O Herdeiro do Mundo

174 - Casamento Marcado

De volta no jardim do castelo, o lugar já estava repleto de guardiões. Anita praticamente expulsou todos que tentaram incomodá-los. Ela não largava os braços de Rael assim como não parava de elogiá-lo:

― Você foi incrível, Samuel! Se não fosse por você, eu não sei o que seria de mim agora! ― disse Anita em um tom quente para Rael. Rael estava um pouco sem graça, ainda mais com todos aqueles homens olhando o casal. E Anita, claro, continuava embrulhada no braço direito de Rael e, para provocá-lo ainda mais, ela encostava os seios propositalmente. Isso deixava Rael elétrico.

― Que bom que você está bem, princesa Anita. ― disse Rael sem graça.

Não ficou muito claro quem seria o alvo, mas a lâmina tinha ido em direção ao pescoço da princesa. Neide passou as informações pelo anel de que a assassina citou a princesa como alvo, mas ela não estava certa. Isso causou confusão em ambos, porque nem Neide nem Rael tinham certeza sobre esse fato:

― Princesa Anita...

― Samuel, não seja tão formal. Me chame apenas de Anita. ― disse a bela mulher sorrindo.

― É possível que alguém queira matar você? ― perguntou Rael.

― Plenamente possível. Só não faço ideia de quem possa tentar, pois são muitas possibilidades. ― disse ela, sem entrar em detalhes. Ela também não aparentava muita preocupação, o que deixou Rael ainda mais perdido.

A preocupação de Anita no momento era de conseguir Rael definitivamente, por isso ela lançava todo o seu charme no rapaz. O acontecimento de agora serviu apenas para acelerar mais ainda os planos da moça sobre Rael.

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Rael e Anita foram chamados na sala real do imperador minutos depois. Um grande número de curiosos se juntou, ficando alguns metros atrás deles. Rael, que não fazia ideia de como se portar na frente de tal homem, apenas fez uma leve reverência, que foi tomada como ofensa pelas pessoas que atrás observavam. O imperador não achou ruim, então ninguém disse nada, apenas se mantiveram em silêncio com um olhar não muito agradável. Mesmo Rael sendo quem era, ainda deveria agir com mais respeito diante do imperador.

Neide estava no fundo do salão sem se incomodar. Ela já sabia o que viria a seguir. O imperador queria uma chance para acelerar uma união, e ele com certeza não perderia essa oportunidade. Nenhum dos príncipes estavam presentes no local, mas a princesa Alana estava na lateral do público, assistindo junto o que aconteceria em seguida. Ela não estava muito bem, sua irmã tinha tomado Rael de suas mãos e ainda por cima tal coisa tinha ocorrido. Se a irmã tivesse sido morta, tudo estaria muito melhor para ela.

― Samuel, eu ouvi bem o que aconteceu. Você protegeu minha filha de um assassino misterioso que entrou no castelo. Eu, o imperador Elidas, agora tenho uma enorme dívida com você, meu jovem e bravo rapaz. ― disse o imperador com um sorriso. As pessoas que antes haviam ficado desgostosas com Rael agora o olhavam esboçando um pouco de admiração. Eles pensaram bem, salvar a filha do imperador não era pouca coisa, então mesmo que Rael fosse um pouco grosseiro ele ainda merecia ser respeitado:

― Eu só fiz o que deveria ser feito, nobre imperador. ― disse Rael de volta humildemente.

― É verdade que você e minha filha estão se dando bem? ― perguntou o imperador de uma forma disfarçada, mas aquilo ficou muito claro para Rael. O sorriso leve que o imperador demonstrava era uma pergunta escondida a Rael, como se ele quisesse que Rael confirmasse que a escolha seria Anita.

Alana disfarçou seus sentimentos naquele momento e manteve seu ar sério e gracioso, mas por dentro ela estava queimando furiosamente em ódio. Para Alana, sua irmã não levava nada a sério, sempre mantinha aquela cara patética e dissimulada sorrindo pra todos os lados e, ainda assim, estava na frente dela. Alana achava tudo isso muito injusto.

― Nobre imperador, Anita é uma princesa muito agradável. Foi bastante prazeroso ficar sob a companhia dela. ― confirmou Rael, que dessa vez tinha entendido a indireta. Desde o começo ele já veio preparado para escolher uma princesa, mesmo que ele não gostasse muito. Anita ainda não tinha ganhado o coração de Rael, mas ela parecia muito melhor que irmã em muitos sentidos. Rael não queria uma mulher séria como Alana, que provavelmente cobraria sua presença entre outras coisas. Anita pelo menos parecia ser o tipo que se daria melhor com ele:

― Em reconhecimento à sua bravura, coragem e a esse grande ato ao império, eu dou a você a mão de minha filha Anita em casamento! ― anunciou o monarca.

