O Herdeiro do Mundo

184 - Cancelamento

Graças a morte dos quatro homens, Rael agora estava no oitavo reino nível quatro. Seu poder de subir de nível tirando vidas tinha funcionado mais uma vez com perfeição, depois de passar um bom tempo sem matar ninguém.

 

Por um dia inteiro, Rayger descansou sobre a constante companhia de Neide. Mesmo com Rael dizendo que ele se recuperaria em 24 horas, Neide ainda ficou muito preocupada.

 

Rael contou toda a verdade a ela, se não fosse pelo implante de Rael no passado, ele não teria saído vivo daquele dia.

 

Neide só foi atrás deles porque sentiu seu marido em perigo. Mesmo com todos aqueles ferimentos, o estado de Rael não tinha sido tão grave como o do marido, que ficou sem nenhum poder de repente, preocupando Neide. É claro, ela não veio antes porque imaginou estar tudo bem com Rael desde que Rayger estivesse com ele. O que ela não poderia imaginar era que seu próprio marido estava tentando matar Rael.

 

No dia seguinte da recuperação, Rayger já estava bem, sem toxina no organismo que causava a ilusão e reconheceu Rael como Rael. Aquilo causou um alivio em todos, mas Rael já estava preparado para o caso dele não voltar ao normal.

 

Quando Violeta e Emilia tiveram a confirmação de Rael que a dama era mesmo a sua segunda guardiã, ficaram surpresas com a estranha ligação que o destino formou entre os dois. Agora, o que restava fazer era esperar Keylla entrar em contato novamente.

 

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Keylla ficou em seu templo descansando e pensando em tudo por algum tempo. Ela havia se entregado a sua personalidade tímida por algumas horas para descansar e voltou assim que a tímida se olhou em um espelho.

 

Depois de tanto pensar e esgotar a paciência com os inúmeros pedidos de Arthur acelerando o pedido da missão, ela tomou uma decisão:

 

Visitou a própria guilda, marcando um encontro com os três lideres. Os lideres eram dois homens e uma mulher misteriosa. Todos eles eram cultivadores do décimo segundo reino.

 

O encontro reuniu muito mais que os três lideres. Além deles, estavam uma série de membros de diversos reinos acima do sétimo e até outros integrantes de cargos maiores do décimo reino acima. Mas somente os lideres tinham real destaque no lugar.

 

Keylla chegou cumprimentando os três lideres, que estavam no fundo do salão. Os três estavam sentados em alguns assentos feitos de pedras enfileiradas. Haviam sete desses assentos, mas somente três estavam ocupados. O restante dos homens estavam amontoados nos cantos das paredes ou nas laterais próximas.

 

― Estamos aqui você nos pediu. Agora, diga o que deseja, senhorita Dama. ― disse o homem sentado no meio. Era um homem branco de longos cabelos escuros, ele tinha uma vasta barba e aparentava ter uns quarenta anos. Ela usava vestimentas longas que davam a ele impressão de ser homem sábio. Ao lado esquerdo, o outro parceiro que parecia mais novo, usando vestimentas parecidas, sendo um moreno quase careca. Do outro lado, uma mulher sedutora como não podia faltar para uma poderosa líder de assassinos. Era uma mulher morena escura de olhos verdes, ela tinha cabelos curtos e usava nas orelhas grandes brincos em argolas. Ela não escondia todo o rosto, mas a abaixo do nariz ela usava um tipo de venda vermelha, cobrindo os lábios. Ela se vestia em um sensual vestido azul transparente, mostrando partes de seu corpo, aparentando ser um tipo de dançarina.

 

― Essa dama já cumpriu diversas missões sem reclamar e sem nunca falhar. Pela primeira vez tive grandes dificuldades em cumprir uma missão. Hoje vim até aos lideres para fazer um novo pedido. ― disse Keylla educadamente.

 

― Qual pedido? ― perguntou o homem do meio. Ele tinha um ar extremamente sério e suas palavras soavam quase frias.

 

― Essa dama pede para que cancelem o pedido da cabeça do jovem mestre Samuel. Essa dama sabe que está sendo egoísta, mesmo assim insiste por esse pedido.

