O Herdeiro do Mundo

155 - Memória Bloqueadas

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

A horrenda criatura esquelética começou a gritar e o corpo da imagem de Rael começou a ser puxado como nas memórias.

― ‘Alexia, você sabe que criatura é essa? Eu não contei nada para Violeta porque pensei que tudo pudesse ser apenas um sonho bobo.’ ― pensou Rael.

― ‘Eu nunca o vi antes, mas acredito que ele seja o Espectro Sombrio.’ ― disse Alexia com um ar pensativo, enquanto continuava assistindo. A imagem de Rael estava sendo puxada, mesmo ele tentando resistir.

― ‘E o que é exatamente ele? Outro tipo de deus? Uma existência elevada como Cristalandio?’

― ‘Ele é uma existência do Caos. Foi criado para destruir e consumir a vida. Esse tipo de criatura trabalha para alguém muito maior.’

― ‘Alguém maior? Pronto, é até ai que me lembro.’ ― disse Rael. A criatura continuava gritando e quando Rael chegou bem perto, uma rede escura como uma teia de aranha saiu da boca do monstro e envolveu todo o corpo de Rael. Essa parte ele já não lembrava. Com o corpo envolvido e preso sobre aquela teia escura de plasmas de energia, a imagem de Rael tentou lutar para fugir, mas sem nenhum sucesso. A criatura permaneceu de boca aberta, mas não estava gritando agora, ela estava começando a sugar uma energia branca do corpo de Rael que começou a surgir atravessando a rede.

― O que ele está fazendo? ― perguntou Rael um pouco assustado. Ele tinha começado a falar normal porque o monstro parou de gritar.

― Está tentando sugar sua consciência e o seu poder espiritual. ― respondeu Alexia sem nenhuma surpresa.

― Alexia, ele sugou? É por isso que eu estou com problemas com as minhas habilidades? ― perguntou Rael preocupado.

― Acalme-se. Se ele tivesse conseguido, você não estaria nem se quer conseguindo pensar agora. Como o espírito de Heitor mesmo havia dito, você seria um vazio. Um corpo vivo, porém, sem consciência alguma. ― disse Alexia, deixando Rael aliviado.

Antes da criatura saborear mesmo os primeiros fios da consciência de Rael, três velhinhos de branco em forma espiritual apareceram cheios de poder, eles estavam cercado por uma intensa aura branca. Eles eram os mesmos senhores que ajudaram Rael a criar a barreira em casa.

                Houve uma explosão de poder branca enviada pelos velhinhos e o Espectro foi arremessado alguns metros para trás. Os três cercaram Rael e removeram a rede escura. A criatura começou a gritar de novo contra todos eles. Enquanto um dos velhinhos lançava energia no peito da imagem de um Rael agora desmaiado, os outros dois atiraram outra rajada de luz branca contra o monstro, dessa vez uma bem maior. O monstro gemeu miseravelmente enquanto parava de gritar e foi arremessado vários metros para trás. Em seguida, os três velhinhos se voltaram para a imagem de Rael ainda desmaiado e o circularam dando as mãos. Eles se transformaram em um tipo de barreira cheia de símbolos e cobriram Rael como em um casulo. Essa barreira era transparente e era possível ver Rael desmaiado dentro enquanto os símbolos giravam lentamente.

                A criatura voltou ainda mais furiosa. Ela gritava, batia contra a barreira, tentava forçar sua entrada, mas não tinha nenhum resultado.

― O que aconteceu? ― perguntou Rael surpreso.

― A criatura tentou tomar sua mente, mas ela nunca pode ser tomada, e isso ativou sua ultima defesa. Aqueles são os ancestrais que servem a seu poder, assim como eu tenho os meus espíritos ancestrais divinos dos dragões.

― Eu estou desmaiado, então não deveria estar tendo acesso as essas memórias. ― disse Rael surpreso.

