O Herdeiro do Mundo

149 - A Emboscada

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

As meninas ficaram nervosas, mas se controlaram. Mara foi a primeira a recobrar completamente o controle, e isso ajudou Natalia a conseguir também. Ambas ficaram apenas com suas expressões naturais olhando as janelas.

Rael puxou a cabeça de Natalia e a encostou no peito. Essa foi uma ação para ajudá-la a se acalmar mais rápido. Mara não precisava porque já tinha se acalmado.

Rael ficou observando a sensação passar pela sua carruagem e pelas outras. Apesar de não parecer, Rael estava pronto para agir se ele tentasse chegar perto demais.

Conforme Rael imaginou, ele fez a verificação e sumiu partindo.

― Ele acabou de sair. Como disse, eu estava certo. ― disse Rael soltando Natalia.

― Mas você disse antes que ele não voltaria a agir tão rápido. ― disse Natalia se lembrando da conversa.

― Ontem conversei com minha sogra. ― disse Rael chocando Mara e Natalia, Rael sempre a chamava pelo nome e não daquela maneira, mas elas não reclamaram, continuaram esperando. ― Ela e o marido foram convocados para uma reunião hoje que pode durar o dia inteiro no clã. ― disse Rael.

― Espera aí, o que você quer dizer? ― perguntou Mara pensando.

― Quer dizer exatamente o que você está pensando. Foram os pais de Natalia que contrataram esse sujeito invisível, para ser mais claro, foi Elisa. Essa reunião foi um disfarce para nem Rayger nem Neide não virem acompanhar nosso retorno de perto. ― disse Rael.

Natalia, ao receber essa informação, fez uma expressão preocupada e ao mesmo tempo assustada. Ela não podia acreditar que a própria mãe faria aquilo, mas ela conhecia seus pais e sabia que havia sim uma chance de ter sido eles.

― Isso não é tão inesperado assim, aqueles dois não prestam. ― disse Mara um tanto quanto irritada. A mãe dela sempre avisou que Elisa não era flor que se cheire.

― Natalia, você prometeu me ouvir, então me ouvirá agora. ― disse Rael paciente. A moça, mesmo com certa relutância, fez um sim fraco com a cabeça.

― Sua mãe está querendo me matar, e ela não vai parar até conseguir. Ela não ouvirá você nem qualquer coisa que alguém disser, então não adianta pensar em ter uma conversa com essa mulher. Foi ela quem deu as informações da minha família morta para o clã Sarbaros, e saiba você que eu irei me vingar. Sua mãe não merece viver. Eu não quero nunca ferir seus sentimentos, mas eu jamais poderei perdoar tudo que ela fez nem tudo o que ela anda fazendo comigo. Eu sinto muito. ― disse Rael. Natalia tentou dizer algo, mas as palavras não saíram. A garota ficou aturdida olhando as próprias pernas.

Natalia nunca pensou que a culpa de Rael perder sua outra família havia sido de sua mãe. Se esse fosse o caso, como ela iria pedir para Rael poupar os pais dela? Se antes já era difícil, o que dirá agora.

― Natalia, se tiver de escolher entre seus pais e eu, o que você escolhe? ― perguntou Rael, apreensivo pela resposta da garota, que olhava as próprias pernas.

― Tem que ter outro jeito… ― ela ainda tentou lutar.

― Não tem nenhum outro jeito, e você sabe disso. Você sabe também o quanto eu gosto de você, mas nem mesmo por você eu posso perdoar aqueles dois. Eu não consigo! Mesmo que isso machuque você, eu ainda vou matá-los quando tiver a chance.

― Marido, você pode escravizar os dois. Se eles virarem escravos, ainda poderão viver e não vão poder praticar nenhuma maldade. ― optou Mara que se preocupava com a prima.

― Escravizar? ― perguntou Rael que nunca tinha pensado nisso.

― Sim, não é um mal plano. Assim você pode mantê-los vivos e controlados, sem contar que esse resultado para aqueles dois será muito mais doloroso que a própria morte. ― propôs Mara.

Quando Rael se virou para Natalia, a mesma estava com os olhos molhados, olhando nos olhos de Rael.

― Rael, eu sei que não tenho o direito de pedir isso… Mas se você me ama, e ainda diz que faria qualquer coisa por mim, então faça como a prima está propondo…Eu imploro… Eu sei que eles foram péssimos pais pra mim, mas eu ainda não vou suportar perdê-los… ― disse a garota.

