O Herdeiro do Mundo

196 - Algo na Barreira

O vulcão estava a aproximadamente duzentos metros de Rael e, quanto mais  próximo ele chegava, maior era a temperatura e muito mais difícil se tornava a respiração no local. Mesmo sem fazer nenhum esforço a respiração de Rael se tornou difícil.

 

― Eu não posso acreditar que meu limite seja esse! ― disse Rael irritado e avançou rumo a cratera do vulcão. Rael pousou nas beiradas da rocha e ficou puxando ar enquanto olhava para baixo, já na entrada. Seguindo a visão de Rael, estava o poço de lava e chamas cerca de cem metros de profundidade, onde borbulhava, soltava pequenas partículas de fogo no ar e uma fumaça escaldante.

 

― Cof cof! ― Rael tossiu, afastando o rosto de lado. O ar quente naquela parte estava muito mais intenso.

 

― ‘Você tem resistência ao fogo sim, mas o fogo da natureza de um dragão é muito mais forte que o normal. Então não seja precipitado, vá enfrentando o local aos poucos até seu corpo se acostumar totalmente. Eu sugiro que todos os dias você tente chegar um pouco mais perto do centro, pois quanto mais perto do centro você estiver, maior será seu aumento na cultivação.’ ― Rael havia se lembrado das palavras de Alexia. Aquele ponto parecia ser o máximo para ele no momento.

 

― Não é tão ruim, a energia que roda nesse... Cof cof! Lugar, não é nada mal. ― disse Rael sozinho, olhando em volta. Em seguida, ele se sentou e iniciou o seu cultivo.

 

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No mundo paralelo, as cidades sucumbiam uma a uma. O avanço dos devoradores estava sendo constante e certeiro, até atingirem o clã Torres.

 

As tropas de Violeta não conseguiram acabar com o clã na primeira batalha. Eles estavam arriscando tudo para se protegerem.

 

Eles usavam armas feitas de Cristal de Ureno, o que dificultava bastante a vida dos devoradores. Além disso, estavam consumindo Tabletes Mágicos para aumentarem seu poder constantemente, como se fosse parte das refeições. Eles também ingeriam o mesmo cristal em forma de pó para combater a transformação. Se caso eles fossem mordidos, eram os devoradores a passar mal a ponto de serem mortos facilmente.

 

A própria Violeta foi obrigada a fazer o seu movimento no segundo ataque e quase foi morta nas mãos de Rayger e Neide. Eles eram as potências do clã Torres e eram os que mais estavam fazendo o uso massivo dos Tabletes Mágicos em busca de derrotar a violadora devoradora.

 

No fim, a vitória acabou sendo dos devoradores, mas tiveram um grande prejuízo em seus números. Além de não obterem nenhum lucro potencial, perderam cerca de 50% da tropa que havia acumulado. Aquele resultado era surreal e Violeta estava furiosa por perder bons membros e não adquirir nenhuma outra força considerável para seu exército. Ainda por cima, no último instante, onde sua vitória se concretizava,tornou-se uma tremenda armadilha:

 

― Aquela maldita mulher! ― Violeta rugiu, se lembrando que Neide se explodiu no último instante, levando todos os que estavam próximos a ela. Mesmo enquanto estavam prestes a morrer, eles continuaram a encarar Violeta e os devoradores com ar de vitória. Violeta teve um pouco de dificuldade em batalhar com os reinos finais porque eles ingeriam tantos Tabletes que seus poderes praticamente triplicaram. Eles lutaram durante todo o tempo com suas forças totais, porque os Tabletes também tinham capacidades de recuperação. Os membros do clã Torres estavam lutando sabendo que no fim iriam morrer. Por isso não estavam se importando em como ficaria suas veias espirituais depois daquela batalha.

 

― Senhora líder, já revistamos todos os pontos do clã e não encontramos o casal, muito menos a filha deles. Acredito que eles devem ter fugido enquanto os pais lutavam junto aos outros. ― disse um devorador, se referindo ao patriarca Rael, sua esposa Mara e a filha deles, Samantha.