― Por mais estranho que pareça, você é um todo. Você não se resume apenas ao seu estado consciente. Mesmo que você não tenha visto essas coisas que ocorreram, o seu poder ainda presenciou e é por isso que estamos tendo acesso a essa visão.

― Isso é normal? Quando a gente morre vem parar nesse mundo contorcido? ― perguntou Rael preocupado. Porque passou pela cabeça dele que Rita e os pais dela poderiam estar presos nessa mesma dimensão.

― Não, isso não é normal. Essa criatura não deveria estar aqui, é por ela estar presente que o fluxo normal para de ocorrer. O fluxo natural é você morrer e seu espírito ser enviado para o Mundo Final, lá você viverá pelo resto da eternidade. Pelo menos é o que meus ancestrais dizem, mas já houve casos de renascimento.

― O que é esse mundo? ― perguntou Rael curioso.

― É um mundo onde você vive uma vida de sonhos. Se você foi uma pessoa boa então terá sonhos bons, se foi uma pessoa ruim terá sonhos ruins. Lá é um lugar solitário, mas ninguém nota devido os sonhos, elas ficam presas em seus próprios sonhos e as vezes nem mesmo percebem que estão mortas. No caso de sua Rita, ela foi uma boa menina, então deveria estar tendo um sonho que vive com os pais e com você. Ela nem deve se lembrar que morreu.

― Mas, com esse monstro aqui…Então isso não aconteceu. ― supôs Rael.

― Exato, a alma deles está vagando nesse mundo, apenas esperando a hora para serem sugados pelo Espetro, assim como os outros. Os espíritos sabem que devem fugir dessa coisa, mas uma hora ele vai conseguir pegar todos. ― disse Alexia. O monstro continuava batendo contra a barreira que não dava qualquer sinais de se romper. Cada pancada do monstro resultava em ondas negras sendo lançadas em volta.

― Existe algum meio de salvarmos Rita e seus pais? De revivê-los?

― Você acha que eu sou o quê? Eu não tenho tanto poder assim, mesmo que houvesse uma maneira, teríamos que vir de verdade a esse mundo e, se viéssemos, correríamos o risco de sermos encontrados por ele.

― Mas eu tenho essa defesa. ― disse Rael.

― Você tem, mas eu não tenho nada disso. Minha proteção é diferente da sua. E mesmo assim, o que adiantaria vim e ficar presos, assim como você está ali? ― perguntou Alexia.

― Não há nada que possamos fazer para parar esse monstro? Temos que fazer alguma coisa para o fluxo voltar ao normal. Eu já deixei minha Rita morrer, não posso deixar que ela seja sugada por essa coisa.

― Se ela for sugada por esse monstro a existência dela desaparece eternamente desse mundo. Mas não se preocupe, existe uma coisa que podemos fazer. Esse monstro está no plano espiritual, mas ele ainda tem algo que o liga o mundo físico.

― Algo que liga ao mundo físico? ― perguntou Rael surpreso.

― Pode haver duas possibilidades: A primeira é que existe uma relíquia mágica escondida no mundo real, criando a porta para esse mundo e interrompendo o fluxo natural. Se for esse o caso, só precisamos destruir a relíquia e esse monstro desaparece, libertando assim todas as pessoas que ainda estão nesse mundo, mas as que ele sugou não terá mais salvação. A segunda possibilidade é que esse monstro esteja ligado a uma pessoa viva no mundo real, se esse é o caso, essa pessoa precisa ser destruída. ― explicou Alexia.

― Mas qual é o propósito dele sugar almas? Você tinha dito que ele trabalhava para um ser maior. Seria um deus? ― perguntou Rael.

― Ele não tem poder ainda mais está se fortalecendo. Em breve ele terá poder suficiente para abrir brechas para o mundo físico e mandar suas almas sugadas fazerem o trabalho sujo, que é matar mais pessoas e aumentar o número de almas para ele sugar. Cada pessoa que morre atualmente nesse mundo é um presente para ele. Ele só tem o trabalho de perseguir, encontrar e sugar. ― explicou Alexia.

