O Herdeiro do Mundo

241 - Voltando a Ativa

No salão das bestas, Rael se encontrou com Ralf, que veio correndo assim que o viu e o encheu de lambidas.

― Calma, amigão! Eu to de volta, calma... ― Rael tentou se proteger do enorme tigre dourado que o cercava extremamente animado. Depois das lambidas, Ralf parou e estufou o peito, deixando uma expressão séria no rosto enquanto parecia olhar para cima de nariz empinado. Ele queria que Rael percebesse o seu novo rank conquistado.

― Rank S+? Uau! Você evoluiu bastante, hein! ― Rael disse admirado enquanto batia a mão na pata da frente de Ralf. Agora que Ralf tinha crescido mais, Rael tinha a impressão de ter ficado mais baixinho.

O elogio de Rael encheu Ralf de alegria, que abandonou a pose e começou a rebolar a cauda e circulou Rael com muito mais lambidas. Rael brincou um pouco com a enorme besta, afinal, Ralf estava com saudades e há muitos dias sem vê-lo.

― Tudo bem amigão, volte para mim. Iremos dar uma volta. ― disse Rael e Ralf obedeceu, se tornando energia pura e sumindo ao tocar Rael. Emilia, que seguia Rael, ficou esperando um pouco atrás sem se intrometer.

Assim que Rael saiu da caverna, a primeira coisa que ele fez foi apertar o pulso direito e fechar os olhos. Concentrando seu poder em sua guardiã Isabela, ele rapidamente sentiu onde ela estava. Isabela estava no continente Norte, como ele previa. Com os olhos fechados, ele teve algumas visões das coisas que ocorreram com ela, como se pudesse ver uma parte do passado da moça e o quê a levou a esse lugar. Com sua mão direita fechada estava o símbolo em forma de 8 queimando enquanto a ligação com os dois se seguia.

Isabela, naquela manhã, estava em uma floresta escondida. Ela tinha saído da cidade a pouco tempo depois de mais uma tentativa inútil de conseguir uma marca. A missão dela nesse momento era se proteger até ficar mais forte e poder retornar para Rael. Como uma guardiã, ela não sabia que era mais forte que o seu protegido, mas ela tinha seus próprios instintos.

Isabela estava bem, não tinha ferimentos e não estava passando por nenhuma necessidade que fizesse Rael se apressar para salvá-la. Embora ela corresse um risco eminente de ser capturada pelas leis do Continente Norte, ela não corria risco nenhum de ser pega por Romeo. Atravessar todo o continente não seria trabalhoso para as violadoras, mas seria para Rael, que queria buscá-la pessoalmente. Ele agora tinha como se fosse um mapa em sua cabeça, indicando a localização exata da bela guardiã.

Isabela era importante, mas ter um poder maior para facilitar essa busca também era. Se Rael fosse agora, atualmente ele só iria conseguir enfrentar com dificuldades décimos segundos reinos sem o contrato da alma com Rose, e mesmo com o contrato, ainda poderia dizer que não seria tão fácil. Rael também ia precisar da ajuda de uma violadora para passar seguro pela zona perigosa de travessia dos continentes.

Violeta disse que tinha que ficar uma violadora no esconderijo, o lugar não poderia ficar abandonado. O fato é que Rika não podia ficar sozinha, seja lá a razão qual fosse, uma violadora precisava permanecer lá.

As prioridades estavam em aumentar seus números e cuidar dos devoradores. Enquanto Isabela estivesse bem e pudesse aguentar um pouco mais, então seria o suficiente.

― ‘Isabela, está me ouvindo? Sou eu, Rael!’ ― pensou Rael, mantendo os olhos fechados e se concentrando. Isabela não tinha anel, mais tinha a ligação de ser a guardiã do rapaz.

Há milhares de quilômetros, Isabela estava sentada de costas a uma árvore, analisando algumas pedras da alma na mão. Ela não tinha muito o que fazer, então passava a maior parte do tempo assim parada quando não estava tentando conseguir um jeito de receber a marca do continente Norte. Ao ouvir a voz de Rael, ela se levantou apressada e circulou o olhar em volta com um certo receio. Embora a voz tenha soado na cabeça dela, ela não notou porque não estava usando nenhum anel de comunicação. Mas ainda assim ela reconheceu um pouco a voz do jovem que há tanto tempo não ouvia.

― Rael, é você? Onde você está? ― A possível voz de Rael já fez o coração da moça disparar. Isso era algo natural devido a ligação deles. A mão direita de Isabela estava brilhando e ela só percebeu um pouco depois de senti-la esquentando. O símbolo 8 estava ali pulsando enquanto Rael falava, o que a fez ficar olhando por um tempo.

― ‘Eu não estou perto de você. Estou muito longe e estou falando pela sua mente. Sei que está passando por dificuldades, mas aguente um pouco mais. Eu irei te buscar assim que possível. Evite as cidades e esqueça essa marca, você não vai precisar passar muito tempo aí.’ ― disse Rael mentalmente.

