O Herdeiro do Mundo

173 - Keylla e Suas Personalidades

Keylla se virou e olhou para um rio que cruzava abaixo da muralha. Sua sorte é que havia uma forte correnteza que levava a água para os terrenos mais distantes do castelo, ela teria uma chance de fugir através do fluxo do rio.

A queda era enorme, mas ela não tinha sequer tempo para pensar sobre isso. Ela se virou e saltou de cabeça, unindo as mãos para frente em um mergulho. Quando Keylla estava quase chegando na água, Neide já estava por cima da muralha assistindo a tentativa de fuga de Keylla. Neide sabia que era inútil, Keylla não tinha como fugir dos sentidos de um décimo terceiro reino:

Vluuuup!

Keylla mergulhou dentro da água e já saiu nadando por baixo enquanto espalhava seu poder usando suas ativações. Ela não tinha muitas chances de escapar de Neide, mas não ia desistir sem tentar.

Neide se moveu rápida por cima do rio e de repente parou flutuando porque todo o rio começou a congelar. Lançando os seus sentidos, Neide sentiu mais de vinte presenças de Keylla por dentro da água por trás dessas camadas de gelo no rio. Essas presenças não estavam paradas, elas estavam em movimento e se afastavam umas das outras. Como aquilo era possível? Só deveria haver uma presença na água, mas haviam muitas idênticas.

― Essa mulher...! ― Neide reclamou impressionada. Ela não conhecia as habilidades de Keylla, mas fazer a percepção do inimigo ficar confusa era uma habilidade notável. Neide teve que dar créditos a Keylla, porque para causar confusão até mesmo em um cultivador no Lendário Poder Final não podia ser pouca coisa.

Neide queria levá-la viva, mas isso ficou extremamente difícil depois daquilo. As vinte auras moviam se espalhando em várias direções, o que deixava Neide mais ansiosa. Neide juntou uma enorme quantidade de poder de fogo nas mãos e começou a atirar para todos os lados do rio congelado:

Booooom! Booooom! Booooom! Booooom! Booooom! Booooom!

Pedaços de gelo e água não paravam de subir por todos os lados do rio. Neide estava mirando em todos os pontos em que sentia a aura de Keylla. As explosões continuavam, Neide não estava disposta a ficar tentando adivinhar qual seria a aura da verdadeira.

― Se renda ou você vai morrer! ― gritou Neide, mas imaginou que isso não teria nenhum efeito. Do meio da água, uma mulher de máscara saltou com um chakram em cada mão por trás de Neide. Os movimentos das mãos de Keylla eram sutis como os de uma verdadeira assassina enquanto preparava seu ataque. Ela quase chegou no pescoço de sua oponente:

― Você! ― Neide se virou surpresa com a tentativa de ataque da mulher. Um nono reino deveria ser muito ousado para tentar enfrentar tal poder. Neide não deixou de pensar nisso enquanto se virou surpresa:

Wooooch! Wooooch! Wooooch!

A aura de fogo se tornou mais forte e apenas o impulso do poder gerado do corpo de Neide lançou Keylla vários metros para dentro de alguns arbustos e árvores ali ao lado do rio. Neide, após descobrir a verdadeira oponente, ignorou o restante das auras e seguiu flutuando por cima do local onde Keylla caiu.

Neide sabia que Keylla foi forçada a aparecer, seus ataques incessantes foram feitos para esse fim. Mas ela ainda ficou impressionada que a mesma tentou atacá-la, mesmo traiçoeiramente.

― É melhor você não tentar mais nada. Eu não quero machucar você ainda mais. ― ameaçou Neide enquanto chegava voando por cima dos arbustos. O fogo que gerava da aura de Neide fez os arbustos começarem a queimar. Ela sentiu Keylla deslizar por baixo dos arbustos, tentando fugir para perto de algumas árvores.

Boooom!

Neide lançou seu ataque de fogo a frente. Arbustos, árvores, terra e rochas, tudo voou para os ares e o chão de terra aos redores fumaçava sem parar. Lá estava Keylla, ao lado de uma árvore destruída pela metade, que ainda estava em chamas. Keylla parecia cansada, sentada com as pernas estiradas e as mãos para os lados, apoiando seu corpo da cintura para cima no chão. Ela olhava Neide de volta, a metade esquerda de sua máscara estava destruída, permitindo que Neide pudesse ver um de seus belos olhos azuis e uma parcela de seu lindo rosto:

― Você é difícil de ser pega, mas esse jogo acaba aqui. Renda-se agora! ― disse Neide flutuando por cima da mulher. Keylla continuava ofegante, tentando conter a respiração. Ela não parecia estar ferida, seu poder do tipo água a protegeu dos danos do fogo. Mas pela expressão cansada dela, seu estado não era um dos melhores. Não era brincadeira tentar enfrentar alguém do Poder final.