Rael sabia que Natalia não estava tendo muita intimidade com os mesmos. Depois do casamento, a mãe passou a ficar longe deles e evitava entrar em contato. O pai então nem se falava. Rael não compreendia o porquê de Natalia ainda os proteger tanto.

Rael não respondeu na hora e sua mente se encheu de duvidas. O pedido era de uma garota que ele não podia recusar. Mas pensando com cuidado, Mara tinha razão. A escravidão naqueles dois seria sim pior que a morte. Mara estava abrindo uma porta onde Rael ainda poderia ficar de bem com Natalia e obter a vingança, talvez uma vingança melhor do que ele conseguia imaginar. Se bem que ele ainda sonhava em matar Romeo diante de Elisa.

― Natalia, você não consegue mesmo ver que seus pais são dois lixos? Que sempre trataram você como um objeto? Tudo que conversamos e tudo mais… Será que você nunca me ouviu? ― perguntou Rael. Mara ficou em silêncio porque não era uma conversa que ela desejaria ficar se intrometendo.

Em resposta a garota começou a chorar, porque sabia que pra Rael perdoar seus pais era bastante difícil e isso também fazia ele sofrer. Ela tentou segurar as lágrimas mas elas correram soltas pelo seu belo rosto. Ver Natalia chorar assim deixava Rael em pânico. A menina não estava apelando para parecer sofrendo, na verdade, ela estava controlando o pensamento constante de pedir por clemência, pois também feria Rael. Sua cabeça estava dividida entre apoiar Rael e proteger seus pais.

― Rael, eu também amo muito você, mas se você estivesse tentando matar meus pais eu não aceitaria, mesmo que eles fossem como os pais dela. ― disse Mara. Ela continuava não querendo se intrometer, mas ela viu a prima naquele estado deprimido e isso a incomodou.

Rael abraçou a garota a sua frente sem dizer nada. Natalia ficou chorando no peito de Rael. Ele não queria dar o braço a torcer, e era uma situação extremamente tensa. Ele também se arrependeu de ter entrado no assunto agora, justamente quando estavam prestes a serem atacados.

Natalia era especial de todas as formas que se pudesse imaginar. Depois de tudo, ele ficou ainda mais apegado àquela garota.

― Não vamos conversar sobre isso agora, tá bom? Se acalme, eu vou pensar sobre o que irei fazer no futuro. ― disse Rael com o coração apertado. A ideia de Mara era boa, mas se ele pretendia abolir mesmo a escravidão, talvez ela não serviria.

― Desculpe, eu não quero fazer você sofrer. ― disse a garota ainda chorando escondida no peito de Rael. Eles tiveram uma noite tão incrível antes e agora estavam em um momento extremamente difícil. A vida era uma coisa muito estranha.

― Tudo bem, se acalme… Ainda precisamos no focar no que está prestes a ocorrer. ― disse Rael. Natalia afastou o rosto, limpou as lágrimas com as mãos e se forçou a ficar séria.

As carruagens continuavam avançando, subindo a trilha entre as montanhas. Esse era o trecho mais demorado e levava quase meia hora. O ataque secreto poderia ocorrer a qualquer momento. Rika ficava a todo momento lançando seus sentidos em volta, buscando mais presenças.

― Marido, estamos com nove guardas no décimo reino. Se seremos atacados e o inimigo está ciente dos números, qual é o seu plano? ― perguntou Mara, depois de ver que os dois deram uma pausa no assunto anterior.

― Não se preocupe, eu não sou mais aquele estúpido para acreditar que posso cuidar dos meus problemas sozinho. Já deixei alguém por dentro da situação.

― Quem, Rael? Meus pais não estão na reunião? ― perguntou Mara.

― Não os seus pais, eu deixei uma outra pessoa. Com seus pais na reunião, Elisa com certeza mandaria seus mercenários agirem. Sua mãe acredita que ela não contratou somente o sujeito invisível, ela contratou bem mais pessoas. Depois de ouvir o desastre que eu criei no clã Sarbaros, ela não vai pegar leve. ― disse Rael de volta, deixando um ar de suspense.
― Mara, isso é muito importante. Elisa deve ter mandado esses homens pouparem apenas Natalia, desse modo, você precisa ficar atenta. Se a pessoa que eu espero não conseguir nos proteger totalmente, então retirem o anel de bloqueio e fujam imediatamente, mas desde o princípio eu quero que vocês ativem as armaduras mágicas.

