O Herdeiro do Mundo

255 - Outra Pessoa

Ouvindo aquelas palavras de Rael, a princesa apertou uma das mãos ansiosa na aba do vestido enquanto encarava o jovem a frente. Da forma que ele colocou, ela e ele já pareciam ter algo especial. A serva havia dito que uma mulher só entregaria sua pureza – a sua primeira vez –, para um homem que ela gostasse muito e que fosse especial para ela. A princesa não tinha nenhuma experiência amorosa, apenas imaginava. Como já dito, ela não ficava na presença masculina próximo a idade dela, e isso fez automaticamente a mente dela almejar Rael.

 

                Primeiro, devemos saber que uma moça na idade dela está na época de despertar certas curiosidades, então a mente imediatamente trabalha para achar um parceiro ideal para tal. Visto que ela não tem qualquer outra opção, Rael seria a sua única. Rael não tem nenhuma má aparência visual e ainda tem como trunfo a herança das violadoras, que o torna muito mais atraente que qualquer outra pessoa. Colocando dessa forma, a princesa já estava levemente afeiçoada por Rael. Também foi o par que lhe deu o seu primeiro beijo, que ela não achou nem um pouco ruim. Com todas essas coisas na balança, o resultado não poderia ser diferente.

 

― E quanto ao meu pai? Você não tem nenhum medo dele, de verdade? Nós poderemos viver bem juntos, mesmo? ― a única coisa que a princesa não sabia era que Rael tinha um arsenal de mulheres. Na cabeça dela, ela fugiria com Rael e juntos teriam uma vida feliz às escondidas, em algum lugar pacato do mundo. Sua projeção de futuro era baseada nos contos de fadas que ela conhecia nos livros, quando um belo príncipe surge e salva a sua amada princesa do maior dos perigos. E como ela era uma bela princesa...

 

― Tenho certeza de que comigo você terá uma vida melhor do que estando presa a este lugar. Eu ouvi dizer que seu pai é um homem nojento e tem interesses estranhos por você ― disse Rael.

 

                A princesa tinha mais uma razão para fugir. Quando ela se lembrava das vezes em que seu pai quase perdeu a razão, ela se enchia de repulsa e medo. Embora ela gostasse muito de seu pai, em sua consciência jamais permitiria que aquilo acontecesse.

 

Quanto a isso, Rael estava certo. Ela não precisava de nenhuma certeza a mais para fugir com ele. Aceitar a opção de Rael seria a melhor alternativa, mesmo que Rael ainda estivesse enganado sobre ela.

 

― Você... vai... vai... se casar comigo? ― a princesa ficou corada quando perguntou e apertou a alça do vestido mais uma vez. Depois das coisas que Rael disse que já fizeram, ele certamente deveria assumi-la. E, na cabeça dela, assumir seria o mesmo que casar e dar a ela um novo lar. A princesa parecia ter pouquíssima experiência, mas era o bastante para saber isso. Se não fosse pela serva que lhe contava algumas coisas, ela seria tão inocente quanto Rael no início de sua jornada.

 

― Bom, eu sempre disse a você que nos casaríamos, mas não sei bem o porquê disso ser importante. Eu sempre cuido bem das minhas mulheres. De todo modo, está na hora de nós irmos embora.

 

― Espere, você disse “das minhas mulheres”... Você tem outras mulheres? ― a princesa quis saber. Ela entendia que homens poderiam ter outras mulheres. Mesmo o seu pai, ela sabia que ele ficava com as servas que cuidavam dela porque aquela tal serva contava tudo a ela, até mesmo esses assuntos.

 

A princesa soube que homens importantes costumavam ter dezenas de mulheres, o que deixou Nastácia um tanto chocada. Mas ela também disse que Nastácia era muito bonita, e o homem que a tivesse com certeza não quereria mais nenhuma outra mulher. Isso poderia ser verdade para um homem que não tem as ligações de Rael ou não possui conhecimentos sobre as violadoras ou as celestiais. Mas para Rael, que era um ser superior e estava acostumado a mulheres bonitas, isso não se enquadrava.

 

― É claro que tenho. O que você pensou, afinal? De qualquer modo, vamos. Quando estivermos bem longe daqui eu contarei todo o resto ― disse Rael e, com apenas um pensamento, ele abriu um portal roxo ao seu lado. Isso fez Nastácia dar um passo para trás impressionada.

