O Herdeiro do Mundo

199 - Algumas Verdades

Os símbolos foram invocados como de costume e Thais assistia completamente admirada a dança deles enquanto circulava o corpo de Rael.

 

O símbolo da Vida centralizou-se em cima da cabeça de Thais e o processo de cura foi iniciado através de um banho reconfortante de energia esverdeada. Não demorou para a energia combater e eliminar de vez o veneno de seu corpo e já estava na fase de reestruturação do membro quase perdido. Thais viu o seu próprio ombro se regenerar em alta velocidade enquanto sentia uma quentura agradável no local, junto a uma extrema sensação de pleno conforto. O bem-estar sentido foi bem maior devido ela ter passado por vários dias com aquela constante dor, só o fato da dor sumir por completo já a deixava com uma boa sensação.

 

Isso durou pouco menos que um minuto e, em seguida, Rael fez seus símbolos voltarem ao normal, deixando apenas circulando em volta da mulher:

 

― Eu já estou curada? ― perguntou, ela se levantando da cadeira.

 

― Totalmente curada. ― disse Rael satisfeito.

 

― O veneno da transformação ainda está no meu corpo?

 

― Não, ele já foi removido. Mas, aproveitando que já estamos nesse estado, irei fazer algumas melhorias em seu corpo. Não se incomode se sentir alguns beliscões durante o processo. ― avisou Rael.

 

Rael liberou os pontos de poder que conseguia, sendo impossibilitado de liberar apenas um, que era o mesmo em todas as tentativas anteriores. Em seguida, curou todas as veias danificadas do corpo dela. Rael a deixou pronta para os próximos passos. Quando ele desfez seus símbolos, o poder dela estava explodindo com uma intensa e poderosa aura fluindo pelo seu corpo.

 

― Eu liberei todos os seus pontos de poder e curei suas veias danificadas. ― explicou Rael para Thais, que o olhava com uma expressão espantada.

 

― Eu ia perguntar sobre isso agora. ― disse ela, enquanto Rael fazia os símbolos voltarem para o seu corpo.

 

― Eu tenho esse poder especial, e sempre ajudo pessoas em que confio. Não se incomode, isso não é nada demais para mim. ― disse Rael para a ainda chocada Thais.

 

Além de curá-la, Rael ainda fez muito mais por ela. Ela não esperava por nenhum desses atos a mais. Ela também sabia as grandes melhorias que gerava em um corpo com a liberação dos pontos de poder e as veias curadas.

 

― Eu ouvi o que você fez por minha irmã desse mundo. Do fundo do meu coração, eu, Thais Reis, o agradeço! ― disse a moça, fazendo uma reverência respeitosa para Rael enquanto fechava os olhos.

 

― Você não precisa me agradecer por nada, Thais.

 

― Eu agora tenho uma dívida enorme com você. Mesmo que eu viva por dez vidas eu jamais serei capaz de te pagar por tudo que fez por mim. Salvou a minha irmã, me salvou duas vezes, e ainda fez tudo isso por mim agora. ― concluiu ela, se referindo as veias e os pontos de poder.

 

― Duas vezes? Como?

 

― Se não fosse a sua dica sobre engolir o Cristal de Ureno em forma de pó, eu seria uma devoradora hoje. E agora, se você não me curasse, esse ferimento teria me matado em alguns poucos dias. E você ainda liberou meus pontos de poder e curou minhas veias espirituais. Rael, eu... Eu não conseguirei retribuir tudo o que fez por mim... Por isso... Pode me tomar como sua escrava, concubina, protetora... O que você preferir! Eu entregarei a minha vida e o meu corpo para você com honra. Servirei de muita boa vontade pelo restante da minha vida, atendendo a qualquer desejo que você venha a ter. ― disse Thais, deixando Rael atrapalhado.

 

― Qual é, Thais? Não é para tanto. Somos amigos, e você também me salvou no outro mundo. Nem por isso eu ofereci tudo isso a você.

 

― Aquilo não foi nada perto de tudo que você fez. Naquela época, quando você salvou a senhora Mara, eu já considerei a sua dívida paga, embora eu não tenha dito a você. E agora não tenho como te pagar, eu não tenho como devolver nada do que você fez. Só por curar minha irmã, eu já tinha em mente me oferecer de bom grado. Não torne isso mais difícil para mim. Por favor, apenas aceite. ― disse ela, visivelmente envergonhada.

