O Herdeiro do Mundo

176 - Leve Toque do Destino

Neide arrumou um local para Natalia iniciar o seu treinamento com Leona. Rael não se preocupou em deixar tudo com Neide. Ele focou a maior parte do seu tempo cultivando, enquanto ainda mantinha seus dois problemas corporais, sendo o bloqueio misterioso e o uso extremo da sua essência demoníaca.

Rael sentia que não estava longe de atingir o oitavo reino e, por isso, passava a maior parte do tempo cultivando em seu quarto com a finalidade de alcançá-lo o quanto antes.

Mara voltou a treinar técnicas de espadas com o seu antigo treinador para ficar no mesmo ritmo de Natalia. Assim, as duas não se distanciavam em cultivo e teriam forças equivalentes, como Rael desejava.

***

 

Uma semana se passou. Rael continuou tomando o remédio dado por Violeta. Ele estava bem melhor, a mancha tinha desaparecido completamente, mas a corrente continuava lá, impedindo-o de usar a habilidade. Rael não tentou usar a habilidade “Espaço Ilusório” devido as possíveis dores que ele provavelmente teria. Ele usava seu poder dos símbolos e conferia seu estado frequentemente através desse método.

Como Alexia ainda não havia voltado, ele se manteve quieto e cultivando, tentando alcançar o tão difícil oitavo reino.

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Pela capital, Keylla se fazia presente agora em sua personalidade assassina. Ela se mantinha sempre observando o clã com cuidado, de uma distância segura, principalmente porque poderia ser reconhecida por Neide. Ela sabia que Rael não saía muito, e as poucas vezes que saía era com apoio, por isso ela estava tão inquieta. Ela precisou voltar na guilda para conseguir ajuda e poder completar sua missão de uma maneira segura:

― ‘Eu nunca precisei usar essas tranqueiras!’ ― reclamou Keylla, tirando do bracelete um cano metálico. Era um lançador de dardos, utilizado com a boca. Ela não estava completamente insatisfeita porque o resultado do tiro daquele dardo seria algo bastante interessante. Mesmo alguém com uma alta defesa teria graves problemas ao ser atingido.

― ‘Quando será que o jovem mestre Samuel vai sair de sua toca?’ ― pensou ela, olhando de longe para o portão do clã enquanto guardava a arma novamente. Ela tinha pressa, pois nunca teve tanto trabalho com uma missão e também devido o clã Sangnos que não parava de cobrar resultados. O agora elder Arthur era o que mais a incomodava.

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Na pequena vila, Alexia arrumava as últimas coisas com a mãe da menina Leticia. Elas estavam armazenando tudo em braceletes, principalmente joias, dinheiro e belas roupas que receberam como oferendas.

― Eu vou deixar você em uma cidade segura e depois seguirei meu caminho. ― disse Alexia com quase tudo pronto, se virando para a mulher. Atualmente, o corpo de Alexia estava com um total de 60% do seu poder. A partir dos 50% a coisa ficava realmente devagar.

― Eu... Nunca mais nos veremos novamente? ― perguntou a mulher, se sentindo angustiada.

― Provavelmente, não. ― disse Alexia mantendo um ar sério. Ela não queria se apegar a pessoas que não fariam diferença em sua vida, mesmo que por dentro a sua mente misturada com a da menina quisesse dizer o contrário.

Uma mente evoluída e poderosa como a de Alexia foi literalmente interligada a de uma menina de dez anos. Por isso, Alexia as vezes tinha desejos estranhos, como por exemplo a vontade de querer brincar, mesmo sabendo que aquilo era ridículo. Outro ponto que valia mencionar é em como ela agiu antes em relação a Rael, querendo mostrar aos outros que iria se casar com o jovem bonito e poderoso quando crescesse. Esse era um desejo da menina, ao mesmo tempo conectado com os objetivos de Alexia. Embora ela fosse extremamente poderosa, ela não teria como evitar o desastre de uma fusão corporal. A única coisa que ela poderia fazer era se esforçar ao máximo para predominar os seus desejos no corpo da sua nova outra metade.

