O Herdeiro do Mundo

129 - Os Últimos Dias no Clã Sarbaros

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

Rael começou a ser puxado para perto da coisa, que continuava gritando terrivelmente com a boca aberta, o grito dele não parava.

                Por mais que Rael se esforçasse em recuar, ele não conseguia evitar ser puxado cada vez mais.

― ‘Merda! Maldito Heitor, até morto arma contra mim’! ― Rael entendeu rapidamente que aquela criatura tinha surgindo depois que Heitor mostrou seu poder. Por alguma razão, aquela coisa foi atraída depois daquilo.

                Quando Rael já estava quase cara a cara com a criatura, ele se acordou atordoado dentro do quarto que Neide o trouxe. Ele pulou da cama e correu a visão por toda a volta, esperando que a criatura ainda estivesse por perto. Não havia qualquer sinal dela, nem mesmo daquele mundo estranho, o que aliviou Rael. Tudo em volta parecia bem normal agora. Depois Rael olhou as próprias mãos com calma, e tudo parecia normal. Seu corpo estava bem e não parecia está cansado, estava apenas com uma grande fome.

― O que aconteceu afinal? ― se perguntou Rael e saiu para fora do quarto, seguindo por um corredor. Depois, ele conseguiu sair para fora da casa, descobrindo um dos guardas de Neide, que veio correndo falar com ele.

― Jovem mestre, o senhor finalmente acordou! Espere aqui que eu avisarei a sua sogra imediatamente! ― disse ele e já levantou a luva preparando o anel.

― Senhora Neide, o jovem mestre acordou! ― disse o guarda animado.

                Rael olhou em volta e percebeu que a cidade não tinha movimento. Além desse guarda e de outro, que estava mais à frente, por cima de uma casa.

― O que fizeram com as pessoas? O que aconteceu aqui? ― perguntou Rael, porque sabia que Neide possivelmente poderia ter destruído todas aquelas pessoas.

― Jovem mestre, nós fizemos o possível para ninguém escapar. Elas estão todas reunidas na praça principal esperando suas ordens, como sua sogra ordenou. ― disse o mesmo.

― Por que não estou cansado? Eu estava todo dolorido antes. ― disse Rael.

― O senhor está dormindo faz três dias, jovem mestre, acho que esse tempo foi o suficiente para recuperar suas forças.

                Neide chegou minutos depois, usando roupas comuns. Calça, blusa.Nada grandioso.

― Genro, que bom que acordou! ― disse ela com um sorriso leve.

― Neide, antes de qualquer coisa, me arrume algo urgente para comer, se não vou acabar desmaiando de fome outra vez. ― reclamou Rael com algumas bolachas nas mãos. Ele já tinha mastigado algumas coisas, mesmo assim não tinha ajudado muito.

                Na cozinha, sentado na cadeira a frente da mesa, Rael esperava sua sogra fazer os preparos enquanto a mesma estava de costas no fogão de pedra, fazendo o que precisava e explicava alguns detalhes:

― Apenas mandei que reunissem as pessoas na praça e aguardasse você acordar. A invasão da cidade foi sua, e os méritos foram seus. ― disse Neide.

― Perfeito. Eu antes tinha uma noção de exterminá-los completamente, mas hoje em dia não culpo mais os outros pelos problemas alheios. Pai e mãe de Heitor já foram mortos, todos os elders mais poderosos desse clã também, então o resto eu acho que posso permitir que vivam. ― disse Rael.

                Neide ficou em silêncio por um tempo por não ter gostado da escolha de Rael. Heitor tinha matado o neto dela que nasceria, e não era algo que poderia ser facilmente perdoado. Mas se Rael, que seria o pai, estaria aceitando deixar tudo daquela maneira, por que ela não poderia? Mesmo Neide parecendo uma simples pessoa nos termos de tratamento e tudo mais, por dentro ela ainda era fria com seus inimigos. Em compensação seus aliados, ela era muito leal.

― Desapontada com minha escolha? ― perguntou Rael, depois de alguns segundos em silêncio.

― Você fez o mesmo com o clã Torres, então acho que consigo entender. ― disse ela, sem mostrar qualquer resquício de uma não aceitação. Ela não se virou, continuou apenas preparando tudo.

                Depois de alguns minutos, Rael foi servido de arroz, feijão e carne, e começou a comer.

