O Herdeiro do Mundo

200 - Os Planos

Ninguém poderia imaginar o real poder que a Violeta devoradora poderia ter, mas eles tinham uma base que seria muito maior do que o comum. Sem esquecer que ela teria uma regeneração monstruosa junto a esse novo poder. Por isso, a primeira coisa que Rael fez foi pensar em uma maneira de derrotar essa mulher sem precisar lutar. Eles já estavam considerando que esse mundo sofreria um ataque e, portanto, estavam tentando se preparar.

 

― A Violeta deles deve ser muito mais poderosa que eu. Não sabemos se o que você pensa pode funcionar, Rael. ― disse a Violeta.

 

― E por que não funcionaria? Ela não é como vocês? Só o que mudou é que ela virou uma devoradora. ― disse Rael.

 

― Exatamente. Ela mudou e com certeza deve ter ficado mais poderosa e até mais resistente. Se ela chegar a invadir esse mundo, temos que pensar em todas as possibilidades. Eu sugiro que você vá correndo imediatamente chamar Alexia. Se Alexia estiver conosco, mesmo uma versão de mim mais poderosa não terá chances contra ela. ― disse Violeta. Quando os outros que não conheciam Alexia ouviram falar sobre ela, ficaram imaginando que tipo de monstro era esse para ser ainda mais forte que a Violeta devoradora, a mulher por trás da destruição de um dos mais poderosos clãs.

 

― Alexia não poderá ajudar no momento. Eu fiz uma visita a ela nesses dias e ela não gostou muito. Quando eu saí, ela fechou a fenda para que eu não a procure novamente.

 

― O que será que ela tem na cabeça? Se ela propôs aliança, por que faria isso? ― reclamou Emilia, um pouco emburrada.

 

― Ela tem que se acostumar com o novo corpo, e isso leva tempo. Se ela ficar sendo importunada não vai conseguir estabilizar o poder. ― disse Rael.

 

― Dragão inútil! ― disse Emilia virando de lado.

 

― Dragão!? ― Indagou Mara e Rael do outro mundo ao mesmo tempo. Thais também perguntaria, mas parou depois disso. Embora Samantha não aparentou fazer o mesmo, também ficou chocada. Pelo que eles entenderam, Rael tinha uma amizade com um verdadeiro dragão.

 

― Oh! Nós não te contamos? Uma das noivas de Rael é um dragão. ― disse Violeta, aproveitando a brecha. O momento mais sério já tinha passado, então, obviamente, ela não deixaria de ter seu momento de risadas especial.

 

Ao ouvir isso, a cara dos quatro visitantes não era muito boa. Embora eles não tenham visto pessoalmente um dragão, eles tinham uma ideia de como seria através de ilustrações já vistas. Sem se esquecer o fato de dragões serem bestas orgulhosas e praticamente não pouparem nada em seu caminho. É claro que a expressão deles divertiu Violeta que se virou e segurou uma forte risada. Os que conheciam Violeta bem, sabiam que aquilo foi proposital. Emilia mesmo ficou olhando para ela e balançou negativamente a cabeça, como se não acreditasse no que houve. Rael foi o mais irritado, porque Violeta jogou a bomba neles assim de repente. Neide conhecia um pouco sobre Violeta, mas percebeu que o que ela fez foi para sua diversão, e por isso acabou rindo levemente.

 

― Não pensem nada estranho. Alexia não é uma dragão má, ela também não tem mais corpo de dragão. Agora ela tomou uma forma humana. ― explicou Rael para amenizar os fatos. Isso não ajudou muito, foi apenas para deixá-los ainda mais confusos.

 

― Quem de vocês conhece uma besta chamada Lendário Unicórnio Volutivo? ― perguntou Emilia, mudando um pouco a direção do assunto.

