O Herdeiro do Mundo

194 - Armas Mágicas

Eles não voltaram diretamente para casa. Rael passou em uma cidade pequena e pararam para almoçar em uma estalagem que servia refeições. Os dois dividiram uma mesa e foram bem recebidos por uma atendente do local.

 

― Sabe, você não precisa de todos esses modos para comer. Fique mais a vontade. ― disse Rael, observando Andréa comer. Ela era muito cuidadosa e higiênica, pegava quase qualquer coisa com um papel limpo ou cortava cuidadosamente a carne com os talheres. Ela comia bem menos que Rael e ainda mais devagar.

 

― Essa é a minha maneira, e eu não conseguiria mudar assim. ― disse a jovem, sem se incomodar com o comentário de Rael.

 

― Não estou pedindo pra fazer diferente se não quiser, só acho que você não precisava ser sempre tão cuidadosa. ― disse Rael. Andréa ouviu, mas continuou comendo do mesmo jeito, sem mudar em nada.

 

― Eu me sinto a vontade comendo assim. Obrigada por se preocupar. ― disse ela, lançando um leve sorriso para Rael e voltou a comer. Andréa era tão cuidadosa que quase não manchava nem mesmo os seus lindos lábios ao comer.

 

Após o almoço, eles saíram da cidade e Rael convocou Ralf novamente. Ao chegarem na capital, antes de voltar para casa, Rael pretendia fazer algumas compras. Ele queria começar a criar armas mágicas.

 

As ruas comerciais estavam bem movimentadas e os comerciantes não paravam de negociar com seus clientes, que insistiam em ter um bom desconto. Havia barracas montadas nas calçadas, vendas armadas em cima de tapetes, casas comerciais pequenas e até grandes pontos de vendas. Os comerciantes sem clientes estavam sempre gritando para atrair atenção enquanto mencionavam seus itens mais em conta.

 

Rael e Andréa chamavam muita atenção. Primeiro por causa de Andréa, que era muito bela, e segundo por causa de Rael, que era facilmente reconhecido. Rael era uma das figuras mais conhecidas em todo o continente Sul. Tendo duas esposas pertencentes de um poderoso clã e ainda noivo da princesa Anita, Rael não era pouca coisa.

 

Os homens passavam encarando Andréa com olhares cobiçosos, depois de uma boa olhada, eles analisavam o homem que a acompanhava com desdém para só então se tocar da estupidez que fizeram ao reconhecerem Rael. Quando eles o reconheciam, imediatamente mudavam suas expressões e agradeciam por Rael não ter notado o olhar deles, depois se afastavam o mais rápido que podiam, como se estivessem sido salvos de uma baita encrenca. Alguns homens após ver Andréa se enchiam de luxuria e queriam buscar confusão com o seu acompanhante para se exibirem, mas lá estava Rael novamente sendo reconhecido e esses, por sua vez, abandonavam todas as idéias, baixavam suas cabeças e saiam de perto apressados, agradecidos por não tomarem atitudes que futuramente se arrependeriam.

 

Não era somente Andréa que atraía a atenção do público. As mulheres mais novas e belas, quando viam Rael, se enchiam de olhares encantadores e abriam os mais lindos sorrisos para o jovem rapaz. Mas, ao vê-lo em companhia de Andréa, elas ficavam desapontadas, mas não tanto quanto aos homens ficavam ao verem o par. Uma mulher só poderia ter um homem na vida, mas ainda assim poderiam dividir o mesmo com várias outras, e Rael já estava a caminho de três belas esposas. Mas Rael não dava atenção a nenhuma para as senhoritas, e isso de certa forma as desanimava demais.

 

Isso sempre acontecia na maioria dos lugares em que Rael frequentava ultimamente. Desde que o noivado com a princesa Anita foi anunciado, as mulheres do continente Sul tinham ficado ainda mais empolgadas.

