O Herdeiro do Mundo

139 - Rael e Janete

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

Para Janete, era a primeira vez que ela voava na vida, e ela estava tremendo de medo, abraçada fortemente em Rael. Como ela tinha tomado banho recente, estava muito cheirosa e agradável, Rael não se incomodou nenhum pouco de ser tão apertado por aquela beldade. Mas Rael se lembrou de todos os pontos de sua vida e precisava mesmo conversar seriamente com ela. Ele tinha planos em ajudar, tanto ela e a sua família, esses planos envolviam torná-la discípula, mas ele ainda precisava conversar sobre os sentimentos pendentes. Coisas que teriam que ser deixadas de lado, e até esquecidas.

― Eu não vou deixar você cair Janete, pode abrir os olhos. ― disse Rael observando que a mulher estava com os olhos fechados, escondendo o rosto em seu sobretudo.

― Eu não sabia que você era um décimo reino! Samuel, como você chegou a esse nível tão rápido? ― perguntou ela. Criando coragem, abriu um pouco os olhos e fez uma careta quando viu a altura em que estava, ela voltou a fechar de novo e o coração dela disparava no peito. Se ela fosse um quarto domínio, estaria apertando Rael com tanta força que ele mal iria respirar. Janete parecia morrer de medo de altura.

― Eu ainda não sou um décimo reino mas já tenho praticamente o poder de um. Você tem medo de altura, Janete? ― perguntou Rael.

― Quem não tem? Será que não poderíamos ir caminhando por terra? ― perguntou ela, que continuava agora com os olhos fortemente fechados. Rael estava voando bem devagar porque achou que iria agradar a mulher com uma vista da capital ao fundo ao qual estavam a caminho. Isso tinha funcionado bem com Rose e Natalia, mas com Janete aparentemente não teve o mesmo efeito. Se Janete ia ficar nesse estado de medo então não adiantaria, eles não iam consegui ter uma boa conversa.

― Tudo bem, eu vou descer e a gente vai por terra. ― disse Rael e assim o fez. Pousou e deixou a mulher de volta com os pés firmes sobre a terra, só assim ela soltou Rael, enquanto mostrava uma expressão bem aliviada.

― Eu adoro a terra, é tão segura. ― disse ela sorrindo.

― Eu não sabia que tinha medo de altura, é algo incomum. ― disse Rael olhando de volta.

― Você não sabe muito sobre mim. ― disse ela e depois de ver o olhar sério de Rael acrescentou: ― E nem eu de você.

― Sobre isso, precisamos conversar. ― disse Rael se virando e começando a caminhar. Janete pôde sentir que seria uma conversa importante e começou a acompanhar Rael com um ar curioso e ao mesmo tempo preocupado.

― Eu sei que no passado eu fiz uma promessa ou algo do tipo a você, e tivemos algo… ― quando Rael começou a falar, ela o interrompeu:

― Samuel, não precisa explicar isso. Eu entendo que sua vida mudou e agora você é outra pessoa. Eu sou uma mulher sem nome, sem status e você não poderia me assumir. Eu só disse aquelas coisas porque estava muito assustada. ― disse Janete tentando soar com naturalidade, mas Rael podia senti o tom triste em sua voz.

― Janete, não é isso. ― disse Rael parando de caminhar e a fez parar: ― Você é uma mulher linda, e mesmo que não tenha status e nome, você fez um homem armar toda essa situação, só para escravizar e ter você. Como isso não torna você uma mulher incrível? Na verdade, eu estou tentando dizer que você não me merece. Eu não vou ter como fornecer toda a atenção que você merece, e você precisa de um homem que passe mais tempo ao seu lado, eu não poderei ser essa pessoa.

― Você ainda me acha mesmo bonita? Mesmo que seja pouco, ainda sente algo por mim? ― perguntou a mulher um pouco emocionada. Ela podia ser bem azarada, mas pelo menos ainda tinha sua beleza, seu último conforto.

― Sim, mas é claro, Janete. Você é linda. Muito linda mesmo. ― admitiu Rael. Os dois estavam parados de frente um ao outro.

