O Herdeiro do Mundo

210 - Andréa Desaparece

Andréa já tinha desistido de relutar. Tanto o solo quanto as paredes rochosas que a cercavam eram muito resistentes. Mesmo que ela usasse todo o seu poder seria inútil, uma vez presa entre essas rochas o seu destino estaria decidido.

 

― Huhuhu... ― ela riu sozinha, imaginando que este era o pagamento por todas as muitas decisões que havia feito. Ela não sabia quais eram as piores, se as de sua trajetória ou a sua última, extremamente impulsiva. Ela ainda estava mergulhada em confusão dentro de sua mente, não sabia se proteger Rael em vez de deixá-lo morrer era realmente a escolha certa ou se foi apenas o seu coração de mulher que fraquejou e ela havia tomado tal decisão.

 

As paredes continuavam apertando-a, restando agora pouquíssimo espaço. Logo ela não precisaria mais pensar em mais nada, pois em menos de 30 segundos ela seria completamente esmagada, sem meios de fuga.

 

― Te achei! ― Rael surgiu saindo da parede à sua frente como um fantasma. Mesmo que Andréa não visse nada, ela ouviu claramente a voz de seu salvador enquanto sentia a aura do jovem no mesmo local.

 

Rael segurou a mão de Andréa que, embora estivesse um tanto surpresa, estava extremamente feliz. Se Rael apareceu, então ele a salvaria. Mas, quando foi que ela começou a pensar daquela maneira? Até ela se assustou com aquele pensamento ingênuo. Andréa foi puxada por Rael, que a conduziu seguindo em frente. Ao tocar na mão da moça, Rael a tornou também intangível e juntos avançaram por entre as rochas, ignorando completamente a física. Ela sabia que estava atravessando as paredes rochosas com ele porque era óbvio, ela já conhecia essa habilidade de Rael e ela estava completamente aprisionada pelas rochas, sem espaços para fuga.

 

Andréa saiu diante da luz do sol mais uma vez, junto com Rael. Os dois saíram do lado oposto ao de Arthur. Atrás deles, as rochas continuavam apertando ainda mais o que restava, sufocando aquele curto espaço além do limite.

 

― ‘Eu fui mesmo salva por ele...’ ― pensou Andréa surpresa. Ela também notou que o jovem estava completamente recuperado. Rael tinha ativado sua habilidade curativa enquanto Arthur estava ocupado com a moça e assim recuperou todos os danos sofridos, inclusive os das costelas.

 

― Desculpe depender de você e te fazer passar por isso. Tudo que eu pude fazer foi te salvar. ― disse Rael. As rochas atrás deles pararam de mover, o que indicava que a habilidade do patriarca havia chegado ao fim.

 

― Eu vou acabar com ele! ― disse Andréa e soltou a mão de Rael, que ainda tentou dizer algo mas não teve tempo. Ele apenas diria para a moça tomar cuidado. Rael sabia que não era páreo para aquele homem, e ainda não tinha plena certeza do porquê Andréa era, mas tudo que ele poderia fazer era depender dela. Ele até poderia pensar em uma fuga, mas o patriarca na sua loucura iria atacar o falecido clã Sarbaros para matar os seus discípulos.

 

Como um vulto, ela correu girando em volta das paredes rochosas e saiu de cara com o seu oponente. Arthur já estava esperando por esse resultado, ele sabia que Rael atravessaria as paredes e tentaria salvar Andréa, embora ele não tinha certeza se aquela habilidade funcionasse nela também.

 

Zuuuup!

 

Andréa surgiu com força total diante de Arthur. Ela ainda empunhava sua espada de porte médio, e sua espada vibrava com força total enquanto emanava uma intensa energia roxa.

 

― Cortando o Vento! ― Andréa rugiu, ativando uma técnica especial que fazia o corte dela ser ainda mais rápido e forte que o normal. Assim, Arthur não teria tempo de fazer mais nenhum truque durante o ataque. Outro movimento perfeito, a lâmina golpeou perfeitamente o pescoço de Arthur, rasgando-o até a metade. Muito sangue jorrou daquele grave ferimento, e a lâmina estava presa na garganta do antigo patriarca Sangnos.

