O Herdeiro do Mundo

242 - Prioridades

Como Rael mesmo havia dito, agora ele tinha total controle do portal. Com apenas um movimento de mão o portal se abriu completamente diante de Emilia, esse portal liberava a passagem de Emilia para o mundo paralelo.

― Isso é injusto porque posso nem voltar viva, e ainda por cima não posso te dar um simples beijo. ― Emilia não deixou de reclamar diante do portal. Ela tinha acabado de liberar a barreira que havia colocado antes de deixar a ilha com Ralf.

― Emilia, você não vai morrer, não existe nenhum outro poder que equiparasse ao de uma violadora do outro lado.

― Você já parou para pensar que pode haver uma outra violadora presa no outro mundo além de mim e Violeta? Tipo a do vulcão que você pretende libertar desse lado. ― Emilia lançou a pergunta. Se no outro mundo teve outra Violeta, porque não teria uma segunda violadora no vulcão?

― Mesmo que haja outra de vocês lá, eles não chegariam perto das lavas, os devoradores não suportariam o calor extremo. ― disse Rael.

― E se a devoradora Violeta a libertou antes de invadir o nosso mundo?

― Eu acho improvável, ela não teria como adivinhar onde estaria a outra de vocês e, se isso tivesse realmente ocorrido, por que ela não a trouxe como reforço? Violeta devoradora era tão inteligente como a nossa e não ia medir esforços para facilitar a sua própria vida. ― disse Rael convicto. A verdade é que Violeta e Emilia já haviam falado sobre isso e Emilia já sabia a resposta, mas ela queria saber o quanto Rael se preocupava com ela. Ela queria se sentir como Rika se sentiu naquele dia quando foi protegida e salva. Embora Emilia tivesse certa experiência nesse mundo, ela nunca se apaixonou por um homem com uma razão dessas, obviamente ela queria se sentir como seria.

― Que pena que você tem a mesma resposta... ― disse Emilia desanimada, achando que poderia fazer Rael pensar diferente.

― Emilia, eu me preocupo muito com você, mas eu sei que você é forte e que do outro lado não há nada que possa te machucar, por isso fico tranquilo vendo você partir para esta missão. ― disse Rael, e sem dizer mais nada lançou um abraço acolhedor sobre a mulher. Abraçar era o máximo que Rael poderia fazer como uma despedida para com a violadora.

― Não foi como eu esperava, mas obrigada. ― disse Emilia satisfeita e os dois se soltaram.

― Por favor, se cuide. Caso seja ferida, volte imediatamente para eu te curar, um ferimento deles é praticamente irreversível. ― explicou Rael.

― Eu sei, eles não vão encostar em mim. Em no máximo duas semanas eu já estarei de volta e, até lá, quero ver a minha terceira irmã. ― disse Emilia. Depois de acenas em despedida, a violadora cruzou o portal. O portal brilhou se abrindo um pouco mais quando ela entrou e desapareceu, depois o portal voltou a sua forma normal, permanecendo aberto.

Rael esperou alguns segundos, então ele estendeu a mão e a fechou no ar em um movimento lento enquanto mantinha o olho no portal. Junto ao movimento da mão de Rael, o portal se fechou e agora não restava mais nada. Com Rael controlando o seu poder, não havia mais nenhum risco do portal se abrir sozinho, agora ele podia controlar a abertura e fechamento do portal.

Com Ralf em outro nível, Rael chegou rapidamente ao clã Sarbaros e fez sua visita ao passar um pouco de tempo com cada um de seus discípulos.

― Parabéns, Janete! Você está indo muito bem! ― elogiou Rael para a mulher de aparência um pouco triste. Rael vinha notando que ela estava meio para baixo. Mesmo com sua família reunida, Janete não parecia estar muito satisfeita.

― Algum problema?

― Não, nenhum. Desculpe parecer estranha ― ela disse sem jeito e se afastou de Rael.

Minutos depois, era vez de Beatriz. Com a queda do clã Sangnos, Thais não encheu mais Rael com suas preocupações, mas mesmo assim Beatriz passou a residir na residência de Ana.

― Como esperado da filha de um antigo patriarca, você já está perto do nono reino! Parabéns! ― elogiou Rael. Beatriz tinha o cultivo melhor do que os outros discípulos com os mesmos benefícios. Rael sabia que isso era porque a moça era muito mais esforçada.

― Obrigada pelo elogio ― a moça respondeu de volta enquanto corava, quando ela ficava perto de Rael sempre se mantinha um pouco envergonhada, o sentimento de primeira paixão crescia cada vez mais no coração na garota. No fim, um homem que passava proteção para as mulheres tinha de fato o efeito de fazê-las se apaixonarem.

― Pois bem, continue cultivando. Irei ver Keylla agora. ― Antes de Rael se virar, Beatriz inesperadamente saltou sobre ele e roubou-lhe um beijo. A moça literalmente teve que saltar e se agarrar ao pescoço de Rael porque ele era muito mais alto, e corajosamente o beijou. A princípio, Rael ficou surpreso com lábios macios da jovem prensados contra os dele, os olhos da moça também se fecharam com força enquanto ela se estremecia de ansiedade.

