O Herdeiro do Mundo

156 - Pacto de Sangue

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

Alexia terminou de descer as escadas, ficando mais próxima de Neide. Neide obviamente percebeu no mesmo instante que aquela pequena menina não era pouca coisa, ela passava a impressão de ser um simples reino um, mas havia algo em seu olhar, em sua maneira de falar e principalmente em seu corpo. Neide não conseguia dizer se ela estava nervosa ou não, ela não conseguia ver ou sentir as batidas do coração de Alexia. Isso era um poder simples da leitura de um décimo terceiro reino.

                Alexia se admirou com Neide porque ela era uma simples cultivadora do mundo pequeno, mas ainda assim era bem poderosa. Por Alexia não poder ler a mente dela, ela não sabia se podia confiar. Mas ela viu através de Rael a amizade que os dois tinham formado e dessa forma sentiu que deveria dar uma chance a ela.

― Quem seria você? ― perguntou Neide tomando cuidado nas palavras. Neide e Rayger nunca ofendiam ninguém, mesmo se a pessoa fosse pouca coisa. Mas o caso ali era diferente, a pequena garotinha não parecia tão simples quanto passava a impressão.

― Rael confia em você, é natural que eu também irei confiar. De todo modo, sua filha pretendia contar sobre mim na primeira chance que tivesse. ― acrescentou Alexia. Mara ficou um tanto quanto sem graça, nada escapava da mente de Alexia. Diferente de Rika que só podia ler a mente de alguém ao matar, Alexia podia ler usando seu poder, mas não funciona em cultivadores do décimo segundo reino acima. Por outro lado, Rika poderia tomar qualquer lembrança matando alguém com sua habilidade Memórias Finais, mesmo que fosse um cultivador no décimo terceiro reino.

― Porque eu ouvi dizer que você seria a futura esposa dele? Você é outra Celestial? ― perguntou Neide.

― Não. Eu sou algo muito maior que simples Celestiais. ― disse Alexia em um tom bem sério. Rael estava deixando as coisas rolarem tranquilamente, todos naquela sala eram de sua confiança. Assim como Mara e Natalia, Neide já tinha provado ser uma pessoa leal.

― Você, com certeza, não está apenas no reino um. ― disse Neide.

― Eu só estou usando o poder dessa garota como uma barreira pra esconder meu real poder. Eu sou muito mais poderosa que uma Violadora. Eu vou dizer o que sou, mas espero nunca me arrepender de contar isso a você, mulher. Eu sou um dragão, me chamo Alexia Zariel Quinze, sou a última de minha espécie. Troquei de corpo para com o dessa garota para poder me aproximar do herdeiro e, assim, poder continuar minha espécie. ― disse Alexia, deixando Neide pálida.

                As histórias dos dragões não eram muito bonitas, eles eram vistos como assassinos e destruidores de mundos. O sangue que o marido dela conseguiu, foi deixado pelo próprio pai “antigo patriarca do clã Torres” que conseguiu tirar da besta morta que caiu do universo. Só a queda da besta suprema deixou uma cratera que até hoje existe no continente Sul. O pai de Rayger já falecido hoje, na época não era páreo para enfrentar um dragão, ninguém ali no mundo pequeno era. Neide se encheu de medo, porque agora Rael poderia estar nas mãos de algo muito perigoso. Ela não duvidou de nenhuma palavra de Alexia, isso porque ela também olhou para a filha e a mesma ficou em silêncio e de cabeça baixa, como se tentasse dizer que realmente não tinha jeito.

― Neide, não se preocupe. Ela não é má, não vai atrapalhar minha vida e nem ferir as pessoas que estão comigo. Ela só quer se proteger. ― explicou Rael que entendeu aquele olhar aflito de Neide.

