O Herdeiro do Mundo

201 - Quase Irmãs

Rael esperou Thais tomar seu banho enquanto ficou sentado ao lado de uma árvore. Ele ficou a cerca de oitenta metros com o rosto voltado ao rio, observando aquela mulher banhando-se sob as águas. Mas ele não estava interessado nela, estava apenas perdido em pensamentos enquanto olhava as costas da linda mulher. Mesmo com certa distância, ele podia ver perfeitamente a bela silhueta de seu corpo, mas ele realmente não estava interessado. Por esta de noite, Thais também não se importou com Rael, ela entendeu que o rapaz estava apenas preocupado com ela e continuou tomando normalmente o seu banho. Mas não ia ser por esse motivo que não deixaria de lançar alguns olhares sedutores para jovem rapaz.

 

Ralf tinha sido liberado durante o tempo que Thais se banhava e estava dando uma volta nos arredores. Ele tinha encontrado uma besta do tipo lobo comum que se tornou uma bela refeição após a sua caçada.

 

Ralf não era de comer muito. Ficando a maior parte em forma de espírito com Rael, ele não sentia necessidades básicas mas, embora não sentisse fome, ele não recusava comida fácil. Sempre que tinha a oportunidade, Ralf comeria tudo o que estivesse ao alcance.

 

― Está olhando muito para mim, Rael. Por acaso está me desejando? ― perguntou Thais enquanto saía da água, de forma a provocar Rael. Ela mantinha um tom auto para ele ouvi-la bem.

 

― Você é minha amiga, eu não tenho desejos por você. ― disse Rael no mesmo tom alto, sem se preocupar.

 

― Haha! Agora está dizendo que não sou bonita? Por que não vem até aqui perto conferir por você mesmo? Posso não ser como a Rose, mas ainda sou atraente. ― disse Thais com o mesmo tom provocativo de volta, enquanto escorria a água de seus cabelos usando as mãos. Ela estava completamente nua, agora a setenta metros de Rael. Ela estava na parte de terra do rio, na margem.

 

― Thais, você nunca namorou? No outro mundo, com todas aquelas coisas acontecendo... Aposto que você nunca sentiu o corpo de um verdadeiro homem. ― disse Rael, provocando-a de volta já que ela tinha começado.

 

― Se eu disser que não, você vem e me mostra como é? ― perguntou ela de volta e sacudiu os cabelos com as mãos. Como seus cabelos eram curtos, são facilmente arrumados com a mão.

 

― Se você continuar brincando assim eu vou começar a levar a sério hahahahaha! ― brincou Rael de volta.

 

― Com todas aquelas mulheres belas afim de você, não foi atoa que você me recusou tão rapidamente. ― disse Thais, tirando uma calcinha limpa do bracelete. Agora o tom dela já era sério.

 

― Não recusei você por causa delas. Há dois motivos para isso: Primeiro, a minha lista é enorme, como você mesma pôde ver. E segundo, eu não mereço você. Eu tirei a vida de sua versão nesse mundo, e mesmo que você tenha me perdoado, eu ainda vejo você morrendo na minha frente. São coisas que não tenho como esquecer. Mas, no geral, você é uma mulher muito linda e eu me deitaria fácil com você. ― disse Rael, deixando Thais um pouco surpresa.

 

― Você me acha bonita, mesmo tendo tantas possibilidades melhor? ― observou ela.

 

― Acho sim.

 

― Obrigada pelo elogio. Respondendo sua pergunta anterior, eu nunca tive nenhum homem, e você estava certo. Não dava pra ter um homem depois de tudo que passei, ainda por cima, em um mundo a beira do caos. ― disse ela, agora vestindo um sutiã.

 

― Parece que agora você vai morar aqui, então é provável que você possa conhecer homens decentes. Assim você poderá até mesmo se casar. ― disse Rael, que permanecia no mesmo lugar.

 

― Acha que eu tenho o direito de viver em um mundo que não me pertence?

 

― E você vai voltar apenas para morrer em um outro mundo fadado ao caos? Só se fosse burra. ― rebateu Rael, sem pensar muito.

