O Herdeiro do Mundo

232 - Luta contra os Devoradores

Rael chegou silenciosamente, se escondendo entre alguns arbustos de forma a ocultar a sua presença. A frente estava Rita parada e, do outro lado, uma mulher que Rael ainda não via totalmente devido algumas vegetações pelo caminho, mas Rael sentiu que era um décimo reino.

Se aproximando com mais cuidado, Rael finalmente pôde ver que era Natalia. Embora essa versão parecia estar um pouco mais nova como quando na época que Rael a reencontrou na primeira vez de volta para o clã.

― ‘Natalia!?’ ― Rael pensou surpreso. Ele controlou rapidamente o nervosismo, se lembrando que sua Natalia estava segura e em casa. Sendo o caso, essa Natalia era do outro mundo, tanto a força quanto a aparência quase fizeram Rael pensar que era a sua segunda esposa. As duas eram parecidas, exceto que a de Rael já tinha um corpo bem mais evoluído.

Embora cultivadores não envelheçam rapidamente, eles ainda se desenvolvem para a forma adulta em 18 anos como uma pessoa normal. Quando completam 18 anos, seus corpos demoram mais a envelhecer, e a partir desse ponto que muitos ficam por anos mantendo uma aparência tão jovem. Mas, com os devoradores nem sequer há um tipo de desenvolvimento. Se forem transformados como crianças, eles permaneceriam como crianças até o fim de suas vidas.

― ‘Por que elas estão paradas aqui? O que estão esperando? O que será que elas querem?’ ― se perguntou Rael. As duas eram devoradoras e por isso não tinham sentimentos. Tudo que elas faziam eram seguir ordens de Violeta.

Rael não conseguia entender o porquê delas pararem naquele local enquanto seus aliados estavam tentando deixar a ilha para se alimentarem. Um sentimento estranho surgiu em Rael quando se lembrou de Rita morrendo em sua frente, depois ele se observou o fim de Rita do outro mundo. Quando ele esteve no outro mundo, soube que Natalia havia morrido, mas não pensou que ela estaria transformada.

― ‘O que será que fizeram com o filho de Rita...?’ ― Rael pensou com tristeza. A barreira criada por Rael não poderia segurar um poder como o de Violeta e, por isso, Rael previa que ela poderia mesmo ter morrido nessa invasão.

Rael segurou uma adaga de Cristal de Ureno na mão direita, mas como estava ansioso por se tratar de duas pessoas que ele conhecia e amava, sua mão começou a estremecer. Ele sabia que essa Natalia não era a sua esposa, mas ainda assim era difícil não pensar sobre isso, porque aquele corpo, aquela aparência, tudo, era a feição da jovem que ele tanto amava. Se Rael quisesse uma luta fácil, ele teria que começar eliminando Natalia, que era um décimo reino, depois terminaria com Rita. Entre as duas, Natalia seria a única que daria alguma resistência a ele:

― ‘Eu tenho que fazer isso, essas duas não iriam ficar aqui se não tivesse um plano por trás!’ ― Rael pensou decidido enquanto se preparava. Ele respirou e ativou duas técnicas de velocidade e, com isso, seria suficiente para derrotar uma devoradora do décimo reino. Pelo menos foi o que ele pensou:

Zuuuup!

Como um vulto, Rael saiu dos arbustos e avançou para as costas de Natalia. Rita estava próxima a ela, a aproximadamente dez metros de distância. Rael avançou com velocidade e, com o braço esquerdo, lançou-a para frente, objetivando derrubar sem esforços. Com a outra mão, ele segurava a adaga preparando o ataque que perfuraria o coração da devoradora com aparência da mulher que ele amava.

― Rael, espere! Não faça isso! ― Natalia gritou enquanto caía no chão sendo pressionada por Rael, que empurrou o peso em cima da garota. Ele conseguiu prendê-la fazendo-a enterrar o rosto na terra e manteve o braço esquerdo empurrando ela contra o chão para não conseguir fugir, com a mão direita ele segurava a adaga prestes a estocá-la definitivamente.

