O Herdeiro do Mundo

198 - Mãe e Filha de Mundo Diferentes

Violeta ouviu toda história de Rael enquanto tentava tratar do ferimento de Thais, eram marcas de dentes profundas na pele da mulher. Esse ferimento estava envenenado com o vírus que causariam a transformação em um devorador. Mesmo para Violeta, possuidora dos maiores conhecimentos curativos, aquilo não era algo que ela poderia lidar.

 

Como eles estavam próximos a Emilia, que estava trabalhando em fortalecer a barreira, a mesma também ouviu toda a história.

 

Emilia estava de pé diante da caverna, ela tinha criado uma gigante barreira vermelha cobrindo toda a entrada da caverna. E, com as pontas dos dedos, ela desenhava símbolos no ar e os lançava na barreira azul à sua frente. Esses símbolos criavam raízes conforme encostavam na barreira azul e sumiam, ficando invisíveis. Tudo era feito de dentro da barreira vermelha e Emilia ficava apenas com as mãos para dentro, de modo que o resto do corpo ficasse fora da mesma.

 

― O que sabemos agora é que eles estão migrando para os outros continentes. É possível que o nosso mundo inteiro seja tomado pelos devoradores muito em breve. ― disse Rael de forma pesarosa.

 

― Thais, eu não consigo curar esse tipo de ferimento. Ele contém um veneno que está avançando pelo seu corpo a medida que você faz esforços. O Cristal de Ureno evita que você se transforme, mas ele não pode evitar o veneno extra da mordida. Se fosse pelos conhecimentos desse mundo pequeno, você viveria mais uma semana. Pelos meus, você tem mais um mês. Quero que você tome uma pílula dessas a cada três horas, ela vai ajudar a aliviar a dor e retardar o avanço da ferida. ― explicou Violeta, passando um conjunto de três pílulas verdes para a mulher. Thais já tomou a primeira pílula de imediato.

 

― O Rael desse mundo pode curá-la, não pode? ― perguntou Rael.

 

― É muito provável que sim. Eu vou entrar agora em contato com ele e nos encontraremos no esconderijo. ― disse Violeta e já se virou, levantando a mão direita. Todas as mulheres do esconderijo receberam um anel de Rael, assim, todas poderiam falar com ele.

 

― Ativar: Rael.

 

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Rael foi interrompido durante a cultivação e atendeu Violeta, que começou a passar todos os fatos.

 

― O QUÊ?! ― quando Rael começou a ouvir os fatos, ele se tornou agitado no mesmo instante. Violeta foi passando mais detalhes enquanto Rael ficava em silêncio, com o coração agitado, pulsando violentamente.

 

― Eu entendi. Estou com Neide e vou pedir para que ela me leve aí imediatamente! ― disse Rael e encerrou o chamado. Ele se virou e saiu flutuando por cima do cerco rochoso do vulcão em direção ao poder de Neide, que estava ali próximo.

 

Neide já estava na subida do vulcão, desde a chegada deles ao local, ela tinha avançado um pouco mais do que vinte metros. Rael pousou à frente de Neide, ainda vendo a aura vermelha fogo dela agitada enquanto cultivava. Neide, sentindo a presença de Rael, abriu os olhos lentamente enquanto cessava seu cultivo:

 

― Já estamos indo embora, genro? ― perguntou ela.

 

― Sim, surgiu uma grave emergência. Você nem vai acreditar no que irei te contar. ― disse Rael e Neide se levantou preocupada.

 

― Aconteceu alguma coisa com Mara? Com Natalia?

 

― Não aconteceu nada com Mara, não com a desse mundo. Eu te conto no caminho, precisa me levar para o esconderijo de Violeta. ― disse Rael.

 

― Nós estamos bem longe de lá agora, genro.

 

― Quanto antes a gente partir, mais rápido chegaremos lá. ― disse Rael.

 

No caminho enquanto voavam, Rael começou a explicar tudo o que precisava. Neide ficou chocada ao imaginar que havia outra Mara, outra filha dela nesse mundo.

 

― Violeta me disse que os pais dela se sacrificaram para que eles pudessem fugir, então,eles poderão ficar agitados ao te verem. ― disse Rael.

 

― No outro mundo, a minha versão e a de meu marido estão mortos? ― perguntou Neide com um ar levemente chocado.

 

― Não somente vocês, todas as cidades do continente Sul estão destruídas. Eu não sei de todos os detalhes mas, no outro mundo, Violeta é quem está liderando os monstros. ― disse Rael.

 

― Violeta? Mas como que isso aconteceu?

 

― Eu não me dei conta quando visitei o mundo alternativo, mas parando agora para pensar, me lembro da maldita pilha de cadáveres. Eles estavam tentando romper os selos para abrir caminho e encontrar Violeta adormecida. Eu deveria ter percebido antes!

 

― Do que está falando?

 

― Quando eu libertei Violeta, haviam selos de Lacres Mortais protegendo a entrada. Seria preciso o sacrifício de centenas de milhares de pessoas para remover todos os selos. Mas eles não fazem efeito em mim, então nesse mundo eu os removi sem nenhum problema. No outro mundo, eu fui procurar Violeta e havia uma pilha de mortos do lado da montanha, eu jamais imaginaria que o motivo seria eles tentando libertá-la.

