O Herdeiro do Mundo

137 - Marca da Escravidão

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

Os olhos de Janete foram novamente tomados por um brilho nublado, novas lágrimas desceram dos olhos dela. Rever Rael era como um sonho, e ela pensou por instante que tinha até morrido e despertado daquele terrível pesadelo. Por isso, ela ainda ficou parada chorando, olhando Rael sem conseguir dizer nada.

― Janete, você está bem? ― perguntou Rael avançando para dentro do quarto.

                Ouvir a voz de Rael fez ela ter mais certeza que não era um sonho. Ela começou a estremecer de emoção. A mulher estava tão abalada emocionalmente que não parava de chorar, ela deslizou pela cama de quatro e engatinhou apressada na direção de Rael, no processo ela se atrapalhou e caiu por cima da cama, mas se levantou rápida e se lançou em Rael o abraçando no peito, que tinha acabado de encostar ao lado da cama.

                Janete chorou enquanto apertava com força o peito de Rael. Ela manteve o rosto escondido no sobretudo e agarrada a ele. Ela estava com medo que Rael pudesse sumir e não fosse real, porque ele era o único capaz de salvá-la, como da outra vez.

― Eu tô aqui, e eu não vou deixar mais ninguém machucar você. ― disse Rael, apertando-a cuidadosamente pelas costas. Janete não parava de chorar, ela simplesmente não conseguia.

― Eu vim te salvar, você agora estará segura. ― disse Rael e passou a mão na cabeça dela. A mulher continuava tremendo e chorando, enquanto se mantinha abraçada a Rael.

                Após uns dois minutos assim, ela finalmente afastou o rosto de Rael. Rael ficou em silêncio olhando a mulher nua a sua frente, mas longe de pensar em qualquer besteira no momento. Ele levantou a mão e limpou carinhosamente a lágrima dos belos olhos verdes em sua frente. Mesmo ele limpando, novas lágrimas surgiam.

― Samuel… ― ela disse emocionada pela primeira vez.

― Sim, sou eu… ― disse Rael em seguida e deixou sua mão correr no rosto dela. Janete fechou os olhos aceitando aquela ação de Rael e guardando aquela sensação de conforto em seu coração. Ver Janete fazer aquela expressão fez ele se lembrar de Natalia.

                Rael esperou mais alguns minutos enquanto Janete ficava mais recuperada. Ele só estranhou que ela não estava agindo normal depois de soltá-lo, pois ela não se vestiu, nem cobriu sua nudez.

― Vista alguma coisa. ― disse Rael lançando um olhar pelo quarto, à procura das roupas dela.

― Eu não posso me vestir até ele me dizer que eu posso. ― disse Janete, surpreendendo Rael. Ela não protegia a nudez, nem mesmo com as mãos. Ela só escondeu parte da nudez quando abraçou Rael porque não foi intencional. A mente dela não teve isso como uma ordem desobedecida.

― O que ele fez com você? Ele chegou a fazer aquilo? ― perguntou Rael, desviando o olhar para o lado. Rael evitava ficar olhando a mulher, meio que tentando respeitar. Ela mantinha as pernas abertas e os belos peitos a mostra sem ter como se cobrir.

― Não. Ele não teve tempo, eu ainda sou pura. ― disse ela rapidamente. Rael sentiu um imenso alívio ao receber essa notícia.

― Maldito homem! Eu vou fazer ele me dar o pergaminho de contrato dessa escravidão agora mesmo! ― disse Rael se virando e caminhando para a porta. Janete levantou correndo e abraçou Rael por trás:

― Samuel, não vá embora, por favor! Não me deixe aqui nessa casa! ― disse ela, forçando Rael a parar.

― Janete, calma. Eu só vou pegar o contrato para libertar você. Eu mandaria você vir comigo, mas não quero que mais ninguém a veja nua. ― disse Rael calmamente sem se virar. Ele ficou parado se deixando ser abraçado.

― Você vai mesmo voltar? Vai me levar embora daqui? ― perguntou ela.

― É claro que vou, eu não vou deixar você aqui nas mãos daquele homem nojento, você não tem que se preocupar. ― disse Rael.

