O Herdeiro do Mundo

217 - Keylla e Sua Decisão

Mostrando o espelho a Keylla, a mudança súbita ocorreu e a personalidade dela foi imediatamente de uma mulher tímida para uma mulher séria e durona:

― Líder Astrid, o que faz aqui? ― perguntou Keylla, assim que tomou de conta do corpo.

― Estava preocupada com você, não aparece já faz algum tempo. Está tudo bem? ― perguntou a mulher gentilmente.

― Essa dama passou um longo tempo refletindo... ― disse Keylla, sem muita vontade.

― Você subiu mais um reino, agora já está no décimo primeiro, isso é como um milagre.

― Não é um milagre, essa dama acredita que seja o desejo de algum deus.

― E por que pensa isso? Você sonha? Recebe alguma visita de algum ser poderoso ou algo do tipo?

― Não exatamente. Eu apenas sinto que seja isso. ― disse Keylla.

― Se você sente, pode ser uma resposta. ― concordou Astrid: ― Eu vim aqui hoje não somente ver você como também contar as boas novas.

― E quais seriam?

― Ficamos de olho no jovem mestre Samuel. ― disse Astrid, fazendo Keylla se virar rapidamente para ela: ― Não se preocupe, não fizemos nada a ele, mas o que ouvimos é deveras intrigante.

― E o que ouviram?

― Algo sobre o casamento dele com a princesa não ter sido tão bem aceito, as grandes famílias começaram a ameaçar uma rebelião e isso gerou uma pequena novidade.

― Qual novidade? ― Keylla não conseguia segurar suas preocupações com Rael. Era tão evidente que ficava óbvio para Astrid.

― Haverá um torneio que começará dentro de três dias. Nesse torneio, todas as grandes famílias estarão participando. O jovem Samuel deverá sair vencedor absoluto caso queira continuar com direito de se casar e se tornar o próximo futuro imperador do continente Sul.

― Ele vencerá facilmente. ― disse Keylla se virando de lado, ela conhecia o poder de Rael e o viu enfrentando um reino final sem medo. Mesmo que tenha sido por um curto tempo e que tenha apanhado bastante, mas ele sobreviveu o bastante e ainda deu um jeito na situação.

― Você tem certeza? Os oponentes dele serão na grande maioria cultivadores no décimo segundo reino, pelo o que eu ouvi dizer. Ao que eu sei, ele é apenas um sétimo reino. ― disse Astrid. Keylla poderia falar de sua experiência ao enfrentar Rael, mas seria uma farsa porque Keylla não podia matar Rael, então logo sua batalha foi injusta.

― Ele vencerá. Essa dama não tem dúvidas. ― disse Keylla se virando de lado.

― O que esse jovem tem de especial, além do seu charme? Eu fui vê-lo pessoalmente, não cheguei muito perto porque ele estava com a sogra e as esposas, que aliás são bem bonitas também. Tenho que dizer que ele é definitivamente lindo, diferente de todos os homens que já vi anteriormente. ― admitiu Astrid. Keylla ficou pensativa olhando de lado.

― Essa dama nunca sentiu nada por nenhum homem antes... Ele foi o único que mexeu comigo.

― Tenho certeza que não foi apenas o charme dele que conquistou você, o que mais ele tem que foi capaz de arrastar seu coração? ― Astrid insistiu.

― Essa dama também pensou nisso por vários dias. Sua mesma dúvida é também a minha, pois não consegui ter nenhuma resposta. ― disse Keylla.

― Como isso é possível? Uma mulher não se apaixona por um homem sem qualquer motivo.

― Essa dama também não sabe! ― disse ela se voltando para a líder com uma expressão nervosa: ― A minha vontade, no fundo de minha alma, é pular na frente dele, rasgar minhas roupas e o abraçá-lo, o mais forte que puder! ― disse Keylla. Essa resposta deixou Astrid chocada, uma mulher tendo esse tipo de desejo estaria loucamente apaixonada, o que não era nenhum pouco normal. Poderia sim existir essa possibilidade real no mundo, mas não de uma maneira tão rápida como aconteceu com Keylla.

