O Herdeiro do Mundo

204 - Verom VS Clã Torres

Isabela podia sentir uma grande energia emanando de seu mestre envolvendo a pedra. Verom tinha parado de falar e recitava um encanto em baixo tom, concentrado. A pedra de teleporte começou a estremecer e Isabela notou algo a mais perigoso. Pequenas partículas de energia vermelha saiam do corpo de Verom.

 

Isso significava que ele estava ativando uma habilidade que usava a sua própria vitalidade. A vitalidade, quando usada dessa maneira em técnicas, se esvaía da pessoa, reduzindo drasticamente seus anos de vida. Sem esquecer que Verom já era um homem velho e ainda estava extremamente cansado naquele momento.

 

― Mestre, o que está fazendo? Sua vitalidade está sendo drenada! ― disse Isabela querendo parar aquela técnica, mas se ela o fizesse estaria jogando todo o sacrifício de seu mestre pela janela.

 

Verom não se incomodou, ele continuou concentrado, lançando seu poder para a pedra. Essa era a única forma de salvar sua discípula.

 

― Nunca imaginei ficar nesse tipo de situação... Eu pensei que um dia eu poderia retribuir tudo que o senhor fez por mim, mas vejo o quanto eu fui tola ao acreditar nisso... ― disse Isabela tristemente, olhando de lado.

 

Verom continuou por mais alguns segundos enquanto Isabela ficou em silêncio, até finalmente parar. A pedra ficou parada no chão, pulsando em uma forte coloração de energia azul, indicando que ela estava pronta para ser utilizada.

 

― Sua retribuição a mim em forma de agradecimento será ter um vida plena e segura. Eu quero que fique com isso. ― disse Verom, estendendo seu próprio bracelete do infinito.

 

― Eu não posso... ― disse Isabela, olhando surpresa. Aquele bracelete carregava todos os bens adquiridos em vida de seu mestre.

 

― Eu vou morrer hoje e quem ficaria com isso seriam os inimigos. Eu não tenho família, Isabela, não tenho ninguém pra deixar esses bens. Só tenho você, que é como uma filha para mim. Aceite! ― insistiu ele, mantendo o bracelete estendido. Isabela relutou um pouco antes de estender a mão e aceitar.

 

― Com isso, tudo está feito. Eu desejo sorte em seus futuros caminhos. ― disse Verom, dando um passo adiante e envolvendo sua discípula carinhosamente em um abraço, enquanto lhe dava um beijo sobre os cabelos.

 

― Por que tem que terminar assim? ― perguntou Isabela tristemente, dando um abraço de volta em seu mestre.

 

― Não há jeito melhor de terminar. Vou morrer aqui hoje, mas você vai fugir e nunca vai deixar esses cretinos te pegarem. ― repetiu Verom. Ele disse aquilo várias vezes sobre morrer para que Isabela se conformasse,podendo superar sem pensar em vinganças futuras.

 

― O senhor fica repetindo que vai morrer como se não fosse nada! Pare de me dizer isso porque dói! ― disse Isabela com lágrimas nos olhos. Isabela dificilmente chorava por alguém, ela tinha um tipo de coração duro que só batia por Rael, ela só veio descobrir isso bem mais tarde. Mesmo agora, em uma despedida que deveria ser muito mais intensa, tudo que ela conseguia fazer era derramar algumas poucas lágrimas.

 

― Você sempre foi uma mulher forte e controlada, quando fugir quero que me esqueça e siga com a sua vida. Vingança não leva ninguém a nada, e não é esse o caminho que quero para minha discípula.

 

― Por que o senhor me escolheu desde o começo? Perguntei isso várias vezes, mais você nunca me respondeu antes. ― disse Isabela, se lembrando que quase foi morta a mando de seu pai.

 

― Por causa de sua habilidade de nascença, o escudo de chamas.  Nesse mundo ele não existe. Essa habilidade que você carrega e esse seu poder com as chamas não parece coisa do nosso mundo. É como se você, mesmo sendo mais fraca, estivesse em outro nível. ― disse Verom.

 

― Por que isso foi tão importante? ― perguntou Isabela surpresa.

 

― Eu sempre pensei na possibilidade de coexistir com forças maiores, forças de outros mundos. Passei a vida inteira buscando poder para tentar alcançar algum grau maior e descobrir mais sobre todo o mistério dos mundos, imagine a minha surpresa ao perceber que uma força maior estava crescendo diante de meus próprios olhos.

