Veja meu cultivo, irmã, já estou no décimo reino! ― Beatriz disse com orgulho. Rael teve que admitir que Beatriz era muito esforçada, mesmo sem a ajuda do vulcão, ela conseguiu progredir tanto. A família Janete estava um pouco abaixo, todos estavam no nono reino. Já Ana estava no décimo reino e era um pouco mais forte que Beatriz.

 

― Seu cultivo está muito bom ― Isabela elogiou sorrindo. Ela lançou um olhar em agradecimento para Rael e depois continuou conversando com a moça. Keylla e Rael decidiram sair para o corredor e deixar as duas irmãs a vontade.

 

― Elas estão conversando bem animadas ― mesmo que Keylla não tivesse afeto por Beatriz, ela ainda ficou satisfeita por ver sua parceira recém conhecida sorrindo. A alegria de Isabela parecia ser a dela também.

 

― É, estão sim ― Rael também disse satisfeito e naquele momento se sentiu aliviado de ter recusado Beatriz anteriormente. Se ele tivesse aceitado o amor daquela moça naquele dia, ele não teria face para explicar isso a Isabela.

 

― Nós também temos que falar de uma outra coisa ― disse Keylla seriamente, quase irritada. Ela estava se lembrando de alguma coisa.

 

― Sobre o quê?

 

― Não aguento mais ficar naquele clã! Será que eu não posso ficar aqui agora? ― Keylla perguntou, cruzando os braços enquanto encarava Rael de frente. Realmente não havia mais motivos de Keylla continuar lá. Os discípulos de Rael estavam mais fortes e em pouco tempo se protegeriam sozinhos de qualquer ameaça que fosse. O maior problema era o já extinto clã Sangnos, agora não existia mais perigo. Pensando nisso, Rael não tinha mais desculpas para manter as guardiãs em pontos específicos.

 

― Tudo bem, você pode ficar aqui a partir de agora.

 

― Ótimo! ― respondeu Keylla satisfeita. Ela queria ficar perto de Rael e agora com essa ocasião seria perfeito.

 

                Depois de um tempo, Beatriz finalmente se acalmou um pouco e liberou Isabela para os demais.

 

― Eu vou falar com Rose enquanto vocês conversam ― Beatriz então saiu para procurar a sua amiga celestial.

 

― Ela ficou amiga de Rose, Rael? ― Isabela perguntou curiosa saindo do quanto.

 

― Ficaram sim, ela passou um tempo por aqui ― explicou Rael sem dar detalhes.

 

― Rose era tão calada antes, difícil imaginar aquela garota com amigos ― Isabela se lembrava da bela moça de cabelos azuis na ilha que era parceira de Rael. Naquele tempo, Rael tinha Rose como noiva e um namoro com Mara, e mesmo assim deu em cima de Isabela.

 

                Isabela e Keylla finalmente se encararam com calma. Ambas eram como duas belas princesas, suas belezas só se perdiam para as violadoras devido a maldição. Keylla e Isabela não podiam conter a estranha emoção que sentiam uma pela outra, era como se elas fossem grandes amigas, ou até mesmo irmãs.

 

                Enquanto se fitavam, algo inusitado ocorreu: os olhos das duas belas mulheres se encheram de lágrimas, deveras emocionadas. A última vez que se viram estavam à beira da morte, e mesmo que elas não se lembrassem, suas almas estavam cheias de dor e aflição aprisionada. Não disseram nada, apenas avançaram e se abraçaram chorando. Embora elas não quisessem chorar de verdade, não conseguiam conter as lágrimas de seus olhos.

 

                A dor que elas sentiam era na existência de suas almas, por isso elas choravam. Elas duas, em companhia de Rael, eram como uma família e um cuidaria do outro, apesar de terem seus destinos distintos na vida posterior. Se Isabela e Keylla tivessem se encontrado antes de saberem a verdade, elas teriam se tornado grandes amigas facilmente, tamanho era o afeto do destino sobre ela.

 

                Levou alguns minutos até que elas se acalmassem. Depois elas se lembraram de Rael. Sentados na cama do quarto, os três conversaram sobre os seus sentimentos e o que se lembravam. O estranho fato é que todos estavam aceitando seus papéis, sem nenhum problema aparente.

 

― Rael é muito cara de pau, sabia, Isabela? Você já soube da extensa lista de mulheres que ele possui? Não dá pra acreditar que ele não consegue segurar as calças nem um pouco! ― Keylla bufou, lançando um olhar severo para Rael.

 

― Eu já percebi isso há muito tempo, desde um evento na ilha do vulcão. Ele já tinha uma namorada, supostamente era noivo de outra e ainda assim estava dando em cima de mim. Na época nós não sabíamos o que éramos um dos outro. Tempos depois, ele pediu a própria irmã em casamento ― a segunda a reclamar foi Isabela, que concordou balançando a cabeça. Keylla e Isabela pareciam se entender mais do que bem enquanto falavam mal de Rael.