 

― É seguro, pode entrar. Quando você atravessar esse portal, encontrará duas mulheres. Elas são minhas aliadas. Eu irei logo atrás de você ― explicou Rael calmamente, esperando com o portal aberto ao lado. Nastácia olhou mais uma vez a estranha formação de energia. Era um portal aproximadamente com dois metros e meio de altura, por volta de um metro e meio de largura. O portal era formado por uma caótica energia roxa que não parava de se mover. Essa energia roxa era como linhas elétricas interligadas uma a outra, o que dava a sensação de que ao menor contato, haveria um grande choque ou coisa do tipo.

 

― Princesa, vamos. Entre ― Rael disse mais uma vez. O rapaz se lembrava que mesmo antes, quando ela perdeu a memória pela primeira vez, ela não era tão medrosa. Isso fez Rael começar a sentir algo de estranho sobre toda essa situação.

 

― Isso não vai me machucar? Eu tenho medo... ― a princesa finalmente admitiu.

 

― Tudo bem, eu tenho um outro jeito de fazer isso ― disse Rael avançando sobre ela.

 

― Samuel, o que vai fazer? Calma...! ― a princesa recuou tentando fugir quando o viu chegar a sua frente e se agachar para segurá-la, mas Rael foi mais rápido e a tomou nos braços. A princesa, sem meios de fugir, o segurou nos ombros e em sua roupa.

 

― O que você está fazendo? ― ela perguntou um pouco assustada enquanto o coração acelerava. O beijo, aquele apalpada indiscreta e agora essa pegada no colo. Rael estava mesmo indo muito longe com uma moça que nunca tinha visto um outro homem sem ser o seu pai anteriormente.

 

― A primeira vez que encontrei você, voamos juntos. Foi assim que tudo começou. Eu peguei você no colo da mesma forma que estou segurando agora ― disse Rael, a olhando nos olhos. Ele pensou que ao fazer isso poderia ajudá-la a se lembrar de alguma coisa, mas pelo visto não havia funcionado.

 

                Rael já tinha inspecionado o pulso e os dedos dela. Ela não tinha nenhum anel nem bracelete do infinito. Se realmente limparam a mente dela, também deveriam ter tomado todos os seus pertences, inclusive o anel de comunicação e o anel que permitia a entrada dela nas barreiras criadas por Rael.

 

                Quando Rael se aproximou com ela do portal, ela fechou os olhos e se agarrou com mais firmeza em Rael, como se ainda pensasse que iria se ferir.

 

                A travessia causou uma sensação estranha em Nastácia. Ela sentiu como se seu corpo passasse através de teias quentes de aranha. Apesar de não ser grudenta, era mais como um tipo de bruma batendo em seu corpo. Ela continuou de olhos fechados agarrada a Rael mesmo quando o portal já tinha sido fechado e eles estavam bem longe do castelo.

 

                Violeta não deixou de ficar impressionada com a chegada deles. Essa era a mesma garota que ela vira no passado com Rael e certamente não se enganaria, mas por que essa menina parecia estar com tanto medo?

 

                Isabela, vendo a jovem princesa nos braços de Rael, imediatamente abriu a boca com extrema surpresa. Assim como Violeta, essa princesa tinha uma beleza inigualável e surreal. Mesmo de olhos fechados e impotente nos braços de Rael, Isabela já tinha percebido que ela era incrivelmente bonita.

 

― Princesa, já atravessamos. Você já pode abrir seus olhos ― Rael se curvou e pôs os pés dela no chão. Mesmo trêmula, ela ficou de pé e pouco a pouco foi se soltando de Rael e abriu os olhos. Era noite e estava bem mais escuro ali do que em seu quente e iluminado quarto.

 

                A princesa demorou alguns segundos para se acostumar com a nova visão. Ela logo sentiu um vento frio, o que a fez se abraçar devido a um arrepio involuntário. Presa no castelo, ela não sentia nada além da temperatura comum e agradável. Rael e as outras duas mulheres tinham uma resistência maior ao frio ou ao calor devido aos seus cultivos serem altos, mas Nastácia era apenas um quarto reino que desconhecia as mudanças climáticas e nem possuía a alta resistência do quinto reino.

 

― Tome. Se cubra com isso ― Rael ofereceu a Nastácia um de seus sobretudos, que aceitou prontamente. Ela ainda não tinha olhado ao redor, assim, não havia notado as outras duas companhias. O sobretudo ficou folgado nela, mas a ajudou a conter um pouco o frio que sentia.

 

― Obrigada ― enquanto agradecia pelo agasalho improvisado, ela olhou para as pessoas ao redor, encontrando primeiramente Isabela. Isabela era considerada linda mesmo a vista da princesa, e por isso ela ficou um pouco abismada. Mesmo que Isabela não fosse páreo a sua beleza, ainda não ficaria muito atrás dela e isso a surpreendeu. Isabela era muito mais bonita que a mais bela de todas as suas servas.