 

― E o que esse homem tem para chamar a sua atenção? ― perguntou a líder feminina curiosa, com os olhos focados em Keylla. A mulher até chegou a se ajeitar no assento. Todos sabiam como era o temperamento de Keylla e sua relação com homens. Ela desprezava todos e odiava qualquer um que tentasse avançar qualquer sinal com ela.

 

― Essa dama não sabe, mas quer descobrir. Os lideres atenderão a esse meu pedido? ― perguntou Keylla aguardando uma resposta. Alguns homens entre os assassinos olharam com repulsa para Keylla, fazer tal pedido era um desrespeito para com os contratantes. Além disso, se eles fossem mesmo cancelar, teriam que devolver em dobro o dinheiro já pago para o contratante, que no caso teria que ser 200 mil moedas de ouro, um prejuízo e tanto para a guilda.

 

― Isso é um pedido muito incomum vindo de você, que é uma das nossas melhores assassinas. ― disse o outro líder moreno. Ele estava batendo com os dedos impaciente por cima da própria coxa.

 

― Essa dama não tem muito a dizer, além de pedir pelo cancelamento. Se o problema for o dinheiro da devolução, podem tirar da minha parte. ― respondeu Keylla.

 

― Muito bem, que assim seja! ― disse o homem do meio, surpreendendo todos: ― Mandarei alguém levar o dinheiro de volta com as notícias sobre o cancelamento, isso fica por nossa conta. Todos estão dispensados! ― todos ao redor ficaram chocados. Um pedido de cancelamento era raro, e mais raro ainda era ser aceito, porque isso decaía o nome da guilda, além do prejuízo. Ninguém conseguiu entender porque o cancelamento foi necessário, muito menos como este foi aceito tão facilmente.

 

― Essa dama agradece. ― Keylla agradeceu os reverenciando e se virou, começando a sair junto com os demais. Os lideres ficaram em silêncio assistindo por um tempo até todos saírem e ficarem sozinhos.

 

― Uma mulher com tal nível de evolução não pode mesmo ser ignorada. ― disse a líder feminina com um sorriso por baixo da venda, enquanto olhava o homem do meio.

 

― Sim. Ela subiu três reinos em poucos dias, praticamente. Em algum tempo, ela estará com o poder acima do nosso. É bom não irritá-la. ― disse o homem do outro lado.

 

― E ela foi um membro fiel até o momento. Praticamente, a nossa melhor assassina. Devemos respeitar os desejos dela. ― disse o homem do centro.

 

― Eu vou pessoalmente entregar o cancelamento da missão. ― disse a mulher se levantando do assento: ― Faz tempo que não estico minhas pernas, e também quero dar uma olhada nesse jovem mestre Samuel que fez o coração de nossa Dama ser abalado. ― disse a mesma.

 

― Astrid, seja cuidadosa. ― disse o homem do meio olhando sério para a líder sensual. A mesma apenas sorriu levemente e saiu sem dizer mais nada.

 

― Fiquei com inveja desse jovem mestre... ― disse o líder moreno do lado. O do meio não disse nada, ficou apenas em silêncio pensativo.

 

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Quando Arthur recebeu a notícia do cancelamento da missão pela própria líder da guilda, ele quase perdeu a cabeça. Ele e o novo patriarca Ariel ficaram sem palavras diante da mulher que apresentava os baús com dinheiro, conforme o combinado.

 

― Aqui estão as 200 mil moedas de ouro: cem mil pela devolução e cem mil a mais como pedido de desculpas. Infelizmente, o pedido pela cabeça do jovem mestre foi cancelado por motivos que não conhecemos. Sintam-se livre para procurarem outros meios de tirar a cabeça do rapaz por vocês mesmos. ― disse a líder.

 

― Por que foi cancelado? Vocês foram descobertos? ― perguntou Ariel.

 

― O motivo é pessoal e não podemos contar a vocês. Eu agradeço a compreensão. ― disse a mulher. Sem esperar eles dizerem mais nada, ela se virou e partiu.

 

― Maldita guilda de merda!!! ― Arthur gritou rangendo os dentes, assim que a mulher saiu pela porta. O buraco que Violeta tinha deixando na residência já estava consertado.

 

― Amigo, se acalme. Vamos pensar com cuidado. ― disse Ariel, que ainda estava chocado com o ocorrido.

 

― Eu disse a você antes. Se não conseguíssemos agora, eu mesmo faria do meu jeito! ― disse Arthur e saiu cuspindo ódio, deixando o patriarca Ariel sozinho.

