O Herdeiro do Mundo

218 - O Desafio

Anita atendeu o pedido de Rael e os príncipes começaram a rir, debochando da ameaça de seu noivo. De longe Rael os percebeu rindo. Esse era o resultado esperado, as pessoas só acreditariam quando viam ou quando já estariam passando pela situação.

                Anita também disse o alerta de Rael ao seu pai e o mesmo continuou sério em sua poltrona. O próprio imperador sabia que não adiantaria nada tentar falar com os filhos, o único jeito era esperá-los receber uma lição, como Rael pretendia dar.

                Depois de passar os recados, Anita sentou-se ao lado da irmã em um banco. Ela não pretendia voltar para a arquibancada do clã Torres. Ela sentiu que Rael não parecia querê-la por lá naquele momento.

― Não vai voltar para o seu noivo? ― Perguntou Alana, depois de alguns segundos.

― Vou ficar aqui por enquanto. ― disse ela de volta, tentando disfarçar um pouco da irritação que havia sentido.

― Sabe que ele não tem chances, não é? Mesmo que ele vença nossos irmãos, ele não poderá ter chances de vencer todos os outros competidores. Você estará se casando com um homem apenas por se casar e não ganhará nada! ― disse Alana de volta.

― Cale a boca, irmã! Na pior das hipóteses, eu pelo menos me casarei com um homem bonito. Tenho certeza que você está morrendo de inveja. ― disse Anita e sorriu, tirando sarro de sua irmã mais velha. Quando Anita entrava em seu estado de brincadeira, sempre melhorava o seu humor.

― O fato dele ter escolhido você em vez de mim já mostra que ele não quer nada sério. Eu não tenho motivos para ter ciúmes desse tipo de relacionamento. ― rebateu Alana.

― Eu ainda continuo acreditando que é ciúmes. ― Disse Anita em seu mesmo humor. Alana, que estava séria quase ao ponto de ficar irritada, se acalmou e ficou em silêncio novamente ao lado da irmã sem se importar. As duas ficaram apenas observando o movimento, mas Anita estaca pensativa sobre tudo que sua irmã lhe disse.

                As arquibancadas da arena lotavam a cada instante com mais pessoas chegando. Como na arena do clã Torres, na arena imperial também tinha os cristais azuis cercando a arena, uma formação de cristais protetora usada em combates. Ele seria ativada para cada combate e desativada ao fim de cada um. Essa barreira protegeria a platéia de quaisquer poderes, armas ou técnicas que pudessem fugir do rumo e trazer perigo aos espectadores.

                O imperador se levantou de seu acento e, segurando uma pedra do Eco, começou a falar para a multidão:

― Sejam todos bem vindos! Hoje será realizado um torneio especial envolvendo a maioria dos grandes clãs. Não somente isso, vários outros clãs pequenos e medianos também se escreveram. O limite máximo de aceitação dos participantes é estar no décimo segundo reino, não importando o nível! ― disse o imperador, fazendo uma pequena pausa e depois continuou o discurso de abertura: ― Sobre as regras, só existe uma: se alguém declarar desistência ou rendição deverá ser poupado, a luta deverá parar no mesmo instante. Não há regras para mortes acidentais ou por vontade própria. Aquele que entrar na arena tem que estar ciente de que pode ser morto. Dito isto, no futuro eu não quero saber de reclamações ou acusações de qualquer morte que poderá ocorrer aqui, todos estão cientes que estão apostando suas vidas. Ao pisar o pé na arena e aceitar o duelo vocês estarão por sua própria conta em risco.

                O imperador fez uma segunda pausa e vários cochichos se espalharam. Poder matar oponentes era algo assustador, porque isso queria dizer que qualquer um poderia ser morto. O motivo disso era que, dentro do décimo segundo reino, a maioria dos cultivadores tinham habilidades mortais, seria impossível lutar com força total se tivesse qualquer regra de deixar os adversários vivos.

― O imperador é um homem bastante sagaz... ― comentou Neide ao lado de Rael.

― Por que acha isso?

― Tem duas razões para isso. Primeiro, estamos falando das grandes potências. Entre elas há amizades e alianças, mas também desavenças. Se alguém for morto por culpa de algum clã haverá retaliação. Isso fará com que todos os clãs pensem menos sobre o casamento de você e de Anita e se foquem mais um contra o outro.

