O Herdeiro do Mundo

170 - A Ultima Casa

No mundo paralelo, as coisas não iam muito boas. Cidades após cidades estavam caindo enquanto o número de devoradores aumentavam como grãos de areia. Sob o comando da nova líder Violeta, os devoradores estavam destruindo todas as últimas resistências, se alimentando dos inúteis e juntando os fortes ao seu bando. Ele deixavam um rastro de destruição por onde passavam onde nenhuma casa ou construção permanecia de pé.

 

 

A última resistência a sobrar das primeiras cidades atacadas pelos devoradores de Violeta foi uma pequena casa, onde residia uma mulher e uma criança de cinco anos. Os devoradores tentaram de tudo para romper a defesa, onde socaram, lançaram seu poder, mais nada podia ser feito contra aquela poderosa barreira.

 

Rita estava apavorada enquanto apertava seu filho nos braços depois de ver os devoradores fazerem uma pausa nos ataques. Ela olhava pela brecha da porta e via do lado de fora dezenas de devoradores reunidos. Agora eles não usavam mais aquela fumaça escura para se ocultarem, por isso Rita podia vê-los. As duas últimas noites foram um terror, eram gritos após gritos misturados a vários tremores que se espalharam por toda a cidade. Parecia que tudo estava se tornando um verdadeiro caos. Havia muito sangue por todas as ruas do que restou de uma cidade quase toda destruída, a não ser por uma casa. Não se sabia o que aconteceu ao certo mas, de repente, o poder dos devoradores tinha crescido a um nível incontrolável.

 

― Seus malditos inúteis! Porque me chamaram aqui? ― perguntou a Violeta devoradora, descendo flutuando e pousando na frente da residência de Rita.

 

― Senhora líder Violeta, esta casa não conseguimos invadir. Tem um tipo de barreira que, não importa o que façamos, não se quebra. Mas sentimos duas presenças dentro desta casa ― disse um dos devoradores.

 

― Uma barreira? ― a resposta do devorador acalmou Violeta, que ficou séria e se aproximou da porta. Rita, que estava vendo, sentiu um frio no coração e se afastou da porta se tremendo. Graças a Rael ela tinha sobrevivido dos inúmeros ataques sofridos nas últimas noites por conta da barreira criada pelo mesmo, mas Rita sentia que, por alguma razão, essa mulher era diferente dos demais:

 

Booooooom!

 

O primeiro soco de Violeta fez as paredes da casa de Rita se tremerem. Diferente de antes, onde nenhum golpe ou habilidade dos outros devoradores tinha causado isso.

 

― Mamãe! ― Nicolas começou a chorar no peito de Rita, com medo.

 

― Calma filho, vai ficar tudo bem. Ninguém vai machucar você nem a mamãe. ― disse Rita beijando e acariciando a cabeça de seu filho.

 

― Oh, é verdade. Essa barreira é muito forte mesmo. ― elogiou Violeta depois do primeiro golpe.

 

― A senhora líder consegue romper? ― perguntou um dos devoradores próximos. Eles estavam famintos por mais refeições.

 

― O que acha que eu seria se não pudesse quebrar uma barreira como essa? ― perguntou Violeta concentrando poder em seu braço direito. Todo o braço direito de Violeta foi tomado por uma forte energia vermelha que tremulava se expandindo formando uma poderosa e grande aura. Isso afastou até mesmo os devoradores de perto da porta:

 

― Olá! Não sei quem mora aí nessa casa, mas vou dar uma chance para se rederem e saírem. Eu sou Violeta, a líder dos devoradores, e se vocês me obedecerem, posso poupar a vida dos dois e transformá-los em nosso exército. ― disse Violeta antes de iniciar seu ataque. Violeta devoradora não era burra, alguém com habilidade de criar tal barreira deveria ser descoberto, isso traria bons usos no futuro.

 

Rita e seu filho Nicolas continuavam abraçados. Rita continuava rezando para que eles não conseguissem quebrar a barreira. Ela agora se arrependia de não ter ido com Rael, mas já era tarde para esse tipo de pensamento. Tudo que ela podia fazer era esperar que a barreira aguentasse:

 

― Vou repetir mais uma vez: Mesmo que vocês aí dentro não sejam fortes, eu irei poupá-los porque quero informações. Então, se rendam antes que eu arrebente essa barreira. ― disse Violeta ainda paciente. O sol estava longe de nascer e eles tinham muito tempo ainda.

