O Herdeiro do Mundo

227 - Demonstração de Poder

Rika estava agitada no esconderijo, andando de um lado a outro sem parar. Ela não podia sair para assistir as batalhas do torneio porque havia ficado para tomar conta do local. A família do patriarca Rael do mundo paralelo tinham voltado para a área deles no esconderijo, e essa era a principal razão. Violeta não tinha nada contra eles, mas não confiava plenamente nos visitantes, pedindo para Rika ficar de olho em sua ausência.

Beatriz tinha sido enviada para passar uma temporada no clã Sarbaros junto aos outros discípulos, pouco antes do contrato de Rose com Rael ser realizado. Portanto, Rika estava completamente sozinha no esconderijo. Ainda assim, ela podia sentir plenamente a essência de Rael e sabia que sua filha e ele estavam bem, o que a deixava mais calma. Mas é claro, Rika preferia poder acompanhar a batalha pessoalmente.

Violeta e Emilia faziam visitas constantes na ilha, a fim de fazer vigílias e observar o desenvolvimento do portal. Dessa forma, ficava impossível para Rika sair da guarda, mesmo se ela quisesse muito.

― Eu sinto que não falta muito para o meu corpo ficar 100% completo. ― disse Rika, depois de analisar o seu poder. Como Alexia, Rika também era uma besta poderosa e precisava estar 100% na forma humana para poder utilizar todas as suas habilidades especiais, e isso estava sendo recuperado aos poucos, embora nunca tenha sido mencionado. Atualmente, Rika estava com 97% de sua capacidade total.

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Ao longe, no clã Sarbaros, Thais treinava com Beatriz e Laís juntas. Com a morte de Arthur e o enfraquecimento do clã Sangnos, Thais já não podia se incomodar com a presença de Beatriz. Por isso, ela não indagou sobre o retorno da moça. Mesmo assim, ela foi acomodada na residência da matriarca Ana.

A família Alencar também continuava se esforçando e cultivando o máximo que podiam, principalmente Janete. Janete se sentia um pouco triste desde após a sua hipnose. Ela não sabia o motivo, mas sentia um vazio constante em seu peito. Quando seus familiares perguntavam a razão da tristeza dela, ela disfarçava e sorria, dizendo que não estava triste. Como ela iria explicar algo que nem ela mesma sabia?

Ana já tinha procurado por toda a sua residência e território, mas não encontrou Keylla em lugar algum. A matriarca também tentou utilizar o anel de comunicação para contatá-la, mas não obteve sucesso. Tudo indicava que ela nem estava usando o anel.

― O que eu vou dizer para o Samuel? Ele me pediu para manter o olho nela, e ela some do nada. ― reclamou Ana desanimada, enquanto cogitava sobre o sumiço repentino. Era difícil manter os olhos em pessoas tão escorregadias, ainda mais alguém com habilidades furtivas igual a Keylla.

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De volta na arena, 95% do público estava de pé, presenciando aquele poderoso ataque que Rael estava defendendo com o próprio poder e, entre essas pessoas, uma delas era a própria Keylla, era evidente que ela não perderia aquelas batalhas. Ao lado de Keylla estava a sua antiga líder, Astrid.

― Tenho que dizer, agora eu entendo porque você gosta tanto desse homem! ― disse Astrid satisfeita com o desempenho de Rael. Keylla sentiu um desejo feroz nas palavras dela.

― Você pode achar estranho, mas nem eu sabia que ele era tão poderoso assim. ― admitiu Keylla. Nem precisa ser mencionado que essa era a personalidade forte dela.

― Esse homem... Não, esse jovem é provavelmente a pessoa mais forte de toda essa arena. ― disse Astrid sem pensar muito. Nenhum dos reinos finais presentes ousariam receber tal ataque e defender com o próprio corpo.

A surpresa, a expressão de todos vendo Rael contendo aquele furioso ataque era admirável. Mas, se ele fracassasse em seguida, parte daquela admiração certamente se perderia. Rael não queria desistir de sua defesa e perder essa conquista.

