O Herdeiro do Mundo

131 - Uma Longa Conversa

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

Na biblioteca, Rael se levantou saindo do lado de Emilia, que de costume estava deitada lendo alguns livros que estavam largados sobre a cama em volta dela. Mesmo que ela estivesse no meio ou em qualquer lugar, Rael sempre aparecia em um espaço vazio, surgindo até mesmo por cima dos livros, mas não sobre ela.

― Bom dia, né! Ou boa noite, sei lá, seu mal educado! ― disse ela porque Rael não disse uma única palavra enquanto se levantava para sair. Ele até olhou ela rapidamente e em seguida a ignorou completamente, saindo da cama.

― Eu não estou bem hoje, Emilia, então não amola. ― disse Rael se afastado sem olhar para trás.

― Ou, o que aconteceu? Você está bem? ― Emilia se levantou preocupada, seguindo atrás de Rael. Ela fechou o livro e atirou ele para a cama, junto com os demais.

― Isso não é problema seu. Agora, vai deitar e me deixa, a única com quem quero falar é com Violeta. ― reclamou Rael de volta.

― Eu fiz algo de errado que incomodou você? ― perguntou Emilia, ainda seguindo Rael.

― Não, Emilia, você não fez nada. ― disse Rael parando impaciente e fazendo ela parar junto: ― Eu só quero falar com Violeta, e de preferência a sós. ― explicou Rael.

― Você não tá com uma expressão muito boa, Rael. ― observou Emilia, mantendo um tom calmo e curioso.

― Não estou mesmo! E você está me deixando ainda mais irritado. Pode por favor me deixar sozinho? ― perguntou Rael.

― Credo! Eu não sou nenhum animal pra você falar assim comigo. Parece até que um bicho te mordeu! E se mordeu, espero que tenha ficado as marcas! ― Emilia empinou o nariz irritada e se afastou sem dizer mais nada.

― Era só o que me faltava! ― disse Rael olhando ela se retirar por um tempo. Depois, suspirou e voltou a caminhar, se focando no que iria fazer.

                Violeta estava na mesa como sempre, lendo alguns livros, empenhada em aprender mais e abranger seus conhecimentos. Quando Rael a viu, levantou as mãos e começou a bater palma, chamando a atenção dela.

― Rael, o que há como você? ― perguntou Violeta com um ar curioso porque ela percebeu a ironia no rosto de Rael enquanto ele batia palmas.

― Estou aplaudindo a sua brilhante ideia de ter me introduzido dentro de uma família inocente. Criado a ilusão de que com eles eu me controlaria e não faria nenhuma besteira para não colocá-los em perigo.

― O que aconteceu? Sua cara não é muito boa… ― disse Violeta preocupada se levantando. Rael parou de bater palmas, mas se manteve alguns metros afastado dela.

― Todos eles morreram. Adam, Barbara e Rita. Todos estão mortos por terem sido envolvidos comigo. ― disse Rael ficando sério.

― Rael, espera. Conta tudo devagar. ― pediu Violeta, ficando surpresa com o fato.

― Qual a parte de “estão todos mortos” que você não entendeu? Eles foram seqüestrados pelo clã Sarbaros, e depois foram mortos bem na minha frente! Tudo é culpa sua! A ideia de criar esses falsos laços foi sua!

― Foi um meio que usei para te conseguir uma vida, e você precisava. Ninguém poderia saber que você cresceu dentro de uma caverna secreta, sendo cuidado por uma violadora. ― disse ela se defendendo.

― Você e Rika fizeram a mesma coisa com Rose. Jogaram ela para cima de mim para tentarem controlar meu instinto de vingança. Vê agora o resultado positivo que isso teve? Pessoas inocentes morreram porque você os colocou nisso. Se não fosse por sua ideia, eu nem deveria conhecê-los! ― reclamou Rael de volta.

― Você está tentando colocar a culpa da morte dele sobre meus ombros? Mesmo sabendo que eu não estive lá com você, nem vi e nem sei ainda o que de fato ocorreu? ― perguntou Violeta ficando bem séria.

