O Herdeiro do Mundo

162 - Dois Simples Pedidos

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

Violeta mantinha o tempo inteiro o rosto inexpressivo e os braços cruzados, correndo os olhos por cada um presente. Já Rael, mantinha uma expressão mais séria e as vezes ele sorria, mas ficava claro que havia um toque de ironia junto com o sorriso

― Jovem mestre Samuel, é uma honra revê-lo! Mas eu sinto dizer, não sei do que está falando. ― respondeu o patriarca em seguida.

― Como o senhor não sabe? Eu estou até mesmo agradecendo… Será que o senhor está tentando fazer pouco de mim? ― perguntou Rael.

― É claro que não, jovem mestre Samuel. Como eu ousaria? Eu jamais iria ofender o senhor. ― disse Arthur, que já estava vermelho. Ele tinha lançado seus sentidos em Violeta, mas não conseguiu sentir o poder dela, o que indicava que ela era mais forte que um décimo terceiro reino. O patriarca não era burro, ele percebeu quais eram as intenções de Rael.

― Se o patriarca diz, então vou acreditar. E esse aqui, quem é? ― perguntou Rael, dirigindo a visão para o jovem Alexandre.

― Este é Alexandre, o meu único filho homem. ― disse o patriarca sem entrar em detalhes. Alexandre que já tinha notado toda a situação, deu um sorriso sem graça para Rael e não disse uma palavra sequer. Ele não sabia bem o que ocorria, então era melhor manter a boca fechada. Se o pai e o elder estavam com medo, havia algo de errado ali.

― Seu filho? Bem que eu reparei na semelhança. Ambos tentam se fazer de lesados. ― disse Rael, provocando-o abertamente.

Se Rael tivesse dito isso da última vez que esteve no clã Sangnos, o patriarca não teria se segurado. Mas, com Violeta por perto, ele só podia manter-se sem graça, com um sorriso pateta, uma cara de quem estava aceitando a brincadeira.

― Sabe porque eu vim visitar você hoje, Arthur? Eu ouvir dizer que você estava tentando forçar minha discípula a entrar no seu clã. Será que você tem algum problema comigo, porque eu sei que ela te disse que era minha discípula, ou será que o senhor se fez de lesado, como fez desde que eu cheguei aqui? ― perguntou Rael.

― Não era minha intenção forçá-la, eu só estava preocupado com ela. ― defendeu-se o patriarca mantendo um sorriso amarelo e um tom manso.

― Preocupado, você diz? Ela passou vários anos doente, e você nunca pensou em mover um só dedo para ajudá-la, agora você quer me dizer que estava preocupado? Por que patriarca continua a brincar com minha cara? ― perguntou Rael friamente.

― Jovem mestre, perdoe se eu o ofendi. Quanto a isso, tínhamos Thais, a irmã dela que fazia parte do clã, achamos que ela poderia fazer também. ― disse o patriarca.

― Jovem mestre Samuel, perdoe nosso patriarca. Ele só tinha as melhores intenções. ― disse o elder Ariel.

― Sei muito bem as intenções que ele tinha. E é melhor você se manter em silêncio, Ariel, porque sua filha aprontou comigo da última vez. Não é mesmo, Samara? ― perguntou Rael se virando para a mulher, que até aquele momento estava de canto. Ela estava pensando em sair antes, mas ficou com medo de ser percebida e ter a atenção chamada por Rael.

―Samuel, eu…

― Oh, você vai dizer que não sabe do que estou falando também, Samara? ― perguntou Rael, encarando-a firme. Samara não conseguia olhar nos olhos de Rael, ela ficava desviando o foco, olhando para os lados ou para o chão. Ela entendeu que Rael percebeu o que rolou naquela noite, e por isso tinha ficado com medo.

― Hoje eu vim com tanta vontade de conversar e vocês estão todos tão acanhados. Isso me deixa extremamente triste ― disse Rael olhando cada um deles.

― Sabe, Samara, eu fiquei bem triste quando você me mostrou sua verdadeira face, achando que eu estava sob o efeito do seu chá de erva Ilusa. ― disse Rael e moça arregalou os olhos, encarando Rael de volta com um ar chocado: ― Você pensou mesmo que eu tinha entrado em seu controle? Que depois eu esqueceria de tudo o que você me disse? Você me mostrou sua real face e tenho que te dizer: você é extremamente feia. Essa sua casca bonita esconde um coração podre, caindo aos pedaços.