 

― Se desejar qualquer coisa, basta de me dizer. ― disse Rael para Andréa que o acompanhava. Andréa estudava o tratamento ao redor em relação a eles dois e ela teve que admitir que aquilo era impressionante. Rael, apesar de estar em um reino tão fraco, parecia ser alguém de enorme respeito. Mas isso era comum por todas as coisas que ele já fez. Sem mencionar que esse povo simples não fazia ideia de todas as suas capacidades. Até mesmo Andréa naquele instante sentiu uma sensação quente no peito ao pensar sobre isso. Rael era certamente o homem mais incrível que ela já conheceu e que ainda estava conhecendo.

 

― Pode deixar, eu aviso se gostar de algo. ― disse Andréa com um ar alegre. Quando Rael se voltou para frente, ela suspirou e ficou pensativa. Ela jamais imaginaria que em tão poucos dias ao lado desse misterioso jovem teria seu coração tão balançado daquele jeito.

 

Rael tinha parado em uma barraca e estava negociando a compra de Tabletes Mágicos. Era um tipo de artefato mágico parecido com uma barra de chocolate grande, embrulhado em um plástico especial. Os Tabletes Mágicos eram feitos de sangue de bestas elementais e cada um tinha o seu tipo: Água, Fogo, Força, Terra, dentre outros. O usuário deveria comer uma barra ou duas para aumentar o seu poder temporariamente dentro do seu elemento. O problema é que o uso desse tablete tinha uma boa chance de danificar as veias espirituais, o que tornava bem raro a sua utilização. Em tempos de desespero sempre haviam vendas, independente dos efeitos colaterais:

 

― O que você pretende fazer com essas coisas? ― perguntou Andréa.

 

― Vou criar armas mágicas, assim como armaduras ou anéis. ― explicou Rael, como se não fosse nada demais.

 

― Armas encantadas eu sei que existem, mas armas mágicas eu nunca vi, nem ouvi falar. ― disse ela de volta.

 

Armas encantadas eram armas já forjadas que ganhavam um encantamento especial ou até mais de um, como por exemplo a espada pesada de Neide que, além de fortalecer o seu poder do elemento Fogo, podia se mover sozinha pelo ar.

 

A diferença entre uma espada encantada e uma espada mágica seria bem simples, se caso elas existissem. A espada encantada quando sofre danos graves precisa ser levada novamente para um ferreiro e, a cada conserto, perde parte do seu encanto, se tornando mais fraca com o tempo. Já a espada mágica pode até ser destruída em batalha, mas em algumas horas ela estará inteira novamente e pronta para ser usada, sem nunca perder seu fio, ou o seu poder total.

 

― Não existem ainda, mas vão existir. Pelo menos, eu pretendo criar. ― explicou Rael.

 

― E você acha que é capaz de criar armas mágicas? Nem mesmo os anciões mais velhos e experientes foram capazes de criar isso até hoje. A propósito, você já criou armaduras mágicas? ― perguntou Andréa. Ela já não duvidava muito das capacidades de Rael. Todos do convívio Rael, com o passar do tempo, acabavam aprendendo que ele poderia fazer quase tudo.

 

― Sim, cada uma das minhas esposas tem uma armadura mágica criada por mim. Ah!É claro, a minha também foi criada por mim. ― disse Rael tranquilamente.

 

― Isso é sério? ― Andréa não podia está mais chocada.

 

― Sim, eu as fiz tem algum tempo, assim como criei anéis de bloqueio e até de apoio. As armas mágicas vou começar a tentar fazer hoje.

 

― Eu gostaria de ver você nessas criações. ― disse ela, com o coração acelerado no peito. As capacidades de Rael estavam muito fora do comum, deixando-a animada e ansiosa.

 

― E você vai. Quando chegarmos em casa eu te mostro.Se quiser, até crio uma arma pra você também.

 

_____________________________________________________________________________

 

Não demorou para irem embora. Rael comprou tudo o que precisava e retornaram para o território. Como estavam próximos, não chamaram mais Ralf, fizeram a trajetória a pé.

 

Chegando em casa, Mara e Natalia estavam cultivando, depois do retorno do treino. Estava perto de escurecer. Andréa se manteve perto de Rael porque queria mesmo saber se Rael seria capaz de criar artefatos mágicos.