― E de quem mais seria a culpa? Quem teve a brilhante ideia desde o começo de me colocar com essa família? Me aponte outra pessoa, porque eu não vejo nenhuma além de você.

― Você foi incapaz de protegê-los, e agora me acusa sem me dar sequer o direito de defesa! Rael, você não tem esse direito! Eu ainda sou sua mestra! ― Violeta agora estava com raiva também.

― Eu não podia chamar ajuda de ninguém ou eles teriam matado todos na mesma hora! ― reclamou Rael de volta.

― Quem você acha que eu sou? Quem, na droga nesse mundo pequeno, poderia realmente me enfrentar? ― perguntou Violeta ainda irritada.

― Você não entende! ― disse Rael.

― Você é quem não entende! Se quer me culpar de sua fraqueza me culpe, mas explique antes o que aconteceu, porque não vou aceitar nenhuma culpa de nada, estou sendo acusada sem nem saber de toda a história. ― disse ela.

                Rael se afundou numa cadeira entrando em silêncio. No fundo ele acusava Violeta, mas conhecia o poder dela e sabia que se tivesse avisado, ela poderia tê-los salvo. Rael, durante aquele dia de fúria com o clã Sarbaros, partiu sem pensar muito, e isso trouxe muitos problemas.

― Você vai contar tudo que houve, ou vai continuar gritando e me acusando sem deixar eu me defender? ― perguntou ela.

― Contar não vai mudar nada, eles ainda vão continuar mortos. ― disse Rael, desiludido. Ele pensou mesmo em descontar sua raiva em Violeta, mas ele sabia que não tinha razão. Com o poder de Violeta, mesmo que o clã Sarbaros a detectasse a tempo, ela ainda teria encontrado e libertado todos, deixando Rael livre para lutar contra eles sem preocupações. Era bem fácil fazer um cálculo dos resultados quando se estava mais calmo.

― Mesmo assim, eu ainda quero saber. Conte, como sua mestra eu exijo! ― disse Violeta parando de pé em frente a Rael.

                Rael começou a contar o que houve nesses dias, o que também ligou a parte do dragão:

― Espere aí, você encontrou um dragão vivo? Isso não pode ser possível! ― Violeta ficou aturdida com a novidade.

― Eu também pensei o mesmo. Mas acabei sendo surpreendido. ― disse Rael.

― Eles não deveriam mais existir…

― Foi a mesma coisa que pensei! ― explicou Rael.

― E ainda mais, um dragão fêmea? ― Violeta estava com raiva das acusações sofridas à pouco, mas aquilo era hilário demais para não rir. Ela se virou disfarçando e segurou o riso o máximo que pôde, levando as duas mãos a boca.

― Pronto, ela vai começar… ― disse Rael de mau humor, já percebendo a reação de Violeta. Era tão óbvio que até uma criança perceberia.

                Violeta ria porque Rael não queria ter filhos e aí parecia que o mundo inteiro estava trabalhando para Rael ser pai. Como o Herdeiro do Mundo e tendo o DNA mais raro de todos, ele era de fato o único a combinar com qualquer espécie (que pudesse tomar forma humana). Violeta sabia que tanto a raça Celestial quanto a Suprema poderiam fazer isso.

― Eu não estou rindo. ― disse Violeta e se virou de volta para Rael, ficando séria. Mas ela não aguentou o olhar emburrado de Rael e desandou a rir enquanto se apoiava no ombro dele. ― Hahahahahahaha! ― Rael esperou pacientemente olhando em volta a crise de risos de Violeta passar, enquanto ficava ainda mais emburrado. Ele também entendeu porque ela estava rindo, ele não era bobo.

― Mas Rael, você não tem sorte mesmo. Encontrar justamente um dragão, e ainda fêmea! ― disse Violeta conseguindo se conter aos poucos.

― Já acabou a graça? Não quer mais saber do resto da história? ― perguntou Rael emburrado.

