O Herdeiro do Mundo

147 - Alexia e as Violadoras

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

Alexia era agora uma humana Soberana da linhagem dragão. Seu poder atual no corpo humano estava em 50%, porém, não eram exatos 50% de sua forma absoluta. Esses 50% de poder eram bem menores quando comparados com a sua forma original de dragão. Violeta e Emilia juntas tinham grandes chances de destruí-la agora, mas havia também grandes possibilidades de uma das duas serem mortas na batalha.

― Eu esperava ter um pouco mais de dificuldade em achar você. ― admitiu Violeta, ao analisar Alexia.

― Precisávamos nos encontrar cedo ou tarde, então preferi deixar isso para mais cedo. ― disse Alexia e ficou mais séria.

― Nós não iremos permitir que você traia Rael. Acha que confiamos em você? ― Emilia mal terminou de falar e já sacou seu cetro, que explodia de poder se suas mãos.

― Vocês vieram mesmo para me matar? Eu entendo que não confiam em mim, mas isso me decepciona um pouco. Eu esperava que vocês acreditassem que temos objetivos em comum. ― disse Alexia com um ar triste. Diferente das pessoas comuns, Alexia não podia invadir a mente daquelas duas mulheres. Elas estavam em um nível tão alto quanto o dela.

― Um dragão tentando fingir que tem humanidade. Eu já presenciei muita coisa estranha na vida, mas essa não engulo. ― disse Emilia fazendo uma meia careta.

― Você não imagina o quanto que um ser pode mudar, apenas por trocar sua forma. ― disse Alexia de volta, carregando um sorriso simples.

― Chega de conversa fiada! ― disse Violeta, interrompendo as duas: ― Daremos a você uma escolha para provar sua lealdade. Se você aceitar e nos provar que não pretende trair Rael, nós recuaremos.

― Eu vi pela mente de Rael que você é muito esperta, Violeta. Conhecendo você pessoalmente, agora tenho que admitir que como humana és realmente muito bela também, não é por menos que Rael te deseja tanto. Eu imagino o que você tem em mente e vou dizer antes: Eu serei leal ao meu propósito e nunca trairei o Herdeiro! Se você quiser acreditar em minhas palavras agora, podemos nos considerar amigas. Caso você não aceite e deseje seguir com o seu plano, eu toparei também. No entanto, haverá um preço futuro. ― disse Alexia em um tom sério.

― Que preço? ― perguntou Violeta ficando séria. Emilia do lado continuava segurando o cetro.

― Amigos abrem votos de confiança uns entre os outros, e nesse momento eu quero ser amiga de vocês. Mas se isso não for possível, eu apenas irei tolerar vocês com o herdeiro porque não haverá outro jeito. E então, o que você escolhe? Acreditará em mim do jeito que estou dizendo agora e seremos amigas, ou irá me fazer ingerir sua erva e me arrancar a verdade, mesmo que seja a mesma resposta? ― perguntou Alexia.

― Você já sabe, mas não pode ler minha mente… ― disse Violeta um pouco surpresa.

― Vocês têm acesso ao Mundo Completo, porque não saberiam? No momento que ouviram falar de mim, vocês procuraram a informação e descobriram. Eu não esperava menos de Violadoras consumidas pelo eterno fogo da paixão. ― disse Alexia e deu um leve sorriso irônico.

Violeta mordeu os lábios de leve e olhou para Emilia. Emilia olhou de volta para Violeta, com uma expressão não muito boa. Alexia era um tanto quanto enigmática, e aquilo fez nascer uma dúvida no coração das duas.

― Se você já sabe e está disposta a cooperar, isso será fácil ― disse Violeta e sacou uma pequena erva vermelha brilhante.

Erva Nascente do Sol: Uma antiga erva que existe desde os tempos mais antigos. Dizem que ela nasceu junto com os dragões. Essa erva é muito usada entre os dragões em suas reuniões porque obriga os dragões a dizer a verdade, sem esconder nenhum fato. Uma vez ingerida, o dragão ficará uma hora sob os efeitos, e não importa se ele está em sua forma real ou em alguma forma diferente.

Violeta sabia que se Alexia ingerisse a erva e ainda dissesse que não trairia Rael, então ela definitivamente não o trairia. Com isso, tanto ela quanto Emilia poderiam ficar em paz.

― No fim, você ainda escolheu esse caminho. Só posso ficar com pena de vocês. ― disse Alexia e se aproximou flutuando calmamente.

― Você está nos ameaçando? ― perguntou Emilia um pouco mais séria.