― Isso não pode ser normal. ― disse Astrid surpresa.

― Essa dama entende que não pode ser, mas é assim que me sinto... ― disse Keylla, se acalmando e se virando de lado novamente: ― Não fui drogada, não levei qualquer ataque de alguma habilidade que possa ter causado tal reação. Essa dama simplesmente o viu e começou a se sentir assim.

― Se você sente tudo isso, então porque ainda não foi até ele? Você mesma precisa confirmar todo esse seu desejo, se isso é loucura ou realidade. ― propôs Astrid.

― É real, mas essa dama não entende como. Ele parece ter uma resposta para isso, mas essa dama não quer ouvir. Eu tenho medo. ― disse ela.

― Medo do quê? Você não quer saber mais sobre você? Talvez esses aumentos de poder que você tem possa ter algo a ver com esse seu desejo por ele. ― disse Astrid de repente. Poderia parecer apenas um comentário aleatório, mas isso fez Keylla se virar surpresa para a sua líder:

― Acha que isso tem alguma ligação? ― Keylla perguntou ansiosa.

― O que sei é que não temos as respostas do que ocorre sobre o seu aumento grandioso de poder, e não parece haver um jeito de saber, mas pelo menos podemos tentar entender porque você se apegou a um jovem tão de repente.

                Esse pensamento mexeu com Keylla, que se encheu ainda mais de dúvidas. Ela sabia que Astrid poderia ter um pouco de razão.

― O torneio começa em breve... Você virá comigo? ― perguntou Astrid.

― Por que a senhora está me ajudando? Eu nem mesmo estou cumprindo as missões da guilda nesses últimos dias. ― disse Keylla.

― Você é boba? Eu não ligo para a guilda tanto quanto ligo pra você e acho até que está na hora de você sair. Você já fez mais que o suficiente.

― Sair? ― perguntou Keylla de repente.

― Se você tem uma meta na vida é melhor do que isso. Eu fiquei todos esses anos e me tornei líder porque não tinha nada melhor para fazer. Fazer parte de um grupo desses não é seguro, sua vida sempre estaria por um fio.

― Mas somos temidos, somos respeitados. ― disse Keylla.

― Temidos? Não! Nós somos úteis para as famílias certas. No momento em que damos um passo em falso, nós estaríamos perdidos. É por isso que cada pedido é analisado antes de ser confirmado. Permitimos o pedido da cabeça do jovem Samuel porque o patriarca não dá qualquer valor a ele. Sendo assim ele é como um peso morto.

― Mas ele ainda tem a sogra e o sogro por trás. ― disse Keylla.

― Mas estão sozinhos. Eles podem ter certo poder e rede de informações, mas não se compara ao poder de um patriarca. Um patriarca tem a ordem absoluta em um clã, um só pedido dele poderia nos levar a ruína. Não somos tão poderosos quanto você pensa. Mudamos nosso esconderijo mensalmente, mas e daí? Você acha que não poderíamos ser seguidos? Há várias formas de nos encontrarem. ― disse Astrid.

― Você tá dizendo isso tudo para eu sair?

― Não estou, eu já preparei todo seu pedido. Nesse momento você não faz mais parte do nosso grupo. ― disse Astrid, surpreendendo Keylla.

― Líder Astrid, por quê?! ― perguntou Keylla chocada.

― Eu só queria cuidar de você. Você não tem mais ninguém, mas isso não significa que está sozinha ou que precisa fazer parte de um grupo assassino.

― Qual é o seu objetivo com isso? ― perguntou Keylla com um ar mais sério.

― Eu só quero ver até onde o seu poder vai aumentar. Você não está curiosa com a mesma coisa? Ninguém jamais alcançou o décimo primeiro reino aos 22 anos de idade, Keylla. Você é a lenda pura desse mundo. Quer algum outro motivo que me faça querer te ajudar? ― perguntou a bela morena. Keylla abaixou o rosto sem nenhuma resposta.