 

― Morrerei, cof, cof! Mas levarei você junto! ― disse o patriarca já perdendo as forças e ativou sua última técnica: ― Petrificação total! ― O corpo do patriarca brilhou em amarelo, soltando uma onda leve no ar. A espada de Andréa foi tomada por um tipo de transformação e começou a virar pedra, ela não teve tempo de soltar a empunhadura, o processo foi muito rápido e se espalhou pelas mãos dela, em seguida já seguiu pelos braços, continuando a transformar tudo em pedra. Andréa não tinha como reagir com a sua energia contra a técnica de Arthur, que foi implantando energia em seu corpo forçadamente.

 

― Técnica do Vento: Inverter Imagem! ― gritou Andréa e tudo ficou como se o mundo tivesse parado. O corpo de Andréa desapareceu no ar e reapareceu a dois metros atrás. A espada dela estava normal agora, sem nenhum traço rochoso e nem mesmo uma gota de sangue. Era como se ela tivesse negado a existência de seu ataque a Arthur, porém, o homem já moribundo continuou soltando sangue pela garganta e seu corpo continuava petrificado. Assim como ele lançou aquela energia em Andréa, ele também soltou pelo próprio corpo para ter certeza de seu golpe dar certo.

 

― Você... É do clã...! ― Arthur arregalou os olhos surpreso ao reconhecer aquela habilidade, mas ele não teve tempo de dizer o que descobrira. Sua expressão foi petrificada sem ter tempo nem para sua última frase, tornando-o em uma estátua de pedra por completo. Andréa apenas esperou todo o processo terminar e depois usou sua espada, partindo-o em pedaços. Mesmo enquanto o matava, ela não sentiu qualquer remorso, nem qualquer sentimento.

 

Rael tinha chegado somente naquele instante e a viu quebrando as rochas do corpo petrificado de Arthur. Rael percebeu a expressão fria dela mesmo enquanto matava um homem. Naquele momento, Rael pensou sobre as vezes em que ele, de certo modo, tentou forçar sua relação com a moça e se congelou por dentro. Se Andréa ficasse irritada, ela certamente poderia feri-lo gravemente.

 

― Você foi incrível! Eu nunca vi alguém lutar assim antes, exceto por minha sogra, mas essa é uma história para outro dia! ― disse Rael, se aproximando animado. Andréa se virou para Rael ainda com a espada em punho, ela ainda não tinha qualquer expressão, aparentando sempre ser uma mulher estranhamente fria.

 

― Está tudo bem? Ficou aborrecida por ter que matar uma pessoa? ― perguntou Rael preocupado. Rael ficou de frente a Andréa sem nenhuma defesa, de guarda baixa. Ele jamais poderia imaginar que dentro da mente de Andréa corria o estranho dilema entre matá-lo e protegê-lo.

 

― Eu estou bem, estou acostumada a tirar vidas... ― disse ela e olhou de lado para as pedras quebradas que seriam o corpo do patriarca.

 

― Pode me dizer a verdade agora? Você é mesmo um reino renascido? É por isso que tem aquele escudo no seu corpo que nem mesmo eu posso penetrar? Por isso que consegue usar o poder das leis mesmo sendo apenas um quarto reino? ― Rael soltou todas suas perguntas com expectativa, ele estava muito admirado com a força de Andréa. De imediato ela não respondeu, em vez disso ela abaixou o rosto e olhou de lado, o que fez Rael pensar diferente.

 

― Será que você se lembrou de alguma coisa? Nos primeiros, dias quando foi atacada por bandidos, você não sabia que tinha essa força. Porque, se soubesse, não iria se deixar ser pega. ― disse Rael se lembrando.

 

Rael estava certo. No princípio, assim que encontrou Rael, Andréa não podia usar aquela força, se pudesse, teria tirado a vida dele bem no começo e ele morreria sem nem saber o que ocorreu, a força dela só foi surgindo aos poucos, conforme os dias passavam.

