O Herdeiro do Mundo

124 - Transformação

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

O fogo consumiu Rita em frente aos olhos de Helks, enquanto a garota dava seu último grito, sendo devorada pelas chamas.

― Aaaaaaaaaaaaah…!

― Hahahahahaha! ― Helks riu abertamente e olhou para Rael. Para Helks, o grito de Rita morrendo era como música para seus ouvidos.

Rael sentiu como se uma parte dele tivesse morrido junto com Rita. A dor era intensa dentro do peito, a ponto de fazer Rael enlouquecer, porque por mais que ele pensasse em lutar, sabia que era inútil dentro da situação em que estava.

A mulher do patriarca sorriu satisfeita, embora a expressão sem vida de Rael não fosse muito interessante.

Ana, por outro lado, tinha abaixado a cabeça e estava com medo. Se aquela garota morta à pouco era a irmã de Rael, e tinham matado ela tão facilmente, o que dirá ela,que era uma traidora do clã? Ela não tinha escapatória do seu destino mortal, assim como os outros a frente. Ela desejou naquele momento que nunca tivesse conhecido Rael. Se ela não tivesse sido tão gananciosa junto com seu namorado, poderia ter vivido por muito mais tempo. Ana estava muito infeliz, pensando sobre como tinha levado a vida até ali.

― Parece que você não gostava de sua irmãzinha, Samuel. Ela gritou que te amava com tanto amor e você não disse nada. A coitada morreu e nem sequer ouvir sua voz. Me diga, como se sente? ― perguntou Helks, se dirigindo e parando de frente a Rael. Helks mantinha um sorriso animado para deixar Rael ainda mais furioso.

Rael encarou com ódio o homem a frente. Helks tinha exterminado toda sua falsa família sem a menor piedade.

― Perdeu a língua, Samuel? ― perguntou Helks mantendo o mesmo sorriso. Rael não disse uma palavra. Ele apenas encarou o homem a frente, até o mesmo se virar para a esposa.

― Amor, parece que o assassino de nosso filho perdeu a vontade de lutar. Isso torna as coisas um pouco sem graça, não concorda?Em todo caso, vou deixar você escolher o próximo. Mato agora o assassino do nosso filho, ou a traidora que estava trabalhando com ele? ― perguntou Helks e esperou a resposta de sua esposa.

― Mata ele primeiro. ― disse a esposa, que já não via mais graça na expressão de Rael. O tom dela era frio e sem um pingo de sentimento. Toda vez que ela lembrava de Rael matando seu filho, ela tremia de raiva.

― Você é quem manda, meu amor. ― disse Helks se voltando para Rael: ― Você ouviu, Samuel chegou sua vez. É hora de se juntar com a sua família.

Rael foi empurrado por Helks para frente da incineradora. O elder Sauro, vendo que chegava a hora do maior empecilho ser morto, fez uma expressão de alívio. Ele já tinha conseguido curar o próprio braço ao longo dos minutos que passou assistindo a punição.

Ana manteve o rosto virado para chão totalmente desiludida, ela chegou mesmo a acreditar que trabalhar forçada para Rael poderia ter mudado a sua miserável vida. Tudo que ela tinha agora era desgosto, mas não tinha do que reclamar, ela nunca pôde fazer nada a respeito de qualquer forma. Por causa de Rael, ela teve que se deitar até com elders, ela deu mesmo todo seu corpo em busca de manter Rael informado.

― Finalmente, chegou a hora de acabar com o assassino que levou meu filho embora. ― disse Helks parado em frente a incineradora junto com Rael. A porta foi aberta e as chamas rugiram, soltando o ar quente para fora.

Rael estava com seu poder contido, mas ainda assim sua resistência natural estava funcionando perfeitamente. Então, mesmo com as chamas mais ardentes a frente, Rael não sentiu nada. As faíscas batiam em seu rosto e parecia apenas poeira soprando em sua pele sem qualquer tipo de efeito.