 

― Se está disposta a tanto, então peço que se sente. Vou te contar uma história que não contei antes por vergonha. Se você conseguir me perdoar, então vou aceitar tudo o que você estiver disposta a oferecer.

 

― Que história? ― perguntou Thais, se sentando novamente na cadeira. Rael puxou outra cadeira para ele e sentou-se de frente a ela.

 

― Lembra do que conversamos no seu mundo? Sobre eu dizer que era um lixo e que você não olharia mais na minha cara? Então, aquilo tudo que eu te disse é relacionado à sua versão desse mundo.

 

― O que você quer dizer? ― perguntou ela, despertando a curiosidade.

 

― Nesse mundo... Eu matei a sua versão. ― disse Rael olhando firme nos olhos dela.

 

― Você o quê? ― a mulher perguntou como se não tivesse escutado bem, e ficou com um olhar ainda mais sério sobre Rael.

 

― Foi na Ilha do Vulcão, onde tinha a passagem para este mundo. Foi naquele evento da cidade de Améria. Eu estava obcecado por vingança e queria matar todas as pessoas de clãs poderosos... Você foi envolvida pela minha vingança cega, e eu tirei sua vida... ― Rael estava começando a se emocionar porque isso o fez se lembrar do maior erro de sua vida até o momento. Thais, ouvindo tudo aquilo, se perdeu em um turbilhão de pensamentos, ficando com uma expressão chocada enquanto olhava de lado.

 

― Minha presença nesse mundo mudaram muitos acontecimentos. Nesse mundo, eu tomei o lugar de do patriarca Rael do mundo de vocês, e fui tratado como um completo lixo... ― disse Rael e exibiu seu braço azul para Thais, que voltou a olhá-lo com uma expressão vazia, e complementou: ― Eu era um aleijado em minha infância. Todas as pessoas do clã Torres me desprezavam, incluindo os meus pais, Romeo e Elisa... Uma noite... ―Rael contou como foi sua infância, explicando o motivo por trás de seus atos, até o ponto onde precisava para chegar na parte em que ele mata a versão de Thais do seu mundo.

 

Enquanto ouvia toda a história, Thais ficou com uma expressão triste. Rael não sabia se era porque ele tinha matado quase que desnecessariamente a versão dela ou por alguma outra razão.

 

― Você não teve culpa... Eu te perdoo. ― disse ela, depois de alguns segundos em silêncio.

 

― Você o quê? ― Rael ficou chocado, e por um instante ele pareceu não ouvir bem o que ela disse.

 

― Você se arrependeu, lembra? Quando me conheceu no meu mundo e soube da minha verdadeira história, eu vi que você se arrependeu. Eu também não posso te culpar pela maneira que agiu, sua vida foi horrível.

 

― Mas isso não me dava o direito de tirar a sua vida ou de qualquer um daqueles que matei naquele dia, Thais! Isso não me dá o direito! ― gritou Rael, ficando exaltado com a serenidade da mulher.

 

― Você tem que se perdoar, Rael. Eu já perdoei você, o importante é que agora você é diferente e faz o bem para as pessoas. ― disse ela, ainda mantendo a calma.

 

― Mas como você me perdoa... E-eu não entendo... ― disse Rael, surpreso e incrédulo.

 

― Eu posso ver nos seus olhos o quanto você se arrepende daquilo. Eu vi no outro mundo também, então, porque eu não perdoaria? Em troca, para se redimir, você ainda salvou a minha irmã. Vou repetir as mesmas palavras que a senhora Neide disse para a senhora Mara: Se eu morresse sabendo que minha vida salvaria a minha irmã, eu teria morrido sorrindo. ― disse ela.

 

― Mas isso não foi desse jeito! A sua versão morreu acreditando que sua irmã ficaria sozinha nesse mundo! Será que você não entende! É tudo diferente! ― gritou Rael se levantando, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. Eram lágrimas de raiva por se lembrar de tirar uma vida inocente e, ao mesmo tempo, irritado com a teimosa e serena Thais. Rael estava preparado para ser xingado, talvez até apanhar da moça ou algo do tipo, mas ele nunca esperou que ela fosse agir com tamanha calma.