― E se não conseguimos achar essa relíquia ou a pessoa ligada a ele, o que ocorre?

― No pior cenário, o mundo físico ficará repleto de alma dos mortos caçando pessoas vivas, e o número aumentará constantemente. Chegará uma hora em que não haverá mais ninguém vivo, tendo todos sidos transformados em poder. O ser que comanda esse monstro voltará para recolher os frutos e fim.

― Isto é terrível!E eu nem estava o levando a sério. ― disse Rael preocupado.

― Não tenha medo, isso ainda vai demorar a ocorrer, é preciso muito poder para abrir brechas no mundo físico e, mesmo que ocorra, nós só precisamos fugir daqui. Existem outros mundos, você não precisa se prender a esse. ― disse Alexia.

― Outros mundos? Sim, Violeta vive dizendo sobre essa coisa de mundo pequeno, não sei o que ela quer dizer com isso. Os outros mundos são muito maiores?

― Quando ela faz essa menção, não está falando do tamanho, ela está se referindo a evolução e o poder das pessoas. Chamamos de mundo pequeno porque o cultivo desse lugar, em um modo geral, é muito fraco. Seres como as violadoras e eu estamos em outro patamar de poder, algo que vai muito além dos cultivadores desse mundo.

― E porque você veio parar aqui?

― Qual outro motivo eu teria, além de fugir? Nunca que ninguém vai olhar para um mundinho fraco como esse. Aqui estou segura.

― Se a ideia de estar segura é permanecer aqui, porque você diz em mudar de mundo?

― Porque se não houver mesmo jeito, a gente muda. ― disse Alexia.

― E como se viaja para outros mundos? É usando meu poder?

― Não, Rael. Você usa seus poderes para viajar a mundos paralelos. A lugares que, de certa maneira, nem deveriam existir, digamos assim. Os outros mundos existem sem precisar serem acessados por brechas, para ir até eles, existem duas formas: Uma delas é você ter poder suficiente para cruzar a proteção cristalizada que cerca o planeta, então você voará pelo universo até alcançar outro planeta.Mas isso é extremamente perigoso e poucos se arriscam, porque os maiores seres dominam o espaço no universo. Viajar dessa maneira é o mesmo que colocar a própria cabeça a prêmio.

― E a outra forma?

― É você criar um portal especial que liga a outro mundo. Isso exige, no entanto, um bom trabalho e algumas pessoas poderosas envolvidas na criação. Com o portal criado, basta atravessar e você estará em um novo mundo imediatamente.

― Nós temos que tentar salvar esse mundo. Tem pessoas importantes aqui que eu não quero que morram. A família de Janete sofreu tanto e só agora eu consegui ajudar eles, eu não queria arrastar eles para nenhum outro lugar. Você tem muito poder e pode facilmente descobrir essa relíquia, ou até a pessoa ligada ao Espectro, não?

― Nem mesmo em minha forma suprema e usando todos os meus sentidos eu não seria capaz de descobrir isso tão facilmente. Essa ligação é bem sutil e tem que ter uma enorme atenção para perceber ou sentir os traços dela.

― Eu tinha tantos planos em mente, e agora tenho que procurar isso! ― disse Rael irritado.

― Isso pode esperar um pouco, você não precisa sair correndo. Parece que o Espectro não desistiu de você e você ficou assim até voltar ao seu corpo. ― disse Alexia olhando a imagem de Rael dentro da barreira, o monstro continuava tentando forçar sua entrada sem nenhum êxito.

― Você já descobriu o que queria? Se não podemos procurar minha Rita, vamos voltar. Não quero mais ver essa coisa. ― disse Rael.

― Já vi sim o que queria. ― disse Alexia e fechou os olhos se concentrando.