 

― Depois de me contar a verdade, ele ainda prioriza as outras mulheres mais do que a mim! Isso também me deixou furiosa! ― Bufou Keylla, aumentando ligeiramente o nível de irritação. Se Mara estivesse junto àquelas belas mulheres então as três estariam explodindo de raiva e ciúmes enquanto falavam mal dessa infame lista de Rael.

 

                Isabela, apesar de concordar, era um pouco menos dura do que Keylla. Mas Rael sabia o motivo. Uma Keylla era boazinha demais e a outra, maliciosa demais. Nesse momento, quem tomava conta era a personalidade forte.

 

― No caminho para cá, ele estava dando em cima de uma princesa chamada Nastácia. Violeta chegou a chamar os dois de namoradinhos devido ao atrevimento dele. Ele é muito sem vergonha, quer até ter um filho com ela, Keylla ― Isabela também não estava pegando leve.

 

― Um filho com uma mulher estranha? É verdade isso, Rael? ― agora era Keylla a questionar.

 

― Isabela, você ouviu que aquilo era ideia de Violeta. Você sabe que eu não concordei na maior parte do tempo ― Rael pareceu preguiçoso enquanto falava.

 

― É, mais você ainda lançou vários olhares obscenos para aquelazinha. Você não consegue segurar as calças Rael, isso é fato! Keylla tem toda a razão ― Isabela disse concordando.

 

― Se você quer filhos, faça comigo ou com Isabela. Somos suas esposas, afinal, então é mais natural escolher a uma de nós. Mesmo que eu não queira ter filhos agora, se for um desejo seu, eu aceito tê-los ― disse Keylla.

 

― Nós não podemos gerar filhos... ― Isabela explicou com desânimo a mesma explicação passada por Rael antes.

 

― Mesmo assim, Rael! Como você pode fazer isso com a gente? Como pode? ― Keylla continuava irritada. Se juntar com Isabela a fez se abrir ainda mais, parecia que eles eram verdadeiramente casados a um longo tempo e que Rael tinha traído as duas.

 

― Isabela e eu somos lindas, nós podemos suprir todas as suas vontades afetivas e carnais. Você não precisava buscar isso em nenhum outro lugar ― disse Keylla. Keylla já tinha se deitado com Rael mais de uma vez, então pra ela era fácil dizer aquilo. Isabela, por outro lado, ficou ansiosa e corada. Ela imaginou que era só questão de tempo para Rael se deitar com ela. Rael não segurava as calças e antes ele era muito atrevido para com ela. Agora ele estava parecendo mais calmo, mas ainda assim ela percebia o desejo dele sobre ela.

 

                Como Rael não desejaria a sua amada de outra vida? Isabela era uma verdadeira beldade, seus olhos cor de mel e seus cabelos dourados como ouro faziam ela parecer uma divindade. Sua beleza era comparável a Keylla, nenhuma perdia para outra e são unanimemente consideradas mulheres perfeitas.

 

                Mesmo que elas estivessem há pouco tempo com Rael, seus instintos diziam para terem ciúme do rapaz. Por isso nesse aspecto, as duas concordariam. O trabalho delas era manter o herdeiro na linha, longe de qualquer outra mulher. Acontece que quando elas entraram na vida de Rael, ele já tinha um arsenal à sua escolha.

 

                Rael também sentia que precisava ouvir as duas esposas guardiãs, mas não havia mais nada que ele pudesse fazer em relação a como as coisas ficaram.

 

― Meninas, já chega. Isso não vai mudar nada. Aceitem que minha vida é essa, e parem de reclamar. Eu não vou me separar das minhas esposas, assim como não posso abandonar as minhas promessas ― Rael agiu seriamente e foi firme em sua decisão. Keylla e Isabela cerraram olhares frios para Rael como se ainda não fosse suficiente.

 

― Mesmo se eu quisesse, o tempo não volta. Eu não posso simplesmente fazer as pessoas que coloquei em minha vida desaparecer. Vocês são muito importantes para mim, mas também precisam entender que eu não tenho como fazer nada ― disse Rael.

 

― Conversa fiada ― Keylla tinha cruzado os braços e olhava ainda irritada para Rael, como se esperasse que ele melhorasse um pouco as suas palavras.

 

― Rael, nem pense em ficar com aquela princesa. Nem ouse pensar! Você mesmo disse que não pode fazer nada com o que passou, mas em relação a essa garota você pode! ― Isabela disse em seguida. Keylla concordou, mesmo não sabendo de quem se tratava. Ela ainda não tinha visto Nastácia pessoalmente, mas se era mais uma mulher, Rael precisava ficar longe.