― Aquela mulher chamada Ana Carolina que te fez sair do julgamento me implorou, pedindo para deixá-lo ver, apenas a deixei com os outros. ― explicou Neide.

― Poderia trazê-la a mim? Eu quero sim falar com ela.

― Certo, vou dar a ordem. ― disse Neide

                Rael continuou comendo, e minutos depois um guarda chegou trazendo Ana. Quando Ana viu Rael de costas na cadeira, ela se encheu de alivio. Se Rael estaria vivo ele ainda a pouparia se fosse seguir com a palavra dele, que ela era obrigada a acreditar. Era a única esperança de vida dela. Todas as pessoas presas no centro da praça não paravam de acreditar que seriam exterminadas quando o monstro da família Torres despertasse. (Rael)

― Ana, sente-se. ― disse Rael puxando a cadeira do lado. A mulher rapidamente tomou seu lugar, Rael podia notar seu nervosismo facilmente.

― Esses dias, aconteceram muitas coisas. ― disse Rael observando ela.

― Muitas… ― disse ela de volta concordando. Neide estava de braços cruzados encostada na parede do outro lado da mesa, olhando Ana. O guarda já tinha se retirado. Estavam somente eles três na cozinha.

― Bom, você ainda deseja continuar trabalhando para mim? Seja franca, eu pretendo remover a Ligação Sombria de você. Seja qual for sua resposta, deixarei você livre. Mas se ainda for me obedecer e ouvir minhas ordens, então você terá aquilo que queria desde o começo, e muito mais do imagina. ― disse Rael.

                Como foi dito, Ana poderia dizer a verdade, se ela quisesse agora, poderia se livrar para sempre de Rael.

― Eu ainda quero continuar te servindo. ― respondeu ela. Ana não era boba, tudo que ela tinha passado até aqui finalmente tinha acabado. Ela teve que sacrificar sexualmente o seu corpo inúmeras vezes por informações, teve que se esgueirar algumas vezes e até se fazer de boba, sem mencionar a tortura sofrida sem poder dizer nada por causa da sombra. E não vamos esquecer o pavor constante que ela passou achando que morreria em diversas situações.

― Oh, isso é maravilhoso!Eu vou sim remover a sombra e deixar você livre dessa parte, mas se você sonhar em me trair no futuro por qualquer circunstância, então sua morte será mil vezes pior do que qualquer um que já tenha visto morrer. Você ainda sim será leal?

― Eu serei sim, jamais o trairei, eu juro! ― disse ela apressadamente. Quando ela disse aquilo nem ela percebeu que estava sendo testada pela sombra. Se ela mentisse, então ela seria subjugada naquele instante e Rael perceberia. Ana deu sua palavra ainda com a sombra e mesmo se ela estivesse mentindo pra ganhar confiança de Rael ele também saberia.

                Depois de ver tudo que Rael podia fazer, Ana jamais desejaria ser inimiga daquele jovem. Por isso foi fácil decidir esse pensamento rapidamente.

― Certo, eu vou fazer o seguinte: Vou te tornar a nova matriarca dessa cidade. Você terá todos os bens que foram de Helks e sua esposa, terá a residência deles no caso, e cuidará da cidade. Se não souber de tudo que acontece, assim como suas futuras funções, pagará algum conselheiro entre as pessoas para ensinar e acompanhar você. ― explicou Rael.

― Eu sei de muita coisa. Temos algumas minas entre as montanhas, e até um campo de plantações de ervas. Tem, também, o cofre do clã que fica na residência do patriarca, ele está bem acumulado e está guardado ao longo dos anos. Todos os residentes da cidade pagam uma taxa mensalmente, eu também pagava. ― explicou ela.

― Isso é ótimo! Depois quero dar uma olhada nisso pessoalmente ― observou Rael.

― Mas você não pode me dar as propriedades de Helks enquanto ele tiver irmãos vivos. Embora você tenha o matado, os irmãos ainda tem direito legitimo sobre essas propriedades. Assim como a irmã mais velha, que também mora aqui. ― explicou Ana.

― E eles não são cultivadores? Por que não os vi me enfrentando?

― Eles são mais são fracos, se comparado aos elders que você enfrentou. É uma família que se acha dona do poder e não respeita basicamente ninguém. Eles têm filhos estupradores entre outras coisas ainda piores. Como eram família do patriarca, sempre tinham seus atos ignorados. ― explicou Ana.