― Nesse mundo não existe ninguém capaz de me enfrentar. Mas vou deixar bem claro que além das pessoas presentes aqui e, no máximo, seu marido, eu não quero que ninguém mais saiba sobre minha identidade. Isso é um pedido muito simples para o voto de confiança que dei em contar o meu segredo. Eu estou mesmo considerando todas vocês três minhas amigas, e vou ficar muito ofendida se vocês tentarem agir pelas minhas costas apenas por terem ouvido histórias sobre o que minha espécie fez no passado. Eu sei que não fomos santos, mas nem todos queriam que as coisas tivessem ocorrido daquela maneira. ― explicou Alexia.

                Neide não sabia o que dizer, e isso a fez olhar para Rael. Rael estava com uma cara muito boa. Ele não era alguém que se encheria de medo e se rebaixaria para outro, mesmo que este fosse muito perigoso. Por isso, Neide percebeu que ele não estava sendo forçado, “pelo menos, não agora”.

― Eu nunca pensei que dragões ainda existissem, e que ainda por cima poderiam tomar forma humana.

― Nós não tomamos formas humanas, nós trocamos de corpo. O meu verdadeiro corpo se encontra em um estado congelado em outra dimensão, inacessível para vocês. Caso eu venha a ter problemas com esse corpo, então eu posso voltar ao meu. ― disse Alexia.

― Se meu genro confia em você, então eu também confiarei ― disse Neide no instante seguinte. O olhar de Neide não vacilava enquanto encarava Alexia. A Soberana percebeu isso e gostou na mesma hora de Neide. Porque apesar dela mostrar um enorme espanto, assim que teve certeza que Rael a aceitou, ela também fez seu movimento, mostrando que também estava disposta a aceitar.

― Mulher, você já é muito forte e tem a liberação do fogo. Você também já protegeu Rael anteriormente, saiba que ele é muito importante para mim agora. Eu nem sempre estarei presente perto dele e por isso sua força pode ser necessária. Faça um pacto de sangue comigo e eu aumentarei seu poder. Você está atualmente no décimo terceiro reino nível dois, eu farei com que você avance para o nível cinco. Eu também farei um registro que permitirá que você use o poder dos meus ancestrais, o que vai aumentar muito mais o poder de seus ataques de fogo, podendo ter um aumento de até 50%. ― disse Alexia.

                Neide, ao ouvir aquilo, ficou atônica. Ter três níveis aumentados e ainda receber um aumento tão extraordinário em seu elemento fogo, não seria pouca coisa.

                O Pacto de sangue era um tipo de acordo selado com a vida em jogo e podia ser criado por cultivadores acima do décimo segundo reino. Dentro desse pacto, as duas partes faziam promessas escritas em um pergaminho especial, essas promessas não poderiam ser nunca quebradas ou a pessoa pagaria com a vida. O pergaminho era marcado com sangue de ambas as partes quando finalizavam as promessas. Depois o pergaminho era mergulhado em um espaço especial, fora do alcance de qualquer parte. Nem mesmo Alexia poderia pegar o pergaminho de volta.

                Se Neide não era a cultivadora comum mais poderosa do continente Sul, agora ela poderia se tornar, era uma proposta muito tentadora.

― E que promessas faríamos? ― perguntou Neide.

― Você fará três promessas: Primeiro irá prometer que nunca irá me trair, segundo irá prometer que nunca irá trair Rael e, por último, você irá prometer que sempre irá proteger Rael na medida do possível. ― disse Alexia.

                Quando Rael ouviu aquilo ele ficou curioso. Porque ele mesmo apesar de confiar em Neide, no fundo não tinha total certeza se estava mesmo fazendo a coisa certa, e aquele tal Pacto de Sangue parecia ser algo que nenhuma delas poderia quebrar. Então, se Neide fizesse tal pacto, ela nunca iria trair Rael. Se Neide estivesse mesmo do lado de Rael, aquilo era muito simples de ser prometido, mas a questão é que também envolvia não trair Alexia. Então por esse lado Rael teve suas dúvidas.

― E suas promessas, quais serão? ― perguntou Neide.

― Eu irei prometer que nunca irei trair Rael, prometerei também que não vou destruir este mundo. ― disse ela.