Para Rael que ouviu perfeitamente a resposta de Isabela mesmo sem ser em pensamento, era como se ele estivesse parado ao lado dela pessoalmente, como se estivesse a vendo na sua frente e vendo também tudo o que ela via. Esse era o tipo de ligação que Rael tinha descoberto com suas guardiãs.

― E você?Está bem, Rael? Eu tenho... Tenho... Saudades. ― disse Isabela um pouco angustiada, encarando a marca na mão com se fosse por ali que eles estivessem se comunicando. Embora ela não tinha certeza, ela acreditou que essa marca poderia mesmo ter ligação com Rael.

Isabela havia perdido seu mestre e fez uma lápide às pressas depois de fugir. Agora, a moça não tinha mais ninguém, a não ser a vontade insana de sobreviver e tentar voltar para se encontrar com Rael. No começo era difícil admitir e ela não queria dar o braço a torcer, mas quanto mais ela pensava, mais vontade ela tinha de ficar com Rael. E ele nem mais precisaria ordenar para ela se entregar. Podia-se dizer que no início a ligação dos dois estava fraca e agora estava muito mais poderosa. Conforme Rael recuperava seu poder isso ia ficando ainda maior.

― ‘Eu estou bem. Em alguns dias eu irei te buscar, por isso peço que aguente e se mantenha escondida, em breve iremos nos reunir.’ ― pensou Rael. As palavras de Rael acalmaram o coração da moça, que tinha sido turbinado exatamente por ouvi-lo.

― Eu irei esperar, mas pode me dizer de que forma está falando comigo?

― ‘Você me pertence, Isabela, sabe disso. Nós estamos ligados pelo destino. Eu conto o resto quando eu for te buscar, tudo bem? Se cuide e não se arrisque.’ ― disse Rael.

― Espere...

― ‘Eu não posso manter essa conexão por muito tempo porque gasta muita energia, mas vou falar com você esporadicamente de vez em quando.’ ― pensou Rael, já começando a suar.

― Vou esperar você. ― disse Isabela compreendendo.

Devido a distância, Rael gastava muita energia na comunicação, por isso ele teve que cancelar essa concentração rapidamente.

Emilia estava próximo, à uns sete metros, esperando Rael. Eles iriam até a caverna da ilha, onde Rael abriria o portal para Emilia cumprir a sua tarefa. Violeta ficaria em casa e, em seguida, Rael planejava cultivar por mais alguns dias. Faltava poucos dias para o seu casamento com Anita, mas ele só precisava aparecer nos últimos dias. Agora só restava Mara chegar, ela já tinha avisado que estava a caminho pelo anel.

―Rael! ―uma voz gritou e uma bela mulher morena desceu dos céus, já parando na frente de Rael. A mulher tinha belos olhos azuis, cabelos lisos, longos e escuros, um corpo atraente e voluptuoso, contendo um peso natural e belas curvas. Essa mulher era definitivamente a sua amada Mara.

― Mara! ― Rael disse satisfeito quando foi envolvido pelo abraço da bela moça, abraçando-a de volta.

― Eu vim assim que soube que você acordou. Eu tive saudades! ― disse ela.

― Eu sinto muito por ter deixado você sozinha por esse tempo, mas ainda vou ter que te deixar um pouco mais. ― explicou Rael.

― O que aconteceu? Estamos com problemas?

― Eu preciso libertar a terceira violadora, preciso ir no casamento que se aproxima a passos largos, preciso resgatar Isabela e, também, resolver o problema com Natalia.

― O que há com Natalia? Ela me parece bem pra mim... ― perguntou Mara.

― Ela pode estar amaldiçoada. Estou esperando Alexia retornar para conferir isso.

― Amaldiçoada? Como? Nós sempre estivemos com ela e nunca vimos nada de estranho ocorrer.

― Sim, é verdade, mas é uma questão diferente. Não é uma simples maldição, é algo que vai além do nosso entendimento.

― Mesmo seus poderes não podem ajudá-la?

― Não...

― E essa maldição pode tirar a vida dela?

― Eu ainda não sei, Mara. Por isso estamos contando com você para quando Alexia voltar, você avisá-la e a trazê-la aqui.

― Eu fico o tempo todo sozinha naquela casa agora. Estou com saudades de você, saudades dela, de tudo... ― disse Mara, com um ar triste.

― Quando Alexia voltar você poderá passar um tempo aqui até Natalia voltar, está bem? Até lá, por favor, aguarde em casa, como foi pedido. ― disse Rael.

― Está bem. ― a mulher relutou um pouco antes de aceitar. Um tempo depois, ela estava vendo Emilia esperando-o a alguns metros.

― O que vai fazer agora?

― Vou mandar Emilia pelo portal para o outro mundo. Ela irá destruir o restante dos devoradores para evitar futuras surpresas. Depois, farei uma visita ao clã Sarbaros e em seguida irei cultivar no vulcão. Eu preciso libertar a terceira violadora o quanto antes. ― Rael não escondeu nada de Mara.

― Minha mãe está cultivando lá, é uma pena que não posso ir... ― disse Mara.

― Alexia aparecerá logo, ela disse que demoraria um mês ou um pouco mais que isso, e já se passou um bom tempo desde então. ― disse Rael.