― Rael, não a machuque! Sou eu, Rita! ― disse a outra devoradora com as mãos estendidas, indicando que não queria lutar. Apesar de Natalia estar em desvantagem rendida no chão, ela também não apresentou vontade para lutar e ficou em silêncio.

Naquele momento, Rael ficou em um estado confuso. Pelo que ele lembrava, devoradores não tinham vontade de conversar, não tinham sentimentos e só pensavam na fome. Então, por que elas pareciam saber sobre ele e ainda estavam tentando conversar? Aquilo foi o que fez Rael bobear em não matar Natalia na mesma hora. Com esse pensamento, Rael analisou Rita calmamente, tentando entender essa situação.

― Nós só queremos conversar, não vamos machucar ninguém, eu prometo. ― garantiu Natalia, mesmo com um pouco de dificuldade.

― Nós não vamos machucar você. ― disse Rita ainda com as mãos levantadas. Rita parecia ter um olhar preocupado para Rael que ainda continuava segurando a adaga prestes a golpear a companheira. Se Natalia fosse a primeira a cair, Rita não poderia nem sonhar em tentar vencer Rael. Rael também teve o mesmo pensamento.

― ‘Por que elas estão agindo como se estivessem normais?’ ― Rael se perguntou enquanto continuava empurrando Natalia contra o chão. Essa confusão entre normal e o estado devoradora tinha confundido os pensamentos de Rael.

― Peço que nos escute, estamos apenas querendo conversar. ― disse Rita, que continuava parada em seu lugar mostrando as mãos para Rael, era um claro sinal de que não pretendia reagir.

― Eu estou ouvindo. Agora, comecem a falar. ― disse Rael se mantendo na defensiva. Ele não pretendia soltar Natalia. Se fosse qualquer outro devorador ele já teria matado impiedosamente, mas por se tratar daquelas duas, ele permitiu que falassem.

― Você me ama, não ama? Assim como você também ama Natalia. Existe uma maneira de você nos salvar. ― disse Rita, surpreendendo Rael.

― Continue. ― disse Rael, ainda se mantendo em posição de defesa. Ele não soltaria Natalia tão facilmente, Rael não entregaria uma vitória tão fácil assim. Devoradores eram difíceis de matar e Rael sabia disso. Mesmo sendo um décimo reino, a força de um devorador sempre era um pouco maior que o normal.

― Se nosso mestre for libertado, ele pode liberar quem quiser do contrato de servidão. Dessa maneira nós poderemos voltar ao normal. Rael, por favor, nos salve! ― disse Rita.

― O quê? Isso é... ― Rael continuava cada vez mais confuso. Ele tinha lido todo o livro referente a Cristalandio e não viu nenhuma menção sobre isso, então ele entendeu que talvez as duas estivessem mentindo para ele.

― Sim, nosso mestre pode ser libertado, contato que você nos ajude. Se você nos ajudar então nós seremos libertas e assim poderemos nos amar! ― disse Natalia embaixo. Libertar Cristalandio estava fora de questão, e também não havia métodos de salvar as duas, mesmo com o poder de Rael. Rael tinha lido todas as informações do livro para ter certeza sobre isso. Por isso, a primeira reação dele foi eliminar as duas, não tinha como salva-las. Mas ele não pensou que elas iriam implorar por suas vidas, vidas essas que elas nem mesmo teriam mais.

― Rita, o que aconteceu com Nicolas? ― Rael perguntou, fingindo que estava entrando na conversa das duas.

― Ele foi morto quando Violeta destruiu a barreira que você deixou. Ele foi devorado por vários de nós. ― disse Rita, sem o menor sentimento em suas palavras. Rita parecia falar de um inimigo em vez de um filho querido. Rael, é claro, captou facilmente a falta de emoção dela.