― Eu não quero atrapalhar sua vida, e se é difícil para você me assumir, então você não precisa se explicar. Eu entendo o seu lado. ― disse ela depois de alguns instantes. Ela ficou muito satisfeita em ouvir o elogio de Rael.

― Não. Você está entendendo tudo errado, vejo pela sua cara de tristeza… ― disse Rael olhando de lado. ― Estou tentando dizer que eu não sirvo pra você, e não o contrário. Por exemplo, nós não poderemos nos casar, se fôssemos ficar juntos, seria por pouco tempo, e de tempos em tempos. Você não merece isso. Você merece coisa muito melhor, não acha?

― Mesmo que você fique comigo uma vez por ano, se você me disser que ainda me quer como sua concubina, eu aceito. Eu não… Eu nunca esperei que você fosse se casar comigo… ― disse ela logo em seguida, um brilho nos olhos dela tinha surgido com as palavras de Rael.

― Eu tô tentando dizer que não existe só eu de homem nesse mundo. Existem vários que cairiam de joelhos por…

― Samuel, eu não quero mais ninguém! ― disse ela se alterando um pouco: ― Se você pretende continuar insistindo que eu deveria tentar achar outra pessoa, eu só vou ficar mais magoada. Mesmo que eu tivesse você só uma vez na minha vida, essa única vez já seria o suficiente. Você é a única pessoa neste mundo, além dos meus familiares, em que eu confio. Você é o único para quem eu me entregaria de corpo e alma, mesmo que fosse somente uma vez. Não adianta você dizer mais nada, ou eu terei você ou morrerei sem ter mais ninguém! ― disse ela em um tom firme. Janete não parecia querer ouvir Rael.

― Você realmente pensa assim? ― perguntou Rael.

― Quando eu aceitei naquela época ser concubina, eu estava ciente que esse era o tratamento. Isso nunca mudou dentro de mim. ― disse ela: ― Na minha cabeça, eu já sou sua a muito tempo, sem esquecer que todos os meus melhores sonhos foram pensando naquele nosso momento… ― disse ela e ficou um pouco vermelha por dizer aquilo. Rael também ficou um pouco sem jeito, porque ela cada vez tornava a situação mais complicada.

― Janete, eu… ― Rael ficou meio embaraçado.

― Nós nem completamos o ato e mesmo assim eu nunca pensei em traí-lo. ― disse a mulher.

― É que você não sabe o quanto é bom… ― Rael ficou pensando na possibilidade de ficar meses sem fazer, e com certeza aquilo não entrava na cabeça.

― E porque você mesmo não me mostra isso? ― perguntou Janete. O coração dela disparou no peito. Janete estava sendo um pouco ousada, mas por Rael, ela seria ainda mais.

― Você não ouviu nada do que eu disse. Que droga, Janete… ― reclamou Rael olhando em volta. Janete deu um passo a frente. Ela levantou as mãos tremendo e segurou o rosto de Rael, que se deixou ser virado.

― Se você me quiser, eu já disse. Mesmo que seja uma vez por ano, ou menos, eu ainda quero você. Eu ainda quero ser sua e eu serei completamente fiel. ― disse ela. Rael ficou olhando aquela bela boca próxima a dele e o doce hálito dela o contagiou. Rael se lembrou do primeiro beijo deles, da visão do corpo de Janete nu e o coração disparou no peito. Ele ia tentar lutar de todas as formas para libertar aquela mulher dele, mas tanta tentação era difícil resistir.

― Droga! ― reclamou Rael. Ele mesmo agarrou envolvendo a cabeça de Janete com as duas mãos e a beijou. Não foi um beijo simples, foi de língua, bastante envolvente. Os dois fecharam os olhos e ficaram se beijando por alguns instantes.

                Quando pararam, quase um minuto depois, ficaram se olhando enquanto respiravam ofegantes. Janete sorriu por se sentir desejada e por sentir novamente aqueles lábios que a tomaram tempos atrás com tanto desejo. Era os mesmos lábios do homem que vivia em seus sonhos, que sempre que estavam quase lá, ela acordava. Era um sonho que repetia da realidade vivida naquele dia, no qual ela quase se tornou uma mulher completa.