― Você conhece cada um deles, e pode me dizer os que ainda tem futuro e os que não tem? Filhos filhas, mulheres…

― A meu ver, nenhum teria. Todos são bem piores, assim como na época que você me conheceu, eu só namorava um dos primos dele e veja como eu era. ― lembrou ela.

                Rael não estava muito paciente e tão pouco queria ser nenhum tipo de juiz por muitos dias. Ele queria resolver as coisas por aqui e voltar o mais rápido possível para casa. Ele estava com saudades de suas esposas, ainda mais depois das perdas.

― Ana, você me indicará os piores entre eles e esses sofrerão pena de morte, sendo acusados pelos seus atos cometidos. O restante que pode ter alguma chance de mudança, devem sofrer exílio. Daremos algum dinheiro apenas pela suas propriedades pessoais e deixaremos partir. Os que não ficarem satisfeito, tentando reclamar, pena de morte; ou os que tentarem voltar, também sofrerão da mesma punição. Já deixe-os cientes sobre isso. ― disse Rael fazendo uma pausa.

― Genro, vai mesmo deixar essa mulher no poder? ― perguntou Neide surpresa.

― Sim, Neide. Você deixará dois guardas com ela, acompanhando para protegê-la. Com todos os elders mortos, guardas no décimo reino devem ser mais que suficiente. De qualquer forma, deixe bem claro que qualquer atentado contra a nova matriarca deverá ser tratado como pena de morte também.

― Eu virarei matriarca e mais nada? ― perguntou Ana confusa.

― Claro que não. Você também se tornará minha discípula, eu ajudarei você a crescer e essa cidade será minha base a partir de agora. No futuro, irei tornar esse lugar um dos pontos mais seguros para quem viver aqui, e qualquer pessoa que eu encontrar e quiser ter como discípulo mandarei para cá. Você cuidará de tudo. Irá separar um dinheiro para evolução da cidade, outra quantidade para seus gastos pessoais e o restante parte para os meus objetivos. Fui claro?

― Sim, muito claro! Você virará mesmo meu mestre? ― Ana estava obviamente surpresa, não só ela como Neide também.

― Sim, eu já tenho uma discípula, então você será a segunda. Eu irei remover a Ligação Sombria e já farei todos os preparativos em você. Os guardas cuidarão de você até você ter poder suficiente para se virar sozinha. Por enquanto, ficaremos assim. ― explicou Rael.

                Depois de todas as explicações, Ana se sentiu extremamente aliviada, ela achou que seria morta no fim das contas, mas Rael cumpriu a parte dele e parecia querer dar a ela algum futuro especial que ela jamais sonhou. Quem imaginaria que um dia ela viraria matriarca de uma cidade, ainda sendo uma mulher e tão nova? Isso parecia surreal.

― Está com fome? ― perguntou Rael olhando Ana.

― Estou sim. ― disse ela. Durante todos os três dias eles comeram apenas migalhas dadas pelos guardas, mas assustados como estavam, ninguém estava pensando muito no estômago. Todas as pessoas foram forçadas a ficar deitadas ou sentadas na praça e só podiam se levantar poucas vezes para suas necessidades, sendo acompanhadas por guardas.

― Então sirva-se. Tem muita comida aqui, depois faremos os anúncios e iremos liberar as pessoas para voltarem as suas casas. Quem ficar insatisfeito, terá a possibilidade de partir da cidade, não farei deles escravos no fim das contas.

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* * *

Um esquadrão de poderosos cultivadores voavam como fleches pelas paisagens de um lugar muito distante. Todos eram do clã Torres e tinham ordens expressas de encontrar Isabela e seu mestre. Reges era o homem no comando deles, o mesmo homem que apunhalou Rael e o mandou para a morte.

Reges era o homem de maior confiança de Romeo, por isso ele sempre era um envolvido direto nos negócios do seu patriarca.

― Será que esse mestre tem alguma coisa de valor, senhor Reges? O patriarca disse deveríamos matá-lo e poderíamos ficar com tudo que ele possuir. ― disse um dos homens.

― Estamos sendo bem pagos como sempre, então não me importo. ― respondeu Reges sem querer muita conversa. Para ele aquele era só mais um trabalho qualquer.

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* * *

                No clã Sarbaros, as pessoas ouviram as novas ordens de Rael sobre como seria de agora em diante. Algumas pessoas foram executadas com as ordens de Ana, que ainda estava com a sombra e por isso não ousaria mentir para Rael.

