O Herdeiro do Mundo

130 - De volta Em Casa

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

A partida do clã ocorreu somente no terceiro dia à noite, quando Rayger apareceu para resolver algumas pendências e cuidar do resto, de coisas que precisavam fazer para provarem que o ataque de Rael foi causado por provocações do clã.

Neide se despediu deixando tudo com seu marido, deixou dois guardas para a proteção de Ana como foi pedido e só então partiram. Neide deu uma carona levando Rael e partiu adiante na frente de seus homens. Como uma cultivadora do décimo terceiro reino, a velocidade dela era incomparável aos outros.

― Agora você vai virar mestre, genro? Quais são seus planos futuros? ― Neide perguntou curiosa, enquanto mantinha o braço cruzado na cintura do mesmo.

― Eu não andei pensando muito nisso, mas acredito que está na hora de criar minha própria seita, criar um grupo de pessoas em que eu possa confiar e proteger ao mesmo tempo. ― explicou Rael.

― Ainda está triste pelas suas perdas? ― perguntou Neide preocupada, ela já tinha dado os pêsames a Rael e sentiu que ele ainda andava muito quieto.

― Foi por culpa minha, como você acha que eu não estaria triste? Todas aquelas pessoas foram envolvidas em algo criado por mim. Não foi justo o que aconteceu com eles. ― disse Rael.

― Genro, você já se vingou. Tenha ânimo, você ainda tem suas esposas e todo o resto. ― disse Neide e voltou a olhar para frente. Rael continuou em silêncio, pensativo.

_____________________________________________________________________________
Depois de chegarem ao clã, Rael foi abraçado por Natalia que quase não o soltou. Mara estava parada furiosa ao lado da porta de braços cruzados. Rael não cumpriu sua palavra de voltar rápido, e ainda por cima quase morreu. Ela ficou sabendo de tudo pela mãe, que só contou os detalhes quando já estavam quase voltando. Se tivesse tentado contar antes, Mara possivelmente daria um show, querendo ir atrás de Rael.

― Marido, eu estava com tanta saudades! ― disse Natalia beijando a face de Rael, ela tinha cada vez menos vergonha, mesmo na frente de Mara e Neide.

― Bom, eu vou deixar vocês se resolverem e voltarei para casa. Genro, se cuide e não faça mais besteira. ― Neide se despediu com um aceno de mãos e em seguida se retirou. Ela mantinha um ar estranhamente pensativo desde que ouviu sobre Rael querer criar uma seita.

― Mara, você não vai me dar um abraço? ― perguntou Rael depois que Natalia se afastou de lado.

― Não! Você não merece. Minha mãe me contou toda a loucura que você fez. Se não fosse por ela, você poderia estar morto agora. Não te passou pela cabeça que eu poderia ajudar? ― perguntou Mara irritada, batendo um pé com força no chão. Ela estava mesmo furiosa com Rael. Como sua primeira esposa, Rael nem sequer pensou em pedir a ajuda dela para atacar o clã Sarbaros, e quase morreu sozinho. Como ela não poderia estar furiosa?

― Eu não podia chamar ninguém, senão eles matariam todos. ― defendeu-se Rael. Natalia estava um pouco por fora do ocorrido, porque quando Neide explicou Mara não estava por perto e não disse nada para não preocupá-la. Ela apenas disse que Rael já estaria voltando com sua mãe.

― E no fim, você não conseguiu salvá-los e quase morreu. Se você me perdoou para ser sua esposa, então pelo menos me trate como uma daqui para frente. Eu tenho sentimentos e me preocupo com você, será que é difícil você entender isso? ― perguntou Mara, visivelmente chateada.

― Eu sinto muito, não queria envolver mais ninguém em meus problemas… ― disse Rael.

― Isso não é suficiente, marido! Você sempre me trata assim, diz que vai fazer uma coisa e passa dias fora sem dar notícia, e quando dá, é ameaçando parar. Você não imagina como eu fiquei, quando minha mãe me contou o que realmente ocorreu. ― disse Mara.

― Esposa, estou com fome, poderia preparar minha janta? ― perguntou Rael, na tentativa de sair das perguntas.

― Janta? Você não merecia nem pisar o pé nessa casa depois do que fez! Se quiser comer alguma coisa, peça para sua outra esposa! ― assim que Mara terminou de dizer, se virou e saiu ainda mais furiosa com Rael.