― Beatriz... ― Rael segurou a jovem e educadamente a afastou de lado, botando-a de volta no chão enquanto ela se soltava dele. A moça estava completamente ruborizada e seu corpo tremia sem parar.

― Eu sinto muito! Eu apenas queria tanto fazer isso... eu... eu não sei o que deu em mim! ― Beatriz estava realmente ansiosa e aflita.

― Não podemos, Beatriz... Não há mais espaço em minha vida pra esse tipo de relacionamento... ― disse Rael, antes que aquilo pudesse tomar proporções maiores. Por mais que Beatriz fosse bonita, ele não tinha planos de se envolver com ela para além da relação mestre-discípulo.

― Eu já sabia desde o começo que você não me aceitaria, mas eu tinha que tentar pelo menos uma vez para ter certeza. ― Beatriz olhou triste para o lado, fugindo do olhar de Rael.

Beatriz ter ficado um tempo com Rose foi o que a levou a desejar se confessar. Rose contar a experiência que tinha com Rael, o tempo junto, as transas, fez a garota pensar que talvez houvesse uma chance de viver aquele momento também.

― Eu sinto muito, não posso mesmo... ― disse Rael baixinho de volta. Ele não podia saber o quão difícil era para uma garota tímida como Beatriz se confessar pra ele.

― No final, é assim que acaba. Desculpe-me por amolá-lo com isso. ― Beatriz se virou com os olhos se enchendo de lágrimas. Era doloroso ser dispensada pela sua primeira paixão. Rael a deixou partir em silêncio. Ele aos poucos ganhava algum conhecimento na área amorosa, mas não podia prever nem imaginar todos os cenários possíveis. De alguma forma, ele sentiu que precisava ir atrás a moça, mas não sabia o que deveria dizer para ela.

― ‘Acho que devo procurar ajuda antes de tomar alguma atitude.’ ― pensou Rael e saiu em busca de Ana. Ele podia pedir ajuda de Thais, mas preferiu Ana por estar mais próximo dela.

Rael encontrou Ana cultivando em um quarto e parou para ouvir Rael que contou sobre o ocorrido. Ana era muito mais vivida nos assuntos e portanto era uma das melhores opções para Rael perguntar.

― O que eu faço, Ana? Eu não quero deixá-la triste, mas não posso ficar com ela.

― No primeiro amor é normal isso acontecer. Ela vai sofrer um pouco pela sua recusa, mas vai ficar bem com o tempo.

― Só isso? Eu devo fingir que não conversamos nada a partir de agora?

― Sim, a maioria das pessoas fazem isso. Vai ser estranho no começo e ela pode querer evitar você, mas não é nada muito sério. Depois de um tempo ela volta ao normal.

― Esse é mesmo o melhor caminho?

― Não. O melhor mesmo é você ter uma segunda conversa com ela, animá-la e dizer coisas positivas. Por exemplo, você pode dizer que ela é bonita, o que é verdade, e também que ela pode conseguir um bom homem, e tudo o mais. Essas são coisas que mulheres odeiam ouvir de quem se ama, mas no fundo sempre fazem um certo bem.

― Então por que não me disse isso logo no início? ― perguntou Rael, entendendo o ponto de Ana.

― Porque, se você ta me perguntando isso, é porque não vai fazer ideia de como agir com aquela menina, seria melhor deixar tudo isso de lado. Depois de um tempo ela ficará normal.

― Tudo bem. Obrigado pela dica. ― disse Rael e saiu fechando a porta deixando Ana de volta em seu cultivo.

Antes de tomar alguma atitude em relação a Beatriz, Rael foi de encontro a Keylla. Keylla estava em sua personalidade normal. Os dois conversaram um pouco e Rael contou as suas próximas metas. Ele disse que libertaria uma nova violadora, casaria com a princesa Anita para futuramente assumir o poder do império e em seguida iria procurar e resgatar Isabela.

― Não acha que deveria primeiro procurar por Isabela? Ela não é mais importante que todo o resto? ― Keylla perguntou. Mesmo ela em seu estado normal parecia ter consciência sobre isso.

― Sim, ela é. Mas há outras razões para eu escolher fazer as coisas dessa maneira. Se eu fosse agora, precisaria de muita ajuda e nem teria o poder de protegê-la. Violeta disse que não quer sair do esconderijo por alguns dias e Emilia teve que fazer uma coisa que era prioridade para não haver problemas no futuro. Sem mencionar que o casamento não está longe e eu devo ficar por perto da capital até lá. Isabela também sabe se defender e ela ficará bem por mais alguns dias até eu poder ir de fato buscá-la. E eu também estou perto de concluir a minha vingança.

― Entendi... ― disse Keylla, apesar de não ficar completamente satisfeita. Sendo uma guardiã, ela também se sentia preocupada com a sua parceira. Ver Rael elevando outras prioridades em vez de ir salvar Isabela não fazia ela se sentir muito bem.

― Eu tenho uma última coisa para resolver e depois partirei. ― disse Rael se afastando de Keylla.