 

― Nunca achei que teria tanto trabalho assim! ― disse Violeta, levantando a blusa vermelha e olhando suas costelas do lado direito, onde estava boa parte cristalizada. Neide e Rayger, juntos, quase rasgaram-na ao meio.

 

― Mas a senhora não quis usar todo o seu poder. Caso contrário, nem teria se ferido.

 

― Sim, eu usei apenas o meu poder básico. Não utilizei qualquer aumento das minhas antigas habilidades pois, com a transformação em serva de Cristalandio, eu achei que não fosse necessário. Meu poder duplicou quando me transformei, e eles eram meros reinos finais.

 

― Eles só deram trabalho devido ao Cristal de Ureno que usaram de várias formas, e também por causa desses Tabletes. Eles estavam comendo tanto aquela barra que eu não duvidaria que eles acabariam até morrendo sozinhos depois de um tempo. ― refletiu o mesmo devorador, o que não deixava de ser verdade. O uso excessivo dos Tabletes poderia matar alguém por deixar em um estado muito pior do que a Mara desse mundo ficou na época da visita de Rael.

 

― O poder deles excedeu o de um cultivador renascido... Eu deveria ter sido mais cuidadosa! Isso não vai mais se repetir. ― disse Violeta em um tom sério e ainda irritada.

 

― Compreendo, senhora líder. Agora, quais são as novas ordens?

 

Os dois estavam de frente para a destruída residência do patriarca do clã Torres nesse momento. Nada tinha sobrado, o território inteiro tinha se tornado um mar de destruição.

 

― Parem de procurar por aqueles três, eles já devem estar longe. Aposto que os reinos finais fizeram esse showzinho aqui para que eles pudessem fugir enquanto estávamos distraídos.

 

― Compreendo, senhora. ― disse o mesmo.

 

― Agora vamos focar nos outros continentes. Vou separar todas as tropas em grupos menores e espalhar na direção dos outros continentes. Quero que faça um chamado informando a todos para se reunirem no esconderijo principal. Ainda esta noite.

 

― Farei isso imediatamente! ― disse o mesmo e retirou-se voando.

 

― O que eu quero mesmo é encontrar o homem capaz de passar por essas fendas de mundos. Chegou a hora de fazer uma pausa aqui e visitar o outro lado. ― disse Violeta sorrindo.

 

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De volta ao mundo normal, na residência do patriarca, Romeo atendia a mais um chamado no anel de comunicação. Reges acabara de passar a informação que as duas últimas pistas foram úteis, mas não conseguiram chegar a tempo. Verom fugiu levando Isabela com ele antes de serem localizados.

 

― Esse maldito! Ele ousa continuar fugindo de mim?! ― Romeo gritou e apertou o braço de madeira da sua poltrona, destruindo-a com mão. Irritado, logo em seguida se levantou e fez um aceno com a mão para que todos os guardas próximos a ele saíssem. Imediatamente eles obedeceram, saindo do salão principal.

 

― ‘Senhor, tenha calma. Dessa vez chegamos bem perto e estamos na cola dele.’ ― disse Reges do outro lado.

 

― Ele é um maldito reino final, vocês dificilmente alcançariam sozinhos. ― disse Romeo.

 

― ‘Se ele estivesse sozinho eu concordaria com o senhor. Mas ele está levando a mulher com ele, o deixando mais lento. Não vai demorar muito até alcançarmos e pegá-los.’

 

― Chega! Eu cansei dessa brincadeira. Mandarei mais dois grupos para auxiliar você nessa busca. Quero que vocês os cerquem e não os deixem escapar mais!

 

― ‘Se o senhor insiste, a ajuda será muito bem vinda. Eu farei como o senhor está pedindo.’

 

― Voltarei a falar com você quando preparar os grupos. ― disse Romeo e encerrou a comunicação.