― Ra… Marido o que aconteceu? ― perguntou Natalia curiosa.

― É uma longa história. ― disse Rael.

                Na cozinha, Rael estava comendo e Natalia sentada ao lado, assistindo e ouvindo Rael contar tudo o que aconteceu. Ela não tinha visto Mara falar com a mãe pelo anel, portanto, não sabia de nada do que tinha rolado.

― Eu não acredito que você foi enfrentar eles sozinho, Ra… Marido, isso não se faz, você podia mesmo ter morrido! ― disse Natalia chocada depois das explicações.

― Você também vai ficar com raiva de mim? ―perguntou Rael num tom um pouco triste. Além das perdas, ele agora teria que lidar com as esposas irritadas.

― Eu só fiquei preocupada. Não estou com raiva. ― disse Natalia e olhou de lado.

― Bom, menos mal. ― disse Rael em seguida.

― Mas Mara está certa, você sai dizendo que volta logo e nos abandona por vários dias, sem dar nenhuma explicação. Rael, se você tivesse morrido, como acha que iríamos ficar? Ela tem toda razão de ficar irritada. ― disse Natalia um pouco chateada e se virou de lado.

― Desculpe Natalia, eu já fiz você sofrer muito no passado, durante esses cinco anos que estive fora. Na maior parte das vezes eu sempre acho que estou preparado para tudo, mas não estou. Perder essas pessoas me mostrou que eu não sou tão forte quanto eu pensava. ― disse Rael.

― Eu sinto muito pela sua perda. ― disse Natalia em seguida, formando uma expressão sem jeito enquanto apertava os lábios de leve se virando de volta para Rael.

― Obrigado. ― disse Rael.

― Mas não faça mais isso com a gente, não é certo. ― disse Natalia com um tom manso.

― Tentarei o possível para não deixar isso se repetir. ― disse Rael, se lembrando que em breve criaria todos os anéis e assim poderia manter controle das informações que rolariam pelos mesmos. Dessa forma, evitaria que terceiros (como os irmãos de Mara) tivessem informações sobre ele. E também era chato ouvir mensagens entre os outros, como Neide falando com seus filhos ou vice versa, coisas que as vezes acontecia.

_____________________________________________________________________________
Minutos depois, de frente a porta do quarto de casal deles, Rael ficou parado, pensativo. Ele ainda via Rita e todos os outros morrendo em seus pensamentos. Ele ainda podia ouvir os gritos de desespero, enquanto eram consumidos pelo fogo.

― Esposa! Eu vou entrar. ― disse Rael e tentou girar a maçaneta para descobri que a porta estava trancada.

― Esposa, você está ai? ― perguntou Rael por perguntar. Mas ele sentiu a energia dela dentro do quarto.

― Eu não quero ver você agora! Me deixe sozinha! ― gritou Mara de dentro e um tom furioso.

― Estou entrando… ― Rael ativou o Espaço Ilusório e cruzou a porta, encontrando Mara sentada no canto da cama com a cabeça encostada a parede. Ela estava muito deprimida.

― Esposa… ― disse Rael se aproximando. Ela viu Rael e ficou levemente surpresa, depois se virou de volta para a parede.

― Eu não mandei você sair? Eu não quero falar com você agora! ― ela gritou novamente.

― Você é minha esposa, não pode me tratar assim. ― reclamou Rael de volta, agarrando ela pela cintura. Mara tentou lutar contra o abraço de Rael por um tempo mas desistiu. Se deixou ser abraçada de lado, mas continuou irritada virada contra a parede. Parecia até uma criança com birra.

― Eu perdi pessoas importantes, você não vai nem dizer “sinto muito” para mim? ― perguntou Rael, tentando enfraquecer um pouco o estado de Mara.

― Estou cheia disso, Rael, você nunca me leva a sério. Eu já não suporto mais viver toda hora preocupada com o que você anda fazendo. Fico pensando se você vai voltar ou não pra casa, se vai arrumar outra mulher por aí… Eu não suporto mais viver assim com você. Quando me casei, eu queria ter você só pra mim, queria que você confiasse em mim também, que dividisse tudo comigo como um marido faria com sua esposa. Você me rejeita, reclama quando me preocupo e faz as coisas do seu jeito. Você não liga para mim, nem para Natalia. ― reclamou ela que continuava furiosa. Mas sobre o constante abraço de Rael ela já estava dando pequenos sinais de que a raiva estava enfraquecendo.