― Isso não... ― A mulher sabia que aquela não era mais sua filha, e por isso se encheu de tristeza e segurou suas palavras. O ser que estava no corpo de sua filha era alguém que ninguém ousaria incomodar, nem mesmo ela. Sem esquecer o fato que Alexia tinha dito sobre a mente de sua filha já estar morta.

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A despedida da vila não rolou nada além de tristeza por parte das pessoas que viviam ali. Todos sabiam que quando elas fossem embora, as coisas horríveis poderiam voltar a se repetir. A mulher seguiu com Alexia porque aquela ainda era o corpo de sua filha e ela dizia estar realizando o último desejo da menina.

Alexia podia pegar a mulher e partir voando, mas ela sentiu um total de mais de trinta cultivadores entre o terceiro e o sexto reino se aproximando da vila, exatamente pelo caminho que elas iriam fazer. Alexia queria ignorar e ir embora, mas o desejo da menina em sua mente fundida clamou mais alto:

― ‘Você prometeu salvá-los, cumpra sua palavra!’ ― Letícia não tinha perdido sua mente, ela ainda estava lá. Ela assistia seu próprio corpo e as ações de Alexia através de uma tela de onde ela compartilhava a visão de Alexia. Basicamente, tudo que Alexia via ou sentia era passado para a mente da menina, mas essa não tinha como tomar o corpo de volta por ser muito mais fraca que o dragão. Ela apenas poderia assistir e tentar mandar pensamentos de ordem para Alexia.

Alexia tinha pressa para deixar logo a mãe da menina segura em alguma cidade, voltar para ajudar Rael e depois ir de encontro ao seu verdadeiro corpo para acelerar o nível de poder no corpo atual. Com 60% ela não se sentia muito segura. Se ela ficasse um tempo próximo de seu corpo verdadeiro, seria muito mais rápido se recuperar e se fortalecer.

― ‘Certo! Você venceu.’ ― disse Alexia pensando e suspirou: ― Vamos andando, mulher! ― disse Alexia e seguiu na frente. A mulher seguiu a pequena garota e ambas se afastaram da multidão que ficou ali desolada. Boa parte ainda acenou, mas não disseram nenhuma palavra.

As duas caminharam por alguns minutos se afastando da vila quando foram surpreendidas por vários homens com armas em punhos. Lanças, espadas, adagas. Parecia uma repetição de eventos como o do último ataque. As duas pararam diante dos homens que as cercaram sem o menor medo. A mulher se mantinha atrás de Alexia, que estava correndo com a mente e lendo cada um daqueles infelizes.

― Huhuhuhuhu... ― Alguns homens já riam enquanto viam as duas. Eles vieram até aqui com a missão de sequestrar uma menina milagrosa, mas é claro que eles iriam roubar o lugar, abusar das mulheres, matar e tornar os mais úteis em seus escravos.

― Vocês duas, não tenham pressa. Queremos muito a atenção de ambas. ― disse um homem moreno forte, enquanto esfregava a lâmina da adaga na própria língua.

― Menina linda de cabelos vermelhos, será que você não é quem procuramos? Por acaso, você consegue curar pessoas? ― perguntou um homem gordo a frente, segurando o machado que estava deitado em seu ombro.

― Por que ainda não começaram a falar? Será que vou ter que usar essa lâmina em vocês? ― perguntou o homem moreno forte, tirando a lâmina da boca.

― Até que mulher não é nada mal... Eu quero ela pra mim! ― disse um outro homem magro de longos cabelos dando um passo a frente, ele ignorou completamente a menina e já ia passar do seu lado.

A mulher nem chegou a se assustar, ela estava segura e sabia disso. Por isso, ela apenas ficou esperando sem medo. Os outros homens já estavam se preparando para uma fila para atacar a mulher, o restante iria pegar a menina, amarra-la e depois subir até a vila para verificar o resto e confirmar as informações. Eles pretendiam abusar e torturar a mulher para fazê-la falar sobre a menina milagrosa também.

Vroom! Vroom! Vroom! Vroom!