― Eu vou esperar… ― ela soltou Rael um pouco relutante. Rael não se virou para não ficar deixando-a constrangida, mesmo que na verdade ela não estivesse. Se fosse Rael, ela não se importaria de ficar nua para ele, mesmo que fosse para sempre.

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Everaldo não parava de gemer reclamando das dores, o estado de suas pernas era uma lástima e não tinha salvação, qualquer um dos cultivadores ali poderiam ver que Everaldo nunca mais voltaria a caminhar de novo. Todos eles estavam em silêncio diante do clone que não parava de correr os olhos ao redor.

― Fico feliz que se comportaram, assim não tenho que ficar tirando vidas inúteis. ― disse Rael em um tom frio surgindo por trás do clone, que abriu espaço liberando a passagem.

                Apesar de Everaldo estar reclamando de dores e ainda se mexendo, sua expressão estava ficando mais fraca, ele não parava de perder sangue e estava quase desmaiando. Rael percebeu que o homem morreria se ele não tomasse nenhuma medida.

― Você ainda não vai morrer. ― disse Rael se agachando e tirando uma espada. Ele cortou as pernas destruídas do homem, que gemeu miseravelmente. Depois, Rael usou seu poder curativo e fez as pernas se recuperar, estancando os ferimentos, deixando o homem aleijado dos dois joelhos para baixo. Everaldo suava e respirava desconfortavelmente, agora ele com certeza nunca mais andaria mesmo.

― Agora que já cuidamos de sua vida, lixo, me entregue o pergaminho de escravização de Janete. ― disse Rael estendendo a mão.

― Mesmo que ele estivesse comigo, eu não poderia romper o contrato sozinho. E se você me matar, não só ela como todos os escravos irão morrer, meu vínculo com eles é mortal.

                Esse era o medo de Rael. As vezes um escravo era vinculado com o nome da família e seria passado a frente quando o mestre morresse, como uma herança de família. Outras, o escravo era gravado diretamente no nome de seu mestre, e se o mesmo morresse o escravo também morreria (vínculo Mortal).

                Para se quebrar um contrato, tinha que ter em mãos o pergaminho e sete pessoas que entendiam a arte da escravidão. Além do mestre e do escravo, é claro. Um processo era feito cuidadosamente separando o escravo de seu mestre, ou passando para um novo mestre se fosse o caso. Qualquer erro poderia levar a vida do escravo embora.

                Se o pergaminho fosse rasgado, o escravo também morreria, por isso era quase impossível alguém se safar depois de virar escravo.

                Rael olhou o homem com ódio a frente, mas não adiantava ameaçar ou ofender, ele estava certo. Sem todos os preparos era impossível um escravo ser facilmente liberto. O processo envolvia o uso da simbologia…

― ‘Simbologia!’ ― Rael pensou arregalando os olhos. Ele nunca tinha pensado direito mas o processo envolvia mesmo o uso de simbologia, e a habilidade Mundo da Simbologia herdada por Emilia permitia que ele criasse, alterasse, apagasse ou destruísse itens mágicos.

                O coração de Rael bateu mais forte com um sopro de esperança, se ele removesse o símbolo implantado no pescoço de Janete, então era possível que ela fosse liberta. Mas havia uma chance de falhar e ela morrer, e Rael não podia arriscar a vida dela assim. Então, ele olhou em volta para vários outros escravos que estavam escondidos e espalhados entre a fazenda.

― Escravos, prestem atenção! Quem de vocês quer ter a chance de ser livre? Se algum de vocês tiver coragem para querer ser livre venham a mim, eu tenho uma proposta a vocês. ― disse Rael.

                Nenhum dos escravos se levantou de seus lugares, todos continuavam com medo demais para responder. Escravos eram como animais indefesos e no primeiro sinal esconderiam suas cabeças e rezariam para o pior passar, esperar que eles tivessem qualquer esperança era pedi muito. Rael podia pegar qualquer um deles e forçar tentando tirar a marca da escravidão, mas não seria justo, escravos nunca trataram Rael mal e ele não faria o mesmo de volta. Mas isso o colocava em um impasse, ele também não teria coragem de tentar em Janete uma vez que não tivesse certeza que funcionaria. Ele tinha medo de remover a marca e Janete morrer de repente.