― ‘Eu... Preciso de mais poder!’ ― Rael se concentrou fortemente em sua criação de barreira do elemento Terra para manter o ritmo. Sua força de vontade pareceu destravar algo oculto dentro de si e pequenos símbolos surgiram em seu peito, por cima das defesas recém criadas. O que aconteceu a seguir foi muito mais surpreendente do que simplesmente continuar contendo o ataque.

Os cinco raios de energia que acertavam Rael constantemente, refletiram como se estivesse acertado um espelho. Os cinco raios tomaram cinco diferentes rumos, batendo em Rael e ricocheteando para outro caminho. Esses raios se dirigiram para a barreira que cercava a arena, cada um tomando uma direção diferente.

― Mas o que!? Protejam-se! ― gritou o patriarca da família Solar e já começou a conjurar sua técnica defensiva, vendo o que estava por vir.

― Saiam daí! ― gritou um cultivador aleatório do décimo reino que estava na arena, empurrando uma moça do terceiro reino para um lado e se afastando imediatamente para o outro.

― Não pode ser...! ― quem disse agora foi a matriarca Verônica, com os olhos arregalados. As expressões na arena de quem entendia o que estava acontecendo eram de puro choque. O patriarca e sua esposa do clã Elusio também estavam estupefatos com a cena que se seguiu.

Os cinco raios brancos de puro poder cortaram contra a barreira como se fosse uma agulha furando uma bolha de sabão. A barreira se desmanchou no momento que as linhas tocaram nas cinco partes diferentes.

Booooom! Booooom! Booooom! Booooom!

Os quatro cristais que estavam posicionados em encaixes de aço nos quatro cantos da barreira foram destruídos. Todos eles explodiram subitamente, se espedaçando em migalhas. As energias de luz avançaram com força total contra a arena e muitas pessoas gritaram desesperadas. Um ataque capaz de destruir aquela barreira tão facilmente só poderia ser uma monstruosidade, até quem não entendia estava apavorado com o que poderia acontecer.

Uma das energias teria rasgado facilmente a moça empurrada de cima pelo homem no décimo reino. O feixe de luz cruzou as escadas e a parede da arena, saindo do lado de fora do castelo e continuou avançando, cruzando até mesmo a grossa muralha de segurança. Esse poder era como se fosse um laser devastador e passava abrindo buracos em tudo que estava por seu caminho. Por sorte, ele estava em linha reta e, portanto, só havia uma rota. Se ele fizesse curvas teria matado centenas de pessoas instantaneamente.

Um outro feixe iria acertar os elders do clã Solar. O patriarca, que já tinha se preparado, entrou na frente e usou uma técnica especial defensiva. Um Sol brilhante e intenso, maior do que um escudo oval, surgiu em frente as mãos do patriarca. O raio de luz acertava e sumia quando encostava na barreira destrutiva do patriarca.

Outra linha atravessou um jovem cultivador aleatório do sétimo reino, acertando-lhe o peito e o atravessando como uma lâmina quente e afiada. Ele se desesperou e tentou se esquivar quando viu aquela linha cortando e atravessando o seu peito. No seu salto desesperado de lado, essa linha rasgou todo o caminho até sair do corpo dele. Isso fez o jovem perder o seu braço direito. Ele gritou enquanto seu ombro e sua pele se desmanchava em puro sangue e seu braço caía no chão. Mesmo assim, o feixe continuava lá atravessando e cortando contra um banco e as escadas atrás, continuando em sua linha reta de destruição.

A quarta linha subiu, sumindo no céu da arena e se perdendo no ar. Por último, o quinto raio de luz tinha encontrado a cabeça de uma jovem cultivadora do quarto reino, uma mulher com um pouco mais de vinte anos. Ela teve a testa perfurada e, logo em seguida, caiu sobre os bancos tendo parte da cabeça ainda mais rasgada pela linha de ataque. A moça ficou estremecendo no chão enquanto a vida saía de seu corpo, e ninguém podia fazer mais nada. O ataque desses cinco feixes de luz eram extremamente destrutíveis e fatais. Tal poder de ataque e ainda imaginar que Rael estava aguentando sem técnicas de defesa.

― Como ele conseguiu aguentar esse ataque? ― perguntou alguém depois de ver o desfecho daquilo. Ainda havia pessoas gritando de desespero, mais a maior parte se acalmou vendo o encerramento do ataque. Se elas estavam diminuindo, bastava ficar longe até acabar de vez.

