O Herdeiro do Mundo

128 - Mundo Morto

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

― ‘Samuel! Eu amo você! Os poucos dias que passamos juntos foram os mais felizes que já tive, só quero que você saiba disso. Eu te amo!’ ― o coração de Rael era um caos ao se lembrar das palavras finais de Rita no curto percurso enquanto seguia contra o patriarca, que vinha furioso de encontro a ele. Rael pensou sobre isso várias vezes, como se fosse um filme se repetindo. Por alguma razão, ele se lembrou de Isabela morrendo em seus braços outra vez. Uma lembrança que não deveria fazer parte dessa nova vida, mas que ainda assim apertou seu coração, o fazendo se sentir extremamente desagradável.

Rita só tinha treze anos quando foi morta por Helks. Tudo por culpa de quem? Se ela nunca tivesse conhecido Rael, até hoje poderia estar viva e bem.

Rael também se lembrou da Rita adulta do mundo alternativo, que uma vez citou algo sobre a versão nova. Rael pensou na possibilidade de encontrar a outra Rita e ter que contar esse trágico desfeche com sua versão nova. Aquilo apertou tanto o coração dele que ele explodiu de raiva, ele sentiu que seu coração tinha se partido.

― MALDITO! ― Rael gritou furioso. Seu corpo foi preenchido com uma energia colorida misteriosa, enquanto ele dava cada passo correndo em direção ao patriarca. Seus pés, o ar em volta, até a respiração de Rael estava carregando essa energia vinda do além. Onde Rael pisava símbolos de poder eram formados e apagados em seguida. O chão atrás de Rael começou a ser devorado com explosões. O fogo no punho de Rael cresceu a um nível que pareceu ficar muito maior que a própria espada de Neide com chamas.

VRUUUUUUUOM! As chamas rugiam furiosas enquanto um rosto monstruoso e deformado cobria o punho de Rael, Helks conseguiu ver perfeitamente esse rosto o encarando.

Helks pensou em recuar após ver o rosto assustador, mas já não havia mais tempo: naquele instante, o soco de Rael já estava vindo contra o dele, que estava indo na direção de Rael. Sem perceber, Helks se lembrou do que viu nos olhos de Rael minutos antes, quando ele tinha acabado de se transformar com aquele braço gigante. Ele tinha visto seu corpo sendo engolido por uma poderosa e imensa aura de fogo enquanto era mandado pelo ar. Naquele momento, quando Helks tinha visto ele mesmo perdendo a batalha e sendo morto dentro dos nos olhos de Rael em meio as chamas até recuou. Ele só não esperava que se lembraria disso, exatamente naquele instante:

BOOOOOOOOOOM!

Creck! Creck! Creck! Creck! Creck!

Quando os punhos se chocaram, Rael não parou de avançar. Quem parou foi Helks, tendo seu punho esmagado no de Rael e engolido nas fortes chamas. O punho de Rael continuou avançado e foi acertando o rosto de Helks. As chamas iam se propagando pelo rosto e pelo corpo do homem em um rápido processo.

Booooom!

O corpo de Helks voou para trás, coberto por uma gigantesca boca de chamas que praticamente o engoliu inteiro durante o soco de Rael.

A boca monstruosa era o rosto idêntico ao de um dragão, mas somente Helks pôde ver com clareza enquanto era varrido.

Rael ficou parado, cansado e respirando com dificuldade, vendo o corpo de Helks voar pelo ar. O local onde eles fizeram a colisão foi formado um buraco de mais de vinte metros de diâmetro.

― AAAAAAAAAAAAAAAAAAH! ― Helks continuou gritando sendo devorado pelas chamas que destruíram suas roupas e atacavam violentamente destruindo sua pele, carne, sangue e ossos.

Pareceu um curto momento entre o impacto, o voo e a queda do corpo rolando pelo chão. Helks já caiu tostado com o corpo todo escuro sem vida, mas aquela curta duração no ar e a queima, para Helks, pareceram durar uma eternidade. Mesmo enquanto ele morria devorado pelas chamas, ele não se arrependeu do que fez ou deixou de ter raiva de Rael. Por nenhum um momento ele recuou seus pensamento, a não ser para pensar na própria dor dilacerante que sofreu naqueles míseros e eternos instantes antes de morrer.