 

― É uma pena vocês não se renderem. Aqui vou eu! ― disse Violeta do lado de fora, vendo que dentro da casa permanecia em silêncio.

 

Violeta forçou sua mão contra a barreira na direção da porta. Ondas transparentes eram geradas, começando do ponto onde a mão de Violeta apertava. O lugar inteiro começou a tremer e isso fez Nicolas começar a chorar assustado.

 

Violeta poderia disparar seu poder em forma de laser, que seria muito mais eficaz, mas isso poderia matar os residentes. Então, ela preferiu uma abordagem mais sutil, porém, ela não esperava ter tanto trabalho. A mão dela avançava centímetro por centímetro. As ondas da barreira continuava se espalhando pela casa.

 

Rita viu pela primeira vez vários símbolos espalhados brilhando nas paredes, em todos os ataques anteriores ela não tinha visto aquilo. Ela se sentiu angustiada, pois imaginou que a barreira não estava mais aguentando.

 

A mão de Violeta continuou avançando pouco a pouco enquanto as ondas da barreira se tornavam mais caóticas. Aos poucos um buraco foi sendo feito na porta e os dedos de Violeta em forma de lâmina surgiram para a visão de Rita. Ela estava mesmo conseguindo romper a barreira.

 

Conforme o buraco crescia, Violeta e os devoradores já podiam ver Rita e seu filho na sala, abraçados com medo. Percebendo que ia mesmo morrer, Rita segurou seu filho se levantando apressada e correu para o quarto dos fundos.

 

― Filho, fica aqui e não saia! A mamãe vai dar um jeito neles! ― disse ela apressada, deu um rápido beijo no rosto do menino e se virou fechando a porta, deixando o filho dentro que ainda chamou por ela algumas vezes. Agora Rita era um sétimo reino, não tinha como enfrentar Violeta, mas ela imaginou que se pudesse parar essa mulher, a barreira iria continuar e seu filho ficaria seguro.

 

Vroom! Vroom! Vroom! Vroom! Vroom! Vroom!

 

A casa continuava tremendo a mão de Violeta avançando, o rombo na porta estava crescendo e as ondas transparentes da barreira, estavam gerando pequenas cargas elétricas, indicando que estava quase se rompendo completamente.

 

Rita sacou sua lança, amplificou o poder de ataque dela com seu poder, deixando toda a lâmina com um brilho ofuscante roxo e se aproximou da porta como uma guerreira preparada para a última batalha. Rita estava decidida a entregar sua vida para salvar o seu filho.

 

Chegando perto da porta, Rita liberou todas as travas abrindo-a e a puxou, tendo acesso total ao corpo de Violeta. Violeta continuava avançando com a mão para terminar de quebrar a barreira, mas ficou um pouco impressionada com a coragem da mulher.

 

Rita apertou a lança se concentrando, ela focou no coração de Violeta e avançou como um fleche para desferir seu golpe.

 

Violeta sorriu deixando ela pensar que não ia reagir e que iria continuar destruindo a barreira, e girou de lado evitando o ataque de Rita, que saiu para fora da barreira com a lança nas duas mãos. Rita usou toda sua força, por isso não teve como parar seu corpo.

 

― Tão corajosa... ― elogiou Violeta enquanto girava e como um vulto e agarrou Rita por trás, Violeta imobilizou os braços dela e levou sua sedutora boca para perto do pescoço de Rita. Rita poderia lutar para escapar, mas era impossível, Violeta era dezenas e dezenas de vezes mais forte. Ver Violeta segurando Rita era como ver um leão imobilizando um pintinho.

 

― Me diga? Quais segredos você esconde? ― perguntou Violeta no ouvido dela. Rita continuava tentando resistir, mas até sua lança já tinha caído de suas mãos. Os outros devoradores estavam babando em volta das duas, esperando que Violeta liberasse aquela suculenta mulher para eles se deliciarem. Sendo apenas um sétimo reino, ela não tinha muito valor agora e só serviria para aumentar um pouco a força dos outros.