― E a segunda razão?

― É você, genro. Você terá carta branca para matar qualquer um. O imperador deve pensar que você pode perder o controle de seu poder, e por isso fez essas regras. As regras, no entanto, fazem todo sentido. Lutas entre décimos segundos reinos acima são sempre mortais. Evitar mortes seria quase impossível. ― complementou Neide.

― O que tudo isso quer dizer?

― Existem várias perspectivas agora. Primeira, os clãs criarem mais desavenças e brigarem entre si enquanto avançamos nosso plano. Ou, você mostrar que tem o maior poder entre todos. Depois disso, duvido que alguém ousaria entrar em seu caminho.

― No fim, o poder sempre manda. ― disse Rael.

― Essa é a lei. ― concordou Neide.

― Vou seguir meus instintos. Se tiver de matar, eu matarei. Se eu sentir que devo poupar alguém, então este será poupado. ― disse Rael.

― Faça como quiser, o imperador deixou as portas abertas pra você. ― disse Neide.

― Rael, tome cuidado. Esses lutadores não são tão simples como no torneio da minha família. ― disse Natalia preocupada. Ela tinha se aproximado e segurado a mão de Rael com suas duas delicadas mãos.

― Eu estou mais forte. Muito mais forte do que estive, se comparado com aquele tempo. Mesmo que meus oponentes pareçam mais fortes, eu superarei todos eles. Eu não vou correr nenhum risco, eu prometo. ― disse Rael para a bela garota. Em retorno, Natalia sorriu e abraçou Rael.

― Espero que esteja certo. Não se deixe ser humilhado na frente de todas essas pessoas. ― disse Mara com seu jeito mais sério. Ela não abraçou Rael, ficou apenas ao lado do marido, com as mãos na cintura e um olhar mais firme.

― Não deixarei. Pelo menos eu não tenho planos para deixar que isso aconteça. ― disse Rael com um sorriso para sua mulher de aparência forte a sua frente. Natalia soltou Rael e deu espaço. Isso deixou Rael se voltar para a platéia e a arena.

                O sorteio dos nomes foi feito pelo juiz, que tinha uma caixa azul em mãos. Ele enfiava a mão dentro da caixa e recolhia dois papéis.

― Silvano Liam do clã Mãos Fortes, contra... Liliane Seal do clã Asas de Prata! ― a primeira luta foi anunciada e dois décimos reinos desceram para a arena. As pessoas chegaram a pensar que só veriam décimos segundos reinos, mas estavam enganados, parecia que havia algumas pessoas dentro do décimo reino que lutariam.

― Deve haver uma parcela de participantes do décimo reino, dessa forma os príncipes terão alguma chance de mostrar algum poder. ― disse Neide, captando a dúvida de Rael.

― Imaginei que fosse isso... ― disse Rael sem muito ânimo.

                A luta começou após a arena ser fechada com uma barreira azul transparente. Foram pouco mais que cinco movimentos para a mulher de aparência média ser atirada no chão um pouco machucada, ela reconheceu que seu inimigo pegou leve e desistiu do combate.

                As lutas seguiram. Todos que foram chamados até agora eram décimos reinos e não houve nenhuma morte, chegou apenas a ter ferimentos mais pesados, mas nada que fosse tão grave.

― Samuel Raymonde, versus...O príncipe Allan Grinfem! ― anunciou o juiz, depois de puxar os dois papeis.

― Que coincidência, parece que Anita estava mesmo falando sério. ― disse Rael, sorrindo levemente.

― Tome cuidado... ― disse Natalia preocupada.

― Não se esqueça do que disse a pouco! ―disse Mara em seu tom sério.

― Já disse para não se preocuparem. Se alguma coisa sair diferente do esperado, vocês não precisam ficar com medo.

― Genro, seja cuidadoso. Ele ainda é um príncipe, então, não o mate.― lembrou Neide antes de Rael descer para a arena.

― Mas já foi avisado. De todo modo, eu pretendo ver o que ele vai fazer. ― disse Rael e em seguida saltou para a arena. O salto de Rael foi chocante. Ele saltou do seu lugar a mais de duzentos metros de altura e caiu de pé na arena, sem nenhum esforço ou dano. Já o príncipe desceu flutuando de braços cruzados, ele parecia muito certo da vitória.

