O Herdeiro do Mundo

185 - A Moça Sem Nome

Quando o capuz foi baixado, uma cena de fazer alguém perder um ar foi exposta. A misteriosa mulher com problemas de memória era muito linda para ser uma humana comum. Ela tinha olhos cor de mel, levemente puxados e brilhantes quase como ouro polido, e seu rosto era delicado e perfeito. Seus lábios eram pequenos, com uma suave curva que combinava perfeitamente com seu rosto. Sua altura era um pouco acima da média, e o corpo em um todo, por baixo daquele vestido, parecia ter uma simetria perfeita. Ela tinha o tom de pele bem parecido com o de Alexia, pele branca levemente avermelhada, Rael pôde notar pelas maçãs em seu rosto e uma parte do pescoço que ficou exposta. Porém, o que mais chamou a atenção de Rael foram os cabelos diferenciais da moça: Eles eram prateados, lisos e longos, tendo parte deles soltos e outra parte amarrado em tranças, nas laterais. Alguns fios de cabelo dela ficavam expostos soltos sobre o rosto, dando ainda mais sensualidade a ela.

Por um instante, Rael ficou realmente abobalhado, mesmo já estando acostumado a esses tipos de situações. A beleza dela era incomum para apenas uma mulher normal e ele chegou a pensar que talvez ela fosse uma violadora. O fato interessante é que, apesar do cabelo dela ser prateado, seus cílios e sobrancelhas eram escuros.

― Por que você está me olhando assim? ― perguntou ela timidamente, vendo Rael com o olhar travado no rosto dela já a algum tempo.

Rael lançou seus sentidos e mais uma vez fez a leitura do poder dela. Ela era dona de um simples quarto reino nível três. Sua aparência condizia com uma garota jovem de dezesseis anos, então ela podia ter a mesma idade de Rael, ou ser apenas um pouco mais velha. Se Rael não soubesse que o imperador Elidas tinha duas filhas, ele apostaria na hipótese de que essa mulher seria uma de suas filhas, embora o tom de cabelo não era familiar.

Comparando essa mulher com Mara e Natalia, ela era mais bonita do que as duas, o que era bem difícil de se encontrar. Até mesmo Rose, ela conseguiria ultrapassar com muita dificuldade. Sua beleza era realmente comparada a de uma violadora. E isso era uma coisa que assombrou Rael, porque ele nunca pensou que encontraria uma simples humana “aparentemente” tão bela quanto uma violadora de sangue demoníaco.

― Desculpe por isso. ― disse Rael, estendeu a mão e tocou no ombro dela. Rael lançou suas energias diretamente no corpo dela, para fazer uma investigação mais profunda. Conhecendo as Celestiais e a Soberana, Rael teve medo que essa mulher talvez viesse de alguma transformação. Isso talvez pudesse explicar o por quê dela não se lembrar quem era.

A mulher ficou parada sem medo, deixando Rael analisar seu poder, mas a face dela ficou levemente corada, Rael estava bem perto dela e os dois se encaravam diretamente, olho no olho.

A análise não deu pistas a Rael, ela continuava aparentando ser apenas uma pessoa comum. Isso fez Rael afastar a mão do ombro da moça:

― Está tudo bem comigo? ― perguntou ela curiosa, ainda olhando para Rael.

― Está sim, eu só estava verificando se poderia haver algum tipo de envenenamento. ― mentiu Rael sem jeito.

― Ainda bem que você não encontrou nada... ― disse ela, formando uma expressão aliviada.

― A propósito, eu me chamo Samuel. ― disse Rael.

― Samuel, é um prazer. ― disse ela educadamente, levantando novamente o rosto com um ar animado: ― Eu me chamo... E-eu... M-me...!? ― ela se perdeu novamente atrapalhada e baixou a visão, novamente perdida. Isso quase fez Rael ri do jeito bobo dela, mas ele se controlou e focou no que importava:

― Qual é a última coisa da qual você se lembra? ― perguntou Rael.

― De estar sendo puxada para fora da carruagem por aqueles homens. Isso é tudo o que me lembro. ― disse ela girando a visão em volta, como se tivesse se esforçando para se lembrar de mais coisas.