 

Violeta preparou a boca e cuidadosamente mordeu o ombro de Rita. Sangue escorreu da região mordida e se espalhou, pingando em volta. Violeta suspirava se deliciando enquanto sentia o sangue, a pele e um pouco da carne de Rita. A líder devoradora não queria matá-la, queria transformá-la porque depois a mesma contaria todos os segredos.

 

Rita sentiu como se lâminas afiadas rasgassem seu ombro e a penetrasse até encostarem seus ossos. A dor era insuportável e ela não aguentou, deixando um grito de agonia escapar.

 

― Aaaaaai... ― os outros devoradores estavam continuavam babando esperando o que seria feito de Rita.

 

― Não se preocupe, eu não vou matar você, apesar de você não ter me ouvido. ― disse Violeta, correndo a língua pelos lábios para não perder nenhuma gota de sangue. Ela ainda abaixou a boca sobre o ferimento de Rita e começou a lamber a ferida que continuava jorrando sangue.

 

Rita podia sentir a dor infernal se espalhando para além do ombro enquanto se tremia, ela sabia que seria só questão de tempo para ela se tornar um deles.

 

― Mamãe! ― Nicolas gritou saindo do quarto. O garoto tinha ouvido o grito da mãe e conseguiu girar a maçaneta para liberar a porta.

 

― Filho, não venha aqui! Não venha! ― gritou Rita girando o pescoço de lado vendo o filho se aproximando. O garoto nem cultivo tinha, ele viraria apenas carne para os famintos devoradores que ao verem-no, se animaram imediatamente.

 

― Oh, que pena. É o seu filho? Se você tivesse me escutado antes, agora eu poderia poupá-lo, mas você não me ouviu. ― disse Violeta ironicamente e virou a mulher para ficar de frente com o garoto que continuava avançando para além do corredor.

 

― Poupe meu filho! Poupe meu filho! Por favor! Ele é apenas uma criança! ― Rita se desesperou, esquecendo toda a dor que a transformação estava causando nela. Sua cabeça estava começando a doer terrivelmente, mas ainda ela não deixou de implorar.

 

― Mamãe! ― Nicolas gritou de novo e continuou avançando, como se estivesse pronto para pular diante de todos e salvar a sua mãe da cruel mulher ruiva que não a soltava.

 

― Filho, não! Não venha aqui! Não! ― Rita gritou alto e desesperada. Seu coração de mãe explodia em preocupação.

 

A cena seguinte foi tão cruel que Rita ficou paralisada: Nicolas cruzou a barreira e tentou agarrar o vestido da mãe. Vários vultos correram avançando, e o garoto foi pego pelas mãos nojentas de vários devoradores, sendo levantado no ar e estraçalhado, causando uma pequena chuva de sangue. Pernas, braços e outras partes foram arrancadas sem piedade. Ele até gritou pela mãe em meio a dor, mas foi tão rápido que não houve tempo para a assimilação. O que sobrou foram partes rasgadas, sendo comidas apressadamente pelos devoradores que se aglomeraram em volta. As roupas do garoto ficaram em fiapos jogadas no chão, completamente sujas de sangue. Até a cabeça do menino estava sendo comida ferozmente por um dos devoradores.

 

Rita ficou ali estagnada, enquanto lágrimas silenciosas corriam de seus olhos. Ela não conseguiu proteger seu filho, mesmo dando sua vida:

 

― Que peninha. Uma criança tão bonita, transformada em um lanchinho para estes malvados homens. ― disse Violeta ironicamente.

 

― Me mate...! ― implorou Rita.

 

― Matar você? Não, querida, eu não irei. Como eu disse, você é importante para mim agora. ― disse Violeta.

 

Rita tentou lutar por um tempo enquanto seus olhos cristalizavam, ela sentia uma dor absurda em sua cabeça. Não teve jeito. Sua mente foi tomada e ela apagou nos braços de Violeta. Em poucos segundos, ela despertou já transformada e Violeta a soltou. Rita ficou de pé por um tempo, assimilando as novas ideias de sua nova pessoa.