― Ele não somente aguentou, como até mesmo recusou o ataque. ― disse um homem do décimo segundo reino ao lado desse a comentar inicialmente.

Rael, além de defender o ataque, o recusou e dessa forma fez o mesmo ser repelido. Essa demonstração foi feita em dois passos, chocando a multidão. É claro que Rael não esperava machucar ninguém quando o refletiu, ele nem imaginava que aquilo ocorreria. Os cetros eram feitos de pura energia e, portanto, estavam sendo consumidos conforme se mantinha o constante ataque. Eles começaram a desaparecer da ponta de baixo e foi subindo conforme avançava, chegando na esfera concentrada na parte superior do cetro. A ultima linha de luz se tornou também um ataque e sumiu por fim. Todos os cinco cetros se transformaram em energia, sendo consumidos pelo ataque de Maycon, até que não restou mais nenhum vestígio do elemento Luz. Os últimos feixes bateram em Rael e continuaram sendo refletidas até sumir completamente.

Maycon estava ali parado, incrédulo no que acontecera. Aquele era o ataque mais poderoso do seu clã, onde somente ele e sua matriarca sabiam executar. É claro, o da matriarca Verônica seria um pouco mais poderoso, porém não haveria muita diferença. Rael ter defendido e se livrado daquele ataque era como um verdadeiro milagre.

Por um momento, a arena ficou em um tipo de silêncio mortal. Os únicos movimentos eram pessoas tentando ajudar o jovem que perdeu o braço e estava ainda sofrendo, outros estavam lamentando a morte da moça que inevitavelmente perdeu metade da cabeça. Aquele resultado era algo jamais esperado. Qualquer um dos patriarcas, se tivesse recebido aquele ataque, teriam sido mortos miseravelmente.

― Acabou... ― O patriarca da família Solar respirava cansado, enquanto cancelava sua energia defensiva e o pequeno Sol sumia aos poucos. Os elders atrás do homem ficaram aliviados. Eles poderiam ter esquivado do ataque, mas o patriarca mostrou que podia protegê-los com sua força.

― Jovem mestre, meus parabéns! Eu me rendo, você é mais do que digno dessa vitória! Agradeço pela demonstração de seu poder supremo! ― Maycon o reverenciou, depois virou-se e saiu flutuando para o lugar destinado ao seu clã.

Ninguém reclamou ou culpou qualquer um dos dois pelo incidente. Mas, afinal, quem ousaria culpá-los? Rael demonstrou uma defesa monstruosa e Maycon um ataque poderosíssimo. Mesmo com o estranho ar na arena, algumas pessoas começaram a aplaudi-los. Em seguida, outras acompanhavam a comoção e não demorou muito para 90% da arena estar aplaudindo com ferocidade. Esse evento tinha sido algo fora de sério. Até mesmo o imperador se levantou de seu lugar para aplaudir junto pela incrível batalha.

Natalia e Mara poderiam ser duas mulheres de personalidades distintas, mas nesse momento ambas mostravam um sorriso com um misto de orgulho e alívio. Ao lado das meninas, Neide e Rayger estavam presos na mesma reação, ambos se olharam e era nítido o que estavam pensando: “Rael está bem mais poderoso que nós.”

Anita não sabia como reagir, ela girava a cabeça em volta admirada, vendo todas aquelas palmas, assovios e pulos da multidão para o seu noivo.

― ‘Incrível! Ele é incrível!’ ― pensou a princesa.

― Samuel! Samuel! Samuel! Samuel! ― O público aplaudia, pulava, assoviava e gritava pelo nome de Samuel. O respeito que Rael ganhou naquele momento ultrapassou em muito o que ele imaginava conseguir naquele torneio.

Rael se virou deixando a arena e saltou de volta para o local onde assistia a sua família. Natalia e Mara avançaram e, juntas, abraçaram com empolgação o jovem. Elas estavam aliviadas, mas ainda um pouco emocionada pelo que tinham presenciado antes. Rael poderia ter sido morto naquela tentativa de se exibir, mas isso não aconteceu e, ainda por cima, recebeu vários elogios pelo glorioso feito.

