O Herdeiro do Mundo

178 - Ancestrais

Alexia ficou com pena de Mara por ver Rael a enganando daquela maneira, porque se fosse ela no lugar de Mara estaria arrasada. A soberana tem Rael como sua última chance para construir uma nova família. Ela não conseguia entender porque Rael não queria filhos, porque se ele espalhasse a sua prole certamente faria poderosos descendentes, que formariam uma vasta família e no futuro o ajudariam a conquistar todos os seus desejos e objetivos.

Antes que Alexia pudesse responder aquela difícil questão, Beta chegou trazendo o chá e as três tiveram que cessar momentaneamente o assunto. Natalia já havia lavado suas mãos, não havia nada que ela pudesse fazer de qualquer modo. Por outro lado, Mara ainda queria saber e por isso encarava a menina dragão, se perguntando quando e o que a soberana iria responder para.

Infelizmente para Mara, essa questão ficaria para outro momento, pois naquele instante Rael chegou, encontrando as três na sala e interrompeu a conversa sem perceber:

― Alexia, que bom que está aqui! Eu estava esperando você. ― disse Rael assim que as viu, sem fazer ideia da última conversa que rolou ali.

― Você voltou? Eu tenho pressa, então vamos direto ao ponto! ― disse Alexia se levantando do sofá. Mara não pôde fazer nada, a não ser adiar aquele assunto para uma nova oportunidade.

Alexia e Rael se dirigiram para o quarto acima, onde Rael estava cultivando anteriormente.

― Você mesmo precisa fazer isso, eu só irei te mostrar como. ― disse Alexia e posicionou Rael no centro do quarto. Ela uniu as mãos de Rael em forma de concha próxima ao peito. ― Mantenha-se nessa posição e concentre o seu poder.

― Mas, da última vez você fez o símbolo no chão... ― disse Rael, não deixando de obedecê-la.

― Aquilo foi diferente. Eu não posso participar de uma reunião sua com os seus ancestrais. Os seus ancestrais receberão apenas você, o tempo será curto e você precisa ser extremamente rápido. Os ancestrais só podem ser convocados apenas uma vez por ano, por isso, é melhor você não demorar. ― avisou Alexia.

― Se vamos convocá-los, porque eles me receberão?

― O plano em que eles ficam estáveis é diferente do nosso. Quando forem convocados, eles irão para esse plano e puxarão você junto. Sua alma irá se separar de seu corpo durante esse tempo, e como uma alma não pode ficar longe do seu corpo físico por muito tempo, tudo terá que ser absolutamente rápido. ― explicou Alexia.

Rael fez tudo conforme Alexia mandou. Bateu com a palma da mão no chão e uma formação triangular em volta do seu corpo surgiu em linhas douradas. As linhas ficaram brilhando intensamente, rodeando Rael:

― Eu, Rael, invoco os ancestrais do meu poder! ― rugiu Rael, conforme fora ordenado mental mente por Alexia. A soberana estava fora do brilho que cercava Rael, esse brilho dourado que fluía do chão aumentou, formado paredes e tomou completamente a visão de Rael.

Enquanto para Rael o brilho parecia ter dominado tudo, para Alexia o contrário acontecia. O chão embaixo dos pés do rapaz voltou ao normal com todo o brilho desaparecendo, e Alexia deu um passo a frente, segurando o corpo de Rael que caía rumo ao chão.

― Você tem pouco tempo, não esqueça de ser rápido. ― disse ela, deitando cuidadosamente Rael no chão. Agora Rael estava inconsciente.

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Rael tampou a visão porque o brilho se intensificou a ponto de queimar seus olhos. Pelo menos, foi como ele se sentiu. Quando ele se deu conta, estava em outro lugar, era um local escuro e sem ter aparentemente nada. Não havia paredes, não havia chão, não havia céu, havia literalmente o nada:

― Alguém está ai? ― perguntou Rael, correndo os olhos em volta. Rael apenas conseguia ver seu próprio corpo e suas roupas, embora não houvesse o mínimo resquício de luz. Aquela foi a primeira vez em que a sua visão passiva parecia não estar fazendo efeito.