 

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Um total de dez dias correu após os acontecimentos descritos acima. Rael continuou cultivando, esperando que Keylla batesse a sua porta para aquela conversa, mas isso não ocorreu. Desde o último encontro, ele não tinha mais qualquer notícia da Dama. Ele até chegou a sair algumas vezes sozinhos para ver se ela apareceria e nada.

 

Naquela tarde, Rael estava cultivando quando a empregada abriu a porta, chamando a atenção de Rael e fazendo ele parar por um tempo:

 

― Samuel, desculpe incomodá-lo, mas eu acabei de receber essa carta imperial para o senhor. ― disse Beta e estendeu a carta com o selo Grifem.

 

― Obrigado, Beta. ― agradeceu Rael tomando a carta em mãos e já foi abrindo:

 

‘Querido noivo, faz tempo que não nos encontramos e já estou com saudades.

 

Não paro de pensar nos curtos momentos que passamos juntos, mesmo que tenham sido momentos perigosos. Eu não consigo esquecer sobre aquele nosso beijo, e ainda posso sentir na minha boca o gosto doce e maravilhoso da sua.

 

Queria muito ver você para aprofundarmos ainda mais nossas relações e estou disposta a fazer o que você desejar, desde que venha me ver.

 

Assinado: Anita Grifem.’

 

Quando Rael acabou de ler a carta, ele ficou em completo silêncio. Anita era sim uma mulher muito bonita, mas aquele casamento era apenas para ele entrar no poder. Ele não tinha nenhum plano de aprofundar a relação com a princesa. Ele deveria sim ter uma noite com ela ou outras de vez em quando, mas isso depois de se casar, antes ele não tinha interesse, pois aquele tipo de desejo estava sendo muito bem saciado por suas esposas.

 

― E agora, o que eu faço? Se eu não for visitá-la, ela não vai achar ruim? Será que eu devo escrever uma carta de volta e dizer que estou ocupado em cultivo ou treinando meus discípulos? ― se perguntou Rael sozinho, enquanto segurava a carta. A carta tinha o mesmo cheiro perfumado que Anita tinha naquela noite do encontro.

 

Conversando com Neide para ter certeza do que fazer, a mesma disse que Rael poderia ignorar por alguns dias:

 

― ‘Ignore, genro. Você não pode correr e atender o desejo dela tão facilmente. Se fizer assim, ela vai achar que está fácil demais. Deixe-a alguns dias pensando que você não vai aparecer e nem responder a carta. Quando aparecer depois, você vai surpreendê-la. Desse modo vai parecer que você não cumpriu o desejo dela, mas também não a ignorou completamente.’ ― explicou Neide. Rael ouviu a voz de Neide em sua cabeça, porque ele estava usando o anel.

 

― Você acha mesmo? Será que ela não vai achar isso ruim? ― perguntou Rael.

 

― ‘Se fosse Alana a escolhida, eu diria para você ir e respeitar o pedido dela. Ela é uma mulher mais séria, e seria bom você também passar seriedade no compromisso, mostrando que você respeita esse futuro casamento. Mas com Anita é diferente, ela é uma filha mimada. Deixá-la no gelo é o melhor caminho. Além dela perceber que não tem você em mãos, vai se sentir abandonada, ela vai ficar pensando muito em você e isso vai aumentar o afeto que ela sente por ti.’ ― explicou Neide, deixando Rael bobo.

 

― Se é o caso, farei como me diz. ― disse Rael um pouco sem jeito.

 

― ‘Fique tranquilo, eu sei do que estou falando.’

 

― Certo, Neide. Obrigado! ― respondeu Rael e encerrou o chamado.

 

Rael decidiu que todo final de semana visitaria seus discípulos e passaria uma boa parte da noite por lá, cuidando e verificando os mesmos. Ele já tinha ido uma vez escondido e voltou de madrugada sem nenhum problema. Rael poderia ter chamado Neide, mas ele percebeu que as coisas tinham melhorado. Medo de Keylla ele não tinha porque sabia que ela não poderia matá-lo. O assassino invisível também tinha dado uma trégua e não aparecia sequer no radar.Basicamente tudo estava mais calmo, e por isso, Rael voltou a ter mais segurança.