― Ameaçando? ― perguntou Alexia parando na metade do percurso para responder: ― Desde o começo eu ofereci a vocês a minha amizade. Tudo que eu pedi em troca era que vocês duas acreditassem em mim, acreditassem em minhas palavras. Mesmo assim, vocês querem me obrigar a repetir isso mais uma vez usando a erva. Vocês devem saber que usar esta erva para assuntos fora da minha família é como um pecado capital, mas ainda assim eu o farei, pelo bem da minha espécie, e darei essa prova a vocês. No entanto, eu deixo bem claro, não vou considerar vocês como amigas. Mas não se preocupem porque não pretendo eliminar vocês. As duas são importantes demais para Rael. ― disse Alexia.

― Guarde a arma, Emilia. Se ela vai ingerir a erva e nos provar, então não iremos lutar. ― ordenou Violeta. Emilia olhou bem no fundo dos olhos de Violeta e depois obedeceu, fazendo o cetro sumir.

Alexia voltou a flutuar e parou bem diante de Violeta, que entregou a erva. Alexia recebeu sem nenhum problema enquanto analisava a mesma. Esse tipo de erva nascia próximos a vulcões e era difícil de ser encontrada. Violeta deu muita sorte encontrando uma tão facilmente.

― Sabe, Violeta, eu já sofri muito perdendo gente minha. Mas eu não sou essa mulher fria que vocês pensam que eu sou. Uma vez que eu aceitei esse novo destino eu estava aberta a novas possibilidades, e eu realmente queria ser amiga de vocês. Isso tudo é uma pena. ― disse Alexia em um tom triste enquanto preparava a erva para engoli. Violeta apertou o pulso sutilmente depois de ouvir aquilo. Ela não tinha como saber se Alexia estava falando a verdade.

― Apenas engula logo e nos responda as perguntas que faremos, isso não precisa ficar meloso! ― disse Emilia irritada.

― Que pena. ― disse Alexia e engoliu a erva. Ela fechou os olhos, sentindo o efeito pelo corpo. O corpo dela deu uma leve tremulada e ela voltou a abrir os olhos. Os olhos de Alexia estavam agora completamente brancos, eles ficariam assim enquanto ela estivesse naquele estado. O Branco entre os dragões significava pureza.

Aquele era o efeito correto e Emilia e Violeta ficaram satisfeitas.

― Alexia, quais planos você tem com Rael? Responda. ― perguntou Violeta. Alexia não estava sob total controle de Violeta, nem de ninguém, mas se ela fosse responder agora teria que ser como a verdade, era impossível para ela mentir.

― Eu quero ajudar o Herdeiro e vê-lo voltar a ter poder total para que ele possa me proteger no futuro. Não posso sozinha contra meus inimigos. Quero uma aliança com o mesmo que dure pela eternidade, e jamais planejo traí-lo. Eu já escolhi na minha mente me tornar uma mulher ideal para ele, assim como faria para um macho do meu antigo meio. ― disse Alexia e fez uma pausa. Emilia e Violeta ficaram abismadas, porque embora fosse um pouco estranha as explicações de Alexia, em nenhum momento seria ruim para o Herdeiro, na realidade, tudo que ela disse foi por um lado bom. A única parte que deixou as violadoras preocupadas foi onde Alexia dizia que não podia com seus inimigos sozinha.

Violeta e Emilia ficaram se olhando pensando o que deveriam perguntar agora, porque na verdade, talvez nem houvesse mais perguntas. Se Alexia ia mesmo estar ao lado de Rael, elas não tinham com o que se preocupar. Se Alexia tinha inimigos, Rael também tinha, e toda ajuda era mais do que bem vinda. Violeta se arrependeu de não ter confiado nela antes, mas era tarde demais para pensar qualquer coisa sobre isso agora.

― Esses inimigos que você tem, poderão ser um problema para Rael? Eles estão por perto? Sabem de você? ― perguntou Emilia. Violeta nem teve tempo de parar a pergunta, ela já tinha sido feita, mas de todo modo era uma pergunta bastante conveniente.

― Meus inimigos não estão por perto, e no momento eles não podem me sentir por estarem muito longe. Minha mudança de forma também apaga uma boa parte da minha essência original, fazendo com que seja ainda mais difícil de ser encontrada. Meus inimigos podem ser os mesmos que armaram contra o herdeiro no passado, são seres que almejam se tornarem os novos pilares do universo e, portanto, querem tomar para si todas as maiores formas de poder. ― explicou Alexia.

― Você ainda deseja dominar o universo? ― perguntou de novo Emilia.