 

― Essa é a mesma mulher que esteve com você antes? ― perguntou Violeta com uma mão no queixo, enquanto analisava minuciosamente a moça. A aparência da princesa era irrefutável e o seu cultivo também, ela estava no mesmo bendito quarto reino, com dois níveis a mais que a moça encontrada anteriormente. Antes ela era um quarto reino nível 3, e agora ela estava no nível 5. Seria normal ela ter tido um aumento em seu poder.

 

                O fato que fez Violeta duvidar era que agora essa moça a frente era muito fácil de ser lida. Medo, curiosidade, surpresa estavam estampados no rosto dela.

 

                Nastácia agora encarava Violeta como se duvidasse que a mesma existisse. Mesmo as servas mais belas que cuidavam dela, jamais chegariam aos pés de Violeta. Até Nastácia se sentiu inferior em termos de beleza. Vale lembrar que as mulheres geralmente costumam achar as outras naturalmente mais bonitas que elas mesmo pelo simples fato de já estarem acostumadas com a própria beleza. O fato é, se colocassem Violeta lado a lado com Nastácia, ninguém saberia escolher direito qual seria a mais bela.

 

― Ela perdeu as memórias novamente. Acho que é por isso que ela está tão confusa assim ― disse Rael, que não tinha a menor ideia da verdade.

 

― Você já testou o corpo dela alguma vez? ― perguntou Violeta e levou a mão para a cabeça da jovem, que não reagiu. Nastácia podia sentir um enorme poder em Violeta e Isabela, ambas pareciam ser mais poderosas que o seu salvador.

 

                Com a mão de Violeta em sua cabeça, Nastácia rapidamente olhou na direção de Rael, como se clamasse por ajuda ou algum tipo de conforto.

 

― Essa é a minha mestra, ela não vai ferir você. Fique calma ― disse Rael.

 

                Quando Rael explicou isso, Nastácia olhou Violeta mais uma vez enquanto sentia a energia poderosa de Violeta inspecionando todo o seu corpo. Dessa vez não aconteceu nada, para Violeta, era como se o escudo tivesse desaparecido e a violadora pôde sentir tudo. Essa princesa a frente não era nenhuma renascida, e não passava de uma jovem e simplória cultivadora do quarto reino.

 

― O escudo não está mais no corpo dela ― disse Violeta, retirando a mão.

 

― O quê? ― perguntou Rael surpreso. Isabela e Nastácia não faziam ideia do que se tratava.

 

― Princesa Nastácia, olhe bem nos meus olhos agora ― conforme Violeta disse, os olhos dela se tornaram mais brilhante enquanto uma estrela escura surgiu girando dentro de sua íris. Nastácia fez o que ela pediu e ficou observando a estrela girar, enquanto sua mente aos poucos foi se nublando e a tornando inexpressiva, como se ela não tivesse mais qualquer vontade própria.

 

― Agora você está sob o meu controle e vai responder a todas as minhas perguntas ― disse Violeta. O olhar relaxado e despreocupado de Nastácia mostrava que ela estava sem dúvidas sob o controle de Violeta.

 

― Me diga, quem é você? ― foi a primeira pergunta.

 

― Eu me chamo Nastácia Orany, tenho dezessete anos e sou filha do imperador do Continente Norte, Nero Orany― respondeu ela o mais simples possível, mas foi o necessário.

 

― Você já viu esse jovem anteriormente? ― perguntou Violeta e apontou para Rael. Nastácia direcionou o olhar para Rael e depois voltou-se para Violeta enquanto respondia, sempre com uma expressão indiferente.

 

― Eu nunca o vi antes de hoje ― respondeu ela.

 

                Se Nastácia realmente teve suas memórias apagadas, naquele momento durante a hipnose tudo viria a tona. Ela diria tudo o que tivesse armazenado em sua mente, mas esse não foi o caso.

 

― Você tem alguma irmã parecida com você?

 

― Sou filha única ― disse ela.

 

― Já esteve no Continente Sul? Alguma vez você saiu da sua cidade?

 

― Eu nunca estive no continente Sul e nunca sai do castelo imperial ― disse ela no mesmo tom. Os olhos de Nastácia permaneciam inexpressivos enquanto encarava Violeta, ela ficava apenas esperando por mais perguntas.

 

                Com essas respostas, ficou claro que Nastácia e Andréa não eram a mesma pessoa.

 

― Espere um pouco, princesa Nastácia ― disse Violeta, dando-lhe outra ordem. Nastácia não fez qualquer sinal, apenas ficou parada esperando como foi ordenado, enquanto Violeta se virava para Rael.