A esposa de Helks não via a hora de poder ir embora, ela só queria ver Rael queimar nas chamas para ter paz em seu coração, por isso ela tinha pedido para ser ele o primeiro. Ela pouco estava se importando com o que fariam com Ana depois.

― Você não vai dizer nada? Algo como me matar mesmo perdendo cem vidas? ― perguntou Helks, zombando de Rael. Rael se manteve em silêncio, com seu peito queimando e seu coração disparado ciente de tudo que tinha perdido, mas ainda não tinha aceitado aquele fato completamente, era como se aquela coisa presa na garganta não quisesse descer. Ele não queria aceitar que realmente havia perdido sua falsa família na mão de Helks.

― Se você tivesse mesmo cem vidas, eu te mataria as cem vezes e ainda não seria suficiente para tampar o buraco que você criou em meu coração, ao matar meu filho. É uma pena que você não tenha mesmo essas cem vidas. ― disse Helks. Rael continuou em silêncio, calculando as perdas e lembrando dos poucos dias que passou junto a falsa família. Ele nem estava mais ouvindo a voz de Helks nas suas costas, tudo que ele via eram suas lembranças.

A primeira vez que ele se apresentou para aquela família. O primeiro passeio dele e Rita pela cidade. O primeiro beijo entre eles… Rael estava mergulhado em lembranças que não paravam de surgir de cada um dos três.

Helks percebeu que Rael parecia não se importar mais e isso o deixou desapontado. Ele queria ver Rael lutar para sobreviver, gritar que o mataria e todas as coisas que alguém furioso faria. Mas Rael não tinha mais reações, e aquilo tinha perdido a graça. Matar Rael agora era quase como tirar a vida de um animal indefeso.

― Merda, espero pelo menos que você sinta muita dor, seu lixo imundo! ― disse Helks um pouco insatisfeito e retirou a Coleira de Controle do pescoço de Rael. Em seguida, o empurrou fogo a dentro.

Rael tombou na entrada e mergulhou de cara nas brasas. As chamas cobriram ferozmente todo o corpo de Rael enquanto brasas voavam para todos os lados em volta. Helks teve até mesmo que sair de perto. Mas ele viu as chamas aparentemente engolirem Rael, e ficou desanimado porque o rapaz não soltou um único som.

Baaaaaaam!

A porta de aço foi fechada e Rael se levantou ficando de quatro em meio as brasas sentindo seu poder voltar aos poucos. Ele ainda se lembrava do que Helks fez e de sua falta de poder. Por causa de sua estupidez, Adam, Barbara e Rita tinham pagado com a vida. As roupas de Rael se queimaram por não ter a mesma resistência do corpo.

O fogo consumiu as roupas de Rael em segundos, tudo que restou foi o corpo, seus cabelos ruivos e o medalhão no peito nu.

Depois de pensar um pouco, Rael entendeu que nunca mais veria Rita, assim como nunca mais veria nenhuma daquelas pessoas. Era um triste fato que ele teria que aceitar e aprender conviver. A dor bateu muito mais forte se lembrando de Rita dizendo que o amava. Ele não respondeu nada por pensar que talvez tudo fosse uma mentira. A garota perdeu a vida dela mostrando seus últimos sentimentos a Rael, e tudo que ele fez foi basicamente ignorar. O que Helks disse antes agora estava fazendo efeito em Rael.

Rael travou os dentes se levantando lentamente das brasas. Mesmo que elas estivessem quentes em seus pés ele não sentia nada devido a resistência. Aquele simples fogo perto da resistência de Rael não era nada. E por já ter a resistência ao fogo ele também era automaticamente resistente a fumaça gerada pelo mesmo que poderia afetar seus pulmões.

― ‘Helks!’ ― disse Rael em sua mente, e sentiu seu coração pulsar lentamente no peito. O coração que antes estava disparado agora estava calmo e pulsava em um ritmo comum. Mas, as vezes, ele parecia dar uma pulsada mais forte, a medida que Rael sentia seu ódio crescer.