 

― Essa coisa toda ainda gira na minha cabeça... Confesso que ainda estou um pouco confusa. ― explicou ela enquanto vestia uma calça folgada de algodão na cor vinho.

 

As palavras dela fizeram Rael se lembrar de Rita do outro mundo. Ele ficou pensando se ela ainda poderia estar viva. Ele sabia que sua barreira era forte, mas o poder de uma violadora romperia facilmente a barreira criada por ele. Rael não queria pensar no pior cenário, e por isso se calou de repente.

 

― Você já pode vir, Rael. Não que isso importe, já que ficou o tempo inteiro me secando. ― disse Thais, sem notar a mudança de expressão de Rael.

 

― Já está pronta? Ótimo! ― disse Rael, se levantando e parando de pensar sobre Rita.

 

― Onde está o tigre Ralf? ― perguntou ela enquanto procurava em volta.

 

― Ralf, tá me ouvindo?! Temos que ir! ― gritou Rael, girando o rosto em volta. Depois, se aproximou de Thais que tinha acabado de vestir uma blusa verde. Após se vestir, Thais passou um pouco de perfume pelo rosto, pescoço e um pouco na blusa:

 

― E agora, estou cheirosa? ― perguntou ela, deitando levemente o pescoço de lado, como se quisesse que Rael verificasse. Rael não se importou, seguiu com o rosto de forma a sentir o cheiro do pescoço dela.

 

― Ta ótima! Me deitaria fácil com você. ― disse Rael rindo e provocando ela novamente, enquanto voltava o rosto para a posição original.

 

― Ah, se uma de suas mulheres ouvisse as coisas que você diz pra mim... ― disse ela de volta rindo.

 

― Foi você quem começou com essas piadas.

 

― Isso porque você ficou me devorando com os olhos. ― revidou ela. Antes que aquele debate continuasse, Ralf pousou do lado deles, levantando um pouco de poeira à sua volta.

 

― Eu acabei de tomar banho! Tigre doido! ― reclamou Thais. Ralf ficou irritado com a ofensa de Thais, se tornando sério e se aproximou, cheirando a mulher. Depois virou a cara repentinamente enquanto empinava o focinho, dando a entender que não gostou do cheiro dela.

 

― O que ele está fazendo, Rael? ― perguntou Thais desconfiada.

 

― Ele está dizendo que adorou a fragrância do seu cheiro. ― mentiu Rael e Ralf se virou irritado para o rapaz, grunhindo ameaçadoramente.

 

― Será que ele gostou mesmo? Não parece... ― disse Thais, ainda desconfiada.

 

― Ele adorou. Ele age assim sempre que gosta. ― Rael continuou mentido. Ralf deu um bote tentando morder Rael, que pulou de lado. Ralf continuou olhando irritado, como se esperasse que Rael dissesse a verdade para a moça.

 

― Viu como ele está feliz? Está até tentando me lamber hahaha. ― disse Rael.

 

― Nossa, que tipo de tigre é esse, que demonstra os sentimentos de uma forma tão peculiar? ― disse Thais com um ar sério. Não se sabia se ela tinha acreditado em Rael ou se estava provocando Ralf, entendendo a brincadeira. Ralf foi quem ficou furioso, ameaçado saltar em Rael a qualquer instante. Se Ralf pudesse dizer algo naquele momento, com certeza teria mandado os dois à merda.

 

― Calma, amigo! É hora de irmos embora, sente-se e nos deixe subir em você. ― disse Rael.

 

― Waaaaaaah! ― Ralf rugiu de volta furioso, ele não estava satisfeito por servir de piada. Thais ficou atrás de Rael rindo da besta que resmungava a todo o instante. Notava-se agora que ela sabia que Ralf estava bravo por Rael tê-lo provocado.

 

― É sério, Ralf. Nós temos que ir...

 

Quando Rael e Thais chegaram diante do território Sarbaros, o sol já estava brilhando. Rael, como sempre, mandou Ralf voltar e desceu dos céus com Thais nos braços, voando. Rael pousou suavemente e depois liberou Thais, que desceu de seus braços. Os dois tinham dito muitas coisas um para o outro antes, mas tudo era apenas brincadeira e, por isso, nada de real tinha rolado entre eles.