 

Thais se levantou e abraçou Rael, que ainda estava tremendo, mergulhado em tanta emoção:

 

― Rael, eu já disse que te perdoo. Não precisa ficar assim...  Se é o meu perdão que você busca, saiba que está perdoado. ― disse ela.

 

― Por quê? Porque você age assim comigo, como se a merda que eu fiz não fosse nada? ― perguntou Rael, ainda emocionado.

 

― Você confessou, se arrependeu... Em troca, você fez um bem para a minha irmã. Você mesmo buscou sua própria redenção. Não há mais nada que eu precise dizer ou reclamar de você. ― depois de dizer, isso Thais soltou Rael lentamente.

 

― Essa é a sua resposta final? ― perguntou Rael.

 

― Essa é minha resposta final. ― disse ela de volta com um tom serio.

 

― Se esse é o caso, então não voltarei a entrar nesse assunto... ― disse Rael e levantou a mão, enxugando seus olhos molhados.

 

― Agora, chegou a hora de você me dar uma resposta sobre o que fará de mim. Eu ainda continuo te devendo.

 

― Você já me pagou, Thais. Me perdoando dessa maneira, já é mais que o suficiente por tudo.

 

― É claro que não é. Uma coisa é diferente da outra.

 

― Você quer ser minha concubina nesse mundo? Esse é o seu desejo de verdade? ― perguntou Rael, cessando todas as reclamações de Thais.

 

― Por que está me dizendo dessa forma? Faz parecer que sou eu que tenho que tomar essa decisão. ― perguntou ela, confusa e encabulada.

 

― Quem te deve aqui sou eu. Se for o seu desejo entrar na minha vida dessa maneira, eu aceitarei. Mas tenho que te avisar que a minha lista está um pouco grande.

 

― Não, isso não é exatamente um desejo meu. Será apenas se for de sua vontade.

 

― A minha vontade é que você se torne minha amiga para que eu possa sempre confiar em você. Isso é tudo que eu desejo. ― disse Rael.

 

― Eu não vou insistir em te pagar nada se você não quer. ― disse ela sorrindo levemente.

 

― Eu agradeço por me salvar naquela época, mas posso cuidar de mim mesmo agora. ― disse Rael, se referindo a ela se oferecer como protetora anteriormente.

 

― Estou vendo, você está bem mais forte que antes. O seu cultivo aumenta muito rápido.

 

― Depois que voltei para este mundo, tive muitas surpresas.

 

― Rael, sei que é um pouco apressado da minha parte, mas será que eu poderia ver a minha irmã? Eu estava exausta e ferida antes, mas agora me sinto ótima e bem disposta. Eu não conseguirei dormir direito sabendo que agora posso ver minha irmã e meus pais.

 

― Seus pais?

 

― Sim... Eles foram mortos recentemente, assim como muitas pessoas nesses últimos dias. Imaginar que vou poder ver todos eles bem... Não tenho palavras para descrever esse sentimento.

 

― Eu posso pedir uma coisa em troca? Eu ajudei a sua família, mas nunca contei a verdade a eles, que tirei a vida de sua versão nesse mundo. Você poderia fingir ser a Thais desse mundo? Eles pensam que sua versão está apenas desaparecida. ― explicou Rael.

 

― Isso não será um problema. Eu posso inventar um milhão de desculpas. ― disse ela, entendendo a situação.

 

― Desculpe por te pedir isso...

 

― Não tem problema. Eu não também não quero assustá-los.

 

― Eu sei que deveríamos contar a verdade, mas não pretendo fazer isso agora. No momento, ninguém além de poucas pessoas por aqui têm a capacidade de enfrentar os devoradores. Contar a verdade só causaria pânico desnecessário.

 

― Se conseguimos atravessar, eles provavelmente conseguirão também. Não acho que você deveria esconder esse fato. Acho que seria mais sensato você preparar todos para o que estará por vir.

 

― Eu concordo com ela, genro. ― disse Neide, chegando nesse momento com os outros.

 

― Neide? ― perguntou Rael.