Keylla virou seu rosto de lado e depois acalmou a respiração. Ela não se levantou. Em vez disso, relaxou e se deitou inteira no chão deixando braços e pernas estiradas. Para Neide isso foi uma reação de rendição, embora parecia ainda bem folgada. Keylla não parecia preocupada por estar sendo pega, ela tentou fugir, mas ao falhar pareceu desistir e se render, realizado o desejo de Neide.

― Quem te mandou atrás de Samuel? ― perguntou Neide pousando ao lado dela. Neide ainda mantinha uma aura de combate leve.

― Não acha que o céu está bonito, senhora dona do Poder Final? ― perguntou Keylla por trás da máscara, ela olhava o céu que corria calmamente. Ela ignorou completamente a primeira pergunta de Neide. Mesmo naquela situação, Keylla estava calma. Ela parecia adivinhar que não seria morta por Neide tão facilmente.

― Eu sou uma mulher de palavra. Se você me disser agora quem enviou você e me dar uma prova, eu deixarei você ir e nem mesmo te prenderei. ― disse Neide pacientemente. As outras auras que estavam se movendo antes, Neide já não sentia mais.

― Você é a sogra do jovem Samuel, não é? Eu ouvir falar um pouco sobre o quanto você é poderosa. ― disse Keylla virando o rosto de lado para Neide.

― Se ouviu falar de mim, sabe que tenho palavra. Me diga agora quem foi que enviou você e eu pouparei sua vida e te deixarei ir, se você me garantir que não irá mais repetir essa tentativa de assassinato. Tudo que eu preciso é de uma prova concreta e nada mais. ― disse Neide calmamente.

― E que certeza você tem que eu vim pela cabeça de Samuel? Meu alvo era a princesa. Ele não te disse que eu tentei atacá-la? ― perguntou Keylla para atrapalhar os pensamentos de Neide. Aquilo deixou a mesma um pouco confusa:

― E por que hoje? Por que agora? ― perguntou Neide de imediato.

― Que outra ocasião eu teria para lançar a culpa em alguém? Infelizmente meu plano não deu muito certo hahahaha! ― Keylla se virou rindo.

― Eu não acredito que você não queira prejudicar Samuel. Talvez esse fosse o seu plano, matar a princesa e prejudicá-lo indiretamente. Me diga quem te mandou ou eu não serei tão paciente como estou sendo contigo agora. ― disse Neide, que não havia desistido de sua ideia inicial.

― A senhora não acredita em mim, mesmo eu dizendo a verdade. ― disse Keylla depois de se recompor e voltar a olhar para o céu, ignorando Neide novamente. Aquilo irritou Neide:

― Você acha que isso é brincadeira, mocinha? Eu posso acabar com você em um piscar de olhos! É melhor você começar a responder a minha pergunta ou eu vou mostrar a você o que realmente é um poder final! ― disse Neide e sua aura cresceu majestosamente. Isso fez Keylla suar, a mesma se afastou levemente de lado rolando para fugir do imenso calor que se formou em volta.

― Acha mesmo que me pegou? ― perguntou Keylla parando de fugir e deixando Neide confusa: ― Nesse momento, eu já estou muito longe daqui hahahaha! ― Keylla riu enquanto seu corpo se tornava uma grande rocha de gelo:

― Mas o que...?!

Boooooom!

O corpo de Keylla congelou rápido e em seguida explodiu, lançando lâminas de gelos para todos os lados. As que foram em direção a Neide viraram água ao tocar na aura que cercava a mesma e evaporaram sumindo no ar.

― Fui enganada! ― disse Neide completamente chocada. Ela subiu voando e lançou seus poderosos sentidos em todas as direções, mas já não havia mas nada que pudesse ser feito. Neide sentiu várias outras auras de décimos reinos se aproximando, porém, deveriam ser guardiões.

― Essa mulher, ela...! ― Neide ficou impressionada. Keylla a enganou completamente, mesmo sendo uma mulher com um simples nono reino.

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Keylla parou cansada depois de entrar em uma caverna. Ela se sentou, encostando as costas na parede rochosa e desabotoou sua saia de couro. Ela desceu a saia escura até os joelhos, deixando a mostra uma calcinha branca molhada e um belo par de coxas perfeitas. Devido a escuridão da caverna, a visão dela não era muito boa, mas o que ela queria ver estava na coxa direita: Havia um símbolo que parecia uma tatuagem brilhante de uma rosa aberta. Havia um total de duas pétalas brilhando em azul, e outra cinco escuras. Conforme Keylla olhava, pontos brilhantes azuis surgiram pelo ar e tocaram na coxa dela, sumindo em cima da tatuagem. Novas pétalas azuis apareceram por cima das escuras.

Keylla relaxou o corpo esperando as demais pétalas. Seu poder funcionava por ativações, mas ela só podia ativar um número limitado deles. Uma pétala daquele poder poderia criar até sete auras falsas ou ativações de explosões, como no caso das armaduras. Depois que o poder era usado, uma energia invisível aos olhos de todos – menos aos de Keylla – saia em busca de sua dona para voltar ao corpo e recarregar o uso.

