O Herdeiro do Mundo

224 - Um Tempo Juntos

Antes de sair do clã Sarbaros, Rael tomou um banho e trocou as roupas. Horas depois, ele chegou de volta à capital. Como estava com fome, comeu em alguma barraca e depois voltou para o castelo imperial.

Mara tinha perguntado dele através do anel e Rael havia explicado que fez uma visita ao seu clã. Como Rael agora demonstrava um poder de um reino final, ninguém o incomodou com algo referente a sua segurança. O máximo que Mara disse foi um “volte logo” e explicou que iria passar um tempo com pais dela, algo referente a rever velhos conhecidos.

Quando Rael voltou para o castelo, Natalia estava sozinha no quarto reservado para eles. O jovem chegou em silêncio e a encontrou dançando com um vestido vermelho, aproveitando o espaço vazio do quarto. Natalia fazia alguns passos de dança com as mãos estendidas, como se tivesse imaginando um acompanhante invisível. Rael ficou parado olhando pela fresta da porta, não havia música, mas mesmo assim Natalia parecia estar ouvindo algo. É claro, a melodia deveria estar na cabeça da bela garota. Violeta tentou ensinar Rael a dançar, mas não obteve muito sucesso na época. Violeta havia lhe dito que filhos de pessoas importantes geralmente sabiam dançar.

Vendo Natalia dançando solitária, Rael pensou sobre a sua atual situação. Ele dava um tempo para suas esposas, mas era apenas na cama, feito animais viciados em sexo. Depois que elas passaram a cultivar e a treinar longe dele, eles praticamente só se viam na cama. Pensando nisso, Rael suspirou. Ele certamente não poderia passar muito tempo com elas por serem muitas, mas pelo menos ele poderia separar algumas horas de algum dia de vez em quando para cada uma das mulheres que ele tanto gostava.

― ‘Todas as mulheres parecem ser tão boas... Não é atoa que me perco um pouco no que fazer.’ ― pensou Rael suspirando, enquanto pensava em suas ações. Ele não esqueceu de Rose, mas a celestial ainda podia esperar um pouco mais.

Rael empurrou a porta, deixando Natalia saber de sua presença e entrou. A moça no mesmo instante cessou a dança, com o rosto um pouco envergonhado:

― Rael, eu não te vi chegando. ― disse a jovem um tanto desconsertada, levando as mãos para trás como se fosse uma garotinha pega no flagra. Até o olhar meio inocente ela ainda tinha.

― Eu gostei dos passos. São bonitos, combina bem com você. ― disse Rael, se aproximando com um sorriso leve.

― Você me viu dançar?! Aiin, que vergonha! ― disse ela sem jeito, cobrindo parte do rosto com as duas delicadas mãos. Natalia usava um belo vestido vermelho de rendas no qual realçava suas belas pernas brancas. Nos braços, havia um tipo de luva branca longa, enquanto nos pés, um belo par de sapatos escuros. Natalia estava bem bonita, aparentando ser uma verdadeira princesa.

― Você estava linda com aqueles movimentos, não tem que se envergonhar. ― disse Rael. Natalia já tinha dito a ele que gostava de dançar uma vez.

― Eu achei que estava sozinha. Mara e os outros saíram e eu aproveitei. ― explicou ela, tirando as mãos do rosto.

― Oh, eu entendo... Quer vir comigo? Tem um salão aqui no castelo onde sempre tem música. Poderíamos dançar juntos. ― propôs Rael.

― Dançar juntos? Sério? Você sabe dançar? ― Natalia ficou animada no mesmo instante.

― Saber, eu não sei, mas adoraria que me ensinasse. ― disse Rael suavemente e segurou as belas mãos da garota, como se quisesse puxá-la.

― Ensinar você? Quer mesmo aprender?

― Se for algo de que você gosta, é claro que eu quero. ― disse Rael sorrindo de volta.

― Vai ser um prazer ensinar você! ― disse ela demonstrando o seu mais lindo sorriso.