― Saudações, mestre. ― uma voz idosa e gentil o cumprimentou. Rael olhou para cima e viu três senhores de vestimentas brancas com linhas douradas descendo, flutuando harmonicamente.  Os três tinham auras pacificas. O que falou com Rael, o senhor do meio, tinha uma aura verde. Os outros dois, um deles possuía uma aura azulada e o outro, uma transparente. Eles pareciam bem vivos para Rael naquele momento. Todos eles desceram e pousaram três metros a frente de Rael, eles levaram a mão direita ao peito e o reverenciaram com respeito, como se Rael fosse um rei:

― Estamos sob suas ordens, diga o seu desejo. ― disse o mesmo senhor depois de reverenciá-lo. Eles apenas aguardaram instruções com suas faces levemente baixadas. Rael ficou surpreso com o tratamento deles. Ele tinha muitas perguntas, mas lembrava que seu tempo era curto.

― Eu quero que desfaçam o bloqueio que colocaram em mim. Eu preciso de minha habilidade de volta. ― foi a primeira coisa que Rael disse.

― Como o senhor desejar... ― disse o senhor fechando levemente os olhos por alguns instantes: ― Pronto, está removido. ― depois de dizer isso o senhor voltou a esperar como os outros. Rael ficou impressionado com a velocidade daquilo.

― Não ponham mais isso em mim, eu tive muitos problemas. ― disse Rael em seguida para o caso de ocorrer novamente. Se ele só poderia convocar seus ancestrais uma vez a cada ano seria um desastre ter que passar por toda essa situação novamente.

― Nós pedimos perdão, fizemos isso pela sua proteção, mestre. ― disse o mesmo senhor com gentileza.

― Só não façam novamente. Eu também gostaria de perguntar se os senhores possuem informações sobre as violadoras. Na biblioteca não há nada sobre elas. ― disse Rael rapidamente, imaginando o tempo que ainda teria.

― Temos sim. Aqui está, como o mestre deseja. ― disse o senhor novamente. Um brilho surgiu na frente de Rael e um livro de capa branca, detalhado com garras escuras, apareceu flutuando a sua frente. Rael levantou a mão e segurou, vendo o titulo escrito: “O Deus Demônio e Suas Violadoras”.

― Muito obrigado! ― disse Rael de volta, encarando a capa e seu coração pulsou fortemente. Pelo menos agora ele poderia ter formas de ajudar Violeta e Emilia.

― Mestre, nós não temos o direito de interferir em sua vida... ― disse o mesmo senhor e continuou após Rael olhar para ele: ― Contudo, nós sabemos que você sofreu um atentado, perdeu todas as suas antigas memórias, assim como os seus conhecimentos, seu corpo e seu poder. Por isso, temos que aconselhá-lo: Não importa o que faça, não se deite com uma violadora. O senhor já tem suas duas guardiãs para suprimirem essas necessidades. Esse é o nosso conselho para que você não tenha problemas futuros. ― disse ele.

― Mas, por quê? ― perguntou Rael, visivelmente surpreso e curioso.

― O problema de uma violadora para o senhor équ... ― antes que Rael conseguisse ouvir a resposta, tudo se escureceu. E como em um piscar de olhos, todo o cenário mudou. Ele se despertou com a cabeça apoiada em algo macio e confortável, ao abrir os olhos, percebeu que era Alexia. A menina dragão olhava de cima, curiosa. Rael estava deitado no chão com a cabeça no colo da soberana.

― Você voltou rápido. Mal se passaram algumas respirações. ― disse ela.

― Mas eu ainda precisava...! ― disse Rael olhando de lado. Ele se lembrou do livro e levantou, procurando-o pelo corpo. No segundo seguinte ele se pôs de pé num salto, correndo com a sua mente pelos seus itens dentro do seu bracelete do infinito, porém, em vão. Não havia nenhum livro dentro do bracelete.

― O que foi? O que deu em você? ― perguntou Alexia, agora de pé ao lado de Rael.

― Eu preciso voltar. Tenho que falar com eles novamente. Eles me deram um livro, mas eu não conseguir trazer comigo, e também eles estavam para me dizer algo importante. ― disse Rael apressado.

― Mesmo que você repita o processo de invocação, será em vão. Eu disse antes, não disse? A invocação só deve ser feita de ano em ano. ― lembrou Alexia.

― Droga... ― disse Rael, desistindo da ideia. Ele não ia teimar contra um ser inteligente e avançado como Alexia.