 

― Vou te levar até a casa deles. ― disse Rael e já seguiriam de lado quando vários guardas chegaram correndo. Eles estavam cercando para interrogá-los mas, ao descobrirem que se tratava de Rael imediatamente petrificaram, se desculpando o mais rápido possível e chamando-o de senhor, jovem mestre, grande mestre e todos os tipos de nomes mais honrados possíveis.

 

― Vocês já podem ir. ― disse Rael, em um tom frio com os guardas. Esses homens, apesar de serem os guardas das entradas da cidade, ainda eram da parte antiga do clã Sarbaros e Rael só os aceitava por não ter ideia melhor de como lidar com isso. Os guardas de Neide ficavam mais próximos a residência da matriarca, e o trabalho deles era manter a matriarca e os discípulos de Rael seguros a todo custo. O restante da segurança ficava para esses guardas.

 

― Você é bem respeitado por aqui... ― observou Thais.

 

― Eles têm medo de mim. Eu matei os mais poderosos deste clã – os elders, o patriarca e sua esposa – eu tomei este lugar à força, depois deles matarem pessoas que eu gostava. ― disse Rael sem querer entrar em detalhes.

 

― E permitiu que eles continuassem vivendo aqui? ― perguntou Thais surpresa.

 

― Você não é a primeira a me questionar isso. To começando a achar que fiz mesmo alguma burrada. Mas o assunto hoje não é esse, vamos ao que realmente importa.

 

Rael já tinha explicado que trouxe a família dela para esse lugar porque o patriarca Arthur do clã Sangnos havia ameaçado-os. Então, essa parte Thais já estava ciente.

 

Não demorou muito para eles chegarem na casa. Era de manhã, e nessa hora Valda estava preparando o café enquanto um cheiro de pão quentinho podia ser sentido, mesmo com porta fechada.

 

Rael e Thais ficaram parados diante da porta. Rael estava esperando Thais tomar a decisão de chamar os pais ou até mesmo sua irmã, mas isso não aconteceu de imediato. A moça estava ansiosa, com a mão fechada estendida, prestes a bater.

 

― Vá em frente, chame. ― disse Rael tentando animá-la. Isso deu mais coragem a Thais, que em seguida bateu na porta.

 

Tum Tum Tum!

 

Não demorou muito para Valda abrir a porta e encontrar os dois. Valda reconheceu a filha no mesmo instante e ficou completamente emocionada.

 

― Minha filha! Você voltou! ― Valda se alarmou e na mesma hora se lançou em Thais com um forte abraço. Os demais membros da casa ao ouvir isso, desceram correndo das escadas. O senhor Reis já estava se arrumando para o trabalho, enquanto Laís estava usando um curto vestido surrado que ela usava para dormir.

 

Rolou muitos abraços e beijos, seguidos de mais abraços e mais beijos. A emoção da família de reencontrar seu ente desaparecido era enorme:

 

― Você está tão linda, irmã! Um arraso de mulher! Eu quero me casar com você! ― Thais dizia animada, enquanto dava alguns beijos nos lábios da irmã. Eram beijos leves do tipo selinho.

 

Beatriz também apareceu um tempo depois e cumprimentou Thais, que a reconheceu sem esforço. Ela não entendeu porque a filha do patriarca estava morando com eles, já que Beatriz era a jóia do até então patriarca Arthur. Arthur certamente não deixaria sua filha andar por aí sem nenhum significado. Ela chegou a olhar para Rael com um ar questionador, mas deixou de lado momentaneamente, ainda no clima feliz de rever sua preciosa irmã.

 

― Veio só trazê-la ou veio ver a evolução dos seus discípulos? ― perguntou Beatriz timidamente, quando ficou sozinha com Rael enquanto aqueles três saíram conversando entre eles.