Todos ficaram em silêncio, cada vez mais assustados. Rael não estava simplesmente jogando indiretas, ele parecia mesmo estar a par de tudo que rolou.

― Bom, é o seguinte, eu me cansei desse jogo. ― disse Rael friamente ficando bem sério: ― Tudo que vocês fizeram já me ofendeu o suficiente para pedir que minha mestra destrua todo esse clã e mate cada um de vocês. Tentaram dominar minha mente, tentaram me matar e, ainda por cima, queriam descobrir os segredos da minha mestra. Somando todos esses pontos, vocês não ofenderam somente a mim, ofenderam a ela também.

― Jovem mestre Samuel, nós não mandamos te matar, e naquele dia, só estávamos conversando. Não estávamos tentando tomar nenhum segredo. Nós não somos esse tipo de clã. ― disse o patriarca que, a cada momento, ficava mais vermelho.

― Então você vai me irritar mais ainda e continuar com essa negação fútil? Além de tudo que eu disse, você também é um mentiroso, patriarca? Você me dá sua palavra que não tentou fazer nenhuma das coisas que eu acabei de mencionar? ― perguntou Rael.

― Sim, nós não tentamos! Tem minha palavra! ― disse o patriarca rapidamente.

― Nesse caso, o senhor não se importará de provar do mesmo remédio que me fizeram tomar da última vez, não? Eu trouxe um chá com Ervas Ilusas, e com o álcool já misturado. Se depois que tomá-lo você me responder as mesmas coisas de agora, então eu pedirei desculpas e partirei. Mas se você me disser algo que não deveria, eu pedirei a minha mestra para destruir todo esse lugar e não sobrará pedra por pedra! ― disse Rael.

Violeta retirou um bule do bracelete e um cheiro já conhecido por eles surgiu, era de fato o chá que Samara ofereceu a Rael. Se o patriarca tomasse dele, então ele falaria até pelos cotovelos.

― E aqui está o chá. ― disse Rael pegando cuidadosamente o bule das mãos de Violeta. Ele se virou e deixou que todos vissem.

― O cheiro parece bem agradável, e foi feito pela minha própria mestra. Então, com certeza, não haverá nenhum erro.

O patriarca empalideceu. Ele começou a suar e a se tremer. Se ele tomasse aquilo, o clã não teria mais salvação. Se a mestra de Rael decidisse atacar, eles não teriam a força necessária para segurar um monstro daqueles.

― Jovem mestre, você não pode estar falando sério… ― disse o patriarca.

― Não estou? Por um acaso, você tem algo a confessar? Como eu sou uma pessoa bem generosa, irei dar uma última chance a você, patriarca. Se você confessar agora toda a verdade do que tentou fazer comigo e admitir a culpa, eu não vou obrigar a tomar o chá, nem mesmo pedirei que a minha mestra destrua esse clã. Eu farei um acordo com você, que tenho certeza que será bem melhor, o que me diz? Vai confessar ou tomar o chá? ― perguntou Rael, mostrando o bule e levantando as sobrancelhas como um sinal de aviso.

Rael estava claramente o fazendo de bobo. O patriarca tinha acabado de dar a palavra e agora teria que voltar atrás, aquilo não deixou ele nem um pouco feliz.

A sorte do patriarca é que estava cercado apenas de pessoas de sua extrema confiança, mas ainda assim aquilo era uma situação humilhante. Ele prometeu do fundo do seu coração que, assim que pudesse, daria o troco.

― Você está certo, jovem mestre. Eu, da última vez, me senti ofendido pela forma que agiu comigo e mandei aquele homem atrás de você. ― disse o patriarca, como se aquilo fosse a única coisa que ele precisava confessar.

― Eu ouvi bem o que disse? De tudo que eu citei, você está admitindo apenas isso? Vamos lá, homem, tem mais coisas que você precisa me dizer! ― disse Rael e balançou o bule na frente do patriarca, lembrando-o do inevitável.

Arthur suava frio de raiva, de constrangimento, e de vergonha. Ele nunca tinha sido feito de bobo diante dos seus por um rapaz como Rael, mas todas as vezes que ele pensava em atacar Rael e deixar sua raiva tomar conta, ele se lembrava da mestra sensual atrás de Rael, que mantinha um olho bem largo sobre ele.