Pela cidade,várias casas tinham sido destruídas pela batalha de Neide e Sauro, e os dois ainda estavam cruzando golpes no céu. Neide ficou impressionada por ela não ter conseguido finalizar o homem, mesmo usando boas habilidades. O corpo de Sauro se regenerava numa velocidade impressionante. Ela não desistia e continuava atacando Sauro furiosamente.

― Corte do Vulcão! ― gritou Neide, aplicando um poderoso ataque em vertical com a espada em chamas. Sauro tentou esquivar, mais teve seu braço direito destroçado junto com parte do ombro. O homem ficou parado no ar com parte do corpo queimando e Neide recuou a espada preparando outro ataque. Mas desistiu ao ver Sauro olhar o próprio corpo, que começou a se desmanchar. Das fissuras espalhadas pelo corpo, terra começou a escorrer e se espalhar, sumindo lentamente no ar.

― Parece que seu tempo acabou. ― disse Neide aliviada. Era a segunda batalha mais difícil que ela já havia tido. Embora não tenha sofrido danos, ela também não conseguiu eliminar seu alvo antes do tempo dele encerrar.

Sauro continuou olhando por um tempo o próprio corpo que sumia virando pó, até perder todo o restante da consciência, a visão de Sauro também começou a virar pó e ele apagou, desabando do céu se transformando em areia, enquanto se espalhava por cima da cidade que viveu por tanto anos.

Neide ficou assistindo a tudo com um olhar de tristeza. Mesmo sendo seu inimigo por um curto período, o homem se sacrificou para proteger seu patriarca, e aquilo era uma atitude louvável.

O que sobrou de Sauro foi apenas um pequeno monte de terra com restos de roupas rasgadas que conseguiram chegar ao chão, o resto foi espalhado pela cidade.

― E agora, como será que vai meu genro? ― perguntou Neide se virando e olhando na direção da fraca energia de Rael.

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Quando Neide chegou, encontrou o corpo do patriarca carbonizado e Rael desmaiado do outro lado, deitado de costas para o chão destruído. De olhos fechados e respiração lenta, Rael agora parecia até um simples jovem normal.

― Você superou minhas expectativas, genro. A cada dia você me deixa ainda mais admirada. Quando os seus pais verdadeiros souberem o que você está se tornando, eles irão se arrepender profundamente por tudo o que fizeram.

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O clima estava em um tom cinza escuro, num ar póstumo, mas ainda assim, o mundo era parecido com o original. Entretanto, havia algumas formações no ar como bolhas deformadas flutuantes em formas de energias escuras. Em algumas regiões não muito longe, havia alguns ciclones gigantes de energia vermelha girando com força, o vento também parecia mais forte, porque os cabelos e calça não paravam de balançar. Havia também pessoas transparentes cruzando os céus ou flutuando próximo a Rael, mas essas pessoas não pareciam ter consciência: eram como defuntos sem vida, flutuando sem rumo. Rael olhava em volta chocado, enquanto tentava digerir essas novas informações.

Rael se via parado em pé ao lado do próprio corpo, dentro desse mundo estranhamente bizarro. Tudo o que Neide tinha acabado de dizer foi ouvido por ele. Ele estava ali em pé e a algum tempo olhando o novo mundo.

Mas o que aquilo significava? Parecia que somente Rael estava tendo essas visões, porque Neide não dava sinais de achar nada estranho.

― Neide! ― Rael chamou e tentou tocá-la, porém sua mão atravessou o ombro dela como se ele estivesse usando a habilidade Espaço Ilusório.

― Por enquanto vou arrumar um lugar para você descansar, genro. ― disse ela, que se agachou e tomou o corpo físico de Rael nos braços. Ela não sentiu o outro Rael, nem mesmo ouviu nada do que ele disse, mesmo estando ao seu lado.

Rael ficou olhando Neide levá-lo voando para o centro da cidade. Ele não pensou muito e seguiu voando atrás muito rapidamente, seu corpo parecia leve como um pensamento.

Os horizontes e paisagens dessa dimensão eram bizarros, havia até mesmo alguns buracos negros em movimento que puxavam energias em volta. Rael passou longe de coisas estranhas, evitando qualquer contato desnecessário.

― ‘Será que estou morto?’ ― Rael se perguntou sozinho. Ele estava vendo ele mesmo, mas o corpo dele parecia apenas está dormindo.