 

Com Andréa acompanhando, Rael espalhou os materiais comprados mais cedo de um lado e foi separando os que usaria na hora do outro. Andréa ficou sentada próxima, assistindo com curiosidade.

 

― Eu só consigo fazer isso por causa do Mundo da Simbologia. É uma habilidade rara que herdei de uma... Uma amiga. ― explicou Rael. Conforme ele se concentrou, criou a barreira vermelha em sua frente. Rael não podia usar as luvas no processo e por isso teve que retirá-las. Assim, ele expôs sua mão azul para Andréa:

 

― Por que sua mão direita é azul?

 

― É uma longa história. Essa explicação ficará para depois que você tiver casada comigo. ― disse Rael um pouco alto e já olhou em volta, preocupado se alguém mais tinha escutado. Andréa ficou apenas em silêncio, assistindo o que viria a seguir.

 

― Dentro da barreira eu posso usar todo meu conhecimento já adquirido ao longo do processo. Além disso, posso remover símbolos de outros artefatos, destrui-los e até trocá-los de lugar. E agora vou testar algo novo que, pra falar a verdade, ainda não usei antes.

 

― O que é? ― perguntou Andréa.

 

― Modelação. Se eu não conseguir usar isso, esqueça as armas mágicas, até porque tenho que começar do zero. Talvez seja essa a dificuldade dos outros em criar tais objetos.

 

― E qual a diferença? Se outros conseguem fazer armaduras mágicas, porque não conseguiriam fazer as armas?

 

― Porque armadura se molda praticamente sozinha a partir do ponto que aprendemos a usar simbologia, você só precisa de partes de uma besta. Não é complicado, uma vez que o conhecimento já foi passado a frente. Agora a espada não se usa partes de uma besta, a não ser as pedras espirituais e tabletes para dar o atributo da arma. Eu também terei que moldar a lâmina dela desde o princípio para atribuir os elementos mágicos desde a criação.

 

― Tabletes Mágicos fazem mal ao usuário. Tem certeza que isso está certo?

 

― Eles fazem mal quando são ingeridos. Da maneira que irei fazer aqui, não farão mal algum. ― disse Rael. Andréa ficou em silêncio, vendo Rael reunir dois tabletes vermelhos do tipo fogo, uma placa de aço grande, outra de metal menor que era usada para reforçar o aço e três pedras espirituais rank A de bestas do tipo demônio.

 

Rael iniciou sua modelagem pelo aço. Com os dedos, ele cruzavas linhas mágicas sobre o aço.Essas linhas pareciam causar efeitos estranhos no aço, que começou a borbulhar e a ganhar forma. Rael já havia lido em um livro na biblioteca de como seria o processo e até conversou com Emilia, a mesma disse que já tinha criado duas armas mágicas, mas era um processo bem difícil e Rael deveria estar preparado para falhar algumas vezes.

 

O aço começou a ganhar forma de lâmina e Rael já iniciou a fusão com os demais materiais. Usando o Símbolo de Ligação nos objetos designados, as três pedras e os dois tabletes foram puxados e fundidos magicamente na lâmina. Em seguida, ele já iniciou a cobertura do aço fundido com o metal de reforço. Tudo parecia está fluindo perfeitamente.

 

― ‘Eu estou conseguindo!’ ― Rael pensou consigo mesmo animado, sentindo o poder na lâmina se estabelecer. Ele não imaginou que conseguiria de imediato, mas se conseguisse não seria nem um pouco ruim. Os gastos para cada tentativa perdida seriam em cerca de dez mil moeda de ouro, sorte que ele tinha o bastante para desperdiçar até pegar o jeito. Além disso, para treinar, Rael estava usando aço comum, quando ele tivesse certeza da prática, usaria materiais muito mais poderosos.

 

Andréa, que assistia a tudo, ficou mais uma vez chocada. Ela também sentiu a formação de poder dentro da barreira vermelha. Essa barreira ficava à frente de Rael,enquanto ele ficava sentado de pernas cruzadas. A barreira tinha uma proporção quadrada e chegava na altura do peito do jovem, de modo que ele ficava com parte do seu corpo dentro da mesma, como suas pernas e braços.