― Não. Apesar de rir, isso é uma coisa muito séria, Rael. Você se meteu em um grande problema, na verdade, um gigantesco problema. ― explicou Violeta conseguindo ficar séria.

― O que quer dizer? ― perguntou Rael agora preocupado.

― Você poderia ter sido morto. Dragões são orgulhosos demais para confiar em alguém, e não acreditam em nada que não sejam de sua própria espécie. ― disse Violeta, após ter recuperado completamente a seriedade, e isso deixou Rael um tanto preocupado.

― Presumo que ela tenha me visto como sua espécie, porque ao que parece, eu poderei dar filhos a ela. Acho que só para isso que eu sirvo neste mundo. Estou aqui para salvar as raças bestiais de suas extinções. ― disse Rael olhando de lado com um tom mau humorado.

― Ela fez mesmo esse tipo de acordo com você? ― Violeta estava chocada. A raça celestial já era alta entre as bestas, mas os dragões estavam muito além. Nem mesmo Violeta com todo seu poder ousaria se opor a um dragão, ainda mais se esse fosse o último de sua espécie. Como dragões herdam os poderes dos seus que já se foram, então esta seria a última e a mais poderosa de sua raça.

― Fez, e disse que no futuro iria me procurar.

― Droga! Isso não é bom. ― Violeta mordeu a unha preocupada e saiu andando em círculos. Emilia tinha sido a primeira mulher a bater de frente em poder com Violeta, mas Alexia, essa seria muito acima do poder de Violeta ou Emilia juntas. E uma coisa diferente na aliança com o dragão é que essa poderia trair Rael. Rael não estava seguro confiando nela como ele confiava nas violadoras, que tinham sido despertadas por ele.

                Saber sobre o dragão fez Violeta até esquecer da história que Rael estava contando.

― Eu não tive escolha, ou eu aceitaria ou ela me matava. ― disse Rael.

― Ela ainda precisa de um corpo humano. Durante a troca ela estará mais fraca, se Emilia e eu a encontrarmos durante esse processo, então poderemos pôr um fim nela antes que cause mais problemas. ― disse Violeta, que sabia um pouco sobre os dragões

― Você não vai machucá-la, eu dei minha palavra! ― disse Rael logo em seguida.

― Nós não podemos nos dar ao luxo de confiar em um dragão! Eles quase destruíram todo o equilíbrio do mundo. Você nem faz ideia de com quem foi se meter. ― reclamou Violeta.

― Eu não me importo, ela prometeu que seríamos aliados no futuro. Disse que valeria a pena se aliar comigo porque meu crescimento era ilimitado.

― Você não está entendendo, Rael…

― Quem não está entendendo é você! Eu não tive escolha alguma, mas dei a minha palavra, então você não vai caçar e fazer nada contra ela, a não ser que ela nos traia primeiro.

― Absurdo, você se aliando a um dragão! ― reclamou Violeta.

― E por que tanta raiva deles?

― Os dragões mataram vários deuses antes de caírem. Eles não respeitavam a balança do mundo e se achavam os reis definitivos de todos os seres vivos. Eles tentaram até mesmo matar você! Eu ouvi essas histórias durante o tempo que passei presa. A guerra que se formou entre os dragões e os deuses foi tão grande que arrastou dezenas de mundos. ― disse Violeta chocando Rael.

― E daí? Só resta ela agora, e ela não pode montar um exército de um dragão só.

― Ela usará você para ter um novo exército. Você nunca pensou como será um filho seu, sendo gerado por você que é o herdeiro, junto a um ser com a linhagem de um dragão? Esse ser poderia superar todas as existências do mundo!

― Bom, ao que parece, meus inimigos que nem conheço são fortes e numerosos, uma existência assim poderia ajudar a equilibrar. ― disse Rael, sem se importar com o comentário de Violeta.

― Você nem está levando isso a sério! Rael isso é serio! ― disse Violeta.

― Você é quem não está! Eu dei minha palavra e ponto. Assunto encerrado, quando ela aparecer irá recebê-la bem, tanto você quanto Emilia.

― O que fez você confiar nela? ― perguntou Violeta como se tivesse desistido de discutir.

