O Herdeiro do Mundo

132 - Decisões Oficiais

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

O Sol surgia timidamente no horizonte ao fundo das montanhas. Era o começo de mais um dia. Pessoas iam e viam partindo de suas casas, montando suas barracas, se dirigindo às suas seitas, escolas, locais importantes.

                A guilda da capital nunca fechava, nem mesmo à noite, mas o movimento mesmo começava pela manhã, onde as pessoas vinham se atualizar das novidades que chegavam antes do Sol nascer.

                No castelo imperial, príncipes e princesas eram sempre forçados a acordar cedo por ordens de seu pai, o imperador Elidas. Eles também representavam o imperador e sempre tinham visitas importantes a cumprir por outras cidades, e até territórios mais distantes, para acordos, negócios e muitas outras funções. Era um teste simples do imperador para saber qual dos filhos seria mais digno do trono. Diferente da maioria, o imperador Elidas não beneficiava seus filhos homens. Esses, se quisessem demonstrar interesse ao trono, tinham que se esforçar mais que as mulheres.

                No território Torres, as trocas de guardas já estavam sendo finalizadas. Os jovens já partiam de suas residências bem arrumados e prontos para mais um dia de aprendizado. Sendo de um clã rico, todos eles teriam futuros brilhantes como grandes futuros mestres. E não vamos esquecer os escravos, que já estavam acarretados com suas inúmeras tarefas.

                Na residência Raymonde (sobrenome de Rael que Violeta deu a ele), o dia também começou. O sol lançava seus tímidos raios pelas frestas da janela, pegando inicialmente no rosto de Mara, que foi a primeira a despertar. Ela acordou preguiçosamente enquanto sentia o braço de Rael cruzado por cima da cintura dela, a mão dele estava segurando de leve a barriga dela. Rael e Natalia ainda dormiam despreocupados enquanto Mara cuidadosamente afastava o braço de Rael.

                Ela se levantou com os cabelos bagunçados e olhou os outros dois. Rael, que estava virado para Mara antes, se virou para o lado oposto e ficou com o rosto colado no de Natalia, que também se mexeu por estar abraçada com Rael. Os dois não tinham acordado, mesmo com Mara levantando. Ela não teve ciúmes, por alguma razão, ela não ligava por Rael ter Natalia como segunda esposa. Ela só se sentia mais responsável, meio que acreditava ser aquela que tomava conta dos dois.

                Saindo do quarto, ela encontrou a escrava já vestida com sua roupa de trabalho, saindo do outro quarto a frente com um balde em mãos. A escrava rapidamente a cumprimentou.

― Bom dia. ― disse Mara de volta e seguiu para o banheiro. Ela se olhou no espelho e começou a se ajeitar.

                No quarto, Rael dormia confortavelmente por cima do braço de Natalia que nem se quer se importava, enquanto mantinha um braço por cima de Rael. Os dois continuavam ainda dormindo. Embora Rael se movesse dormindo, sua mente estava no Mundo Completo, longe daquele estado.

                Rael foi o segundo a acordar, instantes depois de Mara. Ele despertou lentamente, vendo o lindo rosto de Natalia a frente. Ele parou por instante e se lembrou de Rita novamente, era doloroso pensar sobre isso, mas era inevitável. Rita e seus pais foram a primeira família que Rael teve, embora não tenha sido real, durou dias suficientes para ficar na memória. Rael se ajeitou deixando uma mão livre e deslizou o dedo suavemente pelo rosto de Natalia, ele se conformou por pelo menos ter salvo ela.

                Enquanto Rael mexia no rosto dela, ela foi despertando e olhando Rael de volta. Os dois ficaram se olhando sem dizer nenhuma palavra por alguns instantes.

― Desculpe acordar você. ― disse Rael depois de um tempo.

― Eu queria sempre acordar assim com você. ― disse Natalia em resposta sorrindo. Ela aproximou mais o corpo e abraçou Rael com carinho se encostando a ele o máximo que podia. Rael sorriu satisfeito, sentindo aquele corpo quente o apertando e apertou a garota de volta enquanto fechava os olhos.

                Rael foi o segundo a se levantar e saiu do quarto ainda vestindo a camiseta.

                Na cozinha, ele encontrou Mara arrumando a mesa. Ela ainda não estava muito contente com Rael.

― Ainda com raiva de mim? ― perguntou Rael, notando isso facilmente.

― Como se eu fosse esquecer o dia de ontem depois de uma noite de sono. ― disse Mara e nem olhou para Rael, enquanto continuava arrumando a mesa, colocando talheres, pratos e copos.

