O Herdeiro do Mundo

183 - Rael vs Keylla

Keylla analisou Rael mais uma vez com calma, agora mais de perto. Ela o achou atraente e bonito, esse sentimento ela nunca teve por nenhum outro homem. Se ele não fosse alguém da sua lista de assassinato, talvez ela pudesse tentar algumas coisas novas com ele. Ela teve esse pensamento, mas quando se lembrou sobre ele ser casado com duas mulheres e ainda beijar uma princesa, ela se encheu de raiva. Se Rael pudesse ver sua expressão formada por baixo da máscara, com certeza se encheria de medo.

― Essa dama lamenta, mas não pode dizer seus motivos para alguém como você. ― disse Keylla com um tom levemente áspero.

― Eu sei que você não tem desavenças comigo, e eu não me lembro de cruzar o seu caminho. Mesmo não vendo o seu rosto, eu me lembraria. Você é uma assassina mandada, então me diga, quem está por trás disso? Por acaso é Elisa, a mandante? ― perguntou Rael.

― Porque achas que eu iria contar isso a você?! ― perguntou Keylla e fez surgir dois chakrams nas mãos.

― Eu vou morrer de qualquer maneira, não? Então não custa nada você me dizer. ― disse Rael, já se preparando para o combate.

― Não é assim que essa dama trabalha. ― disse Keylla entrando em uma posição que estava prestes a voar em Rael.

                Rael poderia tentar usar o anel de comunicação, mas ele não teria tempo, Keylla com certeza não deixaria ele fazer aquilo. Ele poderia invocar Ralf para ajudá-lo na batalha, mas Ralf não seria de muita ajuda. Enfrentar um décimo reino ainda não era possível para Ralf, ele acabaria sendo morto. Mesmo se Rael e Ralf lutassem juntos, ainda teriam o trágico destino. A única coisa que mudaria se Rael não invocasse Ralf, é que se caso ele morresse o contrato seria quebrado, Ralf se libertaria e poderia ficar vivo depois de sua morte.

― Você pode até conseguir tomar minha vida, mas não vai ser assim tão fácil! ― disse Rael concentrando energia no braço direito, que se cobriu em chamas. Essas chamas estavam bem mais fracas se comparado ao poder total de Rael, durante a luta com Rayger ele consumiu mais de 97% do seu poder total.

― Você está muito fraco. Essa dama sente até pena de você huhuhu. ― disse Keylla rindo, observando o estado de Rael. As roupas de Rael já estavam rasgadas em várias partes, e por isso Keylla via agora claramente o braço azulado de Rael.

― Fraco ou não, você não vai me matar hoje. ― disse Rael, tentando mostrar firmeza.

― Essa dama admira um jovem mestre tão corajoso. ― elogiou Keylla, prestes a atacar. Ela repetiu a palavra “dama” algumas vezes, além de usar uma máscara. Isso fez Rael se lembrar do que Emilia havia mencionado dias atrás, sobre uma mulher que encontrou o esconderijo, passando sem problemas pelas bestas divinas.

― Espere um pouco... Foi você quem me seguiu da outra vez e entrou na passagem secreta? ― perguntou Rael. De acordo com Emilia, ela sentiu uma energia nessa mulher parecida com a de Rael, e pelos relatos de Violeta, essa mulher seria você?

― Já basta! ― rugiu Keylla e partiu contra Rael, sem dar qualquer resposta. Rael teve que se defender dos ataques utilizando o braço direito e barrando as lâminas dos chakrams.

Boooom! Boooom! Boooom!

Rael se defendeu dos primeiros ataques, mas Keylla era muito ágil e rapidamente surgiu pelo seu lado:

Zuuuup!

― ‘Merda!’ ― Rael tentou se posicionar para se defender, enquanto a mão esquerda de Keylla já voava em sua garganta com a lâmina. Ele não teria tempo de evitar aquele ataque. Rael ativou o Espaço Ilusório e saltou para trás, fugindo de perto de Keylla. Ele sentiu o coração apertar, constatando que esse era o último uso da habilidade, ele teve que usar ela muitas vezes contra Rayger.