― Eu não queria envolver vocês nos meus problemas. ― disse Rael.

― Eu fiquei tão preocupada, quando minha mãe me contou o que tinha ocorrido de fato eu quase surtei. Nem quis contar isso pra Natalia.

― Eu sou difícil de morrer, então você não tem que se preocupar. ― disse Rael no ouvido dela.

― Eu me preocupo sim, e você não pode me dizer pra não se preocupar. Ou você para de me tratar assim ou termina esse casamento. Rael, eu não quero mais viver morrendo de preocupação assim. Se você me aceitou de verdade como esposa e não está só me usando, então comece a me tratar da forma que se deve. Seus problemas serão meus problemas e vice-versa. Eu não quero ser só um ponto morto em sua história. ― disse Mara.

― Você não é um ponto morto, esposa. ― disse Rael.

― Se não sou, então demonstre isso a partir de agora e me conte tudo. Só assim vou perdoar você. ― disse ela sem se virar. Rael sorriu satisfeito e abraçou Mara por trás com mais força. Ele começou odiando essa raiva dela, mas agora estava adorando. Mara tinha seu jeito esquentado mas aquele jeito irritado dela era legal, isso mostrava que ela se importava de verdade com ele.

― Me solta! Eu já disse para me soltar! Você sempre quer resolver as coisas assim, sem me dizer nada! Dessa vez não vai rolar. ― ela lutou furiosa.

― Me desculpe pelo que fiz, eu sei que errei. ― disse Rael e Mara deu uma acalmada. Ela continuou esperando. ― Eu errei com você e com Natalia. Tudo aconteceu tão rápido que quando pude perceber, eu já estava com problemas até no pescoço. ― explicou Rael fazendo uma pausa: ― Eu recebi a notícia que eles estavam sequestrados de repente, e fiquei sem saber o que fazer. Eu não poderia contar para ninguém senão eles matariam todos. Mara, eu sei que foi loucura tudo que fiz e poderia mesmo ter morrido. Eu perdi pessoas importantes para mim e me dói muito, nem imagino como teria sido para vocês duas se eu tivesse morrido também. ― confessou Rael por fim, tocando fundo nos sentimentos de Mara. Os olhos dela se encheram de lágrimas.

― Você pode me dizer o que quiser, mas sem sua palavra de que irá mudar eu não acreditarei. ― respondeu ela ainda sem se virar.

― Com o tipo de vida que levo e por ser quem sou não posso mentir para você ou para Natalia, eu nem sempre vou poder contar tudo. Nem sempre vou poder dividir todos os meus segredos. Ainda mais se esses segredos colocarem vocês duas em risco. ― disse Rael.

― No fim, nada mudará! Você continuará a nos tratar do mesmo jeito! Eu não posso acreditar em você! ― bufou Mara.

― Você acha que eu suportaria perder você ou Natalia como perdi minha falsa família? Eu prefiro que você fique furiosa comigo e grite o quanto quiser, mas que fique segura. Isso é o suficiente para mim. ― disse Rael.

― Para mim não é! ― ela continuou furiosa. Rael sorriu fechando os olhos enquanto apertava aquele corpo cheiroso e trêmulo de Mara. Sim, ela estava tremendo, ela recebeu a notícia verdadeira da mãe e ficou arrasada. Não era por menos que ela estava tão agitada.

― Eu vou ficar mais forte, e prometo que não passarei mais por essas situações, não vou deixar mais ninguém de quem gosto morrer. Eu prometo a você, esposa, mesmo que coisas ruins aconteçam novamente iguais a essa, eu vou superar e proteger, seja quem for. Vou garantir também voltar vivo e seguro para você todas as vezes. ― disse Rael.

― Marido, eu só quero que você confie mais na gente e nos deixe informadas. É o nosso mínimo direito. Você não sabe como é passar dias sem saber como alguém de quem gostamos está. Isso dói, dói mais do que uma traição. ― disse Mara.

― Traição, é? ― perguntou Rael sem jeito.

― Você também me traiu? ― perguntou ela se virando irritada, com uma expressão ainda mais feroz para Rael.

―Não esposa, eu só disse porque achei que você também estaria me acusando disso. ― disse Rael em seguida. Mara se virou de volta para a parede se sentindo mais aliviada. Ela não queria nem sonhar em ouvir que Rael iria ter uma nova esposa, quanto mais uma traição.