Samara, Ariel e Alexandre continuavam atordoados, sem ousar fazer nada. Nenhum deles poderia fazer nada que ajudasse seu patriarca. Naquele momento, Rael podia deitar e rolar sobre eles, Violeta não era alguém que eles ousariam ofender.

― Sim, você está certo. Eu queria mesmo tirar informações de você e mandei meu elder dar a ordem para Samara usar o chá em você. ― o patriarca admitiu outro ponto e voltou a ficar em silêncio.

― Oh, sério? Você também mandou sua filha se arrumar e Samara também, não? O que queria com aquilo? Queria servi-las para mim de bandeja? ― perguntou Rael mantendo um ar irônico. Arthur continuava tremendo, Rael estava deixando ele cada vez mais envergonhado.

― Sim, eu pretendia casá-las com você, para unificar os poderes entre nossos clãs. Mas isso era para uma causa que ajudasse a ambos.

― Bom, a sua filha não sei dizer, mas eu jamais me casaria com essa coisa depois de ver quem ela é de verdade. ― disse Rael, olhando com nojo para Samara mais uma vez. A mulher afundou o olhar deprimido sobre os pés. Ela também não podia fazer nada a não ser ouvir aquilo e ficar quieta. O pai dela ao lado, continuou sem nenhuma expressão, mas por dentro ele ofendeu Rael até a alma e jurou fazê-lo pagar por constranger sua filha, que era tão obediente para ele.

― Parece que você foi bonzinho, patriarca, e me disse a verdade. Então não precisarei mais disso. ― disse Rael se virando e devolvendo o chá a sua mestra, que o fez sumir nas mãos, armazenando em seu bracelete.

― Contudo, vocês ainda me ofenderam muito. Eu simplesmente não posso deixar passar isso tão facilmente. Eu poderia ter vindo aqui com minha sogra e meu sogro, mas preferi vir com a minha mestra, e sabem o porquê? Porque eu não queria que o clã Torres visse a vergonha que o patriarca do clã Sangnos é, seria feio demais deixar eles saberem isso. Se tal notícia se espalhasse, o patriarca e todos vocês virariam motivos de risadas em meu clã. Eu pessoalmente não iria querer uma coisa dessas.

Ninguém entendeu porque Rael estava dizendo aquilo, mas Rael estava certo, se alguém do clã soubesse seria bem desastroso.

― Jovem mestre Samuel, o que quer dizer? ― perguntou Arthur, mantendo sempre um tom manso.

― Quero dizer que, é melhor que essa conversa entre nós nunca tenha existido, e que ela não sairá dessas paredes. Eu estou tão envergonhado do senhor e de vocês que prefiro nunca ser lembrado disso. Minha mestra e eu vamos poupá-los e esquecer todo o resto, se o patriarca estiver disposto a manter a boca fechada e obedecer alguns simples pedidos meus, é claro. ― disse Rael.

Manter a boca fechada era na verdade uma vantagem para Arthur, que não iria gostar que outros soubessem que ele não tinha palavra e que tentou mesmo fazer todos aqueles atos malignos contra Rael. Na realidade, Rael estava fazendo aquilo para que ele nunca mencionasse a alguém que foi ameaçado pela mestra de Rael, assim, o clã Torres nunca ligaria os fatos para contar sobre a fraqueza de sua mestra.

― O jovem mestre é benevolente. Eu certamente irei me lembrar de guardar para o resto da vida esse dia tão vergonhoso. ― disse o patriarca aliviado.

― Oh, sim… O senhor deu sua palavra e eu fiz você cuspir toda ela, não? Não seja por isso, guardaremos esse segredo também, é claro. Eu não quero causar uma guerra entre os clãs. Se minha sogra descobre isso, eu não ia consegui segurá-la. Em todo caso, desde que o patriarca esteja disposto a cumprir alguns pedidos meus, tudo ficará bem. ― disse Rael, mostrando um sorriso mais comum.

― E quais seriam esses pedidos? ― perguntou Arthur um pouco receoso.