 

Mesmo com suas esposas incomodadas naquela noite, ele partiu sozinho novamente. Era o fim de semana, outro dia marcado para mais uma visita.

 

Rael já tinha conseguindo fazer a família Alencar se focar no cultivo. Ele colocou metas para os mesmos, como se fosse uma jornada de trabalho, assim eles tinham que se esforçar. A colheita acabou ficando por conta de outros.

 

Desde que Rael começou a treinar a família de Janete, os mesmos estavam avançando a trancos e barrancos. A maioria deles já estava no quinto reino, e os pais, no sexto. Ana estava beirando o sétimo reino. Beatriz e Laís estavam quase entrando no quinto também. A evolução de todos era monstruosa.

 

Alguns entre eles já sabiam lutar com algum tipo de arma, e os que não sabiam, no futuro Rael pretendia pagar treinadores para especializá-los. Rael estava montando uma lista das armas mágicas que começaria a fazer, ele queria ver seus discípulos com força total.

 

Janete mantinha o ritmo de todos, tratando Rael com respeito e admiração, sem passar disso:

 

― Não sei o que você fez com Janete. Ultimamente ela parece não ligar mais para você. ― observou Ana, caminhando com Rael.

 

― Isso é o melhor para ela... Eu a quero focada no treino, a família dela já sofreu muito por falta de poder. Eles precisam ficar fortes. ― disse Rael.

 

― Entendo. Bem, quando você volta? No próximo fim de semana de novo? ― perguntou Ana. Rael já estava indo embora.

 

― Sim. Agora as coisas deram uma acalmada. Elisa, a mulher do patriarca, viajou e acho que deram um tempo em querer a minha cabeça. ― disse Rael.

 

― Se uma mulher quer uma cabeça, ela nunca dá um tempo. A viagem dela pode ser para te preparar uma armadilha, tome cuidado. ― disse Ana.

 

― Eu sei disso. ― disse Rael. Sorriu se aproximou e deu um leve abraço em Ana: ― Se cuida, eu vou nessa. ― disse ele.

 

Ana o abraçou de volta.Depois de soltá-lo, ela ficou olhando ele sair voando.

 

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Rael estava com Ralf, quase chegando na capital, quando sentiu algumas energias confusas abaixo. Conforme ele olhou, viu algumas tochas cercando uma carruagem de viagem. Ele não podia ouvir o que estava sendo dito ali embaixo, mas percebeu que aqueles homens pareciam ser bandidos. Eles pularam e o puxaram o homem velho que guiava a carruagem, derrubaram o homem no chão e o mataram com algum tipo de arma que Rael não podia ver bem devido a distância.

 

Rael não pensou duas vezes em descer mergulhando, enquanto chamava Ralf de volta. Quando Rael desceu, eles tinham acabado de capturar uma mulher de capuz azul. Rael pousou praticamente no meio de todos.

 

Os homens se viraram e perceberam quem era. Parecia que eles estavam vendo um demônio:

 

― É o jovem mestre Samuel do clã Torres! Este homem que massacrou o clã Sarbaros! Fujam!!! ― um dos homens gritou. Era apenas um quinto reino. Os outros se desesperaram e correram para todos os lados se espalhado. Isso deixou Rael confuso, que no fim, não sabia quem deveria perseguir.

 

― Malditos! ― rugiu Rael e se virou para a moça de capuz. Ela estava usando um lindo vestido azul com linhas vermelhas, e parecia ter um belo corpo: ― Você está bem? Eles te machucaram? ― perguntou Rael. A moça ficou em silêncio por um tempo como se estivesse em transe, e em seguida, respondeu um pouco nervosa:

 

― Eu estou bem! Eles não me machucaram. Obrigada por me salvar! ― respondeu ela. Rael analisou o senhor no chão, apenas para ter mesmo a certeza de que estava morto.

 

― Quem é você, e o que eles queriam? ― perguntou Rael, se voltando pra moça.

 

― Eu sou... E-eu não sei... Eu... Eu não sei quem sou! ― disse ela atrapalhada.

 

― Hã? ― perguntou Rael surpreso.

 

A moça pareceu ficar atrapalhada ali em pé, e baixou a cabeça como se estivesse pensando fundo. Rael se aproximou e puxou o capuz da jovem menina, a fim de revelar o seu rosto.