O poder de Rael, por alguma razão desconhecida, estava voltando como um redemoinho, porém muito mais forte que antes. Os olhos de Rael estavam se escurecendo e voltando ao normal como se não estivessem decididos sobre como ficariam.

Rael travou os dentes novamente e apertou as mãos com força. Os olhos finalmente ficaram completamente escuros, as raízes negras se espalharam por seu rosto e desceram pelo pescoço e ombro direito. As raízes alcançaram o braço e se estenderam além. Rael sentiu seu braço direito pulsar como se fosse o seu próprio coração. Era a primeira vez que Rael estava tão furioso. Agora, a essência demoníaca de Rael estava no nível três, ampliando os status de combate dele em +60%.

A porta do incinerador foi aberta e Helks surgiu segurando Ana, que se esperneava chorando para não morrer.

― Por mais que você implore, eu jamais perdoarei uma… ― Helks parou de falar porque viu Rael parado em pé de costas em meio as chamas. Mas aquilo não podia ser mesmo verdade, Rael já deveria ter virado pó como todos os outros! Helks ficou em um estado de confusão.

Ana foi outra que parou de falar na mesma hora, vendo Rael. A surpresa foi tão grande que ela ficou paralisada igualmente o patriarca atrás. Ambos haviam se esquecido de seus papéis naquele momento. Um deveria está segurando e a outra lutando pela vida. Mas agora estavam parados encarando Rael.

De costas, o braço azul de Rael estava começando a ficar escuro e maior enquanto pulsava. As veias negras que se espalhavam pelo ombro e braço direito de Rael estavam grossas bombeando uma grande quantidade de poder. Parecia ser as veias que estavam escurecendo o braço de Rael.

― Isso não pode ser possível! ― Helks gritou travando os dentes enquanto largava Ana de lado. Essa nem se mexeu, ela simplesmente não conseguia tirar os olhos de Rael.

O estado do patriarca deixou todos perdidos, ninguém em volta entendeu porque o patriarca estava com uma cara tão surpresa e estranha. A esposa dele, que já seguia a alguns metros, parou e voltou a olhar para trás porque sentiu uma sensação estranha. Na verdade, todos começaram a senti-la.

Um forte instinto assassino foi lançado no ar para todas as direções. Até Ana deu um passo para trás, fugindo. A aura escura banhava Rael com força, enquanto seu braço direito continuava crescendo, ficando desproporcional ao corpo. Rael parecia estar se transformando em algum tipo de monstro.

― Como você ainda está vivo?! Como?! ― O patriarca finalmente gritou e todos em volta começaram a se aproximar curiosos.

Rael se virou para Helks e Ana, que foram os primeiros a verem. Os olhos de Rael estavam escuros, somente a íris estava prateada, era um tipo de formação diferente de antes. O olhar de Rael pegou Helks, esse arregalou ainda mais os olhos de pavor e avançou vários passos de costas, caindo atrapalhado. Helks ficou desesperado, porque dentro dos olhos de Rael ele podia ver sua própria morte em meio a chamas. Aquilo era muito assustador.

Mesmo o olhar de Rael não sendo para Ana, ela simplesmente não se segurou e começou a se tremer mais apavorada do que antes, ela deu um passo lentamente para trás com medo que Rael pudesse notá-la e achar que ela pensaria em trai-lo.

― Senhor, o que está acontecendo? ― Sauro correu para ajudar seu patriarca e foi o terceiro a ver Rael. Enquanto ele ia se agachar para ajudar seu líder, ficou paralisado diante do que via. Rael nem parecia ele mesmo. Aquelas veias escuras e grossas pelo seu corpo nu davam um ar sombrio e assustador a qualquer um que o visse. Era como se Rael tivesse morrido e renascido como outro ser.