― Estranho... Será que eles usaram alguma toxina em você? ― se perguntou Rael e correu a visão pelo vestido dela, analisando se haveria alguma agulha, algum furo. Mas assim era difícil de se achar, Rael teria que despi-la e isso ele não iria fazer.

― Você disse antes que eles não fizeram nada assim. ― disse a moça, já ficando aflita de novo.

― Não da para saber de tudo apenas investigando a energia de alguém. ― disse Rael, ainda analisando o vestido dela por cima enquanto rodava em volta da moça.

― Você quer que eu tire a roupa? ― perguntou ela, ficando bem vermelha. Rael parou ali onde estava e ficou sem jeito com a expressão tímida dela. Rael ainda era fraco para expressões como aquelas e ele ficava um pouco embaraçado.

― Não há necessidade. O que aconteceu com a sua memória pode não ter nenhuma ligação com isso de qualquer forma.

― Está bem. O que eu faço agora, Samuel? Estou com um pouco de medo. ― disse ela se voltando a Rael.

Ela esquecer quem realmente é seria um grande problema, ainda mais com bandidos que poderiam voltar a qualquer momento. Ela também não era muito forte para se proteger. Rael ficou pensando qual era a coisa mais sensata a se fazer.

Pensando com calma, Rael entrou na carruagem e descobriu que não havia mais nada. Saindo novamente, ele olhou os pulsos dela, encontrando um bracelete do infinito. Isso deu uma ideia a Rael, investigar as coisas dela para ter alguma ideia de quem ela é.

― Pelo menos o bracelete você ainda tem. Vamos ver o que tem ai? ― propôs Rael.

Ela não se lembrava quem era, mas sabia como usar o bracelete. Indo para a parte traseira da carruagem, ela lançou uma série de vestidos, diamantes e jóias. Ela podia não ser uma princesa, mas ela com certeza deveria ser de uma família nobre porque era bem rica. Além disso, havia algumas bolsas com moedas que seriam equivalentes a mais de cem mil moedas de ouro.

Além das roupas, dinheiro e jóias, ela tinha alguns conjuntos de perfumes, cremes e acessórios para pôr no cabelo. Ela não tinha qualquer coisa relacionada a cultivação, como pílulas ou ervas, assim como nada que ajudasse a ter pistas concretas de quem ela poderia ser, a não ser o fato de ser bastante rica.

― Pelo menos você tem dinheiro, vai poder alugar um quarto em uma boa pensão até se recuperar. ― disse Rael com calma.

― Você vai me deixar sozinha? Samuel, não me deixe assim! ― disse ela preocupada e já se virou agarrando com as mãos juntas a mão esquerda de Rael. Rael sentia que ela estava tremendo.

― Calma, eu não vou deixa você sozinha... Eu vou te levar para o meu clã e apresentar você à minha sogra. Talvez ela possa saber algo a seu respeito.

― Você é um homem casado? ― perguntou ela e lentamente soltou a mão de Rael.

― Sou sim. Possuo duas maravilhosas esposas. ― disse Rael e sorriu levemente. Ela ficou apenas com um vago olhar, encarando-o de volta.

― Desculpe incomodar você. ― disse ela em seguida se virando de volta para suas coisas.

― Não tem problema. Junte suas coisas e vamos partir. ― disse Rael.

Rael se sentiu chateado de ter deixado os bandidos fugirem. Ele não esperava que a mulher fosse ter perdido a memória, pior ainda era o dono da carruagem morrer, se é que ele era o dono. A carruagem parecia uma simples carruagem de viagens, então certamente essa mulher tinha alugado enquanto estava sã. Rael só achou estranho o fato dela ser tão rica e não ter guardas para a sua segurança.

Depois de armazenar tudo, Rael levantou a mulher no colo, que se agarrou no pescoço dele. O cheiro e a aparência dela eram um perigo porque, por mais que o olhar dela fosse algo natural, era sensual e esbanjava beleza. Essa mulher nem precisava sorrir para parecer linda, qualquer expressão que ela fizesse já parecia estar tentando seduzir alguém. O simples olhar curioso e preocupado que ela lançava a Rael já dava essa sensação.