 

― E você não entrou para conferir?

 

― Entrei e encontrei dezenas de devoradores no lugar das bestas divinas. Com isso, fui forçado a recuar. ― explicou Rael.

 

― Então a versão desse mundo foi encontrada por você e a do outro, por esses monstros?

 

― A ideia é essa, não há outra explicação para a Violeta do outro mundo ter despertado e se tornado um monstro assassino. A Violeta que conheço não é esse tipo de pessoa. ― disse Rael.

 

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Enquanto Rael e Neide seguiam do local de onde o dragão caiu, do outro lado distante estavam os outros, rumo a caverna das violadoras. Violeta carregava Thais com cuidado por conta do ferimento, Mara carregava o seu próprio marido e Emilia carregava Samantha. Todos estavam voando em uma velocidade abaixo da média para não piorar o estado de Thais.

 

Durante o caminho, Violeta passou para eles todas as informações básicas. Explicou que nesse mundo o tempo estava mais atrasado e todos que eles pensariam estar mortos estavam vivos ainda,inclusive os próprios pais de Mara. Thais, quando soube por Violeta que sua irmã Laís estava viva e bem, começou a chorar descontroladamente. Ela ficou tão emocionada que se esqueceu até da dor aguda em seu ombro:

 

― Quem foi que a salvou? Quem curou minha irmã?

 

― Rael.Foi ele quem cuidou de sua irmã. Ele a curou e a tomou como discípula. Hoje, a saúde dela é perfeita. ― explicou Violeta.

 

― Rael fez isso por mim? Eu nem sei como deveria agradecê-lo! ― disse Thais agitada.

 

― Você poderá agradecer a ele pessoalmente. Ele está a caminho, e nos encontraremos no esconderijo onde moro muito em breve. ― explicou Violeta.

 

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O grupo de Violeta chegou um pouco antes e esperaram. No salão onde recepcionavam as visitas, agora havia alguns conjuntos de sofás. Ideia de Emilia, que sempre estava descansando em locais diferentes.

 

Não demorou muito para Rael e Neide chegarem, cruzando a porta e se encontrando com todos, que já os aguardavam. Houve uma pequena pausa, na qual todas as partes se analisavam, principalmente Neide e Mara do outro mundo. Não havia como negar, essa Mara era idêntica a sua filha, mesmo corpo, mesma feição, somente a expressão no olhar era diferente, parecia mais abatido que o olhar de sua filha. Assim como para Mara, Neide era a sua mãe. Ambas sabiam a verdade, que elas eram de mundos diferentes. Mesmo assim, a emoção foi muito mais forte:

 

― Mãaaaae! ― Mara gritou se levantando. Correu e abraçou Neide com toda a força que ela podia naquele momento enquanto começava a chorar. Neide apertou Mara de volta e a consolou, era uma situação um tanto quanto estranha. Violeta e Emilia ficaram de canto assistindo ao desenrolar daquele encontro, assim como Rika e Rose, que já tinham sido apresentadas anteriormente para os mesmos. Rose sabia que era algo importante, por isso ficou mais na dela, contendo a enorme vontade de correr e abraçar Rael como ela sempre fazia quando ele as visitavam.

 

― Mãe, me perdoa por ser tão fraca! Aaaah...! Se pelo menos eu tivesse mais poder... Teria como ter ajudado você e o papai... Me perdoa, mãe! Por favor, me perdoa...! ― Mara estava aos prantos enquanto pedia perdão a Neide.

 

― Você não tem que pedir perdão, filha. No outro mundo eu dei minha vida para proteger você, e faria isso quantas vezes fossem necessárias. Se eu soubesse que você teria ficado viva graças ao meu sacrifício, agora eu estaria comemorando. ― disse Neide, que também estava segurando lágrimas em seus olhos. Neide era uma mulher forte, mas ao ver sua suposta filha naquele estado, ela não conseguia se conter e não chorar junto com ela.

 

As palavras de Neide fizeram Mara chorar ainda mais. Conforme Mara chorava, Neide também se sentia comovida e chorava junto. Naquele momento todos puderam ver que, não importava a dimensão do mundo em que estavam, uma mãe seria sempre uma mãe, assim como sua filha seria sempre sua filha.

 

― Eu sei... Que você não a mãe que eu perdi... Mas, você ainda é minha mãe... Então me deixe ficar assim um pouquinho com você... Por favor... ― pediu Mara, abraçada com Neide.

 

― Eu sou sua mãe, independente de sermos de mundos diferentes. Como minha filha, você nem precisa me pedir esse tipo de coisa, pode me abraçar o quanto quiser.

 

Samantha também ficou emocionada e se juntou ao abraço pouco tempo depois. Neide abraçou a menina junto, como se fosse uma outra filha. Devido o foco ser aquelas três, ninguém estava dizendo mais nada e todos assistiam emocionados aquela cena, até mesmo as duas versões de Rael.