Rael ficou impressionado com o quanto essa menina era bonita. Seu sorriso era radiante e transbordava felicidade. Ela nem precisava se maquiar para ficar bonita. Mas hoje, como estava praticando, ela estava maquiada. Tinha os lábios rosados, o rosto levemente maquiado em um tom vermelho e os olhos pintado em escuros.

Minutos depois, os dois adentravam no salão com outros casais. Nesse salão sempre tinha música, seja de dia ou de noite, e sempre havia alguns casais presentes. Havia mesas nos cantos separados da parte principal e garçons sempre passavam servindo bebidas para pessoas que estavam nessas mesas. Os músicos ficavam no centro do salão, em um tipo de pódio. Neste momento, um homem com violão, um flautista, um homem sentado com tambores e até mesmo um outro de sanfona nas mãos ditavam a orquestra. Os músicos estavam sendo substituídos de tempos em tempos. Não era sempre que esse salão era assim movimentado e com músicas o tempo todo, só estava assim agora devido aos hóspedes do castelo. A melhor hora para se estar aqui era mesmo de tarde ou de manhã, porque a noite sempre estava bastante cheio, mal dando para dançar.

― É assim, olha: Mexa o pé para cá sempre que eu fizer esse movimento... ― Natalia explicou para Rael, que demonstrava muito interesse. Antes, quando Violeta tentou ensiná-lo, Rael não teve nenhum interesse porque isso não o ajudaria a ficar mais forte, seria apenas um hobby idiota. Agora, por outro lado, ele queria agradar a moça que ele amava.

― Isso, assim mesmo. ― disse Natalia satisfeita, depois de ver Rael fazendo o movimento certo. Eles estavam de mãos dadas e dançando agarrados, o que definitivamente não era nada mal. Vários outros homens estavam levando severos puxões de orelha de suas companhias por lançarem breves olhares para a bela moça de pele branca como cristal. Natalia era definitivamente a mulher mais bonita daquele salão e merecia perfeitamente a companhia de Rael. Algumas viúvas e solitárias ali presente só podiam suspirar vendo Rael já acompanhado. Se Rael tivesse vindo a esse salão sem companhia, certamente haveria uma fila de pretendentes objetivando ter uma dança com o rapaz ruivo, elegante e bonito.

Não era incomum casais trocarem de par uns com os outros durante a dança no salão, mas ninguém ousava tentar a sorte de trocar com Rael, sem mencionar o extremo ciúme que muitos jovens ali teriam de suas companheiras e as moças por seus acompanhantes. Por isso, eles eram ignorados no momento das trocas.

― Você está dançando muito bem. ― elogiou Natalia. Rael não demorou a aprender, recebendo as dicas de sua esposa e olhando em volta para outros casais, ele já tinha captado vários movimentos. Não demorou para Rael girar Natalia e até mesmo girar junto, fazendo uma série de movimentos que faziam a dança fica mais animada.

― Tem certeza que você não sabia mesmo dançar? ― perguntou Natalia, surpresa com a velocidade em que Rael aprendia.

― Não, mas até que é bom. ― disse Rael sorrindo para ela e rodou Natalia mais uma vez.

A dança dos dois ficou muito boa de repente, chamando atenção de outros casais. Alguns até paravam para assisti-los. Rael não estava dançando para os outros, ele estava dançando por Natalia e, por ela, rapidamente aprendeu diversos movimentos. Não foi difícil para Rael aprender: o corpo elástico ele já tinha, uma boa memória também. Então, praticamente era ver, decorar e registrar como aprendido. Natalia começou sabendo mais do que Rael, e agora provavelmente era ele quem mais tinha maestria na dança. Natalia seguia os movimentos que Rael criava para ela e, assim, os dois bailavam e dominavam o salão. Natalia ficou feliz em dançar com o seu marido, porque a dança para ela era belo, mágico e demonstrava também liberdade de espírito:

Clap! Clap! Clap!

Várias pessoas aplaudiram quando o casal fez uma pausa no meio do salão. Não só a dança deles foi magnífica como também formavam um belo casal. Natalia sorriu sem jeito e fez uma reverência educada para vários locais, de forma a agradecer pelas palmas. Rael observou e fez o mesmo em seguida.