― Você é um décimo reino? ― perguntou ela quando Rael subiu voando.

― Na verdade, não. Eu ainda sou um oitav...Quero dizer, um sexto reino. ― explicou Rael, se corrigindo rapidamente.

― Como pode voar sendo um sexto reino? ― perguntou ela curiosa.

― É que meu poder é um pouco diferente do comum. ― explicou Rael sem dar detalhes.

Enquanto voava, a moça não apresentava nenhum medo. Ela encostou a cabeça no peito de Rael e parecia estar tentando buscar suas memórias. Rael ocasionalmente lançava olhares para ela, não tinha como não olhar, ela tinha uma beleza extremamente encantadora. As vezes ela pegava o olhar de Rael e ele virava o rosto disfarçando, ela se virava e continuava pensativa sem dar muita importância.

Eles não demoraram a pousar no clã Torres. Rael passou pelos guardas que abriram caminho e entrou na residência Raleon, junto com a moça. Depois de sair perguntando, Rael finalmente encontrou Neide que estava prestes a dormir. Eles já estavam entrando no quarto quando Rael apareceu. Neide e Rayger pararam ali surpresos com a visita de Rael e ficaram ainda mais surpresos coma acompanhante. E quem não ficaria?

― Genro, quem é ela?! ― perguntou Neide antes de deixar Rael explicar. Rayger ficou em silêncio e olhou muito pouco para a moça. Com a sua esposa do lado ele não ousaria lançar mais do que um ou dois olhares. Neide podia não transparecer, mas era uma mulher extremamente ciumenta.

― Eu não sei quem ela é. ― disse Rael com um sorriso bobo.

― Como assim, não sabe? ― perguntou Neide e lançou um olhar com interrogação para a moça. A moça rapidamente ficou sem graça e abaixou a cabeça sem jeito, enquanto respondia:

― Desculpe senhora, eu não sei o que aconteceu comigo e não me lembro quem eu sou. O jovem Samuel foi quem me salvou de uma situação que nem eu mesma sei como explicar.

― Samuel, o que aconteceu? ― perguntou Neide mais confusa ainda, se voltando para ele.

Rael explicou aos dois o que ocorreu. A linha de raciocínio de Rael não estava errada, as coisas que a moça possuía, só poderiam ser de alguém com nome.

― Ela é filha de alguém importante, mas eu não sei quem. nunca vi esse tipo de tom de cabelo por essas bandas. ― disse Neide depois da explicação, a moça também tinha mostrado parte dos seus pertences para ambos. Rayger também não fazia ideia. Eles tinham conhecimentos dos filhos e filhas dos outros patriarcas e de famílias importantes e, portanto, deveriam saber.

― Se nem vocês sabem, como que isso pode ser possível? ― perguntou Rael.

― Não sei, genro... ― disse Neide, olhando a mulher mais uma vez. Até Neide estava chocada com a beleza da moça, ela teve o mesmo cálculo de Rael. Cultivo mais aparência, a garota deveria ter, no máximo, uns 18 anos. Ela certamente seria um gênio de alguma família.

― Então, o que faremos com ela? Não podemos abandoná-la assim, existem pessoas atrás dela. Bandidos, como eu disse antes.

― Talvez esses possam ter mais informações a respeito dela. Se conseguimos capturar um deles poderíamos descobrir quem ela é. ― propôs Neide.

― Mas não acho que eles vão aparecer de novo. Quando me viram, eles me reconheceram e fugiram desesperados. ― disse Rael.

― Deveria ter pego ao menos um. ― disse Neide.

― Eu não podia saber que a jovem estaria com problemas de memória. ― explicou Rael.

― Se o problema de memória tiver sido causado por uma toxina, algum veneno ou algo que fizeram nela, deve passar com algum tempo, talvez ela mesma sozinha volte a se lembrar em algum momento. ― disse Rayger.

― Eu queria propor levá-la ao imperador Elidas e perguntar se ele saberia de algo, mas aquele imperador é ganancioso com mulheres e se ele descobrir que ela tem amnésia, vai querer tomá-la como esposa. ― disse Neide, chocando Rael. Isso porque o imperador tinha cara de ser bem velho. Rael fez uma leve expressão enojada por essa atitude.