 

― Então o senhor soube desde o começo que eu não era normal?

 

― Você nunca foi normal. O jeito que seu poder aumenta, suas habilidades de fogo. Eu penso que você deva ser de outro mundo e foi deixada aqui para escapar de alguma coisa.

 

― Outro mundo? O senhor já visitou outros mundos?

 

― Com um mero poder final não sou capaz de cruzar a barreira protetora desse mundo. Mas tenho certeza de que há muitos outros mundos. Entretanto, eu não seria capaz de conhecer, mesmo tendo uma vida plena. Existem segredos sobre a cultivação que nós ainda não conhecemos, e eu quero que você viva e descubra tudo isso, você continuará vivendo pelo meu sonho! ― disse Verom.

 

Isabela se lembrou de Rael e dos momentos com ele. Ela também tinha visões estranhas de outra vida. O que o seu mestre estava dizendo tinha todo sentido sobre ela.

 

― Não faz sentido... É muito estranho pensar que não sou daqui... ― disse Isabela um pouco preocupada, olhando ao redor.

 

― Mais uma razão para eu não deixar esses malditos pegarem você. Ter uma vitalidade acima de trezentos indica que tudo o que conversamos agora realmente possa estar certo. Se você não é desse mundo, deverá viver para descobrir de onde veio.

 

― Esse meu poder que chamou sua atenção. Eu só descobri sobre ele quando fiquei à beira da morte, antes do senhor me salvar. Quando meu pai descobriu sobre minha fuga, ele mandou aqueles homens para me matar naquele dia... Foi a primeira vez que ativei o escudo em chamas.

 

― Sim, eu me lembro. Você matou dois homens instantaneamente, mesmo sendo dois reinos mais fraca que eles. Foi naquele momento que eu descobri que você era diferente de todas as pessoas que já conheci. Seu pai não teria mandado matar você ou te forçado em um casamento se descobrisse que você tinha esse poder oculto. Pior ainda seria se ele soubesse como o seu poder está aumentando constantemente.

 

― Eu nunca considerei aquele homem como o meu pai! ― disse Isabela, se lembrando com raiva dele.

 

― Eu sei, você é como eu. Foi abandonada e depois enviada para a morte. Eu vi em você toda minha vida, foi por isso que me apeguei tanto a você.

 

― Foi graças ao senhor que eu sobrevivi todo esse tempo. Eu o agradeço por isso, e peço desculpas por não poder retribuir tudo o que fez por mim. ― disse ela se curvando levemente enquanto fechava os olhos.

 

― Chegou a hora, Isabela. Você tem que ir. ― disse Verom olhando em volta. Todos os grupos que os cercavam estavam próximos.

 

― Mestre... ― disse Isabela apertando os dentes.

 

― Vá! Fuja! Não se esqueça de ir para o outro continente! Não deixe meu sacrifico por você hoje ser em vão! No bracelete que te dei tem dinheiro suficiente para você viver o resto de sua vida sem depender de ninguém! ― disse Verom duramente. Ele se mostrou o mais firme possível para não ser ainda mais difícil aquela despedida. Até mesmo Isabela sentiu as energias inimigas se aproximando.

 

― Eu nunca vou esquecer o senhor. Obrigada! ― disse Isabela enquanto uma lágrima descia de seus olhos. Em seguida, ela tocou a pedra e seu corpo desapareceu diante de Verom. A pedra, que antes brilhava intensamente, se partiu em vários pedaços espalhados pelo chão. Ela não funcionaria de novo, nem deixaria vestígios.

 

Verom se estremeceu e deixou seus sentimentos escaparem. Seus olhos foram cobertos por lágrimas silenciosas e não demorou para que as mesmas corressem pelo seu rosto. Isabela foi a única família que ele teve por toda sua vida e agora ele estava se preparando para deixá-la para trás. Ele não tinha medo da morte, desde o momento que ele decidiu enviar Isabela através daquela técnica de sacrifício ele não tinha mais muito tempo restante. Só naquela habilidade, ele tinha gasto 50% de seu poder total e 75% de sua vitalidade, sem mencionar o quão desgastado ele estava devido a essa fuga incessante.