                Colocando tudo dessa forma, Rael agora teria duas certezas: Uma era Neide e a outra era Alexia. Se o tal Pacto fosse levado a frente, então aquelas duas seriam de completa confiança para Rael.

― Muito bem, eu aceito. Devo criar o pergaminho do Pacto, ou você mesma cria? ― perguntou Neide. Aquilo chocou todos, porque ela não pareceu pensar muito no assunto. Isso provou a Rael que Neide sempre o apoiou de coração.

                Por outro lado, também tinha o lado de Neide. Se Alexia prometesse que não trairia Rael nem destruiria esse mundo, para ela já seria um enorme alivio, porque colocando dessa forma, Alexia seria mesmo uma aliada. Igual as Violadoras, Neide também queria ter certeza sobre ela.

― Pode criar você mesma. ― disse Alexia, permitindo que a própria Neide fizesse o pergaminho.

                Neide fechou os olhos e se concentrou em seu poder das leis enquanto mantinha a palma da mão direita voltada para cima. Várias linhas de energia branca surgiram, essas linhas pareciam estar escrevendo um espaço acima da mão dela e, aos poucos, um pergaminho brilhante foi aparecendo. Ele era meio cinza no meio e nas beiradas tinham formações escuras cheia de triângulos azuis brilhantes. Essas beiradas ficavam brilhando intensamente, mostrando que era um pergaminho cheio de poder.

― Você pode conferir. ― Neide passou o pergaminho para Alexia, que o segurou nas duas mãos e conferiu com calma.

― Está perfeito, podemos usar esse mesmo. ― disse ela.

                Rael e as meninas estavam em silêncio, assistindo a tudo. Mesmo Rael tendo tanto conhecimento, ele não sabia nada sobre esse Pacto de Sangue. E as meninas muito menos, nem mesmo Mara conhecia qualquer coisa sobre o assunto.

                As duas ficaram em pé ali mesmo, cada uma segurou o pergaminho e fez as promessas combinadas. Enquanto elas prometiam, o pergaminho sozinho criava as linhas, formando as frases das promessas, que eram divididas em uma linha meio da folha, sendo a parte de cima de Alexia e a de baixo, de Neide.

― Eu, Alexia Zariel Quinze, prometo que cumprirei todas as promessas que fiz, e se eu não cumprir, eu devo pagar com a vida! ― disse Alexia. Ela mordeu levemente o dedo, deixando um pouco de sangue fluir e marcou o seu lado do pergaminho com o próprio sangue. Depois, Neide fez o mesmo, prometendo também a própria vida e selando com seu sangue.

                Em seguida, as duas seguraram juntas o pergaminho, e recitaram um rápido encanto em uma língua que Rael e as meninas não entendiam.Depois, lançaram juntas o pergaminho para cima, que praticamente evaporou, sumindo do nada. As meninas e Rael continuaram em silêncio.

― Está feito, mulher.Agora posso dizer que você é minha amiga também. ― disse Alexia sorrindo.

― Bom saber que você realmente não irá trair meu genro. ― disse Neide. Para Neide, aquilo foi feito para proteger Rael. Ela queria assegurar a segurança dele.

                Para Alexia, que já tinha em mente nunca trair Rael, aquela foi uma jogada dela para provar a Rael definitivamente que ela nunca o trairia. Mas também foi para ter certeza que Neide era afinal uma pessoa de confiança, já que ela não podia ler a mente da mesma. Aquilo praticamente estava sendo um bom negócio para todos.

                E para Rael, aquilo sanou todas as dúvidas que ele poderia ter sobre aquelas duas. Colocando dessa forma, ele não precisava mais esconder nenhum segredo para ninguém ali presente, as duas eram tão confiáveis quanto Violeta.

― Mulher, eu vou cumprir o que prometi agora. Venha. ― disse Alexia, empurrando Neide sutilmente para um espaço vazio longe de móveis.

                Assim aconteceu. Neide obedeceu, e o corpo flutuou como as meninas antes. Mesmo passando pela mesma dor que todos passaram, ela não gritou e não fez nenhuma expressão difícil. Quando ela pousou de volta ao chão, ela não caiu, ficou em pé sem problemas, mas as pernas dela ainda tremiam levemente e seu corpo soltava uma leve fumaça.