                As outras foram liberadas e podiam escolher se fugiriam ou não. Se ficassem, teriam que obedecer as ordens e respeitar Ana como nova matriarca.

                No fim a maior parte aceitou com alivio aqueles termos, porque antes, quando ficaram três dias rendidos na praça, eles tinham certeza que seriam mortos como animais, por seu antigo patriarca ter se envolvido em problemas contra um jovem mestre importante da família Torres. Ter Ana como matriarca e ainda ficarem vivos, para eles, era como um milagre.

                Mas também tiveram pessoas revoltadas com as penas de mortes ocorridas, e essas foram convidadas a serem exiladas da cidade. Os que insistiram em teimar foram mortas também logo após.

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O cofre do clã Sarbaros tinha muitos itens interessante, e Rael pegou tudo aquilo que poderia usar nas criações de seus itens mágicos. Se encheu de anéis e outras coisas, mas não levou tudo. Se ele tinha planos de usar esse lugar como base, então ele deixaria coisas boas para trás. Ana com certeza não seria burra de acabar com todas as economias do lugar.

Rael passou um total de três dias ainda no clã Sarbaros cuidando das últimas coisas. Liberou Ana da Ligação, liberou seus pontos de poder, ajeitou suas veias, deu uma nova técnica de cultivo, novas habilidades, um anel de bloqueio, pílulas e um anel de apoio +100%. Deixou ela pronta, assim como fez com Laís, e deu o ultimo anel de comunicação a ela, depois explicou os funcionamentos.

                Rael agora tratava Ana como uma companheira e não se importou de ajudá-la ao máximo. Uma vez que ela podia ter escolhido partir ou continuar seguindo suas instruções, ela escolheu seguir e portanto, Rael teve isso como um ato de confiança da mesma com ele.

                Ana tinha duvidas em relação a sua situação com Rael, mas depois de ter sido liberta, ganhado cargo de matriarca e ter recebido tudo de Rael, ela se encheu de respeito em seu coração. Ela ainda tinha um pouco de medo de Rael, mas também, quem não teria depois de tudo que ele mostrou ser capaz de fazer?

                Três dias com Rael a tratando diferente fizeram-na sentir mais apegada a ele, e uma hora que ficaram sozinhos fora dos olhos de Neide, Ana tentou flertar com Rael, ela sabia que ele tinha ficado vários dias sem fazer aquilo, então ela poderia ganhar um pouco mais de respeito por parte disso. Ana sempre considerava seu corpo como um tipo de troca sexual, no qual ela poderia ganhar algo.

― Não, Ana. Isso não. ― Rael segurou os braços dela parando a tentativa que ela fez de beijá-lo. Ela já entrou no quarto nua para não correr riscos de ser negada, mas mesmo assim, Rael conseguiu facilmente evitar seus desejos.

― Eu não quero nada em troca, só quero confortar você. ― disse a mulher, ainda com os braços de Rael a segurando.

― Eu não quero nada de você além da sua confiança a partir de agora. Você não tem que fazer nada de estranho como fazia antes. Você é uma mulher muito bonita e pode conseguir um bom homem que te siga pelo resto da vida. Você não precisa mais se sujeitar a isso. ― explicou Rael.

― Não tô me sujeitando, eu apenas estou com vontade de me deitar com você. ― disse ela sem jeito. Rael não era tão forte pra resistir a uma mulher com Ana, mas depois das perdas que teve, ele não estava com pique para fazer aquilo.

― Eu não tô afim, quem sabe em outra hora. ― disse Rael soltando a mulher e se virando de lado. Ana ficou parada sem reação vendo Rael saindo de perto dela. Depois ela tirou as roupas de seu bracelete e vestiu novamente, sem vergonha de continuar no mesmo quarto de Rael.

― Se você quiser, pode me procurar a qualquer momento. Não sou sua esposa e nem pretendo ser, mas se quiser se divertir, basta vim me ver. ― dizendo isso, ela saiu.

                Rael sentou na cama pensando em sua Rita novamente, e novas lágrimas brotaram de seus olhos. Ele estava muito triste com o desfecho das últimas coisas ocorridas, e culpava Violeta por boa parte delas.

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Capitulo liberado por doações, agradeçam a: Marcos Vinicius Mota Kliemann




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