Natalia e Rita tiveram a missão de tentar persuadir Rael para que ele ordenasse Violeta e Emilia a pararem de enfrentar Violeta devoradora. Se Violeta e Emilia desistissem de lutar, iriam esperar o Cristal de Ureno sair do organismo e, assim, ambas seriam transformadas para se juntar ao exército. As duas violadoras dariam um enorme avanço nos planos de Violeta devoradora para libertar o seu mestre. Natalia e Rita estavam obedecendo as ordens de Violeta, e por isso tentavam agindo quase como humanas. Obviamente, elas não conseguiam fazer isso corretamente por causa dos sentimentos que ambas não tinham mais. Violeta deixou uma ordem que elas poderiam dizer muitas verdades a Rael, desde que isso não atrapalhasse no plano. Violeta também previu que Rael iria encontrar as duas e por isso as mandou ficarem separadas dos demais devoradores.

Por Rael ser o libertador de duas violadoras, ele tinha que ser transformado por último, para assim elas não voltarem para suas câmaras. Se Rael fosse transformado de repente, o estado dele seria dado como morto, e dessa forma Violeta e Emilia voltariam de onde vieram. Por essas razões, Natalia e Rita iriam fazer o possível para enganá-lo. O que elas não sabiam é que Rael já tinha lido todo o livro que continha as informações verdadeiras sobre Cristalandio e uma coisa que ele não podia fazer era libertá-las.

― Entendo... Eu sinto muito, Rita. Deveria ter forçado você e seu filho a virem comigo... ― disse Rael um pouco desapontado. Mesmo que aquela parecesse a Rita que ele conheceu, ela não era a mesma. Ela era como uma boneca sem sentimentos com aparência de sua Rita.

― Você pode nos ajudar agora. Peça para as suas violadoras pararem com essa batalha. Nosso mestre é um deus benevolente e ouvirá o seu pedido. ― disse Rita. Para Rita e Natalia, que não podiam entender sentimentos humanos, tudo estava correndo bem e Rael estava caindo na conversa delas como Violeta havia previsto. De acordo com Violeta, Rael amava essas duas mulheres, então era óbvio que ele iria querer a libertação delas, a cura para o vírus devorador.

Rael tremeu segurando a adaga e voltou-se a olhar as costas de Natalia, como se procurasse o local do coração. Ele já estava decidido sobre o que fazer, aquelas duas não iriam enganá-lo com aquela mentira. Antes que Rael pudesse dar o seu golpe, ele viu algo estranho nas costas de Natalia que o deixou arrepiado:

― Isso não pode ser possível... Não você...! ― Rael disse sem querer, deixando as palavras fluírem enquanto seus olhos se arregalavam de surpresa. Rita e Natalia continuaram paradas esperando as ações futuras de Rael:

― Do que você está falando, Rael? Qual é o problema? ― perguntou Natalia, que tinha sentido que o jovem estava assim por causa dela.

― Pode me dizer o que é essa marca em suas costas? ― perguntou começando a estremecer novamente. Ele se lembrava muito bem da conversa dele com Alexia.

― De que marca você está falando? Eu não entendo... Meu corpo tem muitas marcas, e se você não me disser qual especificamente, eu não saberei te responder. ― disse a moça, que ainda continuava sem nenhuma reação. Rita permanecia parada ao lado.

― Esse esqueleto com a boca aberta em suas costas! Eu quero saber, o que ele significa e quando foi que ele surgiu? ― perguntou Rael, tentando conter o máximo de sua aflição. Rael sabia que aquela era a marca do Espectro Sombrio, o monstro por trás do Mundo dos mortos.

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No outro ponto, onde os devoradores correram, a batalha prosseguia. Neide, Rayger, Rika e Keylla não tinham dificuldades em derrubar seus adversários e darem seus golpes finais. Mas o mesmo não podia ser dito do restante. Vários devoradores tinham sido mortos, mas a perda do outro lado também era severa. Em poucos minutos de luta, mais da metade tinha morrido desse lado também.