― Essa dama já previa o uso dessa sua habilidade. ― disse Keylla parada, sem sair do lugar. Rael pensou que teria um momento de descanso e se enganou. Outra energia surgiu do lado oposto, era o mesmo poder de Keylla. Quando Rael se virou de lado havia outra Keylla, com a mão direita dela voava impiedosamente para o seu pescoço, formando um arco:

― ‘Vou morrer aqui?!’ ― se perguntou Rael, tentando recuar novamente e, ao mesmo tempo, levantando o braço direito para a sua defesa. Não daria tempo, tanto o clone quanto a original estavam com suas forças totais e em melhor estado que Rael. Se Rael utilizasse novamente o Espaço Ilusório ele poderia morrer, por isso ele não arriscou. O que ele podia fazer era no máximo tentar evitar o golpe fatal.

                O que aconteceu a seguir chocou as duas Keyllas e Rael: A mão do clone pareceu diminuir a velocidade do ataque quando estava no ponto de atingir a garganta de Rael, dando tempo suficiente para ele levantar seu braço direito e ainda recuar.

                Rael parou cansado, tentando conter a respiração e se recuperar do susto que teve, enquanto olhava de uma para a outra Keylla.

― O que você fez, sua burra? Por que você não o matou? ― perguntou a verdadeira, completamente irritada.

― E-eu não sei. Eu tentei, mas de repente algo estranho ocorreu e meu ataque simplesmente parou. ― disse o clone. As duas mulheres tinham a mesma voz, Rael não tinha como diferenciá-las, fisicamente ou pelo som, a fim de saber qual delas seria a original e o clone.

― Droga! Vamos acabar com ele juntas! ― disse Keylla e partiu correndo novamente. O clone fez o mesmo. Rael estava tão fraco que nem o seu clone ele tinha energias para chamar, nem mesmo a ativação demoníaca não era mais capaz de ativar, e mesmo assim teve que se defender.

                Rael usou o seu braço direito como um louco, rasgando o ar de um lado a outro contra os ataques das assassinas, mas é claro que muitas e muitas brechas eram abertas. Afinal, eram quatro ataques mais rápidos contra somente uma defesa esgotada, e Rael não tinha sequer tempo de pensar em contra-atacar. Todas as vezes que elas chegavam perto de golpear Rael, o ataque delas perdia a força e elas ficavam muito lentas, as vezes até paravam o movimento. Isso dava tempo para Rael rebater e recuar. Conforme alguns segundos daquela repetição incessante, Rael recuou, saindo do meio delas e parou ainda mais cansado. O fogo que queimava no braço de Rael se extinguiu completamente. Ele estava quase zerado em poder. Rael nunca havia gasto tanta energia assim em batalhas, nem mesmo contra Helks.

                A original e o clone se olharam aturdidas e incrédulas. O problema anterior estava correndo com as duas agora:

― Você precisa me ouvir... Eu posso explicar o que está acontecendo... ― disse Rael, tentando recuperar o fôlego. Ele viu parte das coisas que aconteceram e agora estava quase tendo a certeza de que essa mulher era mesmo sua outra guardiã.

― Faça aquilo! ― disse Keylla para o clone.

                Antes que Rael pudesse continuar, o clone largou os chakrams, jogando-os de lado e retirou sua máscara, exibindo o rosto para Rael. Quando Rael viu o belo rosto de Keylla, ele até mesmo esqueceu o que iria falar e a arregalou os olhos. Ele teve fleches vendo aquela mulher morta, caída no chão com um imenso buraco em seu peito. Ela ainda arfava, enquanto lançava seu último olhar na direção de Rael. O peito dela jorrava muito sangue, tanto sangue que até os cabelos dela foram cobertos pela própria poça que se formou em volta do corpo. Rael viu muitas sombras de homens a sua volta, junto a esses fleches.

― O jovem mestre é tão bonito... Eu acho que não quero mais matá-lo. Essa dama quer beijar você. ― disse o clone. Ela passou as mãos nos cabelos, fazendo com que eles ficassem mais espalhados, dando um toque extra de sedução. O olhar do clone se tornou ardente e ela avançou caminhando lentamente na direção de Rael, enquanto levantava as mãos direcionadas ao rosto do jovem rapaz.

                Rael via ela fazendo isso e ao mesmo tempo os fleches, por isso ele ficou em um estado de completa confusão. Ele escutava homens gritando e olhava para Keylla, em seguida, ele olhava os próprios braços e via Isabela morrendo também. Ele se sentiu aterrorizado com aquelas estranhas lembranças.