― Uoooooooooou! ― o público atrás dos dois ficaram chocados, mas logo em seguida uma forte onda de aplausos tomou o lugar.

Anita sorriu docemente, olhando Rael de lado. Rael direcionou um breve olhar para a princesa e voltou a olhar para o imperador. Rael não ficou sem graça, muito menos surpreso, ele simplesmente não sabia exatamente como deveria agir, então se manteve apenas neutro.

― Eu estou honrado pelas palavras do imperador e aceito de muito bom grado a mão de sua filha! ― confirmou Rael. Outra salva de palmas teve início.

Alana saiu de fininho mantendo sua expressão séria, mas estava destilando ódio e fúria por dentro. No corredor, onde estava vazio, ela imediatamente levantou sua mão direita com os anéis de comunicação.

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O casamento foi marcado para três meses após essa data. Mesmo que o imperador tivesse pressa, ainda haviam leis criadas por ele mesmo. E dentro dessas leis, uma princesa ou um príncipe teria que marcar seu casamento com esse intervalo de tempo, no mínimo. Isso era para o caso de haver desistência de alguma parte.

O imperador ficou preocupado, porque ele pensou que essa tentativa de assassinato seria contra a sua filha. Por agora, ele teria que se preparar para encarar alguma dificuldade com as grandes famílias. Mas de um modo geral ele estava feliz por achar uma maneira rápida de unir o futuro daqueles dois jovens. Afinal, oferecer a mão de sua filha para seu salvador seria uma belíssima desculpa.

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― Esse resultado de hoje foi melhor do que o esperado. ― disse Neide dentro da carruagem. Ela e Rael estavam seguindo de volta para o território do clã.

― Eu não sei... Se casar com alguém apenas por essa razão ainda parece estranho pra mim. ― disse Rael. Ele achou Anita legal, gostou de beijá-la, assim como o cheiro da princesa. Nesse quesito, ele não tinha do que reclamar.

― Você se acostuma. Não vamos esquecer o tanto de relacionamentos assim que você terá que enfrentar mais para frente. ― observou Neide, fazendo Rael se lembrar das celestiais e da soberana. Rael fez até uma leve careta:

― Nem me lembre disso!

― Vai se acostumar. Tome isso como sua primeira vez.

― Não seria mais fácil eu apenas superar qualquer poder e tomar o império à força? Eu não vejo necessidade de me casar assim. ― disse Rael novamente.

― Isso pode funcionar também, mas é um futuro certo de rebeliões. Para se estar no centro definitivo do controle, você precisa das duas coisas: poder e respeito. Porque assim que você virá as costas, ninguém vai desejar te atacar por trás. ― disse Neide.

― Então é assim... ― disse Rael, entendendo o ponto de vista de Neide.

― As pessoas podem ser fracas mas elas sabem como se unir na hora da raiva. Por isso você nunca pode menosprezar ninguém, genro. Jamais despreze alguém mais fraco! ― lembrou Neide. Isso era algo que ela e o marido sempre levavam em mente.

― Você não tem nenhuma pista da assassina?

― Algumas. Ela tem a Liberação da Virtude, a Água. Ela usou muitas habilidades poderosas para um nono reino, mas o que me surpreendeu de verdade foi um clone, uma habilidade qual eu não conheço, que parecia bastante com a sua. Se o clone dela tiver a mesma aparência, então posso deduzir que ela é bastante bonita. Tem belos olhos azuis e aparenta ter um rosto deveras chamativo. Ela provavelmente tem uns noventa anos, mas sua aparência permanece jovem.

― Em pouco tempo saberemos se ela está mesmo atrás de mim ou da princesa. ― disse Rael sem pensar muito e voltou a olhar a janela. Habilidades de clone poderiam parecer incríveis antes, até Rael conhecer Helks, que usou três clones contra ele naquela batalha. Agora não parecia ser grande coisa.

_____________________________________________________________________________No clã Torres, Elisa estava em seu quarto quando a janela sutilmente foi aberta. A mulher se virou com calma e se sentou na beirada da cama.

― Me diga, Rana, eu não estou pagando o suficiente? Já não era para você ter conseguido cumprir esse trabalho tão simples? ― perguntou a mulher, sabendo que estava sendo ouvida.

― Desculpe senhora... ― disse uma voz feminina dentro do quarto, parecia vir da frente de Elisa. Elisa não via ninguém e não sentia nenhuma aura além dessa voz.

 ― O jovem Samuel não é alguém fácil de se matar, suas reações são rápidas e imprevisíveis. Ele tem muitas habilidades ocultas, e uma delas parece ser a de me ver.