― Estou mesmo no nível cinco. Eu levaria tantos anos para alcançar esse poder. ― disse Neide, analisando o próprio corpo. Até a forma dela falar era normal, o que fez Rael e as meninas pensarem que ela não tinha sentido nenhum tipo de dor.

― Sua maior recompensa não foi essa, mulher. Foi o fogo. Quando você usar esse poder saberá do que estou falando. ― disse Alexia.

― Mãe, parabéns! Ela também deixou minha prima e eu no oitavo reino nível cinco. ― disse Mara, mostrando um enorme sorriso. Mara ficou muito satisfeita em ver a mãe crescer, ultimamente sua mãe não estava tendo muito tempo para cultivar por estar sempre preocupada com Rael e sua filha.

― Obrigada, filha. E parabéns a vocês duas! ― disse ela olhando da filha para Natalia.

― Obrigada, senhora Neide! ― respondeu Natalia.

― Se quiser, você também pode me chamar de mãe daqui para frente. Eu já considero você como uma filha. ― disse Neide sorrindo para Natalia, que ficou até corada.

― Já terminei tudo que vim fazer aqui, agora eu preciso ir. Rael, se cuide e vocês três também. ― disse Alexia e já se virou indo embora. Ela não esperou ninguém dizer nada, apenas abriu a porta e partiu.

                Rael se virou e olhou para Neide porque sentiu que ela queria perguntar alguma coisa:

― Genro, pode me dizer como você consegue encontrar tantos seres raros assim?

                A maior questão nem era aquela, a questão maior era como que Rael sempre encontrava seres tão raros e sempre femininos.

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Reges e seus homens continuavam em busca de Isabela e seu mestre. Eles tinham pistas de sete locais que os dois usavam para treino. Três deles já tinham sido conferidos, e estavam indo para o quarto. Essas informações eram compradas na guilda “Olho Aberto”. Ela trabalhava com informações e tinham sedes em várias cidades.

― Estou sem ver minhas duas esposas a tantos dias, essa missão está se tornando um saco! ― disse um dos homens ao lado de Reges, mas estava falando com um outro. Todos os dez homens estavam em um constante voo, seguindo rápido beirando as nuvens. Pequenas cidades e vilarejos iam aos poucos ficando para trás.

― Eu estou com saudades dos meus dois filhos. Nunca demoramos tanto em uma missão como essa, estou até com vergonha. ― disse o outro homem, respondendo o primeiro.

                Reges sabia que a culpa disso era Verom, esse homem tinha separado sete locais para treinar e todos eles estavam há milhares de quilômetros de um a outro lado, praticamente localizados nas pontas do continente Sul. Verom parecia saber que um dia ele e sua discípula seriam perseguidos.

                Reges poderia parecer paciente, mas estava tão irritado quanto seus homens. Reges era um décimo segundo reino, como todos aqueles nove homens. O mestre Verom de Isabela era alguém do décimo terceiro, mas estava apenas no nível inicial.

                O clã Torres sempre tinham homens preparados para enfrentar forças maiores e, quando os encontrassem, eles apresentariam todas as cartas nas mãos. Matar um décimo terceiro reino para eles que estava em um número de dez e no décimo segundo não seria muito difícil, o que estava realmente difícil era, de fato, encontrá-los.

― Espero que essa Isabela tenha mesmo toda essa vitalidade passada pelo patriarca Arthur, porque senão eu mesmo irei acabar com aquele clã inteiro! ― disse Reges irritado.

― Não se preocupe, chefe. O nosso próprio patriarca não vai perdoar uma piada dessas. Se eles mentiram, serão destruídos. Ninguém ousaria mentir para nós. ― disse outro homem do lado.

                Eles continuavam a todo vapor, seguindo incansavelmente para o quarto ponto.

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Capitulo liberado por doação, agradeçam a: Marcos Vinicius Mota Kliemann




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