 

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No esconderijo das violadoras, Emilia estava tendo uma noite ruim. Ela não conseguia dormir porque passou uma boa parte do dia dormindo, e agora estava sem sono. Ela se levantou de mau humor e se dirigiu a cozinha.

 

― O que Violeta toma mesmo para ajudá-la a dormir? ― se perguntou ela, caçando algumas coisas aleatórias pelas gavetas. Emilia desistiu da busca depois de ficar com preguiça e sentou-se na mesa.

 

― Droga! Eu nunca mais dormirei durante o dia. ― disse ela consigo mesmo, apoiando o queixo nas mãos em cima da mesa. Embora todas as vezes que perdia o sono ela repetia a mesma frase e nunca mudava o hábito.

 

― Emilia, ainda acordada? ― perguntou Rika, chegando na cozinha.

 

― E pelo jeito você também... ― disse Emilia olhando a celestial de volta, sem muito interesse.

 

― Preocupação... ― disse a bela mulher, puxando uma cadeira e se sentando de frente a Emilia.

 

― Você e sua raça. É basicamente tudo em que pensa. ― disse Emilia.

 

― É da minha natureza pensar nisso, somos as últimas da minha espécies e, mesmo mudando de forma, ainda temos essa preocupação. ― disse Rika.

 

― Rael vai ajudar vocês, não precisa se preocupar tanto. Pelo menos de Rose ele gosta muito.

 

― Esse gostar é tão importante assim?

 

― Para a maioria dos homens, não. Desde que você tenha uma beleza razoável e quando ele estiver afim, é fácil terminar em sexo mas, no geral, nosso Rael tem alguns padrões.

 

― Ele não tem nenhuma frescura de se deitar com suas esposas. ― reclamou Rika.

 

― Primeiro, ele gosta das duas. Segundo, elas gostam dele e não ficam exigindo filhos a todo o momento, e isso já muda tudo. ― disse Emilia.

 

― Eu já parei com essa coisa de pedir filhos, mas não mudou muito. Rael não fica muito tempo com a gente e isso acaba sendo ruim. Minha filha fica com saudades dele, e diferente de mim, ela pensa na presença dele e nos momentos que tiveram juntos. Esse sentimento dela por ele foi ainda mais ampliado depois do sexo.

 

― Normal, uma vez que você prova do prazer carnal você se apega, ainda mais se for com alguém que você já gostava.

 

― Eu ainda não entendo... Sei que é bom essa coisa de sexo, mas minha filha não pensa nisso porque quer filhos. Na cabeça dela, ela só quer estar na presença dele, mesmo se não for para transar.

 

― Isso é o gostar que você também precisa ter. Sua filha gosta dele sem se preocupar se vai ganhar filhos ou não. Ela está entregue de corpo e alma para Rael.

 

― Você acha que, se eu tentasse fazer o mesmo, não ficaria um pouco estranho? Será que ele não desconfiaria?

 

― Desconfiar de você? Com certeza. Rael sabe como você é e ele iria acabar descobrindo.

 

― Então o que eu faço para me aproximar dele, sem ele perceber que estou com segundas intenções? Se ele descobrir que o remédio pode não fazer efeito em nós, pode até se afastar da minha filha de novo.

 

― Se você não gosta, nem tente. Ele vai saber na hora. Deixe isso com sua filha, seria melhor. ― disse Emilia.

 

― Não existe nenhuma maneira mesmo? ― insistiu Rika.

 

― Se você soubesse seduzi-lo, conseguiria o que quisesse, pois mesmo que ele desconfiasse não iria conseguir resistir. O problema é que você não sabe. Transformada a pouco tempo, você mal aprendeu a falar.

 

― Então me ensine, Emilia! Eu faço o que for preciso pelo bem da minha espécie.

 

― A sedução funciona de duas formas: Uma é a longo prazo e a outra é uma mais explosiva e mais rápida.

 

― Me explique a explosiva. ― Rika se interessou.