Alexia apenas olhou para o lado do homem. Seus dois olhos, o verde e o azul brilharam. O homem que a ignorou foi tomado por uma imensa lavareda de fogo. Mesmo queimando, ele ainda deu um passo até perceber o que realmente tinha ocorrido.

Aaaaaaaaah!

Ele gritou desesperado como um porco e correu para o lado, fugindo enquanto suas roupas e sua pele queimava. Ele caiu rolando, se debateu no chão até morrer, alguns segundos depois, totalmente tostado. Sua pele parecia ter derretido e de seu corpo soltava uma fumaça escurecida. O cheiro de corpo humano queimado era horrível e estava impregnado no ar.

Os homens ficaram ali confusos e horrorizados. Um quarto reino foi morto queimado e eles nem souberam dizer de onde veio o ataque. A mulher não tinha sequer um cultivo e a menina à frente tinha o cultivo do mero reino um. Sem contar que nenhuma das se moveram, aquilo muito confuso aos olhos de todos. Por isso eles ficaram de armas em punhos e olharam para todos os lados, preparados para um novo e possível ataque. Mas não sentiram nenhum outro poder.

― Parece que os senhores procuram por mim, não? ― perguntou Alexia em uma voz que aparentava ser a de uma adulta, chamando a atenção de todos: ― Eu sou a garota milagrosa que vocês querem. Ah!É claro, fui eu quem matou o amigo de vocês. Com apenas um pensamento, eu posso matar qualquer um. ― disse ela com um tom bem sério.

Houve um minuto de silêncio, os homens estavam confusos. Como eles podiam acreditar que uma simples menina do reino um matou um deles, apenas com um pensamento?

― Você que o matou? Hahaha...! ― o homem moreno forte começou a rir após dizer isso. Os olhos de Alexia brilharam ao fitá-lo. Ele parou de rir, travando de repente e abriu a boca, deixando a língua esticada diante de todos, que ficaram completamente confusos:

― Hruuum!Huuuuuuuuum! Arruuuuuuda! ― ele arregalou os olhos e chamou pelos seus companheiros sem conseguir falar, ele levantou a mão com a adaga e passou na própria língua. A lâmina afiada cortou a língua facilmente, em seguida sangue se espalhou na boca dele, como uma cachoeira. Ele gritou gemendo e caiu no chão desesperado, soltando a adaga. O homem não demorou a morrer e sua morte foi acompanhada por todos ali presentes.

Se estavam confusos antes, agora eles ficaram ainda mais. Eles não sabiam se aquilo era alguma piada.

― Eu também matei este homem. ― disse Alexia com o mesmo tom sério. Ela podia dizer, mas ninguém viu nada além dele morrer se matando, então, como poderiam acreditar?

― Você os matou? Acha que eu...

― Apenas morra você também. ― disse Alexia para o mesmo e seus olhos brilharam. As palavras dela foram ouvidas por todos, pares e pares de olhos se dirigiram ao homem que ela havia acabado de interromper e dar o veredito:

Vroom! Vroom! Vroom! Vroom!

Aaaaaaaaaaaah!

Mais uma vez as chamas consumiram. Ele gritou miseravelmente e tentou arrancar suas roupas no desespero.

― Me ajudem! Me ajuud...! ― o homem gritou por ajuda mas nem teve tempo se quer de pensar em receber, em poucos segundos ele caiu completamente queimado no chão. Mais um homem morreu diante de todos. Os colegas dele se afastaram de lado, todos agora estavam com medo e muitos voltaram a olhar para frente, para o rosto daquela menina fofa que dissera ter matado os dois anteriormente e agora deu a ordem de morte para esse terceiro, que também morreu. Agora já era impossível alguém não acreditar.

― Será que agora vocês acreditam em mim? Quem tentar fugir morrerá da mesma maneira. ― disse ela naturalmente. Mas mesmo enquanto ela dizia, muitos homens já estavam se virando e começando a correr.

Vroom! Vroom! Vroom! Vroom!

Vroom! Vroom! Vroom! Vroom!

Vroom! Vroom! Vroom! Vroom!