                Rael a agarrou por trás fazendo ela parar o que fazia e beijou o pescoço dela, mesmo com ela lutando e tentando se soltar.

― Você pode morrer de raiva de mim, mas ainda é minha. ― disse Rael cheirando e beijando sua deliciosa pele.

― Me solta, marido! Eu não estou de brincadeira! ― Mara lutou reclamando.

― Nem eu estou. Você é minha e sempre será minha, mesmo que fique furiosa comigo.

― Só nos seus sonhos, se você não começar a mudar, o sempre não existirá em nossa relação. ― disse Mara um tanto emburrada, mas se deixando agora ser abraçada por Rael sem lutar muito. Ela mantinha uma expressão infeliz no rosto.

                Percebendo que ela estava mais aceitável, Rael a virou e tomou os lábios dela. Mara não lutou muito para corresponder o beijo. Foi um beijo simples, mas envolvendo carinho, língua e toque de lábios.

― Pare de dizer que você vai se separar de mim ou qualquer coisa do tipo porque eu não gosto, fique com raiva, grite, mas não diga se não quer que aconteça de verdade, porque ouvir você me dizendo isso dói. ― disse Rael e passou os dedos arrumando os cabelos dela que entraram na frente do rosto.

― Você sabe o que precisa fazer pra evitar isso. ― reclamou Mara virando o rosto de lado.

― Eu nem sempre vou poder compartilhar tudo, já conversamos sobre isso. ― lembrou Rael. Mara ficou fazendo uma expressão um pouco sem jeito e se virou, soltando-se lentamente dele. Rael ficou olhando e ela voltou a ajeitar a mesa.

― O que foi agora? ― perguntou Rael.

― O que foi o quê? ― perguntou Mara de volta.

― Pelo menos uma vez, diz que não está com raiva de mim, desde ontem você está desse jeito. ― insistiu Rael.

― Eu não estou mais com tanta raiva de você, mas ainda assim estou… ― disse ela. Nesse momento, a porta de entrada da casa foi aberta. Ninguém se preocupava tanto com isso porque só quem podia entrar eram pessoas de confiança.

― Bom dia! Filha, genro…! ― disse Neide animada. Os dois responderam de volta e logo atrás de Neide surgiu Rayger, com um ar mais sério.

                Depois dos cumprimentos, todos tomaram seus lugares nas cadeiras em volta da mesa. Havia um assunto que deveria ser discutido, que era a respeito do clã Sarbaros. Um clã pode ser tomado e até destruído por causar problemas a outro clã, mas esse fato precisava ser provado para a família imperial. A família imperial não ousaria se opor a família Torres, mesmo se eles fossem os errados, mas o fato aqui é que eles não teriam o apoio do patriarca Romeo, obviamente. Então, Rayger correu para trabalhar nas provas junto com a esposa.

                Rael também não deu a ordem para as pessoas daquela cidade libertarem os escravos porque Neide pediu, dizendo que não era uma boa ideia. Rael poderia sim tomar o poder e o controle da cidade, até mesmo destruí-los se desejasse, mas querer abolir a escravidão em um local em especial não seria uma boa ideia, porque chamaria uma atenção que agora eles não poderiam ter.

― Eu já consegui a prova principal, que é essa: ― disse Rayger expondo uma pedra espiritual de informações ― algum representante da família imperial virá te fazer uma visitar em breve. Pode ser o próprio imperador Elidas ou algum de seus filhos, e quando eles chegarem, você deve apresentar as imagens desta pedra. ― explicou Rayger.

― Ana foi uma das que mais colaborou com as provas. ― disse Neide, o que deixou Rael satisfeito. Embora ele tenha ficado lá por vários dias, nem sempre esteve de olho em Ana. Ana passou boa parte dos dias correndo para lá e para cá com Neide.

― Depois de provado que você foi forçado a todos esses atos, eles perguntarão se você deseja mudar o nome do clã, da cidade em que o clã reside ou algo do tipo. Sendo o novo governante local, você passará a pagar algumas taxas ao império também. Eu ouvi que você deixou essa Ana no poder, tomando conta das coisas. É importante você depois passar todas essas informações a ela. Embora você tenha oficializado o cargo dela como matriarca por lá, a família imperial não aceitará isso como algo oficial, eles terão você como o verdadeiro governante daquela cidade. ― explicou Rayger.

― Eu não quero meu nome nisso. ― disse Rael depois de pensar um pouco.

― Por que, genro? ― perguntou Neide.

                Quando Rael ia responder, Natalia chegou encontrando todos naquela improvisada reunião.