 

―Andréa, algum problema? Está com raiva de mim? ―perguntou Rael.

 

― Eu não estou com raiva de você, só estou pensativa... ― disse ela.

 

― Que bom, você estava me preocupando. ― disse Rael.

 

― Você tinha dito antes que queria mais poder, mas não me disse o motivo. Você tem algum outro motivo para querer ficar forte, além de sua vingança contra os pais de Natalia? ― perguntou Andréa. Ela ficou curiosa porque Rael não pensava só nele, por várias vezes ele falou em protegê-la, mesmo sem interesse sexual.

 

― Acho que você merece saber agora. A pílula que criei mais cedo é para combater um vírus que é causado por uma mordida de uma criatura humana de outro mundo.

 

― Outro mundo? ― perguntou Andréa curiosa.

 

― Eu não queria falar disso agora porque é um pouco complicado. De qualquer forma, se essa coisa se espalhar nesse mundo, vai ser uma verdadeira carnificina. Seria como ver pessoas devorando umas as outras. A pílula que criei impede o efeito dessa transformação porque, se uma pessoa for mordida, ela pode virar um deles e assim morder outros, espalhando ainda mais o vírus até tomar todo esse mundo― explicou Rael.

 

― Outro mundo... Um tipo de vírus pela mordida... Eu nunca ouvi falar sobre isso. Você tem certeza do que está falando?

 

― Eu não tenho motivos para mentir. Neide, minha mestra e outras pessoas e eu estamos trabalhando para evitar que isso ocorra aqui, mas você não pode conta isso para as minhas esposas. Se elas ouvirem, vão querer ajudar . ― disse Rael.

 

― Por que decidiu me contar agora?

 

― Porque você é forte, conseguiu até mesmo vencer Arthur, um reino final. ― lembrou Rael.

 

― Você tem provas? Algo que poderia me mostrar? Você não acha que deveria pedir ajuda de todas as grandes famílias? Se o que você diz for verdade, algo muito ruim pode acontecer a todos. Tenho certeza que as família se uniriam para ajudar.

 

― Eu não tenho provas. Existe um portal que liga esse mundo a uma versão alternativa do futuro. Mas nesse futuro alternativo, existem criaturas chamadas devoradoras, que comem e transformam pessoas. Não sabemos quando, mas sabemos que muito em breve eles poderão invadir este mundo também.

 

― E onde fica esse portal?

 

― Você está acreditando em tudo que eu disse?

 

― Estou. Por que mais você iria mentir?

 

― O portal fica na Ilha do Vulcão, em uma caverna. Ele está atualmente protegido com uma poderosa barreira. É na ilha que ocorreu o evento misterioso da cidade de Améria. ― explicou Rael.

 

― Então é naquele lugar onde teve mortes misteriosas... ― disse Andréa de repente.

 

― Você se lembra disso? ― perguntou Rael surpreso. Andréa continuou pensando e não respondeu mais qualquer coisa. Ela de repente se virou para Rael e disse:

 

― Espero que, quando a hora chegar, você possa me perdoar. Adeus! ― ela guardou a espada no bracelete, levantou e voo e sumiu como uma flecha no horizonte. A velocidade de voo dela era tão rápida que poderia ser facilmente comparada com a de Neide enquanto carregava Rael. Isso deixou Rael chocado de começo, que por um segundo perdeu as reações e a fala.

 

― Andréa! ― gritou Rael um pouco atrasado e levantou voo atrás da moça, mas ele era inúmeras vezes mais lento. Rael continuou voando na direção que sentia os últimos sentidos do poder dela e se lembrou do anel.

 

― Ativar: Andréa. Andréa, espere. Do que você está falando sobre perdoar? O que aconteceu? Fale comigo. Se tiver um problema ou algo que eu possa fazer, me diga, eu ouvirei você. Não vá embora assim! ― disse Rael apressado.