 

No minuto seguinte, o céu foi coberto por pontos. Eram os homens do clã Torres, todos no décimo segundo reino. Havia mais de 40 homens. Todos olhavam na mesma direção, onde se localizava Verom. Verom conteve novamente seus sentimentos para que eles não pensassem que ele estava assustado.

 

Reges, que estava na liderança do esquadrão, foi o primeiro a descer alguns metros. Outros homens se juntaram seguindo Reges após certa distância. Verom ficou parado, concentrando sua energia para fazer seu próximo movimento.

 

― Onde está a garota, Verom? O que você fez com ela? ― perguntou Reges, que tinha notado ela sumir há pouco tempo. Reges e os homens estavam voando por cima de Verom a uns cinquenta metros de distância.

 

Verom saiu flutuando do meio das árvores para se aproximar mais de seus inimigos.

 

― Vocês nunca irão encontrar minha discípula! ― disse Verom firmemente.

 

― Um velho, caindo aos pedaços, ousou se levantar por tanto tempo contra o nosso clã. Você perdeu mesmo toda a vontade de viver. ― disse Reges friamente. Todos os homens junto a Reges olhavam Verom com ódio, foram incontáveis dias de busca e eles estavam realmente irritados. Ainda por cima, Isabela, seu principal foco, tinha sumido de repente.

 

― Fico imaginando como Romeo vai se sentir ao descobrir que Isabela deslizou por entre seus dedos hahahaha! ― Verom riu ironicamente, tirando sarro com a cara dos homens.

 

― Velho maldito! É melhor você me dizer onde ela está ou eu vou te torturar lentamente até que me diga antes de matá-lo por fim. Garanto que quando eu começar, você vai me implorar para parar! ― disse Reges friamente de volta.

 

― Você, me matar? É o que vamos ver! ― rugiu Verom, liberando o seu poder ao nível máximo. Uma forte aura de raio amarelo escura explodiu por todo o seu corpo, junto a uma intensa ventania. Essa ação de Verom chegou a assustar os homens que se afastaram para trás levemente. As árvores que estavam próximas começaram a se debater e poeira subia do chão.

 

― Esse poder é monstruoso! ― disse um dos homens perto de Reges. Reges se manteve com a mesma expressão fria e inabalável.

 

― Não tenham medo, podemos dar conta disso. ― disse Reges, de forma a acalmar seus homens.

 

― Sabem qual motivo fez o patriarca Arthur me temer por tanto tempo? Pois eu vou mostrar isso hoje para todos vocês! Eu levarei todos comigo! ― rugiu Verom, liberando raios de todas as partes do corpo. Seu corpo começou a se sobrecarregar e, por isso, vários ferimentos começaram a surgi por todos os lugares. O poder de Verom foi misturado com sua vitalidade. Verom estava disposto a usar seus últimos poderes com o restante de vitalidade que tinha, por isso, os raios amarelos em volta dele se avermelharam.

 

― Preparem o escudo! Rápido! ― gritou Reges para os seus homens, ele percebeu o que Verom estava para fazer. Rapidamente, oito homens vieram a frente formando um tipo de quadrado, divididos em três homens por cada lado. Os dois restantes se juntaram na linha de frente, tendo como centro o líder Reges, e se abrangendo um campo de aproximadamente trinta metros quadrados. Os homens, já em posição, começaram a recitar um encanto enquanto faziam alguns movimentos com os braços e mãos. Todos os oito homens liberaram seus poderes à nível máximo.

 

― Isso não vai me segurar! ― gritou Verom se transformando em uma imensa onda de raios, cobrindo-o completamente. Verom se tornou pura onda de raios com cerca de cinco metros de diâmetro. Já não havia mais como reconhecer qualquer parte humana naquela imensa formação de poder.

 

Um escudo transparente surgiu à frente de Reges, logo em seguida nas laterais, até fechar todos em um tipo de caixa. O restante do esquadrão já tinha entrado na parte protegida. Todos os homens – com exceção de Reges e os que formavam o escudo – sacaram suas armas, prontos para entrar em combate. Assim que Verom terminasse aquele ataque, contra-atacariam sem dar chances de defesa.

 

― Ele está vindo! ― disse um dos homens.

 

A esfera de raios originada de Verom partiu como um flecha, avançando contra o escudo de maneira devastadora:

 

Booooooom!