― Droga, você acaba com todas as minhas ideias, Janete. ― disse Rael, passando o braço por ela novamente. Eles voltaram a se beijar e Rael passou a mão pelas costas dela, bunda, cintura. Ele ficou beijando aqueles lábios deliciosos e correndo suas mãos por todo o seu corpo.

― Samue… Samuel, você quer aqui? ― perguntou ela fazendo uma pausa.

― Aqui? ― perguntou Rael surpreso, parando tudo: ― É claro que não, vamos indo. ― disse Rael se virando e puxando a mão dela que segurou no processo.

― Eu não deveria ter dito isso? Desculpe… ― disse Janete, seguindo Rael sem jeito.

― Eu não vou me deitar com você pela primeira vez no meio do nada. ― explicou Rael.

― Eu não ligo para o local, só quero ser sua. ― disse ela atrás.

― Tudo bem, já chega. ― disse Rael parando de repente. Os dois pararam: ― Se você quer desse jeito eu vou concordar, mas você vai me prometer uma coisa em troca. ― disse Rael, se voltando para ela.

― Não importa o quê, eu prometerei! ― disse a mesma se enchendo de felicidade.

― Você não estará amarrada a mim. Se durante o tempo que se passar você encontrar alguém que te mereça e você gostar, então você deve seguir caminho com essa pessoa e me esquecer. ― propôs Rael.

― Nunca! Eu nunca faria isso! ― disse Janete na mesma hora, se tornando dura.

― Se você não me prometer isso, então esqueça. Eu não ficarei com você, nem mesmo uma única vez .― disse Rael, fazendo Janete vacilar.

― Você está me dizendo que eu poderei trair você…?

― Não, Janete! Não se trata de trair, se trata de viver. Se você encontrar alguém de quem goste e desejar ter essa pessoa na sua vida, você será livre para escolher. Como eu disse antes, não estarei o tempo todo na sua vida, e quero que você me prometa isso.

― Mas eu vou me entregar a você… Você tomará meu corpo… Como eu poderei pensar em outro? ― perguntou ela sem entender.

― É complicado isso, não é? Sim, eu tomarei você a mim e sua primeira vez será comigo, mas tem muitas relações duradouras nesse mundo, onde os casais já tinham experiências com outros e se deram bem. O que eu estou tentando dizer é que se você achar alguém que te mereça durante o tempo que ficar comigo, então você seguirá seu caminho. Você consegue prometer isso a mim, Janete? ― perguntou Rael.

                Janete percebeu que Rael não ia prosseguir sem ouvi aquela resposta, e ele não parecia estar disposto a aceitar um não. Janete não entendia qual era o problema dela querer ser leal a ele. Então mesmo que ela nunca pensasse em fazer aquilo de verdade, ela só poderia mentir para não deixar Rael sem graça:

― Só se eu encontrar alguém muito melhor que você. Muito melhor, de verdade. ― disse ela cuidadosamente. Mas ela estava mentindo, isso nem se passava pela cabeça dela. Rael não tinha como saber, então apenas ficou satisfeito.

― Vou acreditar em você. ― disse Rael ficando mais calmo e se virou. Janete ficou um pouco triste por Rael fazer aquele pedido. Ela não compreendia os pensamentos de Rael, assim como ele não compreendia os dela. Mas ela ouviu ele dizer que tomaria a primeira vez dela, em resumo, Janete ia ter sua primeira relação sexual com Rael, e ficou extremamente feliz. Mesmo que só fosse fazer uma só vez, ela já estaria satisfeita se essa primeira vez fosse entregue ao homem que a salvou duas vezes. Sem esquecer que ela queria se sentir tocada como toda mulher quer.

                Durante a caminhada, os dois conversaram um pouco mais. Rael falou de sua situação com Mara e sua esposa Natalia. Explicou que Janete deveria agir como uma colega, como uma conhecida dentro do clã e teria que esconder seus sentimentos.

― Você está pensando em me levar para o seu clã? ― perguntou ela, quando Rael deu essas explicações.

