O Herdeiro do Mundo

187 - Rael e Andréa (Parte 1)

Os olhos de Andréa se cruzaram com os de Rael. Andréa ficou apenas um pouco surpresa ao ver Rael, enquanto o rapaz ficou ainda mais, pois ele se sentia culpado por ter invadido o quarto dela e a encontrado naquele estado. Pior ainda foi ela ter despertado na hora exata.

Diferente de uma reação explosiva ao qual ela reclamaria, gritaria, ou mesmo se cobriria envergonhada ou com raiva, ela não fez nada. A expressão dela simplesmente se esfriou, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ela girou na cama e sentou-se na beirada, ainda encarando Rael de volta. Talvez por essa reação inusitada que Rael ficou ainda mais atrapalhado.

― Desculpe! ― Rael de repente pareceu acordar de seu devaneio e pulou para fora do quarto, puxando e batendo a porta junto. Em vez dela se assustar, quem se assustou foi Rael, aquela era uma cena bem estranha de se ver. Rael ainda ficou ali parado com os olhos correndo rapidamente de um lado a outro pensando no que havia acabado de acontecer. Mas ele não tirou da cabeça a imagem perfeita do corpo da jovem.

Dentro do quarto, Andréa se trocou sem pressa e sem preocupação. Aparentemente, quase nada a incomodava.

Na frente do espelho, ela penteou o cabelo, que agora estava mais volumoso devido as tranças que não existiam mais. Depois que ela terminou de se aprontar ela saiu do quarto, encontrando Rael ali ao lado da porta:

― Desculpe, eu não queria ter visto você daquele jeito. ― disse Rael apreensivo. Mesmo que ela parecesse não o culpar Rael, o mesmo ainda se sentia mal por isso.

― Não há motivos para se desculpar, você não fez nada de errado. Você foi o homem que salvou minha vida e é um homem que eu confio. ― disse ela com um leve sorriso de satisfação. Aquelas palavras soaram gentis e ao mesmo tempo fizeram o coração de Rael balançar.

― Isso não me dá o direito de invadir a sua privacidade. É que eu não sabia que você dormia com tão pouca roupa.

― Não foi nada, não se preocupe. ― repetiu ela, continuando aparentar nenhum pingo de vergonha. Parecia que ela tratava Rael quase como uma mulher igual a ela.

― Você se lembrou de alguma coisa? ― perguntou Rael em seguida, mudando o assunto.

― Não... ― respondeu a moça, deixando Rael um pouco desapontado.

Depois daquilo eles foram tomar café, Mara já tinha preparado a mesa. A última a descer foi Natalia. Os quatro tomaram café em silêncio. Os modos de Andréa na mesa eram bem sutis e respeitosos, ela comia com senso comum de educação, carregado de modos requintados, mostrando que ela deveria ter vindo mesmo de uma família poderosa.

Mesmo Mara com ciúmes não deixou de seguir seu padrão do dia. Ela e Natalia terminaram o café e foram treinar, Mara com seu treinador e Natalia com sua mestra paga.

Rael ficou sozinho com Andréa, e para não ficar estranho, ele se ofereceu a mostrar o território para ela. Assim os dois saíram em um passeio aleatório pelo clã.

Eles andaram por boa parte da cidade e Rael apresentou os locais de certa relevância, como o tribunal, a arena, a prisão, escolas de treino entre outros lugares.

― ... E esta é a residência do patriarca do clã. ― disse Rael e sua voz soou com um tom irritado, deixando claro que ele não gostava dos mesmos. Andréa percebeu.

― Natalia não é a filha deles? Por que tem raiva dos pais dela? ― perguntou Andréa e voltou a seguir Rael, que tinha voltado a caminhar. Ele queria sair dali o mais rápido possível.

― Romeo e Elisa são dois cretinos. Por vários anos eu fui tratado como um lixo na mão deles, até que eles mandaram me matar. ― disse Rael, que nem se quer se tocou do que estava dizendo. Naquele momento de raiva ele deixou escapar. Por talvez confiar um pouco em Andréa, ele nem chegou a perceber essa brecha.

― O que? Não entendi bem o que você disse. ― disse Andréa em seguida, despertando Rael que só agora percebeu o que havia dito.

― Eu misturei as coisas. Eu quis dizer que eles trataram a filha deles como um lixo, e ainda por cima mandaram me matar depois que a tomei como esposa.

― Você gosta de Natalia? Ou fez isso apenas para tomá-la dos pais? ― perguntou Andréa, que ainda parecia meio perdida no assunto.

― No começo eu o fiz para protegê-la dos pais. Eles iriam casá-la com um monstro abusador. Esse monstro chegou a agredir a menina, e o lixo da mãe dela não fez nada, ainda por cima jogou a culpa em cima de mim! Você tinha que ver a expressão triste dela quando morava com os pais, era constante e deprimente. Agora, comigo, ela está feliz. ― explicou Rael.

― Uma filha nunca deve ficar triste com os pais. Ela deve seguir os ensinamento dos mesmos e agir com orgulho para o bem da família. ― disse Andréa em seguida.