 

O impacto foi monstruoso. Mesmo com todos estando a 50 metros do chão, ainda espalhou-se energia em forma de descargas elétricas que destruíram terrenos abaixo e algumas árvores que começaram a pegar fogo.

 

― Senhor, a barreira! ― gritou outro homem.

 

Aquela enorme esfera de raios que antes era Verom continuava pressionando a barreira, que começou a se rachar. Todos os homens que estavam dentro ficaram surpresos. Aquele poder estava muito além de um reino final.

 

Vrum vrum vrum!

 

A barreira continuou sendo forçada ao limite. Os oito homens que formavam a proteção estavam controlando a barreira começaram a fazer expressões difíceis. Eles começaram a gritar por não aguentarem mais. Sangue saía de seus olhos e narizes. Eles estavam morrendo enquanto gastavam toda sua energia para tentar manter a barreira, em vão.

 

― Não vai aguentar...! ― disse Reges surpreso.

 

Brachss...!

 

A barreira foi despedaçada. Os oito homens que a formaram não aguentaram mais conter o poder da esfera de raios e caíram, com os corpos soltando sangue de todos os poros. A energia, que tinha diminuído de tamanho enquanto forçava a barreira, avançou diretamente contra Reges, que era o que estava mais a frente no comando.

 

― Para trás, senhor! Eu cuido dele! ― disse um homem com o corpo todo coberto em uma barreira protetora do elemento Terra. Essa barreira protetora era criada de sua própria energia, era como um casco duro de rochas que tinha no peito e nos braços. Assim que ele tomou a frente de Reges, o homem fechou os braços diante da energia, na intenção de conter os avanços.

 

Reges teve que recuar enquanto o seu companheiro assumia a sua posição.

 

― Aaaaaaaaaah! ― o homem que tinha acabado de entrar para proteger Reges gritou miseravelmente, tendo seu corpo partido ao meio. Toda aquela proteção de Terra não serviu de nada diante da esfera de energia elétrica. Ele teve os braços partidos, dilacerados e, em seguida, todo seu peito se desmanchou, resultando em uma chuva de sangue e restos mortais do que foi, segundos atrás, um corpo humano. A energia o atravessou, continuando o avanço em direção Reges após perder mais uma quantidade de poder e tamanho. Ao fundo ainda poderia ser notado o céu banhado em vermelho sangue.

 

Reges pensou que iria morrer. No último instante, toda a energia se dissipou no ar e um corpo completamente destruído surgiu diante de todos. Verom estava irreconhecível. Seu corpo estava todo escuro como se tivesse sido totalmente carbonizado. Em algumas partes seus ossos estavam expostos. A mão de Verom estava apontada para frente como uma cobra prestes a dar o seu bote. Essa mão que estava parada agora no peito de Reges, fora a mesma que segundos atrás partiu um homem com a barreira no décimo segundo reino ao meio.

 

Depois de uma curta pausa, na qual Reges e os homens ficaram assustados e surpreendidos, o corpo irreconhecível já sem vida de Verom desabou do ar. Todos acompanharam incrédulos a queda silenciosa de seu corpo. Verom tinha dado sua vida naquele único ataque, foi uma demonstração de poder que aqueles homens jamais esqueceriam.

 

― Ele... Morreu... ― disse um dos homens.

 

― É claro que morreu! Agora, procurem a garota! Ela deve estar escondida em algum lugar próximo. Procurem também por algum cristal de teleporte! ― gritou Reges, dando novas ordens ao esquadrão. Imediatamente todos avançaram para cumpri-la.

 

Reges olhou o buraco no peito em suas vestimentas e viu um ponto vermelho, onde Verom alcançou antes de morrer. Se ele tivesse ficado vivo por um milésimo a mais, com certeza Reges teria morrido.

 

― Velho maldito! ― bufou Reges furioso.

 

 

A história que poucos sabiam sobre Verom é que ele foi expulso de seu próprio clã por causa de um conflito interno ainda jovem. Depois teve a cabeça pedida pelo seu clã. Verom fugiu e passou anos treinando sozinho escondido do mundo. Anos depois, ele voltou mostrando um poder devastador e, sozinho, exterminou todo seu antigo clã impiedosamente, sem deixar sequer um sobrevivente. E esse era o motivo dele não possuir uma família. Não era por menos que Arthur temia tanto aquele homem com um poder capaz de destruir clãs.




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