― Mas… E você? ― perguntou Mara.

― A pessoa que pedi para nos proteger não vai me deixar morrer de nenhuma forma. ― disse Rael. Ele estava preparado, só não sabia quantos seriam os mandados.

Rika, que flutuava invisível em cima da carruagem, contendo seu poder ao máximo, estava um pouco irritada. Rael havia contado para as duas sobre a verdadeira identidade dela e da filha, e quanto mais ela espiava a mente de Rael, mais segredos ela descobria, como a transformação e o Mundo Morto que parecia mesmo um sonho.

Não demorou muito para as carruagens pararem no meio da trilha. Cerca de vinte auras surgiram pelas montanhas. Eram todos homens acima de décimo reino.

― Estão vindo! ― disse Mara surpresa.

― Marido…! ― disse Natalia um pouco nervosa.

― ‘Rika, não apareça de imediato. Espere para ver se eles vão falar algo. Preciso saber de que grupo eles fazem parte, ou algo do tipo.’ ― disse Rael em pensamento. Ela e Rael não trocaram nenhum pensamento antes. Rika não queria conversar porque ficaria irritada com Rael, e ele pelo mesmo motivo.

― ‘Rael, a partir de agora você ficará me devendo, e eu vou ficar muito magoada se você ajudar Alexia primeiro e não ajudar a gente.’ ― disse Rika em um tom calmo.

― ‘Quer minha ajuda? Sempre ouça meus pedidos e não deixe nada acontecer com minhas esposas. Eu pensarei no seu caso muito em breve’ ― disse Rael.

― ‘Pensar não é o bastante. Eu quero uma data.’

― ‘Você tem acesso a minha mente e sabe que não estou mentindo, Rika. Não tente forçar a barra porque esses dias eu não estou muito bem. Essa sua ignorância não irá mais funcionar.’ ― reclamou Rael de volta.

― ‘Você…!’ ― apesar de Rika ficar brava, ela não reclamou além disso. Ela espiava a mente de Rael e soube que ele não estava mentindo. Rael estava mesmo com raiva dos últimos fatos, das suas perdas e da maneira como ela e Violeta fizeram as coisas sobre Rose.

― Jovem mestre, jovens mestras! Tomem cuidado porque fomos emboscados! ― disse um dos guardas que já tinha saído com os outros oito e cercavam a carruagem principal, protegendo os mesmos.

― Vamos sair, meninas. Fiquem juntas e perto de mim! ― disse Rael, abrindo a porta e saltando para fora. Mara e Natalia fizeram o mesmo.

― Jovem mestre! São muitos inimigos, e mais da metade deles não conseguimos sentir o nível. É possível que estejam no décimo primeiro reino! ― disse o capitão para Rael.

Os guardas haviam feito uma roda, protegendo Rael e as meninas. Os inimigos cercavam os céus e outros estavam pousando dos dois lados, fechado todas as possíveis rotas de fuga.

― Quem ousa mexer com o clã Torres?! Apresente-se agora! ― o capitão da guarda que protegia Rael e as meninas se pronunciou gritando, e olhou em todas as direções esperando por uma resposta.

― É claro que nos apresentaremos, afinal, não somos pessoas rudes. Temos conosco doze homens no décimo primeiro reino e nove no décimo. ― disse um homem branco com barba rala que tinha pousado, barrando uma das passagens: ― Vocês não têm como vencer. Fujam agora e deixem esses três conosco que assim pouparemos suas vidas. ― disse o mesmo homem.

Rael olhou curioso para o capitão de sua defesa porque, de fato, eles não tinham como vencer. Um homem sempre mostra sua verdadeira face diante da morte, e sendo os lixos do clã Torres que Rael acreditava que eles seriam, todos eles iriam fugir.

― Eu, Salomão Duarte, mesmo que eu tiver de dar minha vida hoje servindo ao meu clã, ao meu trabalho, eu não recuarei! Homens, se vocês estão comigo, o momento é agora! Quem não tiver coragem pode recuar! ― gritou o capitão.