― Você não ouse me aparecer aqui com mais esposas, marido! Estou falando sério! ― reclamou ela se voltando novamente para ele.

― É tudo bem complicado. Acho que ta na hora de você também saber tudo que a Natalia sabe. ― disse Rael. Ele nunca tinha explicado para Mara em detalhes toda sua agitada vida: sobre Rose, Violeta, Emilia.

― Explicar o quê, marido?

― Respira com calma e mantenha o controle. Não vá sair me acusando de tudo porque eu não tenho culpa da maior parte das coisas que ocorreram comigo. ― disse Rael antes de começar.

― Estou ouvindo.Comece! ― Mara cruzou os braços encarando Rael, enquanto o mesmo se afastava dando espaço para começar a contar tudo. Ele pretendia falar até mesmo de Isabela, mesmo que Mara ficasse furiosa.

― Eu vou contar porque você pediu. Então tente compreender, tudo bem? ― perguntou Rael.

― Comece logo! ― exigiu Mara já impaciente e o pé embaixo começou a balançar de novo, batendo no chão.

_____________________________________________________________________________
Rael contou sua relação verdadeira com Violeta, e sobre o que ela era de verdade. Contou sobre Emilia e contou tudo que rolou entre ele e Isabela. A expressão de Mara era de pura irritação enquanto ele contava, mas ela não surtou. Se manteve paciente ouvindo tudo porque não desejava perder nenhum detalhe. Ela também não queria brigar ou reclamar, sob o medo de que Rael reduzisse os fatos ou mentisse no processo.

                Rael falou até mesmo de Janete e dos problemas que gerou sua curiosidade sobre o corpo feminino. Quando ele disse a verdade sobre Rose e Rika, Mara ficou boba, mas boba do que saber sobre as Violadoras.

                Claro, houve um limite. Rael não contou a baita trepada que deu com a outra Rita no mundo alternativo. Ele também não contou sobre Alexia. Até porque ninguém poderia saber que dragões ainda existiam. Já foi um limite muito grande ele ter falado de Rose e Rika. Mas como ele agora confiava em Mara, então conseguiu contar.

― Essa é toda a verdade que você pediu.

― Essa Isabela é mesmo tão importante pra você?

― Ela é a mulher da minha vida passada. Então é, ela é importante. ― disse Rael confirmando e virou o rosto de lado olhando o chão.

― Eu não posso acreditar que você ta cercado por mulheres até o pescoço, marido! Isso é um absurdo! Nem pense em se casar com essa Janete, só porque deu alguns beijos com ela.

― Eu não penso nisso. Se um dia eu a encontrar novamente, pedirei para ela me esquecer e seguir seu caminho. Quanto mais pessoas estiverem longe de mim, mais seguras elas estarão. ― disse Rael se levantando.

                Mara ainda estava brava, porém, mais satisfeita. Pelo menos Rael tinha contado muitas coisas que ela não sabia. Mesmo Violeta sendo uma espécie de amante e mestra de Rael, ela percebeu que ele ainda a respeitava e amava, porque senão ele não teria revelado tudo isso.

― Então, vai me perdoar? ― perguntou Rael.

― Vou pensar no seu caso depois. ― disse Mara saindo de perto de Rael ainda com uma atitude um pouco fria. Rael ficou em silêncio.

_____________________________________________________________________________
Naquela noite, Rael, Natalia e Mara, pela primeira vez dividiram a mesma cama juntos. Rael no meio e suas esposas uma de cada lado. Aquilo foi muito estranho de começo. Mara ainda continuava irritada com Rael por isso estava virada para o lado da parede, e Natalia, que tinha mais saudades, ficou aninhada agarrada com as costelas do lado de Rael.

                Natalia foi a primeira a dormir. Estando na presença de Mara ou de Rael, Natalia já se sentia mais segura, ela não tinha medo extremo da prima porque já estava se acostumado, e cada dia que passavam juntas ficavam ainda mais apegadas.

                Naquela noite não rolou nada demais entre eles além de alguns beijos secos e um boa noite. Rael não estava no clima, nem mesmo suas esposas, ainda mais com os três no mesmo quarto. Eles ainda teriam que se acostumar com esse estranho fato antes de avançar para o próximo passo.

Aos poucos cada um deles foi pegando no sono.

_____________________________________________________________________________
Capitulo liberado por doações, agradeçam a: Vinicius Alves Maia