― É assim que você pensa? Viver na merda para apoiar pais bostas? Eu não concordo com isso. ― disse Rael com um olhar duro.

― Eu... Eu não sei dizer... Estou confusa... ― disse Andréa e olhou de lado, fugindo do olhar de Rael.

― Não sei se disse isso por algo relacionado a você e nem mesmo se lembra, mas saiba que o seu pensamento não está certo. Natalia sofreu muito nas mãos dos pais, e eles nem sequer ligavam para ela. Eu estou casado com ela à vários meses e o pai dela nunca apareceu nem mesmo uma única vez para perguntar se ela estava bem ou se precisava de alguma coisa. Até o vestido e os preparos de casamentos foram feitos por Neide, a tia dela. Os pais dela simplesmente viraram a cara e não a olharam mais. ― disse Rael, voltando a caminhar.

― E a mãe dela? ― perguntou Andréa, voltando a seguir Rael.

― Ela é ainda pior. Finge que se preocupa, mas tem um coração de pedra.

― Ela também não visita a filha?

― Visita, claro, mas é falsa. Uma vez, ela encontrou a filha sendo agredida pelo antigo noivo e não fez nada para ajudar, ela simplesmente permitiu. Ela sabia o tempo todo o que aquele monstro fazia com ela e nunca a protegeu. Se fosse uma mãe de verdade o teria destruído sem pensar nem por um momento! ― disse Rael irritado. Ele parecia falar mas com si mesmo do que com Andréa, que o olhava curiosa.

― Eu não fazia ideia que os pais dela eram assim... ― disse Andréa em seguida, como se quisesse se desculpar pelo que disse antes.

― Relaxa, eu sei que você não disse por mal. ― explicou Rael.

― Mas, voltando ao ponto: Você disse antes que tinha feito isso apenas para salvá-la, mas parece que a tomou como esposa de verdade. ― disse Andréa ainda curiosa, mudando um pouco a direção do assunto.

― Sim, está certa. Eu sempre tive muito afeto por ela, Natalia é especial para mim como irmã, como esposa, como amiga. Eu tenho um grande amor e carinho por ela. Enquanto eu puder, vou protegê-la com todas as minhas forças. ― disse Rael, deixando Andréa um pouco surpresa.

― Natalia é uma moça de boa aparência, homens no seu lugar poderiam ter o mesmo pensamento. ― disse Andréa.

― Não é só porque ela tem boa aparência. É porque eu a amo de verdade. Você não entende o que sinto por ela e nem mesmo eu posso explicar. Mas é algo que vai além do que você imagina. ― disse Rael.

― E Mara? É a mesma coisa?

― Com ela foi diferente. No começo eu não gostava dela, eu tinha nojo e raiva. Ela me forçou a ter um relacionamento e me ameaçou muitas vezes. Depois em algum ponto ela começou a mudar e eu fui começando a gostar dela, até o ponto que desistir de vingança. ― explicou Rael.

― Vingança? Por que iria querer se vingar dela?

― No passado, ela havia... É porque ela queria me forçar a ter uma relação, é isso. ― disse Rael, se corrigindo antes de escapar outro fragmento do seu passado sem querer.

― E no fim, você se apaixonou pelas duas?

― Sim, está certa. Eu amo as duas. ― disse Rael.

― E funciona bem, um casamento com várias mulheres?

― Funciona sim, as duas se dão bem e a gente se diverte. ― explicou Rael, sem entrar em detalhes. Mas Andréa podia imaginar pelos sons que ouviu noite passada.

― Bom pra você. ― disse ela.

― Quer comer alguma coisa? Gosta de sorvete? De salgados? Sucos? ― perguntou Rael.

― Não estou com fome, obrigada. ― disse a mesma. Os dois agora estavam chegando na praça do clã. Durante todo o percurso, todos babavam por Andréa e morriam de inveja de Rael. Rael parecia estar sempre bem acompanhado.

Os rumores do casamento de Rael com Anita já havia se espalhado há vários dias. Rael estava ficando cada vez mais famoso por escolher as mulheres mais bonitas e de maiores títulos no continente Sul. Tinham muitas pessoas que invejavam Rael até o fundo da alma.

― Você gosta de viver aqui? ― perguntou Andréa, se sentando no banco enquanto corria a visão em volta.

― Não gosto. Toda vez que estou aqui tenho más lembranças. ― disse Rael.

― Esteve aqui no passado?

― São lembranças recentes. ― Rael se corrigiu de novo. Ele ficou preocupado porque toda vez ele estava baixando a guarda com Andréa. Tudo bem que ela não conhecia nada aqui, mas não era por isso que Rael pretendia se abrir com a mesma e contar toda a verdade.

― Você me parece preocupado. Sinto como se você quisesse me dizer algo, mas não diz. ― disse ela com um tom um pouco curioso.

Naquele momento o assunto morreu. Rael não respondeu a moça, apenas sentou-se do lado dela e ficou em silêncio olhando em volta.