― E então, você vai vir comigo? ― perguntou Astrid, retomando o assunto do torneio.

― Sim, eu irei. ― disse Keylla.

― Perfeito, eu farei companhia para você durante o torneio. Vamos ver do que esse jovem mestre Samuel é capaz. ― disse Astrid com um ar animado.

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                Alguns dias depois...
                O torneio estava prestes a começar. As pessoas continuavam chegando e tomando seus lugares na imensa arena que ficava localizada ao fundo do castelo imperial. A arena era duas vezes maior do que a do que a do território Torres.

                Alguns lugares eram reservados para grandes famílias, outros para famílias de porte médio e o restante eram lugares aleatórios, feitos para pessoas que comprariam as entradas.

                Dessa vez, todos os patriarcas das grandes famílias vieram pessoalmente com a sua frota inteira de elders, a maior parte seria participante do torneio. Era um encontro inédito entre várias famílias poderosas. Tinha as que se conheciam amigavelmente e algumas outras, onde haviam rinchas. Ninguém poderia saber ao certo o que se esperar naquele torneio.

                Apesar do vasto lugar para o clã Torres, havia poucas pessoas acomodadas. Estava Neide, Rayger, Rika, Mara, Natalia, Ariane, a prima de Mara, e também Adrian, o seu marido, o jovem que fez o teste de força com Rael e quebrou a mão. Haviam outras poucas pessoas que vieram em respeito a Neide e Rayger, mas ninguém realmente importante.

                Rael não estava preocupado com o grupo que estava em seu apoio, ele estava mais preocupado era com o público aleatório. Ele pensou que pelo meio poderia encontrar sua Isabela, já que não a via por tantos dias. Ou, quem sabe, algumas outras pessoas que conheceu em sua jornada, mas correr os olhos por um público tão grande era complicado.

― Genro, as pessoas não estão acreditando muito em você pelo que andei escutando... ― disse Neide, chegando ao lado de Rael.

― Eles verão por si próprios. ― disse Rael, ainda caçando pessoas com os olhos.

O local da arena em que eles estavam era diferente dos demais. Havia um espaço sem bancos, onde podiam ficar de pé próximos as beirada e ter uma visão melhor. Todos os grandes clãs tinham esses locais. Em uma das beiradas, Rael viu Samara no local destinado ao clã Sangnos. O olhar dela sobre Rael era um misto de medo e curiosidade. Ao lado dela estava o patriarca Ariel que, ao ver a filha encarando Rael, a puxou de lado. Rael não deu muita atenção e olhou para outras direções, continuando a sua busca.

― Depois de hoje, considerando que você vai vencer, todo esse continente estará sob suas mãos, ninguém mais vai abrir a boca para discordar de qualquer coisa referente a você. ― disse Neide.

― Espero que esteja certa. ― disse Rael de volta.

― Violeta e Emilia não virão? ― Neide mudou um pouco o assunto.

― Eu pedi para que não viessem. Seria perigoso caso alguém trouxesse erva ilusa.

                As pessoas continuavam chegando na arena e tomando seus assentos. Logo o imperador apareceu junto a uma de suas esposas, e os príncipes apareceram em seguida com Alana.A família real parecia estar quase completa, restando apenas Anita.

― Marido, onde está sua noiva Anita? ― perguntou Natalia curiosa. Mara estava um pouco insatisfeita de canto, ela preferiu ficar um pouco afastada em vez de ficar de cara feia para Rael. Dessa vez ela culpava a sua mãe pela estúpida ideia de arranjar mais uma esposa para o seu marido.