― Eu não sei dizer. Só sei que confio, mesmo não gostando. Eu fui sim forçado, isso é verdade, mas ela poderia ter me usado e acabado comigo. Ela confiou em mim, me ajudou e me liberou, garantindo que nos ajudaríamos mutuamente no futuro e eu não iria me arrepender. Além disso, ela não tem mais intenções de dominar mais nada, quer apenas sobreviver. ― explicou Rael.

― E você acreditou em tudo que ela disse, tão facilmente?

― Já chega, Violeta! Eu já disse que você não vai se meter nisso, a não ser que ela me traia. ― reclamou Rael.

―Então, agora você não confia mais em meus atos? Só porque algumas pessoas morreram, você acha que a culpa foi minha. ― observou Violeta.

― Sabe outro motivo que não me fez pedir sua ajuda? É lembrar que você sempre me mandou resolver meus problemas sozinho. Você sempre me disse que eu estava por conta própria e portanto eu não pensei em chamar você. ― reclamou Rael.

― Eu sempre falo isso pelo bem do seu desenvolvimento! Tudo que fiz foi pensando no melhor para você. ― disse Violeta se defendendo.

― Igual a vez que esperou eu fazer a cagada de matar um inocente para me dizer que a minha vingança estava errada? Violeta, admita, nem sempre você tem razão. ― disse Rael depois de um tempo, mas ele nem estava tão nervoso.

― Agora você vai me culpar por querer ver você crescer? ― perguntou ela.

― Me ver crescer? Como perder pessoas importantes na minha vida me ajuda a crescer? ― perguntou Rael voltando a ficar irritado e se levantou empurrando a cadeira.

― Não foi isso que eu quis dizer, nem o que eu queria que acontecesse! ― defendeu-se ela.

― Olha, já chega. Eu errei, nós erramos, vamos apenas esquecer tudo isso. Eu não consigo ter raiva de você, mesmo que eu tente ou force. Essa é a verdade. ― disse Rael baixando o tom de voz e olhando de lado.

― Nós começamos a falar do dragão e no fim você nem terminou de me contar tudo. ― disse Violeta também se acalmando.

― E nem precisa, isso só vai me fazer ter más lembranças. ― disse Rael.

― Tudo bem, você está certo. Não precisa mais me contar sobre isso. Eu posso ter mesmo errado. Me desculpe. ― disse Violeta surpreendendo um pouco Rael.

― De todo jeito, não há mais nada que possa ser feito sobre isso. ― disse Rael se virando desanimado de novo.

― E agora, o que vai fazer?

― Eu ainda estou pensando. Talvez eu crie uma seita secreta e treine pessoas da minha confiança. Em todo caso, já terminamos por aqui e eu quero ver alguns livros sobre os dragões. ― disse Rael dando alguns passos, saindo de perto de Violeta.

― Vai mesmo confiar nela? ― perguntou Violeta fazendo Rael parar.

― Vou, e você vai confiar em mim. Você não irá fazer nada contra Alexia. ― repetiu Rael, soando como uma ordem, mas de uma maneira bem sutil.

― Não se preocupe, não irei. ― confirmou Violeta. Só depois, Rael voltou a caminhar e se afastou sem dizer mais nada.

                Violeta continuou um tempo parada até Rael sumir nos corredores de livros, depois ela se sentou na cadeira e cobriu o rosto com as mãos, deixando os cotovelos encostados a mesa. Ver Rael furioso com ela tinha doído no fundo da alma, e ela lutou muito para também parecer brava com ele. Esse tipo de encenação era muito difícil para uma violadora despertada por um homem. Mas a pior parte era ela não saber o que Alexia poderia fazer com Rael futuramente. Nunca houve na história alguma vez onde que um dragão confiou em outros além de sua raça, mas já houve vezes em que eles se disfarçaram entre deuses e mataram vários. Por isso, Violeta sabia como o dragão tomaria um corpo para si.

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Capitulo liberado por doações, agradeçam a: Vinicius Alves Maia