 

― Essa é Samanta Torres, sua neta. ― Mara apresentou sua filha para Neide.

 

― Minha neta? Oh! Como ela é linda! ― disse Neide emocionada, abraçando Samantha mais uma vez e a beijou várias vezes no rosto e nos cabelos. Samantha também estava emocionada, abraçando Neide de volta. Eles estavam se tratando como uma grande família.

 

― Está vendo, genro? Você poderia já ter me presenteado com alguns netos, como essa minha filha. ― disse Neide depois de soltar Samantha. Todos viram claramente que ela se dirigiu a Rael desse mundo, e não ao outro.

 

― Como assim, genro? Por que está chamando ele de genro? ― perguntou Samantha confusa.

 

― Nesse mundo, ele é casado com a minha versão... ― quem deu essa explicação foi Mara. Samantha ficou de boca aberta, sem conseguir soltar uma única palavra.

 

― Viu? Por isso não tinha como rolar nada entre nós. ― disse o Rael ruivo logo em seguida, aproveitando o embalo.

 

Houve um silêncio no ar depois de Rael dizer aquilo e Samantha ficou um tanto quanto desconcentrada. Na época que Rael esteve em seu mundo, ela forçou dois beijos nele e ele não cedeu para ela, coisa que agora ela tinha a explicação exata para esse fato. Se nesse mundo Rael era casado com Mara, que é a sua mãe no outro mundo, ele realmente não iria gostar da ideia de ter relações com ela. Seria como ter algo com uma filha.

 

O outro Rael já sabia desse detalhe, então não foi nenhuma surpresa. Ele já sabia que esse Rael foi o que se tornou a versão dele nesse mundo. É claro, ele só soube disso depois que Rael partiu naquela época. Rayger e Neide contaram para os dois do outro mundo a verdade sobre ele.

 

― E você deve ser o marido da minha filha... Rael Torres? ― disse Neide olhando o outro jovem, que educadamente se apresentou a ela com uma respeitosa reverência:

 

― Senhora sogra, é um prazer conhecê-la nesse mundo. Eu sou sim Rael Torres e estou muito feliz por ter me casado com sua filha. ― respondeu o mesmo.

 

― Você é tão bonito quanto o meu genro desse mundo. ― disse Neide satisfeita.

 

― Muito obrigado, senhora. ― respondeu o rapaz, sorrindo de volta.

 

― E a moça ferida, quem é? ― perguntou Neide para a última, ainda desconhecida dela.

 

― Thais Reis, a sua disposição, senhora Neide. ― respondeu a mulher, se levantando e reverenciando Neide. O ombro de Thais mais uma vez voltou a sangrar, ela não precisava fazer nenhum esforço para aquilo acontecer.

 

― O que aconteceu com seu ombro, senhorita Reis? ― perguntou Neide.

 

― Eu fui mordida no outro mundo por... ― Thais deu uma olhada de lado para Violeta e todos que não sabiam captaram a ideia: ― pela Violeta devoradora do meu mundo.

 

― Eu vou cuidar disso imediatamente. ― disse Rael dando um passo a frente: ― Todos vocês podem continuar a vontade. Thais, venha comigo.

 

― Rael, faça o que for preciso para ajudá-la. ― disse o outro Rael, assim que o Rael ruivo passou levando Thais. O Rael do mundo real apenas fez um sim para o rapaz e seguiu pelo corredor com Thais de companhia.

 

Chegando na cozinha, Rael pediu para Thais se sentar na cadeira e começou a remover suas ataduras. A moça segurava os gemidos de dor enquanto Rael retirava cuidadosamente as ataduras sujas de sangue.

 

― Não estava tão ruim no começo, mas como essa ferida não sara, ela foi piorando conforme os dias. ― disse Thais.

 

― Você só não se transformou porque se manteve ingerindo o Cristal de Ureno?

 

― Sim, mantenho uso constante dele nas minhas refeições. É como comer comida com terra, mas não temos escolha. No outro mundo, se não quisesse se tornar um devorador, o jeito era viver assim. ― disse Thais.

 

Com o ferimento agora exposto, Rael ficou impressionado que a moça ainda conseguisse mover o braço. A marca era profunda e sua carne estava exposta. O veneno era potente e só não avançava mais rápido devido a resistência de Thais e o medicamento de Violeta:

 

― Está feio, não é? ― perguntou Thais, vendo a expressão surpresa de Rael.

 

― Um pouco, mas vamos dar um jeito nisso. Deixe-me ver a sua energia. ― disse Rael e se dirigiu para as costas dela. Ele a tocou com a palma da mão direita e se concentrou. Em poucos instantes, ele obteve as respostas que buscava.

 

― Vai conseguir me curar? Violeta disse que se você não conseguisse, ninguém mais conseguiria. ― disse ela depois de Rael tirar as mãos de suas costas.

 

― Isso vai ser moleza. ― disse Rael sorrindo satisfeito, voltando para a frente de Thais, que sorriu visivelmente aliviada.

 

Thais ainda não havia agradecido por Rael ter salvo a sua irmã, mas já estava pronta para fazer o seu melhor assim que fosse curada por ele.




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