― São bem simples. Primeiro, o senhor me pagará cem mil moedas de ouro como desculpas por tudo que fez a mim. Sei que esse valor para o senhor não é nada, considerando toda a fortuna que um clã desses pode ter. O segundo pedido é ainda mais simples: Há anos atrás, você aprontou contra a família Alencar, roubou a propriedade deles, a fazenda e a caverna de mineração. Ainda por cima, tomou parte dessa família de escrava. Eu quero que você me traga aqui todas as mulheres que você tomou dessa família. Se elas estiverem machucadas fisicamente, como braço arrancando, alguma marca profunda qualquer coisa, você me dará cem mil moedas de ouro adicional por cada uma que esteja assim. Se alguma delas estiver morta, então serão duzentas mil moedas de ouro adicional. Darei os nomes para que você não imagine que eu não saiba do que estou falando: As filhas Janaina, Jane e Joise, e a mãe Joana.

Quando Rael disse aquilo, Alexandre começou a se tremer. Três daquelas mulheres eram escravas sexuais dele, elas não tinham defeitos físicos e ele as tratava bem porque eram belas, mas se Rael descobrisse que elas eram objetos sexuais dele, talvez não achasse aquilo nem um pouco bom.

― E então, patriarca? Porque estão aqui parados? Vão imediatamente cumprir os meus pedidos! Eu darei um tempo de alguns minutos para que você possa cumprir. Minha mestra e eu ficaremos aqui, esperando. Samara e seu filho Alexandre ficarão conosco, para assegurar que vocês não farão nenhuma merda. ― disse Rael.

O patriarca e Ariel se olharam. Ambos saíram apressados em seguida para cumprir o pedido de Rael.

Não demorou nem quinze minutos e os dois estavam de volta, trazendo quatro mulheres. Todas tinham expressões de serem adultas, mas não tinham o cultivo avançado. A mais forte era a mãe, uma cultivadora do quinto reino. Todas se mantinham de cabeça baixa.

Rael conferiu os corpos dela. As mais novas estavam bem vestidas para serem apenas escravas, enquanto a mãe estava usando roupas de faxineira:

― Isso parece estranho. Elas estão em bom estado, mas porque será que acho isso bem confuso? ― perguntou Rael com um ar curioso.

― Aqui estão as cem mil moedas de ouro ― disse o patriarca, fazendo surgir um imenso baú de madeira, ele se agachou e deitou ele na frente de Rael.

Mesmo que Rael perguntasse a elas o porquê estavam bem, elas não iriam responder por causa dos efeitos da escravidão. A única coisa que restava fazer era libertá-las e perguntar isso depois.

― Mestra, fique de olho neles. Eu levarei essas mulheres para verificar marcas físicas no corpo por de baixo da roupa. Vocês todas, venham comigo agora! ― disse Rael puxando a mãe pelo braço, e as outras seguiram Rael de cabeça baixa. Ele entrou numa porta ao lado esperando que fosse uma sala reservada e acabou saindo em um corredor, mas não havia ninguém,nem um guarda sequer.

― Aqui serve. O que faremos não demorará mais do que cinco minutos. ― disse Rael fechando a porta atrás assim que todas saíram. Elas se mantinham o tempo inteiro de cabeça baixa e com medo, estavam muito assustadas, imaginando o porquê de serem reunidas.

Três delas eram servas de Alexandre, e a mãe trabalhava na casa do elder Ariel:

― Sabe. Por que eu mandei reunir vocês? Porque eu conheci a família de vocês e soube da verdadeira história. Eu soube do que esse patriarca crápula fez com a família de vocês. Conheci Janete e o senhor Alencar em uma situação não muito confortável, mas eles se tornaram meus amigos e eu decidi que iria reunir a família deles novamente. Por isso estou aqui, eu vim libertar vocês e tirar todas desse lugar. ― disse Rael bem sério.

Todas as quatro mulheres, pela primeira vez, levantaram suas visões chocadas para o jovem homem à frente. Elas ouviram muito bem nomes que nunca mais achariam que seriam capazes de ouvir em sua vida.

― Vamos começar? Eu preciso que façam uma coisa para mim para que possam ser libertas. Vocês devem se sentar e prender a respiração…

No corredor, Rael começou os preparos para libertar as mulheres. Lá dentro, os outros continuavam em silêncio, olhando Violeta. Alexandre estava suando frio e rezando para Rael não descobrir. Rael não ia pedir aquelas mulheres se as mesmas não tivessem nenhum valor para ele, então ele só podia imaginar que Rael tinha alguma ligação com elas, ou com alguma delas.




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