Neide arrumou uma casa abandonada durante a batalha e depositou Rael cuidadosamente em uma cama de casal. Depois ela se virou, atendendo um chamado no anel:

― Sim, entendi. Quero que cerquem todas as saídas da cidade, e não deixem ninguém escapar. ― respondeu ela.

― … (Rael não conseguia ouvir o que foi dito no outro lado)

― Só quero que façam as pessoas voltarem, a decisão sobre o que fazer com o povo é com meu genro. ― respondeu Neide e esperou a confirmação. Depois, ela deixou o anel de lado e olhou Rael mais uma vez.

Rael estava agora flutuando por cima do corpo. Para entrar, ele tinha atravessado a parede como um verdadeiro fantasma. Rael não estava com medo, ele só achou estranho ficar sob esse estado se seu corpo estava vivo, ele deveria estar completamente apagado.

― Você gastou tanta energia que nem percebeu. É possível que você fique assim por muitas horas. ― disse Neide depois de analisar o peito de Rael. Rael não teve nem como lutar porque não sentia seu próprio corpo.

― ‘Merda, porque estou nessa situação, afinal? Será que ativei alguma habilidade especial referente aos meus estranhos poderes?’ ― se perguntou Rael. Quando Rael estava pensando na vida, uma figura conhecida atravessou a parede e encarou o corpo físico de Rael. Era Heitor em uma forma de espírito. Rael sabia que era em espírito porque viu ele atravessar a parede, mas diferente dos outros que Rael viu, Heitor tinha um olhar de ódio contra Rael.

― Ainda está vivo? Como? ― se perguntou Heitor com sua mesma voz. Rael correu os olhos pelo peito dele e viu que Heitor nessa sua forma não tinha o buraco faltando o coração.

Heitor demorou alguns segundos pra notar o Rael que o encarava de cima. Quando os dois se encararam, Rael percebeu que estavam sobre o mesmo estado e por isso podiam se ver.

― Você morreu? Mas como ainda vejo seu corpo físico vivo? ― perguntou Heitor, olhando Rael com um ar surpreso.

― Eu devo estar delirando dentro de algum sonho ruim. ― Rael acabou soltando aquele pensamento alto demais.

― Tive a mesma sensação quando fui morto por você, Rael. Estive te vigiando desde aquele tempo e sei da verdade. Se seus pais descobrissem que você está vivo eles acabariam com você, sem sombras de dúvidas. ― disse Heitor.

― Em falar em pais, você já encontrou os seus? Se você andou me vigiando sabe que eu matei os dois, né? E parece que quem está nessa dimensão está morto. ― observou Rael.

― Desde que você também esteja morto eu já me sinto muito melhor. ― disse Heitor.

― Oh, sim, mas parece que eu não morri. Isso deve ser apenas alguma coisa estranha que ocorreu, mas quando acordar eu poderei voltar ao meu corpo. ― disse Rael. Heitor mordeu os lábios com um pouco de desgosto.

― Você não vai voltar, eu não permitirei. ― disse ele.

― E o que você fará, estando morto? ― perguntou Rael curioso.

― Mesmo que eu machuque você, os seus ferimentos irão se curar em algumas horas, mas há coisas que são possíveis de se fazer nesse mundo e que são permanentes. ― disse Heitor com um sorriso frio.

― Oh, sério? E o que seria?

― Eu posso deixar sua alma vazia. Você já viu, não? Muitas pessoas por ai vagando sem qualquer noção. Deixarei você no mesmo estado e esse será o preço que você pagará por ter mexido comigo. Mesmo que volte ao seu corpo, você será apenas um ser vazio hahahaha ― disse Heitor e começou a ri friamente, deixando Rael preocupado porque ele não parecia estar blefando.

― Seja lá o que planeja, eu não deixarei. ― disse Rael flutuando para frente e tentando concentrar poder, acontece que não funcionou. Rael não conseguiu concentrar nenhum poder, absolutamente nada, nem mesmo no seu braço direito.

― Você é muito estúpido! ― disse Heitor e rapidamente juntou uma quantidade de poder no braço direito e avançou, socando contra o peito de Rael.

Booooom!

Rael voou para trás e atravessou a parede, caindo rolando pela rua. “Pelo menos do chão eles aparentemente não passavam.”

― ‘Mas que merda!’ ― pensou Rael irritado sentindo horríveis dores pelo peito devido o golpe. Ele olhou o peito vermelho que pouco a pouco foi normalizando e a dor foi sumindo.