                Em um instante, Rael abriu os olhos. Ele estava sentado no quarto com aquela pequena mão quente em seu rosto. A pequena garota em frente abriu os olhos, encarando os olhos de Rael. Os dois se olharam por alguns rápidos instantes.

― O seu bloqueio não foi feito de uma forma natural, foi feita pelos seus ancestrais. Mesmo eu não tenho poder pra desfazer algo desse porte. ― disse Alexia se levantando.

― E eu vou ficar sem minha habilidade? ― perguntou Rael.

― Tem duas formas de você desbloquear: Uma delas é entrando em contato com os ancestrais do seu poder e dando a ordem para eles desfazerem, e a outra é você esperar alguns dias. O bloqueio não é permanente e a corrente é pequena, o que pode indicar alguns poucos dias. Talvez eles só queriam deixar um pequeno aviso a você e fizeram isso, ou acharam que era necessário e que você não conseguia controlar seu poder ainda muito bem, o que é a opção mais natural.

― Conversar com eles? ― perguntou Rael.

― Nesse mundo ninguém pode controlar você, Rael, nem mesmo seus ancestrais. Se você convocá-los, pode ordenar que retirem o bloqueio imediatamente.

― Então me ajude a invocá-los, eu não quero ficar sem minha habilidade. ― disse Rael.

― Nesse momento você ainda não pode por causa do desgaste do seu corpo, terá que ter um pouco de paciência. Se você parar de usar sua Essência Demoníaca por um tempo irá se recuperar muito mais rápido. ― disse Alexia. Em seguida, ela se agachou, tocou a mão no chão e todas as linhas formando os símbolos desapareceram, deixando chão completamente limpo novamente.

                Rael ficou parado, imaginando o que iria fazer na vida se tivesse problemas. Sem a habilidade Espaço Ilusório, ele com certeza teria problemas contra inimigos mais poderosos, isso sem esquecer o fato de que não podia aumentar seus poderes usando a Essência Demoníaca.

― É só você parar por alguns dias em casa. Como as suas esposas estão seguras aqui, você também estará. ― disse Alexia.

― E o que você vai fazer agora?

― Eu vou voltar. Eu ainda tenho promessas a cumprir com essa menina, algo que se refere a mãe dela.Meu corpo ainda não está cem por cento, então não posso te acompanhar por enquanto. ― disse ela.

― Tudo bem. Alexia, obrigado por manter sua promessa e me ajudar. Acho que vou gostar mesmo de ter você ao meu lado. ― disse Rael com sinceridade. Alexia tinha feito muito por ele e não teve nada em troca ainda. O que mais confortou Rael foi ela ter ajudado as suas esposas.

― Eu disse no começo que você ia me aceitar, não lembra? Eu mantenho minhas palavras. Se vamos no futuro nos tornar um casal, então temos que nos tratar bem. Certo? ― perguntou Alexia abrindo um sorriso.

― Sim, é verdade. ― disse Rael de volta sorrindo sem jeito também.

― Desculpe mesmo não poder ajudar você. Eu achei que o bloqueio fosse algo mais forçado, mas ele foi feito pelos seus ancestrais, e por isso eu não posso mesmo ajudar. ― disse ela.

― Está tudo bem, de verdade.

                Quando os dois saíram do quarto, escutaram uma porta do andar de baixo se abrindo.

― Cadê meu genro? ― perguntou a voz de Neide da sala.

― Mãe, ele está lá em cima. Mas o que foi?

― Filha, estão espalhando boatos estranhos de que ele andava com uma menina de aproximadamente oito anos. ― disse Neide.

― Eu já disse que tenho dez nesse corpo! ― disse Alexia, ainda descendo as escadas. Neide e Alexia cruzaram os olhares se encontrando. Mara e Natalia ainda estavam na sala, preocupadas se Rael tinha sido curado ou não. Rael foi descendo as escadas atrás de Alexia.

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Capitulo liberado por doação, agradeçam a: Vinicius Alves Maia

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Marcos Vinicius Mota Kliemann