                Mesmo que todos estivessem pensando que Rael era louco por dizer aquilo, ninguém ousava falar qualquer coisa. Eles ficaram todos em silêncio, esperando o que estaria por vir.

― Escravos, escutem: quero que todos se juntem aqui do lado! ― disse Rael apontando para o espaço vazio ao lado dos cultivadores. Nos primeiros sinais ninguém se moveu, depois eles foram se dirigindo de cabeça baixa para o local indicado. Eram homens e mulheres já com idade entre vinte a quarenta anos, todos trajando roupas comuns de faxineiros, jardineiros ou de alguma função. Eles ficaram todos de pé com a cabeça baixa. Rael não ia forçar nenhum deles, mas também não iria desistir tão fácil, era Janete que estava lá dentro nua, sem sequer poder esconder o corpo por causa de uma ordem.

― Sei que vocês acreditam não ter mais nenhum futuro, mas eu estou falando sério quando digo que há uma chance de liberdade hoje. Não sei o que foi combinado com esse homem, ou o que ele fez com a família de vocês, mas hoje, quem tiver coragem pode estar prestes a ser livre de verdade, e não estou cobrando nada de vocês além da coragem. ― repetiu Rael correndo os olhos pelas dezenas de escravos. Todos eram pessoas sem cultivação nenhuma, eram só pessoas normais que, mesmo se tivessem sua vida de volta, talvez continuassem sem nenhum futuro.

                Não houve resposta. Eles continuaram todos de cabeça baixa, sem ninguém se pronunciar e o silêncio se estendeu.

― Será que vocês desistiram mesmo? De tudo? Não tem mais família, não tem mais ninguém? Nenhum entre vocês quer ter a chance de ter sua vida de volta? ― perguntou Rael, que não acreditava que ninguém se manifestaria.

                Fora o fato de acharem Rael louco por acreditar que podia libertar algum escravo, eles também achavam Rael um baita estranho. Ninguém precisava pedir nada a um escravo, bastava arrastar e obrigar a ser feito. Mesmo aqueles homens que trabalhavam para Everaldo, por exemplo, quando queriam, arrastavam uma das mulheres e se satisfaziam. Escravos não tinham valor algum, eram como corpos vazios e sem escolhas. Mulheres que viravam escravas, na maioria das vezes, passavam por uma operação na mão de um médico cultivador para não gerarem filhos.

― Ninguém? Nenhum de vocês pensa em ser livre? ― repetiu Rael.

― Jovem mestre, ― um escravo deu um passo a frente de cabeça baixa e todas as atenções se voltaram a ele. Mas os outros escravos permaneceram olhando os pés: ― Eu não tenho mais nome, não sou mais ninguém. Não sei porque espera nosso consentimento, mas se houver algo que possa fazer com minha ajuda, eu me disponho. Só peço que não machuque os outros escravos. ― disse o mesmo. Era um homem moreno com cerca de trinta anos. Embora ele tenha dito tudo isso, nenhum dos escravos olhou para ele, continuaram com a cabeça baixa.

― Venha comigo. ― disse Rael guiando o mesmo para dentro da casa.

                Em um local de canto que ninguém via, Rael pediu para o escravo se sentar no chão. Tirou as luvas e se preparou.

― Preste atenção, se você senti algo, qualquer coisa, me avise. Não fique apenas em silêncio parado, entendeu? ― perguntou Rael, preocupado que o escravo não fosse dar sinais se algo estivesse fora do comum.

― Sim senhor. ― respondeu o mesmo sem olhar no rosto de Rael.

― Levante a cabeça, homem, se isso der certo, você voltará a ter um nome. ― disse Rael. O escravo obedeceu e olhou para Rael, mas por poucos segundos, ele rapidamente olhou em outra direção, apenas manteve a cabeça erguida.

― Vou começar, me avise se sentir qualquer incômodo. ― disse Rael e retirou as duas luvas, revelando uma mão comum e uma azul, o escravo não ficou olhando.