                Rael e o príncipe ficaram um de frente para o outro divididos por algumas dezenas de metros sobre os quais deram alguns passos, avançando para se aproximarem um pouco mais.

― Que surpresa agradável poder ter uma luta com o grande jovem mestre Samuel. Eu espero que você pegue leve comigo. ― disse o príncipe com um ar zombeteiro.

― Se não quer lutar a sério, basta desistir. ― disse Rael de volta sem apresenta muito interesse. Rael já tinha entendido que o príncipe só estava brincando com a cara dele.

― Eu ouvir dizer que derrotou um pequeno clã nas montanhas usando sua própria força. Um simples sétimo reino contra décimos e décimos primeiros reinos. Isso foi a maior piada que já ouvi em toda a minha vida, ninguém nesse mundo tem essas capacidades. Não sei quem inventou essa história mas não passa de uma grande mentira! ― disse o Allan. O príncipe falava alto e usava um tom frio, ele certamente tinha muita fé no que proclamava.

                       As palavras do príncipe causaram um alvoroço na arquibancada, que começaram a espalhar vários cochichos, a maior parte concordando com o príncipe. Afinal, aquilo não tinha como ser possível para eles que não conheciam o poder verdadeiro de Rael.

― Você está dizendo que eu sou um mentiroso? Está fazendo pouco da minha força? ― questionou Rael de volta. Rael fazia uma expressão comum, ele não demonstrava firmeza em suas palavras, muito menos tons de covardia.  Isso deixava a maior parte da multidão confusa.

― Não sei o que você armou com o clã Torres, mas hoje a força patética que você verdadeiramente possui será mostrada aqui! ― sentenciou Allan. Até o mesmo o príncipe sabia que, apesar de Rael ter menos de 20 anos, já estava no sétimo reino e isso já seria considerado como impossível, mas o príncipe veio disposto a humilhar Rael, a pisar nele como uma barata. Na cabeça de Allan, Rael não tinha direito ao trono, mesmo que este fosse o maior gênio da história.

― Oh, entendo... O príncipe planeja me matar? ― perguntou Rael, se fazendo de bobo. Rael sempre fazia isso quando queria saber as reais intenções do inimigo.

― Se você admitir rendição e sair de boa vontade eu não poderei fazer nada. Essas foram as regras criadas pelo meu pai e vou respeitá-las.

― Entendi perfeitamente. Em todo caso, não irei recuar. Quero ver se o ilustre príncipe tem mesmo a capacidade de provar que eu sou tão fraco quanto o príncipe pensa. ― disse Rael, que continuava sem aparentar nenhuma expressão.

                       O príncipe analisou o olhar de Rael e percebeu que não era nada de mais. Rael só parecia ter mesmo palavras, porque de resto, ele realmente não aparentava mais nada.

― Não pense que você pode me enganar ou enganar os outros! Eu provarei hoje que sua força é insignificante e que você não merece a reputação que tem. Se eu ganhar, eu quero que você cancele o noivado com minha irmã, você só será digno dela se me vencer! ― disse o príncipe.

― Por que está incomodado por eu ser noivo da bela princesa Anita? O que você tem a ver com isso, além de ser irmão dela? A mão dela foi oferecida a mim através de seu pai, e não por você.

― Meu pai pensa que você é forte, por isso ofereceu a mão de minha irmã mais nova, mas você não é digno dela. Antes de lutarmos, prometa-me que você cancelará o noivado caso perca. Assim eu poderei poupar sua vida. ― disse o príncipe novamente.

― Eu não vejo nenhuma vantagem em prometer tal coisa. Se eu perder, pelo que me parece, só eu perco nessa história. Se eu ganhar não vejo nenhuma vantagem, além de calar essa sua boca.

― Se você ganhar? Você nunca iria ganhar. Você pode até ter um bom cultivo, mas jamais um sétimo reino venceria um décimo. Porque você não para com esse joguinho e desiste de uma vez? Você sabe que não tem chances comigo! ― disse o príncipe um pouco irritado. Ele acreditava que Rael estava mergulhado em monte de mentiras.

― Entendo, o príncipe tem certeza absoluta que vou perder. Nesse caso, eu aceitarei o seu desafio se você aceitar o meu: Caso você vença, eu desistirei do noivado e sua irmã será livre novamente mas, caso eu vença, você será deserdado. Você abdicará o nome de sua família e partirá desse castelo e dessa capital para sempre. Se estiver disposto a aceitar esse desafio, aí então eu aceito o seu. ― disse Rael.