 

― As pessoas podem não ter o poder de ajudar, mas elas devem ter pelo menos consciência do que acontecerá. Devemos prevenir que mais pessoas possam virar refeições ou novos devoradores. ― disse Neide novamente que, durante conversa de Rael com Thais, ela conversou com os demais e entendeu bem a situação.

 

― Se é apenas para fazer as pessoas ingerirem o Cristal de Ureno, tem outros caminhos melhores. Podemos inventar um plano em escala. Eu posso desenvolver uma pílula com o mesmo efeito do Cristal de Ureno que dure mais, e dessa forma distribuir para todos. Só teremos que inventar uma razão para que as pessoas tomem, tipo, algo que atinja a todos.

 

― Mesmo que invente uma razão, eles ainda ficarão vulneráveis a ataques físicos. Se os devoradores não conseguirem se alimentar ou transformá-los, eles ainda os matarão e haverá muitas mortes. Eu tenho um plano melhor. ― disse Rael do outro mundo.

 

― Qual plano? ― perguntou o Rael ruivo.

 

― Por causa da mudança de liderança, eles ficaram mais resistentes ao Cristal de Ureno e, por isso, começaram a destruir as casas que eram basicamente protegidas pelo Cristal, ainda assim eles não ficaram imunes. Sabemos por onde eles virão, e conhecemos a única passagem que os fará entrar nesse mundo. Tudo o que nos resta fazer é preparar uma grande armadilha usando aquela ilha. ― explicou Rael do outro mundo.

 

Quando Rael do outro mundo deu essa ideia, todos pareceram ter sido despertos como se recebessem um tapa na cara, devido a ideia ser simples e genial.

 

― A Barca da Esperança era feita com Cristal de Ureno e foi destruída, entretanto, muitos devoradores morreram naquela noite ao entrar em contato com a barca. Inclusive a própria Violeta devoradora teve alguns poucos ferimentos. ― explicou Thais se lembrando. Depois que Violeta chegou e a atacou, uma tropa de devoradores atacou em seguida, alguns devoradores simplesmente se derreteram como geléia depois de pisarem na barca, e outros mais inteligentes se mantiveram voando, onde os efeitos do cristal eram menores.

 

― Isso pode funcionar. ― concordou Rael.

 

― Só precisamos de uma grande quantidade de Cristal de Ureno. ― disse Neide.

 

― Eu tenho tudo que precisam aqui. ― disse Rael do outro mundo, tirando um bracelete do pulso e entregando a Neide: ― Antes de fugir, meu sogro e sogra pediram para que eu trouxesse toda a reserva de Cristal de Ureno que pudesse conosco.

 

― Isso fica com a gente. ―disse Violeta, estendendo a mão. Neide entregou o bracelete para a violadora logo em seguida: ― Emilia e eu vamos preparar algumas coisas usando isso. ― depois de pôr o bracelete no pulso, Violeta teve acesso ao conteúdo do mesmo. Havia pelo menos três centenas de quilogramas do material armazenado no bracelete.

 

― Não sei se isso vai adiantar algo contra a Violeta devoradora, mas sei que contra os devoradores mais fracos vai ajudar bastante. ― disse o outro Rael.

 

Rael se lembrou que os pais de Mara desse mundo conheciam a fraqueza das violadoras. Se eles conheciam, então era possível que tivessem usado no outro mundo e ele ficou curioso com os resultados.

 

― Rael, quero saber mais uma coisa: Neide e Rayger do outro mundo sabiam algo sobre a Violeta devoradora? Eles tentaram alguma coisa diferente do normal? ― perguntou Rael. Ele não iria expor de graça a fraqueza das violadoras, por isso ele perguntou de uma forma disfarçada.

 

― Que eu me lembre, não... Porquê? ― perguntou o Rael do outro mundo.

 

― Nada demais, obrigado por responder. ― disse Rael, guardando aquela informação para ele mesmo. Se os devoradores pudessem ser mortos com uma armadilha, talvez Rael pudesse derrotar a Violeta devoradora de outra maneira caso a armadilha falhasse.

 

 

Todos os outros, menos os recém chegados, entenderam o plano de Rael e olharam para o jovem. Se o Cristal de Ureno não resolvesse, então Rael usaria a erva Alada Brilhante, que era a maior fraqueza das violadoras.




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