― Eu nunca desejei tal coisa, isso foi ideia dos meus semelhantes. Como foi em uma votação, o restante de nós não tiveram escolha a não ser lutar. Não existe propósito nenhum em estar no centro do poder, e nunca terá. Eu fiquei anos sozinha por culpa dessa razão, e achei que seria meu fim, que estaria destinada a viver o resto dos meus dias em solidão. Se o Herdeiro tivesse com seu poder total eu nunca teria a chance de me levantar novamente, eu morreria e tudo sobre a minha espécie seria o fim. Tudo por causa de arrogância e ganância estúpida de ter mais poder que meus semelhantes tiveram. Agora, a mesma ganância se espalhou no coração dos nossos inimigos. ― disse Alexia.

― Violeta… ― Emilia se virou para Violeta mordendo os lábios de leve. Não havia nenhum motivo para as duas terem qualquer coisa contra Alexia. Alexia realmente não representava nenhum perigo a Rael, nem agora nem futuramente. As duas ficaram mesmo sem ter outro jeito, a não ser aceitar o fato de que Rael é quem tinha ganhado em encontrar Alexia.

― Vocês duas já acabaram? ― perguntou Alexia sempre em um tom sério.

― Sim, acabamos. Tudo que pensávamos sobre você estava errado. Nós te devemos desculpas, só estávamos fazendo isso para protegê-lo. Você deve compreender. ― disse Violeta cuidadosamente.

― Eu dei a chance a vocês de sermos amigas, e vocês recusaram. Apenas se lembrem que vocês tiveram a chance de serem tratadas como eu trataria Rael. Agora vocês são apenas mulheres que eu terei que tolerar. ― disse Alexia e se virou sem nenhuma preocupação: ― Amanhã estarei visitando Rael para cumprir algumas outras promessas. Avisem-no que estarei indo ao clã. ― dizendo isso, Alexia se afastou descendo tranquila e silenciosamente. Uma vez que as duas agora tinham certeza sobre os desejos de Alexia, elas não criariam nenhum conflito.

Violeta e Emilia se olharam. Ambas tinham um misto de alivio por não ter que enfrentar Alexia, mas também um tom de preocupação sobre o termo que ela usou constantemente na conversa: “Amigas”.

― Você acha que ela pretende fazer alguma coisa contra nós, Violeta? ― perguntou Emilia, que não aguentou segurar mais aquele pensamento.

―Ela deixou bem claro que não nos machucaria. Isso me faz pensar que, se tivéssemos confiado nela, ela nos ajudaria em alguma coisa. Mas, em quê? O que ela poderia saber sobre nós? ― perguntou Violeta, se virando para o lado oposto e já saiu voando. Emilia fez o mesmo, a seguindo em um ritmo lento, enquanto continuavam a conversar.

― Mas quase ninguém sabe muito sobre a gente, e eu não sei como esse povo do mundo pequeno descobriu nossa fraqueza. ― disse Emilia.

― Alexia não compartilha dessa nossa fraqueza, e ela protegerá Rael se alguma coisa der errada, pelo menos isso mudou…

―Enfim, acabou! Quando chegar em casa quero descansar algumas horinhas. Essa nossa busca foi muito cansativa. ― disse Emilia .

― Você é morta dentro da roupa, Emilia. Nós só passamos duas horas procurando por ela. Imagine se você passasse dez horas como eu passei, procurando os cristais vermelhos naquele outro dia. ― lembrou Violeta.

― Você é louca! Eu morreria antes! Só passo dez horas ativa se for sob os braços de Rael…Aiiin, Violeta, eu tô com tanta vontade de abraçar aquele corpo maravilhoso dele, de sentir ele me penetrar e tudo o mais…! Não sei como você consegue ser tão forte! Meu corpo treme toda vez que ele aparece, até mesmo na biblioteca. Eu penso tanto nele que fico me derretendo sozinha. Eu to ficando louca por causa dessa sua regra estúpida para ele ter relações com quatro mulheres diferentes. Eu já brinquei comigo sozinha tantas vezes que já perdi as contas.

― Você, além de preguiçosa, é nojenta, Emilia. ― disse Violeta olhando de lado.

― Então somos duas, porque também já vi você fazer isso.

― Andou me vigiando?! Você criou um Campo de Visão em meu próprio território, Emilia? ― Violeta se virou irritada para a sua aliada. As duas pararam no ar.

― Seu território, não… Nosso! O meu foi deixado para trás, lembra? Agora só tenho o seu, e nesse mundo escroto, por alguma razão, a minha versão não existe! ― reclamou Emilia.

― Você vai desmanchar isso quando chegarmos em casa!

― Ah, não vou não, querida! Sinto muito, mas faço isso pela minha própria segurança. Mas você não tem que se envergonhar, dentro do que sentimos, isso é completamente normal.