 

Andréa voava a toda velocidade saindo da região próxima a Rael o mais rápido que ela podia, enquanto seu coração palpitava com força. Ela ouviu a voz de Rael em sua cabeça devido ao anel de comunicação. Andréa não respondeu, em vez disso retirou-o do dedo e o armazenou no bracelete enquanto fechava firmemente os olhos, tendo absoluta certeza de sua escolha. Em seguida, aumentou mais ainda seu voo enquanto liberava mais poder. A moça praticamente sumiu no horizonte.

 

Rael lá atrás sentiu que ela removeu o anel e a essência dela também desapareceu sem deixar rastros. O jovem parou o voo e ficou parado no ar, completamente confuso. Por mais que ele pensasse, ele não conseguia entender o que ela quis dizê-lo no final. Ele não entendia de forma nenhuma porque ela tinha decidido partir tão subitamente.

 

― Ativar: Thais. Thais, preciso falar com você...

 

Falar com Thais não ajudou em nada. A mesma disse que a última vez que se lembrava de Nastácia do seu mundo – a Andréa do mundo de Rael – a princesa tinha exatamente o poder de um quarto reino nível três, mesmo na dimensão alternativa. Thais explicou que ela não parecia mais forte, no entanto, ninguém ousaria mexer com aquela princesa para testar sua força. Mesmo que a beleza de Nastácia pudesse abalar a mente de qualquer homem, ela ainda era filha do imperador Nero, um nome que ninguém ousaria ofender, o mesmo valendo para patriarcas mais poderosos das atuais famílias.

 

― ‘Por que ta me perguntando isso, Samuel? O que houve?’ ― perguntou Thais depois de explicar o que sabia.

 

― Eu acabei de ser salvo por ela, Thais. Quem me atacou foi Arthur, um reino final, e ela o derrotou. ― disse Rael. Mesmo Rael ainda estava chocado com aquele resultado inesperado.

 

― ‘O quê?!’ ― Thais pensou não ter ouvido direito. Andréa deveria ser somente um quarto reino. Aquilo era absolutamente incompreensível.

 

Depois de Rael explicar os detalhes para Thais, Rael encerrou o chamado. Com a última conversa entre eles, Rael teve algumas dúvidas sobre onde Andréa poderia ter ido. Ele não sabia se ela iria na ilha conferir as coisas que ele disse, ou se voltaria para casa e falaria com o pai e busca de ajuda para proteger o continente Sul. Isso deixou Rael ainda mais preocupado.

 

― ‘Mas por que você tirou o anel? Por que não fala mais comigo? Por que tomou tal atitude tão repentinamente?’ ― uma coisa podia explicar algumas partes, mais não tudo. Rael ainda não entendia o porquê ela lhe pediu perdão. Será que foi por não tê-lo aceitado naquela noite?

 

Rael procurou relaxar. De repente, Andréa apenas quis sair por conta própria para dar uma volta ou sei lá o quê, Rael pensou que a moça voltaria em breve e logo estaria em casa novamente, junto com suas esposas. Com isso, Rael convocou Ralf e partiu para a capital. Ele ainda estava pensando se deveria contar todas essas coisas para Neide ou Violeta, essas duas poderosas mulheres atualmente eram as mais preocupadas com ele.

 

Rael ainda não tinha feito as compras para forjar as armas e armaduras, ele quase se esqueceu após os eventos ocorridos. Ele também tinha olhado o corpo do patriarca, mas seu bracelete também havia sido petrificado e partido junto, o que realmente era uma pena. Alguém poderoso como Arthur sempre andaria com alguma boa quantidade de ouro, além de itens preciosos.

 

 

Rael mais uma vez se lembrou do resultado que levou Arthur para a morte e agradeceu Andréa mentalmente por isso. Sem a interferência da moça, ele com certeza teria morrido. Isso era algo que Rael jamais iria se esquecer. Com esse pensamento, ele partiu para a capital. Ele ainda continuava preocupado com Andréa, mas a mesma poderia se virar muito bem agora que recobrou as memórias, além de que ela poderia voltar quando quisesse.