Vroom! Vroom! Vroom! Vroom!

Dezenas de corpos foram tomados por chamas. Mais da metade dos homens tiveram a infeliz ideia de tentar fugir.

Aaaaaaah!

Aaaaaaah!

Aaaaaaah!

Gritos eram ouvidos e cadáveres continuavam tombando um após o outro. O que restou daqueles trinta dois homens, foram apenas sete. Estes ficaram se tremendo enquanto olhavam a pequena menina a frente. Eles quase não tinham coragem de respirar tamanho era o medo:

― Será que preciso matar mais alguém para que acreditem em mim? ― perguntou Alexia calmamente, sempre em um tom frio e sério enquanto corria a visão por cada um deles.

― Isso não é necessário! Nós acreditamos! ― disse um homem branco barbudo de vestimentas brancas e se ajoelhou diante de Alexia sem pensar duas vezes. Essa era a segunda vez que ele se manteve em uma situação tão arriscada. A primeira foi tempos atrás, quando controlava um bando de homens para escravizar pessoas. Quando então um jovem ruivo apareceu e acabou com toda a festa, matando até mesmo o seu capitão Russel. Naquele dia ele conseguiu fugir porque teve a chance enquanto Rael lutava, mas dessa vez, se ele tentasse seria morto miseravelmente. Por culpa de Rael, ele perdeu o cargo de controle de um grande esquadrão e foi rebaixado para um simples capitão dessa agora minúscula equipe de sobreviventes. O antigo líder desse grupo, um homem do sexto reino, tinha morrido junto com os outros, tentando fugir de Alexia.

Alexia espiou a mente do homem e encontrou um pedaço do passado de Rael bem ali, diante dos seus olhos. O destino era algo realmente estranho e Alexia não deixou de pensar nisso enquanto sorria por dentro, mesmo sem expressar no rosto fofo da menina. Ela manteve o mesmo tom sério e frio:

Vroom! Vroom! Vroom! Vroom!

Vroom! Vroom! Vroom! Vroom!

Vroom! Vroom! Vroom! Vroom!

Aaaaaaaaah!...

O homem não se mexeu enquanto via todos os seus companheiros terem o mesmo final trágico. Todos os outros seis corpos caíram carbonizados no chão. O cheiro da carne humana queimada já estava insuportável na área. O barbudo se tremia, achando que agora seria a vez dele:

― Senhor Borges, essa situação agora lembra alguma coisa para você? ― perguntou Alexia calmamente. A mulher atrás estava com um lenço sobre o nariz porque o odor estava terrível.

― Eu não entendo... Por favor, poupe minha vida! ― disse o homem ainda ajoelhado. Mas ele se lembrou sim de Rael, se naquele dia ele não tivesse fugido, ele com certeza teria morrido na mão daquele jovem monstro. Essa menina a frente não era muito diferente do rapaz, com a exceção de que ela parecia matar apenas com um pensamento.

― Assim como meu noivo deixou você vivo daquela vez, eu também o deixarei. Isso é uma forma de agradecer o destino por ter me feito encontrá-lo. ― disse Alexia. O homem não entendeu mas se sentiu extremamente agradecido, Alexia parecia está falando sério.

― Eu vou poupar sua vida, mas isso é para você voltar ao seu bando e dizer o que aconteceu aqui para o seu líder geral. Se mais alguém ousar voltar, eu não matarei apenas os que vierem, eu irei atrás do resto do bando e matarei até mesmo seu líder. Você entendeu bem?

― Entendi sim! Obrigado! Obrigado! ― disse o homem apressadamente, mas não se levantou sem a permissão da menina.

― Agora, suma daqui! ― disse Alexia. O homem de levantou, virou-se e correu sem olhar para trás.

Alexia ficou olhando as costas do mesmo enquanto pensava nas memórias de Rael daquele tempo. O Rael de agora e o daquele tempo eram bem diferentes.

 

― Vamos indo, mulher. ― disse Alexia e voltou a andar, passando entre os corpos queimados. A mulher apertou o lenço ainda mais no nariz e acompanhou a menina em silêncio.