― É... A propósito, não podemos ficar nos referindo a você como Você o tempo todo. Vamos te dar um nome temporário até você se lembrar, pode ser? ― perguntou Rael se virando pra moça. Ela fez um sim com a cabeça se mantendo séria, enquanto piscava levemente os olhos juntos.

Todos ali começaram a pensar em um nome para a bela moça desmemoriada. Alguns nomes foram ditos e discordados, depois Neide deu um que pareceu ficar bom:

― O que você acha de Andréa? ― perguntou Neide.

― Eu gostei! ― disse a mesma.

― Pode ser então. ― concordou Rael. Rayger fez um sim junto, em silêncio.

― Bom, eu vou pra casa dormir, minhas esposas já devem estar uma fera. E vocês, cuidam dela por favor. ― disse Rael se virando. Neide e Rayger já sabiam que isso iria acontecer, Rael ia jogar mais essa em cima deles. O que não esperavam foi a moça saltar em Rael e agarrar o seu braço. Ela não fez por querer, mas acabou se escorando em Rael com os seios. Rael sentiu aquela maravilhosa sensação quente e confortável em seu braço, mas ele se transpareceu bem natural, como se não fosse nada demais.

― Samuel, eu não quero que me deixe sozinha. Eu tenho medo, muito medo! ― disse ela.

― Você não vai ficar sozinha, minha sogra e meu ti... quer dizer, sogro Rayger cuidarão bem de você. Eles são bem mais fortes do que eu. ― explicou Rael, ainda com a Andréa agarrada a ele. Andréa olhou para os dois que continuavam sérios esperando. Neide estava com a orelha um pouco em pé, vendo Andréa agarrar Rael daquele jeito mas, considerando que a moça estava perdida, aquilo poderia ser dado como um ato bem comum. Além do que, Neide olhou nos olhos da moça e percebeu que ela não tinha interesses amorosos para com o seu genro. Neide saberia se Andréa tivesse, isso era instinto de mulher.

― Eu ainda prefiro ficar com você... ― insistiu ela, se voltando a Rael.

― Tanto faz onde ela vai ficar. Estando aqui no território do clã, ela estará segura. ― disse Rayger e se virou saindo. Ele queria dormir e descansar para o dia seguinte. E nem esperou respostas, já foi abrindo entrando na porta ao lado, no quarto dele e de Neide.

― É justo, você a encontrou. Você trouxe, você cuida. ― disse Neide e se virou também, deixando Rael com aquele belo problema em mãos.

― Vocês só estão se esquecendo de Mara! ― disse Rael, mas eles não ouviram. Eles entraram e fecharam a porta, deixando Rael e Andréa sozinhos.

― Eu vou te causar problemas se você me levar para a sua casa? ― perguntou Andréa, fazendo uma expressão preocupada. Rael continuava sentindo a sensação quente do toque dela, e por ela ser linda, aquilo parecia deixar Rael ainda mais desconcentrado.

― É porque sou casado, como você sabe, e minha primeira esposa é bem ciumenta... ― disse Rael e olhou para os seios dela, mas isso era meio que para mostrar a maneira que ela estava o agarrando. Andréa pareceu entender a indireta e se soltou de Rael rapidamente.

― Eu não queria fazer isso, lamento muito se pareci indiscreta. ― se explicou ela sem jeito, escondendo o rosto de Rael e se virando.

― Tudo bem, vamos. ― disse Rael e saiu seguindo na frente. Andréa voltou a ficar séria e o acompanhou.

Rael e Andréa partiram diretamente para a residência Raymonde. No caminho, Rael já começou a pensar em como explicaria toda essa história a Mara. Enquanto Rael caminhava na frente, Andréa mantinha um olhar mais sério seguindo os passos de Rael.

 

Rael não fazia ideia de como seriam os próximos dias em casa, e ele não queria aumentar o seu número de mulheres, mas, se Andréa continuasse fazendo coisas como agarrar seu braço daquele jeito, ele certamente não iria resistir.