 

                Rael suspirou, pensando o quanto que seria difícil ele pôr tudo em ordem. Primeiro, ele tinha três esposas e uma delas era uma princesa imperial. Ele teria que ficar um tempo com elas. Depois tinha Rose e a sua promessa com Rika, uma hora Rika iria imprensá-lo e ele não teria como escapar. Para fechar com chave de ouro, agora ainda possuía essas duas belas guardiãs.

 

                Também não vamos esquecer a promessa dele com Verônica, a aliança com Alexia e nem a outra mulher que Rael ainda não tem certeza de quem seja, a mulher que se passou por Nastácia. Essa mulher não tinha uma boa visão agora à vista de Rael, mas ele ainda queria descobrir quem ela era para abrir o jogo.

 

― Vocês já sabem sobre as celestiais e das minhas promessas, também já sabem das Violadoras e de Alexia. Desde que vocês entendam que nada disso pode ser mudado eu farei um esforço maior daqui para frente.

 

― As celestiais são promessas de filhos, Rael. Dê os benditos filhos a elas e caia fora em seguida ― Keylla tinha ouvido a história de Rael, mas não se importava.

 

― Ele não pode fazer isso, Keylla. Abandonar assim é errado ― disse Isabela um pouco depois. Ver as duas pensando diferente causou um pouco de surpresa em Rael.

 

― Então está me dizendo que você aceita aquelas duas como esposas dele também? E como ficamos nós, querida? ― Keylla agora questionou Isabela. Um fogo corria nos olhos de Keylla, quase a forçando-a a recuar aquelas palavras.

 

― Se ele vai dar filhos a essas mulheres, ele deverá assumir porque também serão filhos dele. Essa ideia de abandonar é errada e eu não concordo.

 

― Eu me criei sem pais nessa vida e me saí muito bem, por que os outros não podem ficar sem um pai? Qual é a dificuldade disso? ― Keylla não compreendia os sentimentos de Isabela.

 

― Não há coisa pior do que você ter um pai que não te ama, Keylla ― disse Isabela, se lembrando de Arthur. ― Se Rael se atrever a fazer e não assumir esses filhos, então eu só devo está enlouquecida por amar um homem mal caráter ― Isabela disse sem vontade de lutar enquanto olhava para o chão. Keylla conteve algumas palavras que queria falar porque percebeu que o estado de Isabela não era muito bom agora.

 

― Eu vou assumir todos os filhos que eu futuramente tiver ― disse Rael para encerrar esse assunto e Isabela levantou o rosto, olhando Rael com mais satisfação. Keylla não ficou muito satisfeita, mas não reclamou mais.

 

― Agora que encerramos esse assunto, vamos andando. Quero testar algo ― Rael disse e saiu do quarto. As duas seguiram atrás.

 

                No esconderijo de Violeta havia vários cristais de teleporte que os levavam para várias passagens, Rael escolheu um dos locais vazios e seguiu com as duas, sendo enviado para outro ponto. Poucos momentos depois, três figuras deram entrada a uma caverna vazia. As duas continuaram seguindo Rael.

 

― Que teste é esse? ― Isabela queria saber. Ela e Keylla caminhavam lado a lado como se já se conhecessem a anos, uma confiava plenamente na outra. Mesmo depois do debate de antes não afetou em nada o sentimento delas.

 

― Aqui. Eu acho que está bom ― disse Rael e se virou para duas, parando quase no centro da caverna. Ele não sabia o que poderia ocorrer, por isso também estava se preparando.

 

― ... E agora? ― Keylla perguntou olhando em volta. Rael estendeu a mão direita para frente e esperou que as duas fizessem o mesmo enquanto falava:

 

― Vamos unir nossas mãos. Eu sei que há um comando fazer isso.

 

― Um comando? ― Isabela quis saber enquanto estendia sua mão direita por cima da de Rael.

 

― Assim? ― Keylla perguntou, pousando sua mão por cima das costas da mão de Isabela.

 

Com as três mãos unidas, um brilho branco encobriu os três. Uma energia pareceu ser lançada dos corpos deles para o lado formando um círculo de energia branca, cheio de fios. Um vento harmonioso e quente soprou enquanto um portal era formado ao lado deles.

 

― Um portal? ― Rael foi o primeiro a percebê-lo. A estranha ligação entre eles tinha ocorrido e agora tinha criado um portal. Tudo aparentava estar estabilizado, então ele tirou a mão. As guardiãs também fizeram o mesmo, enquanto assistiam o portal aberto por eles.

 

― Para onde isso vai nos levar? ― Isabela perguntou apreensiva.

 

― Só podemos descobrir entrando. Eu vou na frente! ― Keylla rapidamente saltou sobre o portal e desapareceu ao atravessá-la. Ela foi chupada pela energia que continuou ali com a energia constante.

 

 

― Já que é assim... Vamos ― Rael foi o segundo a entrar, sendo seguido por Isabela.

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