― Se eu estiver incomodando você, é só falar... ― disse ela depois de um tempo.

― Não é você, eu só não quis dizer nada. ― explicou Rael.

― Suas esposas se esforçando para evoluir e você aqui passando um dia comigo... Isso não te preocupa? ― perguntou ela depois, puxando um novo assunto.

― Nem um pouco, pois eu estou em boa companhia. ― respondeu Rael e sorriu para descontrair. Andréa também deu um leve sorriso, como se gostasse da resposta.

― Natalia me disse que você é bem novo. Como você faz pra ter um cultivo tão forte, mesmo nessa idade? ― perguntou ela interessada.

― Eu tenho uma boa mestra, uma boa formação de poder e outras coisas.

― O típico gênio que nasce a cada mil anos. ― comentou ela ainda interessada.

― Não to acostumado a ouvir isso, mas gostei do elogio. ― disse Rael de volta.

― Alguém que é capaz de voar sendo apenas um sexto reino é bem mais incrível que um gênio. ― disse ela novamente.

― Ainda pensando nisso? Infelizmente não posso te explicar os motivos. ― disse Rael com um leve sorriso.

― Não estou pedindo que explique. Estou apenas elogiando. ― repetiu ela, também sorrindo.

― Você também deve ser alguém incrível. Seu cultivo não é mal para a idade e sua aparência, ela é... ― Rael parou de falar porque percebeu que estaria dando em cima dela.

― Me acha bonita? ― perguntou ela, ainda animada.

― Sim, eu acho, mas eu não quero que pense que estou dizendo isso por interesse amoroso. ― se explicou Rael rapidamente.

― Não penso, isso é apenas uma conversa. Obrigada mesmo assim pelo elogio. ― disse ela satisfeita.

― Não há o que agradecer. ― disse Rael e continuou com um sorriso leve.

― Eu não perguntei ainda, mas e sua família? Você ainda não me disse nada sobre eles. ― disse a moça no mesmo tom animado. Rael, no entanto, retirou o brilho dos olhos e ficou triste por se lembra de Rita e seus pais.

― O que foi? Eu disse algo de errado? ― perguntou Andréa, ficando preocupada com a reação.

― Vou mostrar a você. ― disse Rael se levantando.

Dez minutos depois de uma boa caminhada, eles chegaram em frente aos túmulos.

― Estes são Adam Serrari, Barbara e Rita. ― apresentou Rael passando com um olhar triste sobre cada lápide.

― Você não disse que eram sua família?

― Sim, e são. São o mais próximos que tive de uma família. ― disse Rael.

― O que quer dizer?

― Para ser franco eu não tenho família, e acho que nunca tive, eu não fui muito agraciado nessa vida. ― explicou Rael.

― Se eles não eram sua família, então quem são? Você por acaso é de algum outro clã ou algo do tipo que não pode contar?

― Como eu disse, eu não tive família. ― disse Rael novamente.

― Todos nós temos uma mãe. ― disse ela.

― Acho que a minha foi só uma barriga emprestada. Bom, não quero mais falar sobre isso, já chega. ― disse Rael. Andréa olhou os túmulos mais uma vez:

― Lamento pela perda deles. Mesmo que não sejam uma família verdadeira, deve ter sido doloroso. ― disse a mesma.

― Bastante, mas irei me vingar. ― disse Rael.

― Se vingar de quem? As pessoas que fizeram isso ainda estão vivas? O que aconteceu a elas?

― Eles foram queimados vivos por um maldito clã que me odiava. Esse clã recebeu a informação que eu tinha ligação com essa família de uma outra pessoa, é essa a pessoa que eu vou pegar no futuro. Do clã eu já me vinguei. ― disse Rael friamente.

― Essa pessoa é poderosa?

― No momento ela é, mas em um ano eu irei superá-la e qualquer outro mais que ficar em meu caminho. ― disse Rael firmemente e Andréa não duvidou daquilo. O olhar de Rael era feroz como o de um animal.

― Ainda bem que essa pessoa não sou eu... ― disse Andréa, como se fosse um elogio a expressão feroz de Rael. O mesmo se acalmou achando graça.

― Espero não ter assustado você, eu não sou assim tão mal. ― disse Rael sem jeito.

― Me assustar? Imagina, eu não teria medo do homem que me salvou. ― disse ela de volta, levemente animada. Rael ficou em silêncio porque se lembrou da conversa com Violeta na biblioteca, da parte que Andréa poderia ter sofrido uma lesão. Se fosse o caso, ela não poderia ser curada com o poder de Rael? Mesmo que fosse um envenenamento, poderia ser curado. Rael não tinha pensado nisso até aquele momento, ele quase deu um tapa na própria cara.

― Andréa, eu tive uma ideia que pode te ajudar a recuperar a memória! ― disse Rael apressado e puxou a mão da moça.

― Espere, do que você está falando? ― perguntou a mesma surpresa, seguindo Rael.

 

― Eu não posso explicar, só te mostrar. ― disse Rael, seguindo rapidamente de volta para o clã, ele queria levá-la o mais rápido possível para casa.




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