― Você já falhou comigo três vezes após me dar garantias. Tentou sozinha e falhou, usou o clã Sarbaros e falhou miseravelmente. Depois, ainda usou um grupo inteiro de outra guilda, falhando pela terceira vez seguida! Já gastei mais de quinhentas mil moedas com você e não tive nenhum resultado positivo. Me diga, você realmente está tentando matá-lo, Rana? Com as habilidades que você possui, eu não vejo como ainda não conseguiu cumprir essa simples missão. Daqui a pouco minha filha estará grávida dele e nada de você conseguir, se é que ela já não está! ― reclamou Elisa nervosa, olhando de lado com uma mão no queixo apoiando na coxa.

― Eu não consigo me desculpar o suficiente, senhora... ― disse a mulher sem jeito. Elisa não podia ver o rosto da mesma porque ela continuava oculta para ninguém senti-la.

― Eu não quero desculpas, quero apenas resultados. Nem sequestrar a minha filha você conseguiu, o que deveria ser muito mais fácil. ― reclamou Elisa novamente.

― Como eu disse antes, sua filha não é mais um simples reino três. Algo aconteceu e ela está muito mais forte nesses últimos dias.

― Ninguém pode aumentar de poder assim da noite para o dia. Mesmo se minha filha fosse um super gênio, o pouco tempo que se passou não seria o suficiente para ela alcançar nem mesmo o quarto reino. Eu estou começando a pensar seriamente que é você quem não quer cumprir essa maldita missão.

― Senhora, eu digo com toda certeza que o poder que a jovem mestra Natalia usou contra mim para se libertar parecia mais forte que o de um quinto reino. Eu analisei o poder dela e ela não parece ter estagnado no terceiro reino, mas a senhora precisa se lembrar de que existem anéis de bloqueio. Alguma coisa ocorreu depois que ela saiu da sua proteção, algo que a deixou muito mais poderosa.

― Era só o que me faltava agora! ― reclamou Elisa, bastante insatisfeita. Elisa não acreditava em Rana, não havia como acreditar.

― O plano de raptar sua filha pode ter falhado, mas eu tenho um plano melhor. E lhe asseguro, esse plano não haverá nenhuma falha! ― disse a voz invisível de uma maneira convicta.

― E você vai me dar uma outra garantia para depois falhar novamente? Enfim, irei escutar de qualquer maneira esse seu plano. ― respondeu Elisa desanimada.

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Enquanto Elisa ouvia o novo plano de sua assassina contratada, Romeo era outro que estava preocupado com a sua situação. Reges, seu homem de maior confiança, ainda não tinha conseguido encontrar Isabela e seu maldito mestre Verom. Reges tinha vasculhado, até o momento, quatro dos setes locais de treinamento que eles costumavam usar. Tudo isso de acordo com a guilda Olho Aberto.

― Senhor, estou aqui como o ordenado. O que deseja? ― Tadeu, um homem corpulento, entrou na sala principal de Romeo e o reverenciou com respeito.

Romeo encarou o homem a frente, ainda pensando se deveria tomar essa decisão. O patriarca não queria que ninguém soubesse que ele procurava por Isabela, então, ele estava prestes a dar uma ordem na qual as procuras seriam direcionadas totalmente ao mestre da moça. Achando Verom, eles encontrariam Isabela:

― Quero que vá até a guilda Olho Aberto e peça uma missão informando que, aquele que tiver pistas de Verom Karlal, sendo uma pista confirmada de seu real paradeiro, receberá uma recompensa de 200 mil moedas de ouro, assim como um agradecimento especial do nosso clã. E, para guilda Olho Aberto, ofereça 50 mil moedas para eles manterem a missão aberta até alguém conseguir completá-la de fato! ― disse Romeo bem sério.

― Será feito, meu senhor. Irei imediatamente cumprir o seu desejo! ― respondeu Tadeu, o reverenciando mais um vez e saiu sem perguntar qualquer coisa.

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Os boatos sobre a enorme recompensa criada por Romeo foram espalhadas por todas as sedes da guilda Olho Aberto. Como eles tinham recebido 50 mil moedas de ouro apenas para informar esta missão, eles não pegaram leve e a espalharam por todos os cantos, de diversos modos possíveis.

A notícia foi se espalhando também através do boca a boca, fazendo com que pouquíssimas pessoas não soubesse dessa busca. Verom passou a ser um dos assuntos mais discutidos e vários rumores foram criados, o mais comentado era de que Verom tinha ofendido o patriarca Romeo e fugiu. Ninguém sequer imaginou que na verdade toda essa busca estivesse ligada a Isabela.

Tudo o que Romeo poderia fazer agora era esperar que alguém surgisse e entregasse o real paradeiro de Verom.