 

― Bem vinda ao exercito de Cristalandio, querida. Agora, me diga o seu nome. ― perguntou Violeta.

 

― Eu me chamo Rita, senhora líder. ― disse Rita educadamente, se virando para Violeta. Agora Rita não tinha mais os sentimentos de perda, ela era agora uma devoradora sem sentimentos amorosos.

 

― Pode me contar os segredos dessa barreira? Eu gostaria de saber, quem a fez para você?

 

― Sim, posso. Foi um homem chamado Rael, que se dizia ser de outro mundo e...

 

_____________________________________________________________________________

 

 

 

Quando Rael voltou naquela noite, suas esposas ainda estavam acordadas e preocupadas. Depois de algumas explicações sobre estar tomando um remédio que melhoraria seu estado mais rápido, os ânimos foram esfriados.

 

Na manhã seguinte, Rael despertou sentindo uma suavidade quente em seu peitoral. Mara estava nua, dormindo com os seios por cima de Rael. Rael ficou olhando aquela bela mulher nua por alguns instantes. Ela estava cansada depois da longa noite que tiveram. Eles nem se vestiram, dormindo logo em seguida, depois da pequena festa.

 

Rael também sentiu seu braço direito envolvido pelo corpo quente ao seu lado. Natalia também estava completamente nua, com aquela pele branca macia e perfumada. Ela estava de lado, agarrada ao braço de Rael. A mão de Rael beirava a região especial da moça, se Rael movesse os dedos, poderia tocar nela. Rael se virou e ficou apenas parado, olhando o teto.

 

Rael ficou pensando no quanto sua vida havia mudado desde o início. Os planos de matar Mara sumiram. Em vez de só salvar sua irmã de criação Natalia, acabou se casando com ela, transformando o que deveria ser apenas uma proteção em algo sério. Sua sogra e seu tio acabaram se tornando aliados importantes. Rael que tinha planos de destruir completamente o clã, agora já não pensava mais assim, ele só queria punir os homens que o mataram e seus pais, o resto ele pensaria depois, inclusive em como libertar os escravos.

 

Mara se moveu, falando alguma coisa incompreensível enquanto dormia e virou a cabeça de lado. Rael riu observando sua linda mulher em seu peito com os cabelos bagunçados. Rael não se importou de ficar um tempo ali apenas curtindo o toque macio e perfumado dos corpos de suas esposas enquanto via o Sol nascendo pelas brechas da janela.

 

 

_____________________________________________________________________________
 

 

Como Rael mesmo tinha se preparado, ele usou um dos quartos para cultivar naquela manhã. Ele estava decidido a avançar com urgência para o oitavo reino, ele queria fazer isso antes que Alexia voltasse.

 

Depois do almoço, ele foi para a Caverna do Céu da residência de sua sogra e se encontrou com Rayger e Neide, como tinham marcado:

 

― O que o genro vai querer dessa vez? ― perguntou Neide.

 

― Tio Rayger, você já está preparando tudo pra mim? ― perguntou Rael para o mesmo.

 

― Retirando Reges, que eu não posso tomar controle, consegui fazer todos os outros quatro citados por você emparelharem seus turnos. Uma vez por semana, à noite, eles estarão reunidos trabalhando sobre a muralha. ― explicou Rayger.

 

― Isso é maravilhoso! Quando eu me recuperar e alcançar o reino oito darei a ordem para você iniciar os planos. Eu mesmo quero me vingar do que eles fizeram comigo naquela noite. ― disse Rael com um olhar frio.

 

Neide e Rayger ficaram em silêncio, pensando se seria só esse o motivo de Rael os reunir:

 

 

― Tio, você primeiro, já que está três níveis atrás de Neide. Eu vou preparar seu corpo, liberar os pontos de poder e curar suas raízes espirituais. É hora de ajudar vocês para alcançarem o limite! ― disse Rael, surpreendendo os dois. Eles nunca pediriam isso a Rael, mas se o mesmo estava oferecendo tal suporte, eles não teriam como recusar.




O site Central de Mangás é gratuito e sempre será!

Para colaborar com a existencia do site, por favor,
desative o bloqueador de anúncios.