                       O público explodiu em comentários. O pedido do príncipe tinha balançando todos e fizeram muitos duvidar da força de Rael, mas o desafio de Rael agora fez o público entrar em um êxtase de comentários.

                       O príncipe correu a visão em volta, vendo o quão longe as palavras de Rael tinham alcançado o público. Desde o começo os três príncipes acharam Rael uma farsa e não acreditavam no seu pai. O imperador Elidas nem sempre foi verdadeiro com os filhos e, portanto, eles sempre tinham dúvidas em seus corações. Antes de descer para a arena, seu pai Elidas tinha mandado ele ter cuidado, mas é claro, ele não levou aquilo a sério.

― Se eu aceitar o desafio então você aceita o meu? Nesse caso temos um acordo! ― o príncipe sorriu friamente, pensando que Rael só estava blefando.

― Todos vocês ouviram! O príncipe Allan aceitou meu desafio. Se ele vencer eu cancelo meu noivado com a princesa Anita! Mas se eu vencer, ele rejeitará sua família e sumirá da capital! ― Rael gritou, olhando em volta para o seus expectadores. era óbvio que ele queria que todos testemunhassem aquele debate.

                       O imperador Elidas se levantou de seu lugar, havia um semblante de preocupação em seus olhos. A estupidez de seu primogênito tinha deixado o velho homem preocupado:

― Parem os dois com esse debate agora mesmo! ― o imperador interveio por seu filho: ― A luta deve ser apenas normal, dentro das regras. Nada de apostas por fora!

― Por um acaso o pai real está com medo de eu humilhar o homem  no qual entregou a mão de minha irmã mais nova? ― perguntou o príncipe.

― Besteira! Eu estou fazendo isso por você! Não quero pensar na hipótese de deserdar um filho meu. ― disse o Elidas de volta. A multidão foi a loucura diante daquelas palavras. O imperador deixou claro que acreditava mais em Rael do que no próprio filho, como aquilo não poderia surpreender alguém?

― Eu já sou adulto e tomo minhas próprias decisões, eu quero aceitar o desafio imposto por Samuel Raymonde! ― o príncipe insistiu, ele ficou ainda mais indignado com as palavras do pai. Os outros dois príncipes tinham olhares irritados contra Rael e apoiavam seu irmão mais velho. Alana tinha um semblante surpreso sobre o qual ninguém saberia dizer quem ela apoiava. Era óbvio que ela estava chocada com o desenvolvimento daquela discussão. Anita, por sua vez, tinha uma expressão calma. Ela não conhecia Rael muito bem, mas acreditava em seu futuro marido. Ele não parecia ser o tipo de homem que diria tanto para depois se humilhar sozinho.

― Pois muito bem, filho teimoso! Que assim seja, se você perder eu terei prazer em exilar você! ― o imperador ficou indignado com a estupidez do filho. Mesmo ele tentando ajudar, seu filho continuou montado em sua montanha de orgulho e arrogância. O imperador apenas voltou para o seu assento e todas as atenções se voltaram para a arena mais uma vez.

― Me exilar? Besteira! Você vai é passar vergonha por ter entregue a mão de minha irmã mais nova para alguém tão fraco! ― bufou o príncipe. A multidão agora tinha se calado.

― Eu estou aceitando o desafio em nome de minha honra, se eu perder serei deserdado e sumirei para sempre da capital. Mas se eu ganhar, você cancelará o noivado com minha irmã e nunca mais pisará o pé nesse castelo novamente! ― o príncipe aumentou um pouco a aposta, mas não era nada demais.

― Certo, eu aceito! Em nome da minha honra, se eu perder, cancelarei o casamento com a princesa Anita e nunca mais pisarei o pé nesse castelo! ― concordou Rael.

― Muito bom, agora vamos começar com isso! ― disse o príncipe. Tanto ele como Rael olharam na direção do juiz. O mesmo saiu da arena e fez a ativação da barreira. Os cristais azuis brilharam e uma energia se formou circulando toda a região. A energia formou uma caixa gigante transparente de cor azulada que, apesar de parecer forte, não impedia ninguém de assistir ao combate.

 

― Podem começar! ― anunciou o juiz. Rael e o príncipe se prepararam para iniciar o combate.