― Sim, eu vou continuar esperando e cultivando em casa mesmo. ― concordou Mara.

A velocidade de Ralf era maior que a de um cultivador do reino final. Mesmo Neide não seria mais capaz de se equipar a velocidade de voo de Ralf. A única que poderia ter uma chance de voo parecida seria Rika. As violadoras ainda ganhariam com facilidade se ficassem sérias.

Enquanto voava em Ralf, Rael ocasionalmente lançava olhares para Emilia. Ele se lembrava de sua forma monstruosa. Era difícil imaginar que uma mulher tão bela, tão atraente e tão incrível, pudesse virar um monstro daqueles.

― Rael por que você ta me olhando tanto assim? Por acaso você finalmente teve desejos por mim? ― perguntou a mulher, que estava voando do lado e repentinamente avançou por cima, se sentando na frente de Rael, mesmo com Ralf mantendo aquela rápida e constante velocidade de voo. Com Emilia se sentando na frente, as mãos de Rael foram puxadas para a cintura dela.

― Emilia?! ― Rael ficou curioso com essa ação dela. A pílula diminuía quase que completamente o desejo dela por Rael, por isso era estranho vê-la tomando tal ação.

― Qual é o problema? É só uma mão na cintura, o que não podemos é nos beijar. ― lembrou Emilia com um leve sorriso, olhando de lado. Depois, ela se virou para frente deixando as costas relaxarem em Rael.

― Você quer mesmo fazer isso? Acha que os devoradores não podem pegar você de surpresa? Ou em números? ― Rael ficou preocupado a medida que se aproximavam da ilha. Emilia quase morreu antes, e mais uma vez estaria indo arriscar sua vida.

― Eu devo fazer isso, sou a melhor para esse serviço. Os devoradores sem o apoio de uma violadora não são nada a não ser um monte de lixo sem direção. Com minhas barreiras, eles jamais chegariam perto de mim.

― Não se esqueça de manter contato usando os sonhos, e quando estiver voltando me avise com antecedência para que eu possa voltar a tempo de abrir o portal para você. ― lembrou Rael.

― Rael, nesse meu estado, você pode dizer que eu estou praticamente no meu natural, não pode? ― perguntou a violadora de repente.

― Acho que sim... ― concordou Rael.

― E se eu escolher você mesmo nesse estado, não seria como Rika te escolhendo quando ela ficou apaixonada? ― Emilia queria saber a opinião de Rael, por isso ela virou o rosto, encarando-o de lado. Conforme o vento batia, Rael podia sentir o cheiro de ervas dos cabelos de Emilia que estavam de lado, e também o cheiro agradável de algum agradável creme que tinha passado na pele.

― Isso não conta, Emilia. Mesmo nesse estado, ainda há uma pequena parcela da maldição trabalhando em você. ― observou Rael.

― E daí se há? Se for o meu desejo, você não precisa pensar que seja por causa da maldição.

― Eu estou ficando mais forte, e em breve poderei libertar vocês definitivamente. ― disse Rael.

― Você estava mais forte momentos antes de apagar, no momento em que destruiu a devoradora. Agora, você é apenas o Rael antigo e de volta ao normal. ― disse ela um pouco desanimada e virou-se de volta pra frente. Emilia ainda era uma mulher, e por isso era natural que ela sempre tivesse desejos, mesmo que não fosse tão forte como antes da pílula.

― Está errada, minha compreensão aumentou. Eu agora posso sentir minhas guardiãs e eu posso controlar os portais, isso eu não podia fazer antes. Também não se esqueça que a biblioteca agora não é apenas a biblioteca, agora é um mundo que está revelando coisas que antes não tinha. Tudo isso indica que estou ficando mais forte.

― Está sim, mas o poder que demonstrou naquele dia já estava a um nível bem avançando. Para mim, é como se você avançasse e depois retrocedesse. Triste realidade. ― explicou Emilia sem se virar.

Emilia não estava provocando Rael, ela estava dizendo a verdade. O poder de Rael naquele momento era como o de um deus. Se ele tivesse despertado de volta com aquele poder, nada poderia segurá-lo, ou quase nada.

― Aquele poder, que vocês afirmam que eu usei, foi tão forte que consumiu minha vitalidade temporariamente. Não era algo natural que meu corpo suportaria, por isso eu dormi por vários dias. Mas eu prometo a você, eu ficarei ainda mais forte que aquilo e libertarei vocês! Pode apostar!

― Tudo bem, Rael, me desculpe. Eu não queria parecer insensível. É que me sinto solitária as vezes... ― disse Emilia, se virando após Rael dizer isso.

 

― Quando eu acabar com a maldição, eu irei querer ouvir a sua verdadeira resposta. Então, nessa hora, nada mais irá nos separar. ― disse Rael firmemente para aquela maravilhosa mulher. Emilia sorriu um pouco satisfeita e voltou a olhar para frente, se escorando novamente em Rael. Isso o fez se lembrar de Andréa. Se Andréa estivesse voltado alguém já teria lhe avisado, por isso ele nem se deu o trabalho de perguntar sobre aquela moça misteriosa.

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Capítulo patrocinado por: Joao Pedro Ewald