― Se eles te deram um livro e não está com você, é possível que ele já esteja em seu mundo. Quando dormir, procure-o na biblioteca. ― disse Alexia, clareando a mente de Rael.

― Tem razão! ― disse Rael aliviado. Se virou, agachou, apertou o rosto de Alexia com as duas mãos e deu um forte e carinhoso beijo no rosto da soberana: ― Obrigado pela ajuda, Alexia!

― Fico feliz por reconhecer. ― disse ela sorrindo normalmente, sem mostrar muita importância. Rael soltou o rosto dela e se virou bastante aliviado.

― Se você conseguiu o que queria, agora eu precisarei ir. Eu achei que não fosse precisar repousar esse corpo por muito tempo, mas atualmente minha ligação total é apenas um pouco maior que a metade. Esse corpo é muito fraco! Eu preciso estabelecer minha energia o mais rapidamente nele, não quero ficar desse jeito.

― O que quer dizer?

― Eu terei que partir e voltar para o meu antigo esconderijo. Tenho que ficar próxima ao meu antigo corpo por algum tempo, talvez demore um mês ou um pouco mais. Quando eu estiver 100% eu voltarei. ― explicou Alexia.

― Um mês fora? ― perguntou Rael preocupado. Rael já estava se acostumando a ter Alexia como um tipo de guia.

― Sim, mas não se preocupe. Você ficará bem até lá. Neide e as violadoras vão cuidar bem de você.

― Isso é uma pena... ― disse Rael, ficando realmente triste.

― Não seja bobo! O Herdeiro não pode ficar dependendo de uma criança Soberana, não é mesmo? E o que pode acontecer de pior? O patriarca Arthur vir atrás de você? Sua família lhe causar problemas? Algumas assassinas que não conseguem chegar a você? Sobre essas questões, você tem controle e tem forças mais poderosas para lidar tranquilamente. O Espectro ainda não é forte o suficiente para incomodar e vai demorar bastante até que ele seja. Eu estarei de volta muito antes de você perceber, relaxe. ― disse Alexia, sorrindo suavemente para Rael.

― Você está certa. ― disse Rael, concordando com Alexia. Ele não precisava do poder dela em nenhum dos seus problemas visíveis.

― Só mais uma coisa: Você deveria parar com os medicamentos para não ter filhos. Além de estar causando problemas e preocupações para a sua esposa que você diz amar, você está atrasando o seu próprio lado. Ter filhos não é necessariamente um empecilho como você acredita, eles seriam, na verdade, uma poderosa força futura que apoiaria o pai. No caso, você.

― O que está dizendo? ― perguntou Rael.

― De heranças, Rael... Você não entende? Um filho herda uma parte do poder do pai e da mãe. Agora imagine, como seriam os seus filhos? Enquanto você se fortalece e aumenta seu poder, você poderia também estar formando um exército para o futuro. Um homem poderoso e em crescimento como você, nenhuma mulher iria recusar e quanto melhor a linhagem de sua esposa for, mais poderoso um filho seu seria. ― explicou Alexia, deixando Rael pensativo. Ele nunca havia pensado daquela maneira anteriormente.

― De todas as suas possíveis esposas, no momento, é comigo que você teria os filhos mais poderosos. Mas como ainda não pode tê-los comigo, a segunda melhor opção são com as Celestiais. Mesmo assim,ter um filho com Mara, com Natalia ou até mesmo com a princesa não será nada ruim, você deveria pensar nisso. Se está preocupado com os cuidados e acha que isso vai te tomar tempo, essa obrigação pode ser deixada para suas esposas.

― Mas isso é errado... ― disse Rael pensando sobre isso.

― Não é errado, esse também é papel de mãe. Como pai, você apenas tem que manter todas elas protegidas, dando o devido suporte. Isso é um pensamento simples. Ter filhos e espalhar loucamente sua prole deveria ser a sua ideia principal. No futuro, tudo isso se transformaria em poder.

― Eu não entendo. Se isso me traz tantas vantagens... Por que o eu do passado não teve filhos?