                Rael não reagiu quando o clone segurou seu rosto e tomou deliciosamente os seus lábios. Aquilo deveria ser apenas um beijo leve e no momento seguinte ela deveria explodir, objetivando a morte de Rael nesse golpe. Mas ela não conseguiu. Quando ela sentiu os lábios de Rael, ela simplesmente sentiu seu corpo pegar fogo, uma sensação de conforto correu por todo o corpo e foi parar naquela região embaixo. Em vez de parar ou recuar, ela abriu a boca ainda mais, aumentando a intensidade do beijo, que não demorou nem segundos para se tornar um forte beijo de língua. O clone beijava Rael e tentava chupar a boca e a língua dele com força, chegando a querer morder de tamanha vontade. Rael estava aproveitando o momento e ao mesmo tempo recebendo mais fleches. A realidade se misturava com essas estranhas lembranças e por isso, apesar de Rael está gostando do beijo, ainda estava bastante perdido.

― O que você acha que está fazendo, sua estúpida! ― gritou a verdadeira Keylla, assistindo aquela cena surreal. Mas, mesmo a verdadeira se sentiu um pouco quente vendo aquilo e desejou que fosse ela no lugar do seu clone. Quando ela teve esse pensamento, ela quis dar um tapa em sua própria cara. Ela se sentiu enojada por desejar um homem, ainda mais por ela lembrar que esses homens nojentos não valiam nada. Mas com Rael, o que ela sentia não era nojo.

                Keylla estava prestes a arrancar o clone de perto de Rael para enfiar uma lâmina na garganta do rapaz. Os dois estavam ali se beijando de olhos fechados e tinham perdido a total noção da realidade. Mas, quando Keylla pensou em tomar alguma ação, ela sentiu um poder já conhecido se aproximando com extrema velocidade.

― ‘Aquela mulher!’ ― pensou Keylla e concentrou seu poder. Ela levantou voo e saiu a todo vapor para o lado oposto, deixando seu clone ali com Rael.

― ‘Droga de clone inútil! O que ela acha que estava fazendo?’ ― Keylla se perguntou indignada, fugindo usando toda a sua força.

                Neide chegou voando e sentiu uma presença fugindo, mas vendo seu marido desmaiado, ela se sentiu preocupada e desceu, encontrando Rael naquele mesmo estado com o clone. Neide não sabia exatamente o que pensar sobre aquela situação.

                Rael e o clone se afastaram com dificuldades depois daquele longo beijo, para descobrirem agora Neide no lugar da Keylla original. Eles tinham ficado tão preso ao desejo de se beijarem que até esqueceram de manter o mínimo de cuidado.

― Genro, o que está acontecendo? Porque você está beijando a mulher que tentou matar a princesa? E o que aconteceu com o meu marido? ― perguntou Neide, depois de conferir se Rayger estava vivo. Ela se sentiu muito mais aliviada depois de sentir o coração dele pulsando.

― Calma, Neide. Eu posso explicar, mas não agora. ― disse Rael e se virou para o clone.

― Eu não sei o que está acontecendo, mas vou prender essa mulher e depois vou atrás da outra energia. ― disse Neide e fez menção de partir para cima do clone. O clone no mesmo instante fez uma expressão difícil, se preparando para um combate. Ela tinha que segurar Neide o máximo que pudesse para a original fugir.

― Espere, não faça nada! ― disse Rael, surpreendendo as duas mulheres. As duas pararam confusas, olhando para Rael.

― Isso tudo foi um grande mau entendido, Neide. Eu não posso explicar os detalhes agora, apenas depois. Por enquanto, quero que cuide do seu marido. Essa que está na minha frente, pode deixar comigo. ― disse Rael.

― Genro, você tem certeza? ― perguntou Neide ainda encarando o clone, que obviamente ela não sabia que era o clone. Pelo nível de força dos dois, Neide sabia que Rael teria problemas se fosse enfrentá-la, mas quando ela chegou, os dois estavam se beijando muito a vontade.

― Sim, tenho. Faça como eu disse e confie em mim. ― confirmou Rael. Neide se virou e foi para perto de seu marido. Ela se agachou ao lado dele e correu as mãos pelo rosto de Rayger preocupada, esperando.