Keylla lutava com seu clone, seus chakrams e suas estacas de gelo que congelavam completamente cada devorador. Em seguida, ela os quebrava com um chute matando-os, ela os deixava em pedaços. Keylla mantinha o clone em suas costas, assim uma protegeria a outra. Como o clone de Keylla tinha o mesmo nível dela, era como ter dois décimos primeiros reinos em vez de um. O clone de Keylla era muito melhor do que o atual clone de Rael porque o clone tinha todos os sentimentos e lembranças da original e ainda agia como a original, tendo até a mesma força. Só não tinha capacidade de criar outros clones, mas podia usar naturalmente a maior parte das habilidades dela. Lutando costa a costa com seu clone, Keylla não corria muitos riscos naquela batalha.

Neide lutava com sua espada gigante, quebrando as defesas dos adversários e os cobrindo com poderosos ataques físicos misturados a chamas. Os devoradores eram rasgados em dois pela enorme espada e consumidos completamente pelas chamas. As vezes ela golpeava mais de um devorador, porém alguns acabavam se recuperando quando ela não focava seus ataques. Ela e Rayger muitas vezes lutavam pertos um do outro para garantirem apoio caso necessário.

Rayger usava seus poderosos socos, quebrando ossos onde os devoradores teriam que ter tempo para se regenerar. Em seguida, perfurava o coração com uma espada de Ureno ou adaga.

Astrid lutava com um bastão, sempre mantendo uma boa distância de seus inimigos, mas ela também era uma exímia lançadora de adagas. Muitas vezes ela atirava suas adagas de longe, acertando devoradores no coração.

Todos estavam desempenhando seus papéis dentro daquilo que poderiam. Alguns homens tinham sido mordidos e não estavam podendo lutar tomados pela dor, mas não se transformavam devido a pílula tomada anteriormente.

Rika, sendo a mais forte entre eles, era como uma deusa flutuando e lançando seus raios para todas as direções inimigas, acertando seus alvos e os paralisando. Quando os inimigos estavam paralisados, alguns aliados chegavam na hora e terminavam o trabalho com uma lâmina certeira no coração.

Apesar das perdas, eles iam bem com a ajuda. Se não fosse por Keylla pedir ajuda, eles teriam que lidar com aquilo sozinhos.

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Enquanto na ilha a luta corria solta, nos outros lugares do continente Sul tudo estava calmo, ninguém fazia ideia de que seus futuros estavam sendo decididos em uma batalha dentro de uma ilha distante.

No clã Torres, Mara fez uma pausa no cultivo porque sentiu algo estranho ocorrendo. Ela se levantou e foi olhar Natalia, que tinha ido para o quarto principal deles, o quarto com cama. Geralmente, as duas cultivavam juntas e mantinham o mesmo pique para manterem níveis parecidos como Rael queria. Assim, cada uma delas usava um quarto sem nenhum móvel apenas para cultivo.

― Natalia, como você está? ― Mara perguntou entrando no quarto. Natalia estava deitada na cama dormindo suavemente.

― Você ficou cansada de novo... ― apesar de Mara querer falar com a moça, não disse em voz alta, falando mais consigo mesmo do que com sua prima. Mara vinha notado que as vezes Natalia parecia ter cansaços repentinos e ia sempre dormir, como na vez no castelo.Isso tinha começado a ocorrer há pouco tempo. Na realidade, Natalia vinha se sentindo assim a mais tempo, porém, chás de ervas resolvia a sua indisposição e na maior parte do tempo, um bom descanso a deixava restaurada, por isso ninguém nunca pensou ser nada demais.

 

― Desse jeito eu vou acabar passando você... ― disse Mara, que em vez de se sentir preocupada, foi se deitar ao lado da prima no espaço vazio. Mara estava muito calma devido a hipnose e, portanto, ela nem se preocupava com Rael ou com seus pais. Isso a deixou tão relaxada quanto Natalia que estava dormindo e assim as duas ficaram ali deitadas descansando pelo resto do dia.




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