― Eu atrapalhei? Me desculpem. ― disse ela sem jeito e quase ia sair, quando Rael a chamou.

― Senta aqui do meu lado. ― Ela se aproximou e sentou-se na cadeira ao lado de Rael, ficando calada em frente do tio para a conversa prosseguir.

― Como estava dizendo, Samuel, por que você não quer seu nome oficializado? ― perguntou Rayger, retomando o assunto.

― Eu sei que aquele clã não vale nada, mas pretendo fazer uso deles no futuro. Quero levar pessoas importantes pra lá e tudo o mais, então, eu prefiro manter a descrição e não ter meu nome de certa forma misturado a essa cidade. Eu não quero que outras pessoas paguem por vinganças contra mim. ― explicou Rael se lembrando de sua falsa família.

― Então me oficialize genro, eu posso segurar isso para você. ― se ofereceu Neide.

― Se esse é o caso, eu agradeço. ― disse Rael aliviado. Quem iria mexer com uma cidade que era comandada pela mulher do elder mais forte do clã Torres? Rayger não era mais um conselheiro, mas ainda era o elder mais poderoso de todo o clã.

― Agora fica tudo com você, Neide? ― perguntou Rael, achando que não teria mais que conversar com alguém do império.

― Na verdade, você ainda terá que contar sua parte da história. Você dirá toda a verdade e passará o comando de poder a mim. Com as provas, então não será um problema. Temos depoimento de pessoas também em documentos. ― disse Neide, apresentando uma pequena pilha de cartas com assinaturas. As cartas tinham um conteúdo que explicava sobre o pedido da cabeça de Rael feito por Helks e a confirmação das pessoas presentes no ato que viram tudo, com data, hora e todos os detalhes mais necessários. Graças a Ana, Neide teve facilidade em consegui tudo.

― A pedra mostra as últimas memórias do elder Helks e tudo que ele fez e viu antes de morrer. Mas isso também vai expor um pouco de você e tudo que fez naquela batalha. ― observou Rayger, que já tinha visto a pedra. Apesar de chocado com algumas coisas, ele fez parecer que tudo era bem natural. Ele tinha pego as informações diretamente do pilar do clã Sarbaros na noite passada.

― Isso é mesmo necessário? ― perguntou Rael, que não queria que os outros conhecessem aquele poder.

― Genro, meu marido e eu conversamos e concordamos que a família imperial deve poder ter acesso a essa informação. Você pretende no futuro abolir a escravidão, e é sua chance de apresentar as primeiras cartas. Mostrando aquele poder que usou naquela batalha, qualquer um vai tremer ao ouvir o seu nome, e sem mencionar que no futuro, mesmo não tendo o apoio do patriarca, você não será importunado.

― Um sétimo reino capaz de enfrentar um décimo primeiro. Mesmo que a família imperial tenha dez vezes mais coragem, eles não vão espalhar essa noticia. Eles vão guardar essa preciosa informação com eles e você vai ganhar um enorme prestigio também ― explicou Rayger em seguida.

― … Ou eu posso ganhar o nome de monstro… ― disse Rael lembrando da sua forma.

― Você é quem decide, genro. Meu marido e eu achamos que será melhor você mostrar o que pode fazer, mas caso não queira, os documentos que temos também provarão tudo. ― disse Neide.

                Mara e Natalia ficavam quietas por não saber do que se tratava aquela conversa. Por isso, as duas apenas bebiam chá e escutavam em silêncio.

― Façamos do jeito de vocês, deixem eles saberem sim o que posso fazer. ― disse Rael depois de pensar um pouco.

― A propósito, genro, parece que seu corpo não teve efeitos negativos e voltou ao normal, mas você não pretende visitar sua mestra e falar sobre isso com ela? ― perguntou Neide, fazendo Rael se lembrar que ele realmente não conversou com Violeta nem Emilia a respeito disso. Ele passou a noite inteira devorando livros sobre dragões, preocupado com o que Violeta tinha dito a respeito deles.

― Eu estou bem e tenho formas de me comunicar com minha mestra. ― disse Rael fazendo uma pausa.

― A visita imperial pode ocorrer a qualquer hora do dia de hoje, então é importante que você não saia. Eu também ficarei por perto para acompanhar tudo. ― disse Neide.

― Se terminamos por aqui, eu preciso ir. Tem um assunto que está me incomodando à alguns dias. ― disse Rayger.

― Que assunto? ― perguntou Rael.

― Parece que meu irmão Romeo encontrou uma mulher com vitalidade acima de trezentos. Na realidade, eu ouvi que estão atrás dela, mas que ainda não a pegaram. ― disse Rayger.