                Rael fez a ativação do Mundo da Simbologia. Uma barreira vermelha cobriu o pescoço e a cabeça do homem. Rael começou a identificar os símbolos no pescoço do homem enquanto analisava, usando seus olhos que com a barreira via muito mais além. Rael percebeu um total de cinco símbolos, ele pensou que seria apenas um antes. Rael teria que remover um a um, mas não tinha certeza sobre qual começar, ou poderia tentar remover todos de uma vez, que talvez fosse a coisa mais sensata.

― Huuuum! ― o escravo olhou para Rael e fez uma expressão difícil. Rael notou algo de errado e desativou a habilidade. Quando a barreira vermelha sumiu o homem votou a respirar.

― Não estava podendo respirar? ― perguntou Rael, torcendo para ser só isso.

― Não senhor ― respondeu o mesmo.

― Tudo bem, eu acho que vou consegui remover todos os símbolos em um minuto. Você consegue prender a respiração durante esse tempo? ― perguntou Rael preocupado.

― Farei sim senhor. ― disse o mesmo.

― Sem pressa, respire com calma e mantenha o controle, quando estiver pronto me dê o sinal e prenda a respiração. ― disse Rael. O homem fez um sim.

                Conforme Rael pediu ele deu o sinal e prendeu o fôlego. Rael ativou rapidamente o Mundo da Simbologia cobrindo a cabeça e pescoço do homem com a barreira vermelha novamente. Remover cinco símbolos de uma só vez era trabalhoso e Rael iniciou rapidamente a formação. Se ele tivesse mais tempo não seria tão complicado, mas ele só tinha um minuto.

                Rael riscou o ar com os dedos formando as linhas que se prendiam nos símbolos. O escravo continuou segurando a respiração e olhando impressionado aquelas linhas vermelhas abaixo dos seus olhos. As linhas que Rael montava no ar, seguiam para algum globo invisível em frente aos olhos do homem. Já estava quase acabando o tempo e Rael trabalhou o mais rápido que pôde. Então, ele fez o último movimento puxando o globo. Todos os cinco símbolos saíram, se desmanchando do pescoço do homem.

― Huuum…! ― o homem já estava ficando vermelho quando Rael desfez a habilidade. Ele parou e respirou com dificuldade.

― Consegui! Você não é mais um escravo! ― disse Rael sorrindo. Depois de remover os símbolos, a tatuagem da escravidão desapareceu.

― Não sou mais escravo? ― perguntou o homem se recuperando e levantou-se, ele tentou olhar o próprio pescoço mas não conseguiu, ele correu e se olhou no vidro da porta.Quando ele viu seu pescoço limpo, seus olhos se encheram de lágrimas.

― Não sente nada de ruim? Nenhuma dor? Nada de estranho? ― perguntou Rael, que tinha se dirigido para o lado do homem.

― Eu não sinto nada de errado! O senhor removeu mesmo a marca da escravidão! ― disse o homem alarmado de alegria.

― Isso é maravilhoso. Agora fique aqui e me espere. Eu vou cuidar de uma outra pessoa e depois ver o que farei com o resto. Não saia daqui até que eu volte, e não deixe ninguém perceber ― disse Rael. O homem fez um sim e ficou ali mesmo em pé.

                Rael voltou para o quarto encontrando Janete nua como de costume no canto do quarto. A mulher quando viu Rael de volta já abriu um sorriso de alegria e se levantou correndo até ele. Janete o abraçou de novo para ter certeza absoluta que Rael continuava sendo real.

― Está tudo bem, estou aqui e não vou deixar você. Você virá comigo quando eu terminar. ― disse Rael consolando a mulher, passando as mãos nas costas dela.

― Eu prefiro ser morta a ficar com aquele homem. O único homem que eu quero nessa vida é você, Samuel, mesmo que você não me queira. ― disse a mulher abraçando Rael com força.

― Não vamos falar sobre isso agora, eu quero que você se prepare, porque vou libertar você. ― disse Rael.

― Me libertar? ― perguntou Janete afastando o rosto do peito de Rael.

― Sim, eu vou tirar a marca da escravidão de você. Você voltará a ser livre e virá comigo. Vou te levar de volta pra sua família. ― disse Rael.

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Capitulo liberado por doação, agradeçam a: Leonardo Medeiros Schmidt

E

Isaac Junior