 

Alguma coisa no processo deu errado e a lâmina começou a pulsar. Rael arregalou os olhos e saiu de dentro da barreira apressadamente. Ele não pensou nem meia vez antes de saltar e abraçar Andréa, protegendo-a do que viria a seguir. Andréa já estava prestes a fugir quando foi abraçada por Rael.

 

Booooom!

 

A lâmina explodiu, fazendo um alto som. Mas Rael não foi machucado, assim como nada na casa foi destruído. A explosão ficou toda contida dentro da barreira, que se encheu de chamas e fumaça escura.

 

― Por um momento achei que pudesse machucar você, desculpe. ― disse Rael, saindo de cima da moça. Andréa ficou parada em silêncio, sem saber como reagir. Ela ficou pensativa em como Rael pulou tão rápido para salvá-la. No pensamento dela, Rael a via somente como uma moça sem memórias que ele conheceu a pouco tempo. Tudo bem que ela era bonita, mas ela não era forte, não tinha apoio e não tinha nada além de beleza. Rael poderia muito bem se aproveitar dela o quanto quisesse e depois descartá-la,coisa que muitos homens costumavam fazer naturalmente. Mas Rael parecia tratar dela como se já fosse uma pessoa especial para ele, na realidade, Rael tratava ela muitas vezes melhor do que vários homens nesse mundo tratavam suas próprias esposas.

 

Mara desceu preocupada e Beta veio correndo da cozinha. Até Rael explicar todo o ocorrido levou alguns minutos. Depois, as duas voltaram para seus afazeres.

 

Mara tinha ciúmes de Andréa por ela passar tanto tempo com Rael, mas ela entendia o motivo. A jovem estava sozinha e não conhecia ninguém. O maior medo de Mara era pensar que Rael fosse se envolver com ela por ela ser bonita e ter que dividi-lo com mais uma esposa. Mas, o que ela poderia fazer a respeito? Outro show, brigar por mudanças? Seria improvável. Tudo que ela podia fazer era rezar para que a moça se recuperasse ou que alguém a reconhecesse e viesse buscá-la.

 

O piso não foi danificado por causa da barreira. Dentro dela, tudo que restou foi apenas marcas escuras no local.

 

Rael não desistiu e continuou tentando com a curiosa Andréa próxima, assistindo-o. Até que, na terceira tentativa, ele conseguiu fazer uma lâmina perfeita do tipo fogo. A lâmina era prateada, mas tinha linhas vermelhas por toda a extensão e exalava uma intensa aura quente. Rael levantou ela na mão direita e a analisou, usando o seu poder.

 

― Lâmina mágica do tipo fogo forjada com sucesso! Ela é mais forte que as lâminas normais e tem um aumento valoroso em habilidades do tipo fogo. Acredito que em torno de uns 30%. ― disse Rael.

 

― Posso ver? ― perguntou Andréa chocada, levantando as mãos.

 

― Você até pode, mas vai se queimar ou se ferir ao tocá-la. Você é apenas um quarto reino ainda. ― disse Rael, deixando a mão que segurava a lâmina estendida na direção dela. Andréa, ouvindo as palavras de Rael, apenas tocou com o dedo indicador e sentiu a lâmina extremamente quente. Ela fez sua própria análise silenciosa e constatou o que Rael disse, a lâmina era mesmo mágica.

 

― É verdade, eu posso sentir o poder de fogo e o toque dela é quente. ― concordou Andréa, afastando a mão da lâmina.

 

 

― Sim, ela está boa. Falta somente as partes finais. Eu tenho que fundi-la a uma boa empunhadura e depois no cristal. ― disse Rael satisfeito. Andréa ficou do lado observando Rael, totalmente impressionada.




O site Central de Mangás é gratuito e sempre será!

Para colaborar com a existencia do site, por favor,
desative o bloqueador de anúncios.