Natalia e Rael se acomodaram em cadeiras ao redor de uma mesa vazia. Não demorou muito para o garçom se aproximar e eles aceitarem uma taça de vinho. Das bebidas para eles, o vinho certamente era o mais fraco.

― Eu nunca pensei que seria aplaudida por dançar. ― disse Natalia um pouco sem jeito, ela ainda olhava para os outros casais dançando no centro do salão.

― Eu também não imaginava. Bem, não foi nada mal se você ficou feliz com isso. ― disse Rael.

No salão tinha pessoas de vários clãs do continente Sul, principalmente dos quatro principais. Havia também convidados especiais do castelo, em sua maioria, casais apaixonados e jovens, mas também havia um número grande de mulheres e homens mais velhos, solteiros, divorciados, enfim. Estavam presentes até mesmo alguns elders competidores do torneio.

No geral, tanto Rael quanto Natalia tinham atraído a atenção de muitos presentes, mas era Rael o mais observado ali. Rael não se importou, mesmo num ambiente onde muitos nos dias seguintes seriam seus adversários, naquele momento, eles estavam apenas curtindo um dia de lazer. Com a força que Rael demonstrou na primeira rodada, ninguém ousaria mexer com o rapaz, ainda mais dentro do castelo imperial.

― E você, está feliz? Você parece fazer isso apenas por mim. ― disse a moça, observando Rael enquanto bebia um gole de seu vinho.

― Como eu não poderia ficar feliz em passar um tempo com você? ― perguntou Rael de volta, sorriu e tomou um gole também.

Os dois ficaram na mesa por um pouco de tempo, depois fizeram outra rodada de dança. Natalia ficou muito feliz por ter feito o que ela mais gostava ao lado de Rael, seu amigo, seu irmão, seu marido.

Minutos depois, eles estavam de volta no quarto. Depois de dançarem por tanto tempo agarradinhos, seus desejos carnais ficaram expostos. Rael, mesmo tendo feito durante horas com Keylla por duas vezes naquele dia, não tinha perdido o fôlego. E dessa forma que eles passaram o resto da tarde.

Os gemidos de Natalia poderiam ser ouvidos facilmente se houvesse mais pessoas na ala, parecia até que eles nunca tinham feito com tanta vontade a um longo tempo como agora. Depois disso, eles terminaram agarrados em forma de concha, com Rael por trás da moça.

― Rael, eu quero agradecer por ter dançado comigo hoje. Isso significou muito para mim. ― disse Natalia olhando de lado, o rosto de Rael estava de lado, por cima dela. O rapaz carinhosamente beijou a moça.

― Você nunca deixou de ser importante pra mim, dançar com você foi um prazer meu. ― disse Rael. Isso fez Natalia sorrir.

― O que pretende fazer quando você vencer o torneio? O que vai fazer quando tomar o poder do império?

― Você já sabe, vou abolir a escravidão. Quero também criar meios para ajudar todas as pessoas, essas coisas.

― Como assim? ― Natalia não fazia ideia do que Rael falava.

― As pessoas viram escravas no geral por causa de dívidas não pagas ou por falsas acusações, como aconteceu com a família Alencar. Primeiro eu terei que criar um documento onde todas as dívidas existentes sejam anuladas, como se fossem pagas. Depois, criarei algo que possa ajudar as famílias de mais baixa renda. Mas eu ainda não sei, Neide e Rayger estavam me dando algumas ideias. ― explicou Rael.

― Vai dar certo. Eu sei que vai... Você vai consegui mudar todo esse mundo. ― disse Natalia.

― Mas eu ainda tenho que parar os devoradores, não se esqueça disso. ― disse Rael.

― Eu vou ajudá-lo, já estou perto do décimo primeiro reino. Tanto eu como Mara seremos um grande apoio para você. ― disse Natalia.

― Não. Você não vai lutar junto a mim, seria perigoso e eu não me concentraria sabendo que vocês poderiam estar em perigo, nem você nem Mara vão participar dessa batalha. Somente as violadoras e, no máximo, Rika lutarão. Todas essas pessoas estão acima de reinos finais.