 

― A explosiva você precisa se insinuar um pouco, usar roupas que mostram muita pele e muitas partes do corpo. Homem nenhum resiste a isso. Você precisa ser ousada e tomar atitudes inusitadas. Um exemplo parecido foi quando eu tentei forçar a minha vez com ele, embora você não vai fazer exatamente aquilo. ― explicou Emilia.

 

― Eu não entendo. Se vou ser ousada porque não posso forçá-lo?

 

― Porque essa parte precisa ser deixada para ele. Homens tem instintos dominadores e eles gostam de achar que ganharam a mulher, e não o contrário.

 

― Continua bastante confuso... ― disse Rika.

 

― Você já tem beleza, tudo o que lhe falta é apenas aprender a seduzir.

 

― Eu não poderia simplesmente chegar nele e perguntar se ele não quer transar? Se é tão bom assim, porque ele recusaria?

 

― Como você acha que ele nos recusou? Se fizer dessa forma ele vai desconfiar na mesma hora e se afastará de você.

 

― Ah, droga! Se pelo menos ele ficasse mais tempo aqui... ― disse Rika desanimada.

 

― Rael tem um crescimento rápido. Logo ele se vinga e passa um tempo mais com a gente. ― disse Emilia em um tom normal, sem muito ânimo.

 

― Você não se anima com isso?

 

― Desde que ele decidiu nos manter apenas como amigas isso já não me afeta mais. Tomando aquele remédio, quase todos os sentimentos por ele desaparecem.

 

― Ah, sim... O remédio que alivia a maldição.

 

― Sim. Se não fosse por isso, eu estaria no pé dele ainda.

 

― Acha que ele vai conseguir quebrar a maldição de vocês?

 

― Se ele vai eu não sei, mas Violeta acredita nele, então vou acreditar também.

 

― Você deve odiar essa forma que ele escolheu fazer as coisas, não? Porque você também gosta, mesmo que seja forçado.

 

― Sendo bem sincera, agora que estou no meu estado normal, eu o admiro muito. Conseguiu resistir a nós, mesmo com tudo que somos e ainda prometeu nos ajudar. Ele poderia fazer o que quisesse comigo e com Violeta devido a maldição mas, em vez disso, ele nos trata com respeito e entende o que sentimos. Ele sabe que esses nossos sentimentos são devido uma maldição e por isso ele não nos toca. Ele também nos disse que se depois que fomos livres e ainda quiséssemos ficar com ele, ele não se seguraria.

 

― Se isso acontecer, você vai ficar com ele?

 

― Não sei... Quando a maldição for quebrada, poderemos perder todas as ultimas memórias. Ou talvez não, isso não é certeza. Mas, considerando o que eu era antes, mesmo se eu não lembrar e souber que ele é o Herdeiro, então eu irei querer ficar com ele. Antes de me tornar uma violadora, eu tinha interesse em ser a mulher de um ser poderoso. ― disse Emilia.

 

― E Violeta? ― perguntou Rika.

 

― Violeta é diferente de mim. Se ela esquecer, tenho certeza que não olhará para Rael, nem por uma última vez.

 

― Isso vai fazê-lo sofrer. Mesmo não entendendo muito bem desse gostar, sei que ele adora Violeta.

 

― Verdade, ele...! ― Emilia parou de falar porque sentiu alguém tentando forçar a barreira que ela havia criado na caverna da fenda. Ela até sabia que era pelo lado de dentro da passagem. Alguma coisa do mundo paralelo estava tentando atravessar.

 

― Emilia? ― perguntou Rika, surpresa porque Emilia se levantou apressada.

 

 

― Alguma coisa está tentando atravessar a minha barreira feita na caverna da passagem para o mundo paralelo. Avise Violeta eu vou na frente. Preciso verificar o que é imediatamente! ― Emilia nem esperou Rika responder e saiu apressadamente como um vulto. Rika se levantou preocupada e já correu em direção ao quarto de Violeta para acordá-la e avisar do ocorrido.