― Rael, você me deixou tão preocupada! ― disse Natalia agarrada a Rael, eles estavam em um tipo de abraço em trio.

― Marido, você não precisava ir tão longe. Nos deu um enorme susto! ― disse Mara em seguida.

― Genro, eu tenho que dizer, estou impressionada! Você aprendeu a manipular o poder das leis? ― perguntou Neide, que havia se aproximado. Ela e Rayger estavam lado a lado.

― Na verdade, não. Eu acho que avancei um nível na manipulação do meu próprio poder, algo como isso... ― explicou Rael, enquanto as meninas o soltavam.

― Aquela sua defesa foi incrível, de verdade. ― elogiou Rayger.

― Obrigado.

Em meio ao público extasiado, escondida sobre um capuz escuro, uma mulher no décimo segundo reino tinha acompanhado toda a batalha. Ela vinha assistindo todas as lutas de Rael desde o início do torneio. Como ela já esperava grandes atos, não ficou tão impressionada, mas ainda sim ela estremecia.

― ‘Para quem não tinha poder para sequer derrotar aquele patriarca estúpido, agora você está se saindo muito bem...’ ― pensou a mulher misteriosa. Por um momento, nem ela soube dizer se achava aquilo bom ou ruim. Em seguida, se virou e sumiu em meio a multidão, as pessoas ainda estavam pulando e gritando pelo nome Samuel, mesmo com a arena vazia e ele junto de suas esposas.

As lutas não continuaram de imediato. Foi feito uma pausa onde quatro especialistas do décimo segundo reino remontaram a barreira, encaixaram novos cristais e fizeram novamente as liberações. Depois de aproximadamente 1 hora as lutas retornaram.

As lutas sucederam em um nível ainda mais alucinante. Mesmo após a grandiosa demonstração de Rael, as pessoas não tinham desanimado de lutar. Mortes continuaram decidindo os combates e algumas ofensas entre os clãs foram inevitáveis, mas os guardiões continuavam dando conta da segurança local.

― Samuel Raymonde, versus Garks Oremu, do clã Solar! ― anunciou o juiz e os dois desceram da arena. Antes do juiz descer para ativar a barreira, Garks fez um sinal com a mão pedindo para ele parar.

― Não há necessidade de ativar a barreira, juiz. Eu desisto. É uma honra poder ficar frente a frente com o grande mestre Samuel! ― disse o homem moreno forte educadamente. Depois, virou-se e seguiu para sua família tranquilamente.

Tempos depois, mais uma vez a mesma situação:

― É uma honra ficar em sua presença, jovem mestre Samuel. Eu desisto, é claro! ― disse a mulher do clã Elusio, desistindo também em sua rodada.

― Eu desisto! Aquela sua defesa absoluta jamais será esquecida! ― disse um homem do clã Luante.

Assim se seguiu até chegar na vez de um homem branco e careca do clã Sangnos. Já estava nas semi finais e, portanto, somente os mais fortes e mais cruéis estavam presentes. Para terem chegado naquela fase, esses homens tinham matado inúmeros adversários, devido a maior parte dos oponentes não ter tempo de desistir antes da morte certa. É claro, Rael não havia matado nenhum oponente ainda porque todos desistiram antes.

― Samuel Raymonde, versus Diego Uralto, do clã Sangnos! ― o juiz tinha anunciado segundos antes dos dois pousarem na arena.

― O senhor não vai desistir? ― o juiz perguntou educadamente ao homem careca, porque todos até aquele momento haviam desistido de lutar. O juiz não estava nem mais descendo da arena para encurtar o tempo.

― Não sou covarde como os outros! ― disse o homem friamente. Ele apertava em suas mãos soqueiras de aço com espinhos.

― Você é do clã Sangnos. Deixo claro que não gosto desse clã. Desista imediatamente ou eu o matarei assim que essa luta tiver início. ― disse Rael em seu tom natural. Não pareceu uma ameaça, mas o juiz chegou a engolir saliva pelo futuro do homem ignorante à frente de Rael.

 

― Então tente, se for capaz. ― disse Diego, lançando um sorriso frio para Rael. As pessoas não acreditavam no que ouvira e cochichavam incrédulas: será que esse idiota não tinha visto o que Rael podia fazer em combate?