― É só por hoje, eu vou ajeitar as coisas para vocês e depois vou mandar vocês para um clã que eu dominei. Lá, vocês terão uma nova casa. Você se tornará minha discípula e qualquer um dos seus irmãos que estejam dispostos, também. ― disse Rael.

― Espere, o quê? ― perguntou Janete, ficando chocada.

― Eu estou montando uma seita, e já tenho duas discípulas. Você será a minha terceira, depois farei a mesma pergunta aos seus irmãos. Todos vocês são boas pessoas, então terão a mesma oportunidade. ― explicou Rael.

― Qual é o nome da seita?

― Eu ainda não pensei nisso… ― disse Rael olhando para frente enquanto seguia andando. A cidade pouco a pouco se aproximava.

― Samuel, você não tem obrigação de cuidar da gente, e meu pai não vai aceitar. Eles não irão querer partir para essa cidade só porque você vai querer protegê-los, ainda mais sem assumir o fato de que eu não serei sua concubina oficialmente.

― Você ouviu o que eu acabei de dizer de Mara, não ouviu? ― perguntou Rael, parando de caminhar e se virando sério para Janete. ― Ela ameaça até mesmo a mim, que sou marido dela e que a perdoei. Se ela ao menos sonhar que tivemos essa conversa, ela arranca a minha cabeça fora, e acredite, ela arranca mesmo. ― disse Rael com um tom sério. Janete não duvidou, Rael não parecia ter medo de ninguém, mas parecia preocupado quando falava de Mara.

― Sim, eu acredito. Não estou dizendo o contrario, mas se for tentar convencer meu pai, terá que ser através de outro modo.

― Se eles não aceitarem minha ajuda, eu apenas vou dizer que ficarei muito ofendido. ― disse Rael voltando a caminhar de novo. Janete correu o seguindo enquanto sua mão era puxada por Rael.

― Não há nada que você possa criar para fazermos nesse clã? Algum trabalho? Algo que possa fazer eles sentirem que estão pagando de volta, igual você fez com aquele homem mais cedo?

― Se esse é o caso, tenho certeza que posso dar um jeito. ― disse Rael pensando: ― Mas eu preferia que eles apenas virassem meus discípulos, com exceção de seu pai, porque seria muito estranho.

― Meu pai é um homem bom, ele não se sentiria estranho com isso. ― disse Janete abrindo um sorriso um pouco sem graça. Rael olhou para ela e voltou a olhar para frente.

― Bom, se você diz isso, então não deve ser um problema desde que ele aceite. ― disse Rael de novo.

― Obrigada, Samuel. Muito obrigada. ― disse a moça e se abraçou no braço de Rael, fazendo-o reduzir o ritmo dos passos.

― Não precisa agradecer, eu ainda nem fiz nada do que estou prometendo.

― Você sempre está cuidando de mim, sempre cuidando da minha família. Você é o melhor homem que já conheci! ― disse ela.

― Em falar em família, pode me dizer os nomes das suas irmãs e da sua mãe que estão no clã Sangnos? Eu pretendo em breve resgatá-las de volta. ― disse Rael. Janete que estava meio aninhada ao braço de Rael no mesmo instante o soltou dando espaço.

― O quê? ― perguntou ela chocada.

― Você ouviu. Eu agora posso libertar escravos e então posso ajudar suas irmãs e sua mãe. Eu quero fazer muito mais do que dar um lugar seguro a vocês, eu quero reunir toda a família novamente. ― disse Rael firme. Os olhos de Janete se encheram de lágrimas. Durante a vida inteira dela, ela nunca pensou em rever as irmãs ou a mãe, era como se as mesmas estivessem mortas para eles. Rael soprou fundo o coração de Janete, tocando em uma parte que ninguém nunca tinha pensado. Se fosse qualquer outra pessoa dizendo aquilo ela não teria nenhum suspiro de esperança, mas quem estava dizendo era o seu bem feitor, seu salvador. O homem a sua frente que ela considerava um deus, e mal sabia ela que Rael era muito mais do que um deus.

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Capitulo Semanal liberado aos sábados.