 

― Eu já ouvi falar. Minha mãe já me mostrou um livro que continha detalhes sobre essas bestas. ― disse Samantha

 

― São bestas Celestiais de classe S. E são extremamente raros de serem encontrados, assim como são extremamente perigosos por possuírem o elemento do tipo raio, embora não sejam agressivos. Seu sangue tem grandes propriedades curativas, assim como a energia deles podem criar pílulas poderosas. Seus chifres podem ser usados para criar diversos armamentos pesados, como lâminas e até mesmo armaduras mágicas. ―complementou Mara, logo em seguida.

 

― Como sabe tanto sobre elas? ― perguntou Rika interessada, mantendo um olhar natural sobre as duas, que não faziam ideia que Rika era na verdade um dos poucos unicórnios celestiais restantes no mundo.

 

― Em casa tínhamos uma biblioteca, e meus pais sempre tinham esses tipos de conhecimento armazenado. Embora eu conheça bastante, nunca cruzei com nenhuma besta dessas. ― admitiu Mara.

 

― Tanto um dragão, quanto um unicórnio volutivo podem evoluir ou mudar a sua raça. Por exemplo, nesta sala temos duas humanas celestiais. Vocês não notaram a peculiar cor do cabelo delas? Rika e Rose são unicórnios volutivos, que mudaram sua raça para ficarem com o nosso Rael. Da mesma forma, o dragão Alexia também tomou a mesma decisão e virou uma pequena menina, de aproximadamente oito anos. Todas elas fizeram isso para ficar com Rael de forma que suas espécies escape da extinção. ― explicou Emilia, deixando todos confusos.

 

Todos os quatro olharam para Rika e Rose mais uma vez, procurando confirmar qualquer vestígio das palavras de Emilia. Eles não acharam aquilo possível, embora alguns conhecessem esse tipo de habilidade, ainda ficaram chocados em presenciar algo tão extraordinário.

 

― Porque vocês tinham que entrar nesse assunto? Parecem doidas! ― perguntou Rael, completamente sem jeito. Rika e Rose coraram diante do olhar deles, é obvio que elas ficariam com um pouco de vergonha agora que eram humanas e sabiam esboçar emoções.

 

A cara dos quatro era um misto de surpresa e descrença. Eles olharam bem para as duas, a moça mais nova Rose e a adulta Rika, procurando sinais de qualquer parte anormal no corpo. Mas, tudo que viam era apenas duas belas e perfeitas mulheres saudáveis. Não havia nada de errado com elas, a não ser os sinais brancos na testa, que antes eram seus chifres.

 

― Eu não vejo nada de errado, só uma marca acima dos olhos... ― disse Samantha.

 

― Eram nossos chifres. Tudo que foi dito sobre nós é verdade. ― confirmou Rika. Mara se tornou ligeiramente sem graça ao descobrir esse fato.

 

― Desculpe se disse algo que incomodou você. ― disse a mulher. Não era certeza que eles estavam acreditando, mas como todos ali estavam em uma conversa séria, com exceção de Violeta, era difícil imaginar que estariam mentindo.

 

― Você não disse nada de errado. ― disse Rika olhando para Mara e já se voltou para os demais. ― Nós trocamos de raça, e agora somos humanas celestiais. Nossos corpos são praticamente iguais ao de humanos normais, só não podemos cultivar o poder. Nosso poder aumenta constantemente sem qualquer esforço, igual seria a uma besta que evolui conforme o avançar dos anos. ― disse Rika e fez seus olhos se cobrirem em raios que brilharam intensamente, era possível ver teias de raios se espalhando pelo seu belo rosto. Com as palavras e a demonstração de Rika, os quatro aceitaram a ideia de que realmente aquilo era verdade.

 

― Dragão, humana celestial... Pode me dizer porque elas virariam humanas para ficarem com você, Rael? ― perguntou o outro Rael curioso. A curiosidade entre os visitantes do mundo paralelo era geral.

 

― Ele é um ser único, sua genética o torna capaz de acasalar com qualquer tipo de espécie que possa se tornar humana. Dessa forma, ele pode ajudá-las a dar continuidade a espécie. ― explicou Emilia. Os mesmos olhares de agora a pouco dirigidos a Rose e Rika agora recaíram sobre Rael. Eles começaram a desconfiar que talvez Rael não fosse um humano.