― Você não tem o direito de invadir minha privacidade, Emilia! ― Violeta ficou realmente brava.

― E você já não invadiu a minha, entrando em meu quarto sem bater na porta? Qual é o problema, Violeta? Você é tão mulher quanto eu, e nós duas estamos presas sob os mesmos desejos, então porque você quer pagar de durona? E qual homem nesse mundo pode resistir a nós? Você sabe que mesmo que Rael fique com quatro mulheres antes, quando ele nos tocar vai perceber que é muito diferente. Ele vai nos desejar muito mais do que qualquer outra mulher.

― Pode ser, mas o impacto será em menor escala do que antes. ― disse Violeta, ainda irritada.

― Não está na hora de fazermos Rael ficar com Rose e Rika? Estou ficando com pena delas. Rael praticamente as esqueceu…

― Ele não quer ter filhos agora, Emilia… ― disse Violeta.

― Ele nem vai precisar cuidar. Além disso, eu adoro crianças. Até ajudaria a cuidar, se fosse o caso. Infelizmente nós não podemos ter filhos por causa daquele monstro repugnante! ― reclamou Emilia, se lembrando do deus demônio.

― Não vamos nos meter nisso. E mesmo que ajudássemos, elas ainda não teriam um filho tão facilmente. Elas precisam ainda acostumar o corpo, eu já falei isso com Rika, mas ela não acreditou em mim, achou que eu estava brincando. ― disse Violeta.

― Isso é uma pena, porque se agíssemos então Rael já poderia ficar pronto para nós. ― disse Emilia.

― Não se preocupe porque uma hora ele estará pronto. ― disse Violeta e voltou a voar.

― Ainda bem que ele não descobriu a palavra de comando. Seria ruim se ele soubesse, porque ai não poderíamos ter livre vontade a todo momento. ― disse Emilia, voltando a seguir Violeta.

― Rael não é esse tipo de homem. Mesmo que ele soubesse, não nos forçaria a fazer nada. ― disse Violeta.

― As vezes fico pensando nas mãos de quantos homens eu já passei…Será que algum deles me tratou bem? Será que fui amada do mesmo jeito que amo? Você nunca pensou nisso, Violeta? ― perguntou Emilia.

― Não faço ideia, e procuro não pensar.

― Violeta, se Rael for morto nós voltaremos a dormir de novo. Seremos lançadas de volta nas nossas câmaras e os selos serão refeitos. Tudo que vamos lembrar vai ser dos outros, como Rika e Rose. Mas sobre Rael nós esqueceremos, até mesmo da aparência dele. Só saberemos que tivemos alguém pelos buracos que ficarão em nossas memórias, assim como eu tenho dois buracos de diferentes lugares e de diferentes datas. Todas essas memórias são como um sonho, e você deve saber disso, nem parece que foi real. Eu fico apavorada quando penso que Rael está no meio de um clã que deseja a cabeça dele, isso sem esquecer que ele quase foi morto. Se ele morrer, tudo vai ter parecido apenas um sonho, Violeta… Isso não assombra você?

― Rael fez aliados. Ele tem o tio que está do lado dele, e aquela mulher, Neide. ― disse Violeta.

― Você confia neles? Já te contei que eles sabem sobre a nossa fraqueza. ― disse Emilia em um tom de desaprovação.

― Eu confio no Rael. Se eu não confiasse, não teria dado essa chance a Alexia. Nós nem teríamos tido essa conversa ― disse Violeta.

― É, mas você ainda tinha prometido que não viria atrás dela. ― disse Emilia que, durante a conversa de Violeta e Rael na biblioteca, ficou de uma certa distância ouvindo tudo.

― Nem todas as promessas a gente cumpre. E não esqueça de desmanchar seu Campo de Visão quando chegarmos em casa. Eu não vou tolerar isso! ― lembrou Violeta.

― Ah, vai pensando que vou atender o seu pedido hahaha! ― disse Emilia rindo e avançou, voando como um fleche, sumindo da visão de Violeta, que não pôde fazer nada a não ser suspirar.

Ela ficou pensando no que Emilia tinha acabado de dizer. Violeta tinha um buraco em sua mente de alguém, um amigo de Seimon, que a libertou antes. E como a própria Emilia disse, ela esqueceu quase tudo. Parte de suas memórias pareciam mesmo sonhos. Se Rael morresse, ou a maldição fosse quebrada, tudo que haviam vivido até então seria completamente esquecido.

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Capitulo liberado por doação para combo de Natal, agradeçam a: Murillo Batista de Oliveira