― AAAAAAAAAAAAhhhh! ― os homens gritaram, elevando suas auras de batalha. Rael ficou surpreso por eles não fugirem. Mara estava apenas séria, pronta para conjurar sua armadura a qualquer instante, e Natalia o mesmo do seu lado. As duas sabiam que os guardas não iriam recuar, mesmo diante de um perigo eminente de morte.

Um guarda não poderia pensar em recuar. Aquilo seria dado como traição ao clã, e a pena por abandonar uma jovem mestra como Mara, era o extermínio de toda sua família, isso sem mencionar a própria filha do patriarca, que também estava ali. Sobre isso, elas tinham certeza que nenhum daqueles homens recuariam como Rael desconfiava.

― Se vocês vão mesmo desperdiçar a vida de vocês aqui eu só posso lamentar.

― Por favor, espere! ― gritou Rael para o homem, o interrompendo. ― Quem são vocês? Já que podemos morrer aqui hoje, porque não nos dizem antes? Só para sabermos. ― propôs Rael em uma expressão natural. O homem branco que parecia está no comando mediu Rael. As ordens dele era para exterminar aquele jovem mestre e deixá-lo em pedaços, de uma forma que ele não pudesse nem pensar em se recuperar. Depois, ele correu o olho para o lado e encontrou as duas meninas. A garota mais nova deveria ser poupada, e outra exterminada junto com Rael.

― Somos da guilda Assassinos Ocultos, foi nos feito um pedido pela sua cabeça e estamos aqui para completar esta missão. Como você vai mesmo morrer, não faz diferença lhe contar. ― disse o homem e sacou uma espada longa de uma mão. Todos os homens em sua volta sacaram suas armas. A guarda que protegia Rael fez o mesmo.

― Homens, protejam o jovem mestre e as jovens mestras com suas vidas! Não deixem esses trastes nem se quer chegarem perto deles! ― rugiu o capitão, ampliando sua aura cinza.

― Aaaaaaaaaaaaaaaaaaah! ― os outros gritaram se animando e ampliando seus poderes também. Logo, as técnicas começaram a ser ativadas.

Os inimigos se olhavam rindo. Eles só podiam rir por verem os guardas quererem se mostrar de durões, mesmo sabendo que morreriam feito animais. Um décimo reino não pode pensar em vencer décimo primeiro, qualquer um saberia disso.

― Ativem suas armaduras! ― ordenou Rael. As meninas obedeceram e ativaram de imediato. Rael também ativou a dele. Os inimigos que começariam o ataque pararam, ofuscados pela beleza daquelas armaduras, e sentiram a forte onda de poder. Até mesmo o capitão e os guardas de Rael ficaram perplexos com aquilo.

― Capitão Salomão e seus homens! ― disse Rael chamando a atenção deles de dentro do elmo: ― Ela está comigo, então vocês não tem que se preocupar! ― disse Rael fazendo uma pausa, deixando todos confusos, até mesmo os inimigos: ― Rika, apareça e pode eliminar todos os meus inimigos, menos o homem que me deu as informações da guilda deles! ― disse Rael.

O ar em cima de Rael e das meninas ondulou com as correntes de raios, que apareceu do nada. Uma linda mulher coberta em raios surgiu dessas correntes, sua face era tão bela quanto a de uma deusa. Ela usava um vestido cor de vinho de fenda e deixou todos de bocas abertas. Rika era inegavelmente linda, sua pele era tão branca como a neve. Seus cabelos longos, ondulados e azuis pareciam ser um pedaço do mar, isso sem esquecer o azul profundo de seus belos olhos. Ela era absolutamente perfeita para qualquer um que a visse. Mara e Natalia ficaram chocadas mais uma vez, pensando em como Rael ainda não quis dar filhos a ela.

A surpresa por tal beldade durou pouco para os inimigos, que compreenderam rapidamente a situação. Rika estava em um nível que eles não conseguiam captar, e se encheram de medo em seus corações.

Rika subiu um pouco mais alto, sempre mantendo sua face séria e fechou levemente os olhos depois de parar flutuando. Os raios em volta dela rugiram ferozes, enquanto os cabelos dela balançavam no ar. O poder de Rika elevou-se mais ainda e uma onda imensa de raios se espalhou em volta, a cobrindo quase que completamente. Os inimigos que à pouco estavam certos da vitória, agora se tremiam de medo.

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Capitulo liberado por doação para combo de Natal, agradeçam a: Murillo Batista de Oliveira




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