 

― Só para constar, eu sou humano mesmo e não venho de nenhuma transformação. ― disse Rael logo em seguida, após sentir os olhares curiosos.

 

Violeta só estava se recuperando da risada agora. Por eles começarem a entender, a graça foi se perdendo aos poucos. Mas ela ainda riu da análise deles sobre Rael. Violeta achou muito engraçado poder dividir aquele segredo e ver a expressão do grupo visitante.

 

― Ok! Já falamos muito de mim e o foco aqui não é esse. Vamos ao que importa de verdade, os devoradores... ― disse Rael e escutou um chamado de Mara no anel: ― Só instante, eu já volto.

 

Rael atendeu Mara no que se tornou a sala de visitas. Sua esposa estava preocupada com a demora dele. Rael explicou que estava com a mãe dela no esconderijo de Violeta cuidando de alguns problemas e que possivelmente não voltaria tão cedo pra casa. Mara não ficou preocupada por saber que Rael estava com sua mãe e acabou entendendo facilmente. Depois disso, Rael voltou para a cozinha, de encontro com os demais.

 

Eles debateram algumas estratégias do que poderia ser feito a respeito e Rael participou ajudando com opiniões. Violeta sugeriu criar bombas com os Cristais de Ureno e outras coisas a mais que podia fazer, o que foi bem aceito pelo grupo. Rael ficaria a cabo da criação das pílulas de Ureno. Ninguém ali queria ficar engolindo aquele pó que parecia terra, se poderiam simplesmente tomar em forma de pílulas.

 

Varias ideias foram surgindo durante a conversa. Thais queria muito ver sua irmã mas pelo visto teria que esperar um pouco mais. Ela ficou um tanto quanto desanimada, mas entendia que a maior preocupação no momento era combater os devoradores.

 

― Thais, eu não esqueci que você quer ver sua irmã. Se quiser, podemos ir agora. Os outros podem ficar aqui e continuarem com a reunião. ― disse Rael. Thais se encheu de alegria em seu coração, mesmo tratando de um assunto delicado, Rael não se esqueceu dela.

 

― Posso mesmo depender de você agora? Eu não queria atrapalhar. ― disse ela em direção a Rael do outro mundo.

 

― Vá, Thais. Você merece por tudo que passou. ― disse o outro Rael batendo com a mão no ombro dela e Mara concordou com um sorriso.

 

― Desculpa, gente. Continuem essa reunião sem mim. ― disse ela sem jeito com um sorriso bobo e não escondeu algumas lágrimas que rolaram em seus olhos enquanto saía do meio da roda, indo em direção ao corredor. Só de pensar em rever sua irmã e seus pais, já a encheram de felicidade.

 

― Rael, precisa de mim? ― perguntou Neide antes deles saírem do local. Rael já ia seguindo atrás de Thais pelo corredor.

 

― Não, eu irei com Ralf. Pode continuar aqui para depois repassar o que foi combinado por aqui. ― disse Rael para Neide, que fez um sim. Mesmo que demorasse um pouco mais, Rael não queria tomar Neide deles, era importante ela participar de toda conversa para depois repassar para alguém caso fosse necessário.

 

― Rael! ― Rael já ia saindo quando Rose o chamou de volta.

 

― Rose, o que foi? ― perguntou Rael, se sentindo quente ao ver aquela bela jovem chamando o seu nome. Era inevitável ele não se lembrar daquela noite com ela.

 

― Estou com saudades de você... Você volta quando? ― perguntou a jovem celestial, olhando Rael com os olhos levemente brilhantes. Ela não escondia o seu desejo e deixava bem explicito. Thais facilmente captou o desejo da moça e apenas esperou, se escorando na parede.

 

― Desculpe, Rose... Eu também queria passar um tempo com você, mas tanta coisa aconteceu que eu acabei ficando ocupado.... Eu voltarei ainda hoje, tá bom? ― perguntou Rael.