― Se cuide. ― disse Keylla timidamente. Os dois se olharam e Rael deixou aquela bela mulher sozinha novamente.

Rael encontrou Beatriz escondida em um jardim de uma casa abandonada. A casa estava sendo guardada por Ana para ser usada por futuros moradores que Rael trouxesse.

― Beatriz... ― disse Rael chegando ao lado. A moça, que estava sentada de costas para a parede do jardim se levantou em um pulo. Ela rapidamente começou a limpar os olhos, tentando evitar que Rael notasse o quanto ela havia chorado.

― O que quer? ― perguntou ela, porque Rael tinha ficado esperando ela se recompor.

― Eu me sinto responsável por você. Não queria deixar você assim.― disse Rael.

― Você já me deu sua resposta. Como esperava que eu iria ficar? Eu não consigo sorrir depois do que você me disse.

― Beatriz, você é uma moça linda. Eu tenho certeza que você pode consegui um bom homem.

― Se eu usar meu antigo status de ter sido filha de um poderoso patriarca eu vou conseguir sim, nada além do que um monte de babacas interesseiros!

― Por que acha que sou diferente?

― Porque você é! Você me ajudou por uma vingança pessoal e cuidou bem de mim desde então. Você melhorou bastante o meu cultivo, me salvou e libertou-me do meu próprio pai, e sem contar tem pessoas boas e confiáveis ao seu redor. E tudo isso sem mencionar que você é muito forte, bonito e tudo mais... ― Beatriz parecia se derreter quando falava das qualidades de Rael.

Rael pensou em como Isabela iria ficar chateada sabendo que Rael deixou a irmã dela naquele estado. Mas o que ele poderia fazer? Ele não podia fingir alguma coisa que não sentiria pela jovem.

― Beatriz você pode me odiar por um tempo por dizer não a você, mas ainda é a minha discípula e eu vou continuar te apoiando e cuidando muito bem de você. Além disso, você também é a minha cunhada. ― lembrou.

― Você não está com raiva de mim por ter te beijado à força antes? Não ficou com raiva por eu demonstrar esses sentimentos?

― Com raiva? É claro que não! Eu estou é feliz, vendo que você está bem mais corajosa. Você sempre foi muito tímida, e o que você fez antes demonstrou coragem.

― Coragem...

― Sim, coragem. Eu ainda não tenho muito entendimento sobre essas coisas amorosas, mas eu sei que você vai encontrar uma boa pessoa em sua vida.

― Obrigada por não ficar com raiva... ― disse ela sem jeito e limpou novamente os olhos.

― Você vai ficar bem? ― perguntou Rael.

― Vou. Eu fiquei com medo que você tivesse se irritado comigo. Obrigada por falar comigo.

― Está tudo bem, Beatriz. Eu preciso ir, então, até mais.

Depois de se despedir, Rael voou com Ralf para o vulcão. Agora com Ralf, toda a viagem era bem mais rápida agora.

Ralf teve que desaparecer à cerca de um quilômetro antes de aproximar do vulcão. Ralf não aguentava o calor, assim como quase ninguém sem o registro de Alexia aguentaria.

Rael encontrou Neide cultivando na beirada do vulcão como sempre. Quando ela percebeu a chegada de Rael, abriu os olhos e encarou o rapaz a frente.

― Você apareceu. ― comentou ela com um ar sério.

― Sentiu minha falta? ― Rael perguntou e sem dizer nada deu um beijo no rosto de Neide como uma forma de cumprimento. Neide sorriu satisfeita depois que o jovem afastou o rosto.

― Esse lugar é um pouco solitário sem você e as meninas. ― disse Neide.

― Imagino que você aproveitou bem esses dias. Em que nível está agora? ― Rael não podia sentir o nível de Neide, ele só podia sentir 2 reinos a frente do seu. Sendo um nono reino,o rapaz só podia sentir os níveis de um décimo primeiro reino, no máximo.

― Eu estou no nível 7, consegui mais um nível. ― disse Neide com satisfação.

― Isso é maravilhoso! Com mais três níveis, você chegará ao ápice.

― Sim, e tudo graças a esse lugar. Meu cultivo está extremamente acelerado, genro, é como se aqui o meu poder aumentasse em duas ou três vezes além. ― explicou Neide.

― Tio Rayger não deve estar muito feliz com a distância... ― observou Rael.

― Ele também conseguiu um nível esses últimos tempos, está no quarto nível agora. ― disse Neide.

― Isso é bom. ― disse Rael, e se virou a olhar para o vulcão abaixo: ― Agora vou começar. Me sinto um pouco mais forte, então acho que devo conseguir cultivar mais fundo do que eu estava antes.

Rael estava certo, ele conseguiu pula para a pedra de número 48 que demonstrava 96% do caminho total.

 

― Ótimo! Eu vou conseguir libertar você antes do casamento, como o previsto. ― disse Rael satisfeito, encarando o poço de lava já quase aos seus pés e imediatamente começou a cultivar.

________________________________________________________________________________
Capitulo patrocinado por: João Pedro Ewald