― Por pura estupidez. Esse foi o mesmo motivo da sua queda. Você seguia todas as regras ao pé da letra e essa foi a sua fraqueza. Eu não vou mais discutir, esse foi apenas um conselho. Quando você puder fazer comigo não terá escolhas, mas eu preferiria que você começasse isso cedo. Afinal, todo o apoio futuro é importante! ― disse Alexia e saiu do quarto.

Rael ficou ali parado, pensando em tudo que Alexia havia dito a ele. Se parasse com as pílulas agora, as primeiras a engravidar seriam Mara e Natalia. Rael ficou pensando se ele realmente deveria ouvir Alexia. Ele sabia que suas esposas ficariam felizes em ter filhos, mas como ficaria o futuro a partir deste ponto? Como seria a vida deles com bebês pela casa?

Alexia desceu se encontrando novamente com meninas, que a cercaram preocupadas, perguntando de Rael e ela explicou que agora ele estava bem. Mara, aliviada, insistiu em ter a resposta da antiga pergunta:

― É apenas uma questão de tempo. ― disse Alexia para Mara: ― Quando a hora chegar, tudo vai dar certo! ― garantiu Alexia e depois saiu sem dizer mais nada.

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Um pouco mais tarde, o céu escureceu. No mundo paralelo, cidades e mais cidades continuavam sendo destruídas. O caos já tinha se espalhado e as pessoas que ainda estavam vivas fugiam dia e noite, se afastando das cidades atacadas. Abandonavam suas casas e partiam assustadas. O clã Torres era o único a não fugir e continuavam preparando suas armas, esperando a guerra inevitável que em breve bateria em sua porta.

Violeta continuava com interesse em Natalia. Isso porque ela ouviu de Rita a conversa que teve com Rael. Quando ela citou que a Natalia desse mundo estava morta, ele se encheu de angústia. Se Rael demonstrou tudo aquilo para Rita em uma simples conversa, então Natalia deveria ser alguém importante para ele. Natalia disse não conhecer esse Rael, o único Rael que ela conhecia era seu irmão.

― Aparentemente, ele conhece a sua você do outro mundo. Nesse outro mundo, você é a irmã dele. ― disse Violeta para a Natalia devoradora.

― Para mim, isso não tem importância alguma. ― disse Natalia, que não tinha qualquer sentimento.

― Para você não tem, mas para ele tem, e muita! ― disse Violeta de volta com um grande sorriso.

Antes que Violeta continuasse a conversa com Natalia, um devorador entrou na caverna, interrompendo as duas:

― Senhora líder, noticias urgentes! Nós finalmente encontramos a Barca Voadora Esperança. Ela está ao sul, a dez quilômetros daqui. ― disse o mesmo.

― Sério? Eu estava esperando por isso! ― disse Violeta, se animando. Antes de sair, ela se virou para Natalia: ― Não quero você saindo por ai, você ficará junto com Rita. Caso tenha fome, tome uma das pílulas que passei para se aliviar. ― disse Violeta, deixando a ordem. Natalia fez um sim, acenando com a cabeça.

Conforme as explicações do devorador, Violeta partiu, voando a uma velocidade muito maior do que a que teria como sendo uma violadora comum. Sua aura vermelha estava estrondosa e ela cruzou os céus mais rápido que um relâmpago. Demorou alguns segundos para ela chegar diante da barca.

Thais estava na beirada da barca usando seu Visor de Devorador, observando as regiões próximas. Ela estava sendo extremamente cuidadosa porque sabia o que estava ocorrendo. Do dia para a noite o poder dos devoradores tinha crescido exponencialmente e derrubado várias cidades.

Enquanto corria com o Visor, Thais encontrou uma pessoa com um enorme vermelhidão em todo o corpo, isso demonstrava que não era um devorador simples, era alguém muito mais infectado que a maioria. Essa pessoa era uma mulher e estava flutuando a apenas cinquenta metros da barca. Thais tirou o visor e viu Violeta sorrindo, a encarando de volta:

― Olá! Eu me chamo Violeta, e acho que seremos amigas de hoje em diante. ― disse Violeta em um tom irônico e abriu levemente a boca de uma forma sensual, deixando vários dentes brancos e pontudos crescerem lentamente. Thais, vendo aquilo, recuou assustada alguns passos para trás. Nenhum devorador até hoje tinha chegado tão perto daquela barca.

 

Violeta não esperou mais e começou a se aproximar da barca, voando para mais perto.