 

― Essa não é mesma pessoa que salvou a sua vida e que esteve com você antes. Ela não tem aquele escudo, muito menos as memórias de vocês ― explicou Violeta.

 

― Isso é impossível, Violeta! Como poderia ser outra pessoa?

 

― Uma vez hipnotizada, eu tenho acesso até das memórias guardadas inconscientemente. Se alguma vez ela tivesse cruzado com você e não se lembrasse, nesse momento ela diria. Estou dizendo a você, essa mulher parece ser a mesma daquele tempo, mas não é ― Violeta deu garantia que não era a mesma.

 

― Se não é ela, então quem era? ― perguntou Rael entrando em um estado de confusão.

 

― Você deve ter notado a diferença dessa moça para aquela, não? Essa princesinha é um livro aberto. Eu posso saber quase tudo que ela está pensando apenas em olhá-la nos olhos, e o que não souber é só eu perguntar e ela me dirá. Ela não tem experiência de vida e portanto parece assustada ou curiosa a respeito de tudo. A mulher daquele tempo tinha um olhar mais frio e difícil de distinguir, não dava para saber o que ela pensava e consequentemente suas ações eram imprevisíveis. As duas são bem diferentes ― disse Violeta.

 

                Isabela, que não estava por dentro de todo o assunto, ficou apenas esperando em seu canto enquanto olhava de Violeta para os demais.

 

― Se não era ela naquele tempo, então quem era? Existe algum meio de uma pessoa tomar a aparência de outra? ― perguntou Rael.

 

― Existem vários, mas ou eu ou você teríamos descoberto facilmente esses métodos ― disse Violeta, se virando de lado.

 

― Eu ainda não acredito nisso ― disse um Rael relutante, mas ele já estava começando a ceder.

 

― O escudo devia estar naquela versão dela por alguma razão. Eu penso que seja para proteger a verdadeira identidade da pessoa que tomou a forma dessa princesa ― disse Violeta parecendo pensativa.

 

                Aquilo começou a assustar um pouco Rael. Se por esse tempo todo ele não estava com a princesa Nastácia, então quem seria aquela mulher?

 

― Mas só podia ser ela! Olha, pergunte sobre uma marca de meia lua vermelha embaixo do umbigo. Veja se essa daí a possui ― Rael voltou a questão que ele tinha feito a princesa.

 

                Violeta fez a pergunta como Rael pediu e Nastácia confirmou. Ela até mesmo levantou o vestido junto ao sobretudo para exibir a marca para Violeta. É claro que isso a fez exibir sua calcinha amarela de bolinhas brancas. Suas belas pernas sensuais foram completamente expostas junto a coxas de tirar o fôlego. De lado, Rael acompanhou todo o processo e do outro Isabela também, mas essa estava rígida com um olhar frio travado em Rael por estar de certa forma se aproveitando da hipnose daquela princesa inocente. Rael viu o olhar de Isabela e rapidamente entendeu. Se essa não era a mesma mulher, então ele não tinha nada com ela. Isso o fez se virar e olhar para outra direção em respeito a jovem princesa, embora já tivesse visto uma bela visão daquele corpo em outra ocasião.

 

Por mais inocente que parecesse essa cena, ainda era algo que faria homens normais perderem a voz e, para os mais fracos de espírito, a sanidade, porque a princesa semi nua era como uma deusa da beleza. Seu corpo tinha curvas perfeitas, uma pele macia, branca e quase brilhante. O corpo dela não condizia com sua personalidade simples. Ainda mais em um estado de hipnose.

 

― Já pode baixar... ― disse Violeta, após ela mesma ver a tal marca ― Parece que você foi bem longe com essa versão hein, Rael ham ham!... ― Violeta olhou para Rael enquanto o jovem disfarçava olhando para a paisagem da cidade abaixo, Nastácia já havia baixado o vestido e o sobretudo conforme Violeta pedira.

 

― Mas ela tem a marca que eu descrevi, não tem? Isso prova que eu estou certo ― disse Rael em sua defesa.

 

― Ela já disse que não tem irmã e que não esteve no Continente Sul. Você foi enganado, Rael. Alguém usou a aparência dessa princesa e se passou por ela para te enganar. Eu estava certa ao mandar você a se afastar daquela mulher, assuma isso de uma vez ― disse Violeta.

 

                Rael sentiu um frio na barriga porque de fato sua mestra poderia estar certa.

 

― Mas... E a marca, como explicar isso?

 

 

― Se alguém pegou a forma e aparência dela, porque não poderia ter a sua marca também? ― perguntou Violeta, deixando Rael ainda mais inconformado.

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Capítulo patrocinado por: Leonardo Schmidt




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