― Qual é o nome dela? ― perguntou Rael por perguntar.

― Não me deram essa informação, não faço mais parte do conselho. Eu apenas ouvi eles comemorando felizes sobre o patriarca ter conseguido essa informação. O nome dela está sendo mantido em sigilo até que eles a peguem para não serem atrapalhados por forças externas. ― explicou Rayger.

― E o que preocupa tanto o senhor? ― perguntou Rael.

― Nenhuma mulher normal jamais teve uma vitalidade tão alta na história. Se essa mulher existir mesmo, eu acredito que ela possa ter o mesmo sangue da sua mestra. ― disse Rayger, chocando Rael e as meninas que agora sabiam da verdade. Violadoras eram uma raça de mulheres que estavam bem acima de mulheres comuns.

― Isso não poderia ser possível, elas nem podem ter filhos. ― disse Rael em seguida.

― Com uma vitalidade dessas, não é o que parece. Se essa informação for mesmo real, pode ser até mesmo a mulher que quase nos destruiu no passado. ― disse Rayger.

― Se for uma violadora, eles não vão consegui contê-la… ― disse Rael e já formou uma careta por se lembrar da fraqueza delas.

― Samuel, não tenha certeza disso. Esses homens devem estar preparados para qualquer coisa, ainda mais para um ser como ela.

― Meu marido e eu ligamos os pontos muito facilmente da última vez, não pense que eles não podem ter feito o mesmo. Aconselhamos você a não deixar sua mestra ou aquela mulher chamada Emilia aparecer aqui. Romeo provavelmente não faria nada, mas Elisa…Sobre ela, é melhor você tomar o devido cuidado. ― disse Neide.

― Tudo bem, eu entendi. ― disse Rael, encerrando o assunto e puxando um papel e um lápis: ― Quero uma lista de novos itens, vou fazer uma armadura mágica para Mara e alguns anéis melhores de comunicação. Já que vou passar o dia aqui, então é bom eu fazer algo de útil. ― disse Rael, surpreendendo Mara. Ele tinha feito uma dessas para Natalia anteriormente, mas não para ela.

― E também, já estamos nos sétimo reino como você queria, marido. ― disse Mara em seguida.

― Sim, eu já notei. Eu também vou cuidar disso. ― disse Rael enquanto escrevia.

                Depois de escrever tudo que precisava, Rael passou o bilhete a Neide, que conferiu e confirmou que conseguiria tudo até o meio dia. Depois, ela saiu junto com Rayger.

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Do lado de fora das muralhas, um homem com aparência de uns trinta anos estava nervoso, andando de um lado a outro próximo ao portão principal do clã Torres. Isso incomodou um guarda que se aproximou curioso.

― O senhor precisa de algo? ― perguntou o guarda que tinha saltado da muralha caindo a frente do homem. Esse homem, nada mais era do que Malcon Alencar, o pai de Janete, que Rael salvou na floresta a um bom tempo atrás.

― Eu estou esperando uma pessoa. ― disse ele meio sem jeito.

― E essa pessoa seria do nosso clã? ― perguntou o guarda, desconfiado. Como Malcon era um simples cultivador do quinto reino, o guarda nem o teve como qualquer sinal de ameaça.

― É sim senhor, mas eu não quero incomodá-lo sobre isso. ― disse Malcon.

― Me diga quem é e eu talvez possa ajudar. ― disse o guarda.

― Samuel, o jovem mestre casado com Mara e Natalia. ― disse Malcon cuidadosamente. De tantas pessoas, ele foi citar justamente Rael. O guarda mediu Malcon de novo e deu um olhar de desaprovação.

― O que diabos o senhor quer com esse jovem mestre? Aliás, quem é o senhor e o que seria dele? ― o guarda na mesma hora mudou o tom de voz. Quanto mais respeito um jovem mestre tinha, mais pessoas importantes iriam rodeá-lo. Aquele pobre homem não se encaixava dentro desse circulo. O guarda teve ele como algum mendigo a procura de dinheiro ou algo do tipo.

― Apenas um conhecido. ― disse Malcon.

― Saia daqui! Você não parece ser o tipo de homem que esse jovem mestre conheceria! ― disse o guarda com um tom severo. Malcon baixou a cabeça e saiu em silêncio, se afastando do guarda que ficou olhando um tempo e depois voltou em um salto para a muralha.

Malcon lembrava que Rael havia dito para não procurá-lo, mas o problema é que eles estavam em uma emergência: Sua filha Janete estava com sérios problemas.
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Capitulo liberador por doação, agradeçam a: Leonardo Medeiros Schmidt




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