 

― Eu vou esperar. ― disse Rose, abrindo um sorriso de clarear os céus. Rose era uma jovem extremamente linda, nem parecia ser uma mulher de verdade. Thais ficou estupefata pensando em como que uma besta podia virar uma jovem humana tão linda.

 

― Eu apareço sim!― confirmou Rael e já se virou saindo junto com Thais.

 

Rose ficou parada no corredor, contendo seu desejo de correr e abraçar Rael. Ela nunca pensou que um dia teria sentimentos tão intensos por ele. Esses sentimentos foram exponencialmente ampliados depois do sexo, era como se Rael tivesse marcado o corpo dela com a própria alma, de modo a não deixá-la esquecer dele jamais. Diferente de sua mãe, Rose o amava de verdade e realmente não ligava tanto para ter filhos.

 

Rael e Thais saíram do esconderijo. Assim que saíram, Rael convocou Ralf que, como de costume, assustou a nova acompanhante que não o conhecia. Todos que viam Ralf pela primeira vez tomavam aquele tipo de susto, fazendo Rael repetir automaticamente a mesma frase:

 

― Não se preocupe, ele não é agressivo...

 

Depois que Thais finalmente tomou coragem, ela montou em Ralf acompanhada de Rael. Rael ficou atrás como sempre, agarrando aquela bela mulher pela cintura, mas sem segunda intenções.

 

― Eu deveria ter tomado um banho antes... Acho que estou suada e mal cheirosa. ― disse a mesma, depois de pensar um pouco. Ela saiu tão apressada que nem se lembrou desse fato.

 

― Até que você está bem cheirosa. ― disse Rael, sentindo o cheiro agradável do cabelo dela.

 

― Tô, é? No outro mundo, tomar banho não era exatamente uma prioridade quando se pensa que pode morrer a qualquer instante.

 

― Eu sei, mas seu cheiro não está ruim. Pelo menos seu cheiro é agradável. ― disse Rael de volta.

 

― Acha mesmo?

 

― Acho sim, mas se quiser, podemos passar em algum rio e você pode tomar seu banho. ― disse Rael.

 

― Passar em um rio à noite? Isso não seria perigoso? ― por um instante, Thais se esqueceu que nesse mundo não tinha o mal dos devoradores.

 

― Thais, você não está mais em seu mundo. ― lembrou Rael, deixando a mulher desconcentrada.

 

― Tem razão, eu só fiquei confusa de repente. Desde que esteja no nosso caminho, poderia fazer uma pausa? Eu quero tomar um banho sim. ― disse ela depois de se acalmar.

 

― Como você quiser. ― disse Rael e já se concentrou nas regiões abaixo, procurando um rio enquanto Ralf os guiava.

 

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No mundo paralelo, Violeta estava terminando de despachar o último esquadrão para os outros continentes. Ao ouvirem as ordens dela, partiram em retirada para o cumpri-las de imediato.

 

 Cada esquadrão teria um cultivador no décimo primeiro reino ou no décimo segundo reino no comando. O único esquadrão a restar foi o da própria Violeta, com mais de duzentos devoradores esperando suas ordens, quase todos com os reinos acima do nono. Entre eles, estavam Natalia e Rita devoradoras, que não saíam do lado de Violeta. Violeta era inteligente o suficiente para saber que essas duas tinham algum valor para Rael do outro mundo. Se ela pudesse usar aquelas duas de algum modo, ela as usaria sem pensar duas vezes.

 

― Senhora líder, o que acontecerá agora? Para onde o nosso esquadrão irá? ― perguntou um dos devoradores.

 

― Nós? Iremos para o outro mundo... Esse já está praticamente tomado. ― disse Violeta, dando uma leve risada.

 

 

Os vários devoradores abriram sorrisos satisfeitos. Um mundo novo significava que eles teriam carne humana nova. Eles mal podiam esperar para um novo banquete.