― E nós, por acaso, não iríamos ficar preocupadas com você? Isso não é justo, Rael! Além disso, os pais de Mara são reinos finais. Eles também não vão ajudar?

― Não. Pelo menos não na linha de frente. Ao que Mara do outro mundo nos contou, Violeta tem um grande poder. Ela os mataria em um piscar de olhos. Para falar a verdade, não sei nem se Rika participaria da batalha. Ela é bastante forte, mas não se compara com o poder de uma violadora.

― Então você também não poderá lutar, porque você não é tão forte assim, Rael. ― disse a mesma.

― Na verdade eu sou. Eu tenho uma transformação que aumenta o meu poder para uma escala muito maior. Considerando que vou alcançar o décimo reino a tempo, eu poderei ultrapassar o poder de um reino final com isso. Essa batalha que está por vir vai decidir o futuro desse mundo, talvez até de outros. Se esse vírus atravessar e devastar tudo, eles irão partir em busca de novos mundos. ― disse Rael, deixando Natalia pensativa.

― As chances de vitória são altas?

― Se não fosse por essa Violeta devoradora, seria bem fácil. Nossa Violeta garantiu que ela e Emilia criaram uma armadilha que vai matar quase todos os devoradores instantaneamente, então nosso foco deve ser apenas na Violeta devoradora mesmo. ― disse Rael.

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Na ilha do vulcão, onde a fenda se encontrava, Emilia e Violeta tinham acabado de se encontrar no centro, voando a centenas de metros acima da ilha. Ambas fizeram uma vistoria nos arredores e constataram que todas as vilas e cidades próximas a ilha estavam abandonadas.

― Nós íamos evacuar as pessoas agora e, de repente, todos desaparecem. ― disse Emilia, um pouco confusa com a situação.

― Não tem marcas de sangue, nenhum local destruído... Parece que todos saíram de boa vontade. ― disse Violeta em seguida.

― O que você acha que houve? Por que as pessoas saíram assim? ― perguntou Emilia.

― Acho que mais alguém sabe sobre os devoradores, por isso devem ter pensado em evacuar os arredores da ilha antes de nós.

 ― Se esse é o caso, menos mal. Viu como está o portal? Em quantos dias você acha que ele vai se abrir? ― perguntou Emilia. As duas tinham visto por trás da barreira de Emilia o portal se expandindo. O portal ficava maior a cada dia que se passava.

― Não sei dizer... Talvez dois, três... No máximo, cinco dias. ― disse Violeta.

― Minha barreira pode aguentar o seu poder aumentado em duas vezes por alguns minutos, uma hora será o limite. ― alertou Emilia.

― É tempo suficiente para chegarmos. ― disse Violeta.

― Se não fosse por esse torneio idiota, Rael já poderia ter encontrado a nossa outra irmã presa no vulcão do dragão caído para nos ajudar. Se tivéssemos em três, com certeza venceríamos. ― disse Emilia um pouco chateada.

― Depende também de qual irmã que pode estar lá. ― disse Violeta pensativa e Emilia entendeu, balançando a cabeça em concordância. Elas poderiam ter poderes devastadores, mas algumas irmãs eram mais fracas, assim como outras também eram mais fortes entre as demais.

 

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                Abaixo das lavas mais profundas do vulcão formado pela queda do dragão, há uma entrada estreita que estava bloqueada com magma puro. Seguindo em diante, um corredor em subida deixava toda a lava para trás. Logo após o corredor, uma rocha com diversos selos mortais protegia imponentemente uma sala pequena e espaçosa, uma câmara. No canto dessa câmara, havia algo semelhante a um caixão. Nesse caixão, uma bela jovem jazia virada para cima. Seus olhos estavam fechados e sua cabeça deitada confortavelmente sobre seus longos cabelos, brancos e bagunçados. Enquanto a essa jovem aparentava dormir tranquilamente, pequenas formas de energia explodiam de tempos em tempos enquanto sumiam por cima do caixão. Essas energias tinham uma coloração roxa e pareciam ferozes, fazendo com que o poder que fluía dela contagiasse toda a câmera dessa violadora adormecida.