― Mesmo que a gente brigue nesse mundo, arranque pedaços, se machuque, no fim já estarmos mortos, então os corpos espirituais ficam nesse estado de recuperação. ― disse Heitor atravessando a parede. Rael ainda estava se recuperando.

― Te matar outra vez seria inútil. ― disse Rael sem muita surpresa enquanto o encarava de volta, pensando no que ele acabou de explicar.

― Isso é inútil, mas existe uma coisa que funciona aqui. Veja você mesmo. ― disse Heitor, fechando os olhos e concentrando a sua energia de cultivador. O ar em volta de Heitor começou ficar turvo, uma energia amarronzada o cercava com força e pequenas ondas de raios se espalhavam. Rael ficou surpreso, porque Heitor parecia ter ficado um pouco mais forte depois da morte.

― Se não pode me matar, o que está tentando fazer, afinal? ― perguntou Rael sem entender.

― Você verá. ― disse Heitor, parando que estava fazendo e normalizou o corpo. Rael não viu nada de estranho ocorrer, a não ser a energia de Heitor aumentar e depois diminuir.

― Você enlouqueceu nesse mundo, Heitor. Eu pensei que sua alma teria algum descanso depois de morto, mas vejo que você não tem.

― Você é a pessoa mais imoral que já conheci. Se deita com a própria irmã, não tem direito de julgar minha vida ou qualquer estado meu. Você logo ficará numa situação mil vezes pior. ― disse Heitor.

― Não sabia que os mortos tinham liberdade de vigiar a vida dos vivos. ― observou Rael.

― Hahahaha! Eu andei te seguindo muitas vezes, e por isso sei dos seus segredos. ― disse Heitor confirmando o que Rael queria saber.

― E daí que sabe? Mesmo sabendo, você está na mesma situação que seus pais. Quanto a mim, voltarei em breve. ― observou Rael. Nesse momento, Rael começou a sentir um estranho frio no ar, pequenas bolhas de energia escura foram surgindo como luzes em volta.

― Você pode até voltar, mas não terá consciência alguma. Será apenas um corpo sem mente Hahahahaha! ― Heitor deu uma risada fria e desapareceu como uma sombra, sumindo bem em frente aos olhos de Rael.

―’Ele se teleportou?’ ― perguntou Rael surpreso. Mesmo caçando em volta, ele não via mais qualquer coisa. As bolhas escuras iam aumentando e o frio ia ficando maior. Rael notou que, depois de alguns segundos, as bolhas estavam se reunindo em uma só, formando uma bolha ainda maior.

― Mas que porcaria é essa?! ― Rael começou a ficar preocupado porque sentia uma poderosa força surgindo.

As bolhas se juntaram e formaram uma bolha grande de uns três metros de circunferência. Um frio constante soprava em todas as direções e uma energia escura fluía da bolha. O local que a bolha estava era quase um total breu, mas Rael, mesmo naquela forma, enxergava normal devido a sua visão passiva.

De dentro da bolha, uma mão ossuda vermelha surgiu, segurando a lateral da bolha. Rael viu dois olhos azuis brilhando o encarando. E, por puro instinto, Rael flutuou alguns metros para trás com o coração pulsando em medo.

O que saiu de dentro da bolha era como um esqueleto grande, usando uma coroa escura de cinco pontas e um capa vermelha. Os restos das roupas dele eram trajes velhos e escuros rasgados, que cobriam poucas partes de seu corpo ossudo.

― Quem é você? ― perguntou Rael com coragem. A energia desse ser era monstruosa demais para ser apenas uma pessoa morta, sem mencionar que ele não se parecia com nenhuma forma de vida comum.

― UAAAAAAAAAAAAH! ― em resposta a pergunta de Rael, o ser abriu a boca e gritou em sua direção. O grito dele lembrava milhares de vozes ao mesmo tempo e era muito alto. Uma espécie de redemoinho se formou com aquele grito e vinha da boca dele, o ar em volta estava sendo puxado para a criatura esquelética, e isso fez o corpo de Rael começar a ser puxado também.

― ‘Puta merda, ferrou!’ ― pensou Rael. Rael dificilmente admitia ter medo de alguma coisa, mas diante daquele ser ele estava. A criatura não era humana, era feia, não falava e ainda estava tentando pegá-lo.

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Capitulo Liberado Esporadicamente: Boa leitura a todos!




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