― Eu não sei, ela deveria estar com eles... ― disse Rael lançando um olhar na direção da família imperial.  Os três príncipes estavam muito bem vestidos e arrumados, nem parecia que iriam lutar em poucos momentos. Eles estavam todos dentro do décimo reino. O olhar deles sobre Rael era um olhar desdenhoso, ficava evidente que eles não gostavam de Rael.

                Rael e todo seu grupo foram surpreendidos pela presença de Anita que, em vez de se reunir com a sua família do outro lado, preferiu estar ao lado de Rael. Ela foi se apresentando educadamente para todos, com foco especial em Natalia e Mara. Natalia a recebeu normalmente com um sorriso e concordou que se dariam bem. Natalia tinha um pouco de ciúmes, como já dito, mas ela conseguia contornar isso muito bem ao entender que era necessário para Rael.

― Mara, é um prazer conhecer você. Eu sou Anita, como você já deve saber. Espero que possamos nos dar bem como futuras irmãs e esposas do mesmo homem. ― disse Anita sorrindo. Anita parecia bem meiga quando queria.

― Sim, espero que possamos nos dar bem. ― concordou Mara, sem muito o que dizer. Qualquer um podia notar que o tom dela era um pouco frio.

― Anita, por que você está aqui? ― Rael a questionou. Ele não ligava muito para a escolha dela, mas seria melhor se ela se mantivesse com sua família.

― Eu não posso vim aqui e ficar apoiando o meu futuro marido? ― rebateu a princesa. Tirando Rael e Mara, todos pareciam muito satisfeitos com a chegada de Anita.

― Só acho que você deveria ficar com a sua família. Eu ainda não venci. ― disse Rael.

― Se não vencer, você vai mesmo terminar comigo? ― Anita tinha um olhar sério, mas podia se notar um tom de desaprovação sobre a ação de Rael.

― Eu vou vencer. ― disse Rael.

― Você me parece mais certo da vitória agora do que antes... ― observou ela.

― Eu tive tempo para me preparar. ― disse Rael de volta.

― Tome cuidado com meus irmãos, eles não estão sendo nem um pouco gentis comigo. Disseram que vão aleijar você nas primeiras lutas, quando tiverem a chance. Eles disseram que você deveria apenas desistir quando a hora chegasse. ― disse ela.

― Me aleijar? ― perguntou Rael.

― Sim, especialmente meu irmão mais velho Allan. Ele me garantiu que cairia nas primeiras batalhas e você seria o oponente dele. ― explicou Anita.

― Então o príncipe quer me aleijar? Isso está ficando interessante... ― disse Rael sorrindo levemente.

― Isso não é motivo para você sorrir, você deve ter cuidado. ― disse Anita, que parecia conhecer esse irmão muito bem.

― É melhor você voltar até sua família e dar um recado ao seu irmão e outro ao seu pai. Primeiro, diga a seu pai que se ele não quer ter um filho aleijado, não o permita que ele desça para lutar comigo, se ele descer vou entender que seu pai não se preocupa com o primogênito. E para o seu irmão, diga que ele pode tentar o quanto quiser, eu o estarei esperando.

― Você tem tanta certeza assim da sua força? Meu irmão é um décimo reino mas é bem forte, Samuel. ― disse Anita.

― Eu tenho certeza do que estou falando. Por favor, vá até eles e deixe tudo avisado. Eu não pegarei leve se o plano deles é me humilhar. ― disse Rael. Anita pareceu não levar a sério o que Rael dizia, ela ainda não sabia que Rael podia mesmo vencer todos.

― Vá, Anita!Se você é mesmo minha noiva e futura esposa, deve aprender a confiar em mim. ― disse Rael.

― Está bem, eu direi. Mas não vai adiantar de nada, ele ainda vai querer lutar com você.

 

― Desde que seu pai fique ciente do que vai rolar, não tem problema nenhum. ― disse Rael e sorriu despreocupado para a princesa. Anita apenas saiu pela porta dos fundos e seguiu por dentro dos corredores da arena para o espaço de sua família. Rael apenas esperou enquanto o torneio estava prestes a começar.