O último a chegar foi o estigma da tatuagem. Essa era a representação do poder e o corpo de Keylla. Diferente do clone de Rael, que somente obedecia a ordens, o clone de Keylla tinha inteligência própria e podia até mesmo trabalhar sozinha, mas sua duração longe do verdadeiro corpo não poderia passar de quinze minutos.

Quando o estigma voltou, Keylla recebeu todas as memórias sobre o que rolou entre seu clone e Neide. Ela ficou em silêncio, estudando a tudo o que passou. Ela também pensou no quão difícil seria agora para matar Rael, Neide não parecia ter acreditado no blefe dela sobre o seu alvo ser a princesa Anita. Dessa forma, tudo ficaria ainda mais difícil.

Ao longo desses dias ela pesquisou todo o apoio de Rael antes de fazer sua jogada e descobriu algumas coisas. Descobriu até mesmo que ele participaria daquela festa no castelo.

― ‘Essa foi a primeira vez que eu falhei. Me sinto estranha...’ ― pensou Keylla. Ela nunca precisou de mais de uma tentativa para matar alguém. Diferente de todas as outras vezes, nessa ela queria dar uma chance real àquele jovem de escapar da morte certa, mas, por quê? Keylla se perguntou em busca de uma solução.

Em toda sua vida após virar adulta, ela soube o quanto era poderosa, linda e atraente. Ela nunca se interessou por nenhum homem em sua vida e até chegou a pensar que seu destino seria viver sozinha para sempre. Sem contar que, por seu poder crescer de forma misteriosa, ela acreditava firmemente que havia um deus olhando por ela.

Keylla também tinha um enorme nojo de homens. Quantos ela já não matou após tentarem abusar de seu corpo? Ela era despertada pelo desespero de sua personalidade fraca e acabava com a possível festa dos imundos. Muitas vezes ela passou por isso, inclusive, foi dessa forma que ela acabou matando membros de sua atual guilda de assassinos. Os demais, percebendo o poder e as ações frias de Keylla, convidaram-na para fazer parte, onde ela aceitou sem problemas. Fazia somente dois anos que ela estava nessa guilda, mas já tinha um enorme número de missões concluídas com sucesso. Essa era a sua primeira tentativa falha de matar alguém, mas ela não iria desistir ainda:

― ‘Eu preciso descansar. Você terá que assumir agora.’ ― disse Keylla. Ela pegou um espelho dentro do bracelete do infinito, retirou a máscara e se admirou. Ela sorriu diante da linda mulher refletida na imagem e seu coração bateu levemente, ela não estava nem um pouco incomodada por ter falhado em sua missão.

Em instantes o rosto sedutor, quente e sorridente foi bruscamente trocado por um rosto vermelho, assustado e preocupado:

― Ah, não! Vim parar em um lugar que não conheço de novo! Por que isso continua acontecendo comigo, senhores deuses? ― perguntou Keylla absolutamente nervosa e guardou o espelho em seu bracelete. Ela tentou se levantar, mas caiu atrapalhada para frente sem perceber que sua saia estava nos joelhos.

― De novo essas roupas vulgares?! Não é atoa que sempre querem abusar de mim... ― ela ficou chorosa enquanto ajeitava a saia, colocando-as ao lugar certo.

― E ainda estou toda molhada... O que será que aconteceu comigo dessa vez? ― perguntou ela, cada vez mais deprimida. Ao contrário da sua outra personalidade, Keylla não sabia que trocava após se olhar em um reflexo e se sentia apavorada toda vez que isso acontecia. Ela não lembrava de nada, sua última memória era do homem mascarado mostrando o próprio reflexo dela em um espelho.

― Preciso trocar essas roupas molhadas, por roupas de uma mulher de verdade! ― disse ela, olhando a caverna com calma pra ter certeza que estava sozinha. Depois, ela foi até a entrada e olhou os arredores do lado de fora. Ela morria de medo de lugares assim, mas tinha mais medo ainda de presenças alheias.

Keylla não soube explicar, mais estava com o coração quente desde que voltou a si. Ela segurou as mãos no elástico da saia na cintura e travou pensativa. Seu coração estava estranhamente calmo, quase como se estivesse confortado, mas, por quê? O que tinha ocorrido dessa vez? Por que ela nunca se sentiu assim antes? Ela continuou ali procurando a razão e eis que surge uma memória da qual ela não deveria ter acesso: Ela viu um rapaz alto, forte, de cabelos ruivos e volumosos, conversando com uma bela mulher de vestido branco e cabelos loiros. Essas eram as memórias de sua outra personalidade.

Keylla, que sempre teve pavor de homens ficou com o rosto quente e corado. Só a imagem daquele rapaz fez o coração dela se aquecer e balançar como uma vela acesa dançando com a leve brisa. Ela se sentiu estranhamente bem e queria vê-lo novamente, mesmo morrendo de medo e de vergonha.

 

― No que estou pensando? Essas coisas continuam ocorrendo comigo sem qualquer explicação! Eu tenho que voltar para casa imediatamente! ― disse Keylla e baixou a saia. Ela começou a se trocar, ignorando o resto dos seus pensamentos.