 

― Eu vim apenas trazê-la hoje. Parabéns pelo seu avanço no cultivo, está indo muito bem! ― elogiou Rael. Beatriz sorriu corando um pouco. Depois dos poucos encontros que tiveram, a moça começou a desenvolver sentimentos por Rael. Como ela via em Rael bastante segurança e sabedoria, não foi difícil nutrir aquele sentimento. Mas ela era tímida demais para dizer ou tentar fazer qualquer coisa a respeito, o máximo que ela conseguia fazer era dizer coisas normais.

 

― Samuel! Beatriz! Venham tomar café conosco, aproveitem que o pão está quentinho! ― chamou Valda animada.

 

― Ninguém sabe fazer um pão como a minha esposa, rapaz! Venha, aproveite! ― o senhor Reis também os chamou. Rael sorriu e empurrou as costas de Beatriz levemente enquanto seguia na direção deles, Beatriz foi acompanhando Rael conforme ele foi conduzindo. Só a mão de Rael tocando em suas costas já a deixava corada. Ela era como uma garota tendo seu primeiro romance. Antes disso, seu pai nunca permitiu que nenhum homem se aproximasse dela.

 

Rael tomou café com aquela família animada ao lado de Beatriz. Eles estavam tão felizes que não paravam de sorrir e Thais manteve o segredo como Rael havia pedido. Quando questionada sobre o motivo de sua demora para voltar pra casa, ela disse que estava ocupada em um trabalho secreto para conseguir o dinheiro que curaria a irmã, fazendo todos acreditarem facilmente, ela nem precisou entrar em detalhes.

 

Rael estava com sono, havia virado a noite inteira e queria dormir. Ele se despediu de Thais e explicou que mais tarde voltaria para conversarem.

 

Rael foi para a residência da matriarca Ana. Ele cruzou a porta central, avançou alguns corredores e entrou diretamente no quarto de Ana. Ele já entrou retirando o sobretudo e a camiseta de manga longa enquanto via Ana deitada.

 

Ana dormia completamente nua, mas estava envolta por um cobertor grosso até a altura do peito, o que permitia Rael ver parte de sua nudez, embora ele realmente não se importasse com isso. Tudo que ele queria no momento era uma cama confortável para dormir.

 

Retirando as peças de cima Rael, começou a retira a calça e foi nessa hora que Ana despertou. Ao primeiro instante, ela se assustou com aquele homem se despindo e quase saltou da cama, seu coração só se acalmou porque ela se lembrou da barreira. Ninguém além de pessoas confiáveis poderiam atravessá-la. Quando reconheceu, Rael ela se tornou ansiosa porque não sabia quais eram as intenções dele ao fazer tal ato.

 

Rael não disse nada. Estando somente de cueca, ele simplesmente subiu na cama se deitando de frente para a mulher, ajeitou o travesseiro e fechou os olhos diante do olhar curioso de Ana. Ana ficou deitada com aquela expressão de quem perdeu algo e não entendeu o que havia acontecido.

 

Rael não demorou a pegar no sono. Ele estava cansado da maneira que cultivou, cansado de virar a noite e cansado das preocupações recentes. Ele simplesmente apagou. Ana ficou olhando ele dormir por um tempo com um olhar vago. Ela ainda correu o olhar descendo pelo peitoral de Rael e, chegando naquela parte, ela suspirou triste por não ser exatamente o que ela tinha pensado anteriormente, se levantando da cama de forma a deixar Rael dormindo.

 

Ana se vestiu observando Rael a todo o momento. Ela se sentia confortável e quente por essa ação espontânea dele. Por mais estranho que podia parecer, o fato dele se deitar completamente de guarda baixa perto dela era uma representação de máxima confiança, algo que ela nunca viu ninguém exibir por ela antes. Por isso ela se sentiu tão feliz. Antes de sair do quarto, cobriu Rael com o seu cobertor e deu um beijo carinhoso no rosto do jovem, enquanto levantava seus cabelos com a mão.

 

 

As ações de Rael eram algo do tipo familiar. Assim como ele agiu a vontade com Thais, ele agiu com Ana. Essas duas mulheres para ele representava sua maior confiança, tal como se fossem suas irmãs.