― Você deve ser o clone dela, não é? ― perguntou Rael. Como a original estava fugindo e Neide não iria atrás dela, aquilo deu ao clone um pouco mais de segurança. Ela também ficou curiosa com o que Rael iria dizer, além do que... O beijo entre eles não seria algo fácil de se ignorar:

― Sou sim, por quê? ― perguntou a mesma.

― Provavelmente você tinha planos de se explodir comigo e me matar enquanto me beijava, ― disse Rael considerando o que ele já sabia sobre ela: ― mas não conseguiu e agora está se perguntando o por quê. O mesmo aconteceu repetidas vezes em que vocês duas tentaram me matar antes. ― disse Rael. O clone continuou ouvindo, interessada no assunto. Aquilo daria a ela a resposta do porquê não conseguiram matar Rael.

― Há uma ligação profunda entre nós, tão profunda que é difícil explicar. O que posso te dizer no momento é que você existe para ficar ao meu lado. Nós devemos ficar juntos. ― disse Rael.

― Isso é loucura! ― disse o clone.

― Você sentiu, não sentiu? Você não tinha intenção nenhuma de me beijar daquele jeito, e mesmo assim beijou. Existe uma ligação entre nós e você sabe disso, eu não posso te dizer tudo agora, mas prometo que no nosso próximo encontro eu direi. Agora vá e conte tudo para a Dama original, depois queria que ela viesse até mim. Eu a tratarei como uma amiga e não vou atacá-la, também irei esquecer todas as coisas que ela fez antes. Será apenas uma conversa entre duas pessoas amigas. Depois que ela ouvir minhas explicações, ela poderá ir embora ou fazer o que quiser daquele momento em diante. ― disse Rael.

                O clone ouviu tudo silenciosamente e não sentiu qualquer blefe por parte de Rael, mas ela achou que talvez estivesse encantada pelo rapaz e por isso só conseguiu ver o lado bom daquelas palavras que poderiam esconder alguma armadilha. Rael percebeu o olhar fixo dela e sentiu que precisava dizer mais alguma coisa:

― Eu, Samuel Raymonde, dou a minha palavra que estou lhe dizendo a verdade. Eu não vou planejar fazer nenhuma emboscada com a original e se ela não se sentir confiante, ela pode enviar você novamente para ouvir as minhas palavras. Agora, vá! ― disse Rael. O clone lançou um último olhar em Rael e depois se virou partindo.

― Genro! O que aconteceu com meu marido! Por que ele não acorda? Você pode ajudá-lo? ― perguntou Neide preocupada, segurando o marido no colo.

― Calma, Neide. Ele vai ficar bem se descansar por um dia inteiro. ― disse Rael indo até os dois.

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                O clone correu por um tempo, se distanciando dos dois e parou. Ela não sabia mais aonde estava a sua original porque não podia sentir a mesma de longe, ela não estava tentando encontrá-la, só estava tentando ter certeza que Rael a liberou mesmo. Após isso, ela parou em pé, fechou os olhos e se concentrou. Seu corpo inteiro foi congelado de repente e, sem nenhum motivo aparente, logo após começou a se descongelar, virando apenas água. Uma pequena luz branca saiu de dentro do gelo e correu pelo ar com velocidade, avançando de encontro a original. Com o clone desmanchado, a tatuagem do estigma sempre voltava a brilhar.

                Keylla estava parada em pé próxima a algumas árvores. Ela não parou de xingar o seu próprio clone e quis colocar nela toda a culpa do fracasso daquela missão. Enquanto ela ainda pensava furiosa, o estigma brilhou, voltando para a sua coxa direita na formação de toda a rosa. Só naquele momento, Keylla recebeu as memórias e a sensação do beijo. Ela ficou trêmula e levou uma das mãos para os lábios, depois de entender tudo o que ocorreu, ela parou de culpar o clone, percebendo que a mesma não tinha culpa.

 

― ‘Que droga está acontecendo comigo? Porque não posso matar aquele homem, e porque eu sinto tanto desejo por ele? Quem ele é, afinal?’ ― ela pensou enquanto apertava os punhos. Ela se lembrou muito bem da proposta de Rael e começou a pensar se deveria conferir isso ou não. Naquele instante, ela foi interrompida com um chamado da guilda em sua cabeça e levantou o anel para atender.