― Não é real… ― disse Sauro lentamente. Cada elder que ia se aproximando e vendo Rael iam se paralisando de terror. Rael estava vivo e bem em meio as chamas. Ele não tinha um arranhão no corpo, além da nova aparência assustadora. Isso sem mencionar que todo aquele instinto assassino estava partindo de Rael para todas as direções. Até os cultivadores mais fracos de longe se afastaram com alguns passos para trás por medo, mas estavam curiosos demais para fugirem desesperados, como os instintos de sobrevivência dos próprios corpos mandavam eles fazerem.

Ana se moveu para trás recuando, porque sentiu a energia sendo concentrada no corpo de Rael. Ela virou-se correndo e caiu, e mesmo caída, ela foi se rastejando de quatro pelo chão para fugir de perto de Rael. Ninguém estava pensando sequer em parar a fuga dela. Todos estavam mais preocupados com outras coisas: Os elders preocupados com Rael ainda vivo e o público mais fraco em saber a origem daquele forte instinto assassino e o porquê de todos os elders estarem se reunindo olhando a incineradora. De longe eles não conseguiam ver bem o que se passava.

Rael abriu a boca respirando lentamente sem tirar os olhos de Helks. O poder estava explodindo no corpo, parecia que Rael tinha mesmo liberado alguma coisa a mais naquele momento. Seu braço não parava de pulsar e a cada pulsada ele crescia um pouco mais, liberando uma aura escura no ar que era visível por todos.

Tumdum! Tumdum! Tudum! Booooom!

O braço de Rael de repente explodiu, lançando uma forte onda de poder escuro para todas as direções. O incinerador não aguentou e as barras de aço junto com labaredas de fogo voaram, sendo arrancadas do chão e se desprendendo uma das outras. Uma chuva de brasas, fogo e pedaços de aço se espalharam pelo ar.

Tanto Helks quanto os elders foram varridos vários metros para trás. Até a esposa de Helks, que tinha parado a alguns metros, foi arremessada também, caindo deitada e rolando umas duas vezes pelo chão.

Ana, que estava em uma distância considerável, ainda foi lançada no ar e empurrada para frente mergulhando de cara na terra. Os cultivadores mais fracos mesmo a vários metros caíram uns sobre os outros atrapalhados.

Por um rápido instante, o céu da cidade se iluminou com as brasas e fogo voando. Os pedaços de metais foram caindo junto as brasas em diversos locais, próximos a Rael e até longe dele.

Os elders se recuperaram da surpresa, levantaram-se e ativaram suas auras para se protegerem. Helks fez o mesmo junto a eles.

― Senhor, como ele pode estar vivo? ― perguntou Cássio, o elder que havia trazido Ana anteriormente.

― E eu vou saber? Ele deve ter ativado alguma técnica misteriosa quando eu tirei a Coleira de Controle. ― disse Helks.

O chão em volta de Rael estava destroçado, ele estava em pé sobre a placa de metal destruída ao centro de uma grande mancha escura. Parte do chão tinha afundado. Rael estava olhando o seu braço gigante a sua frente. O braço estava grosso, escuro e com garras brancas afiadas nas pontas no lugar dos dedos, as garras eram como espadas de meio metro e Rael podia movimentá-las livremente, como ele estava fazendo agora enquanto testava.Todos podiam ver as garras brancas se movendo na mão de Rael. Todo o braço de Rael estava ainda sobre a pele normal escurecida e cheia de músculos, cobertos apenas pelas veias escuras que ainda bombeavam poder. Se Rael deixasse seu braço solto de lado normalmente as garras encostariam facilmente no chão.

Rael sentiu seu corpo muito mais leve, mas ele percebeu que apesar de toda a transformação bizarra seu reino não subiu, embora seu poder estivesse explodindo por dentro e parecia muito mais forte que antes.

― Eu vou matá-lo imediatamente! ― Treves, que já tinha lutado contra Rael, foi o primeiro a criar coragem. Por instante Rael tinha parado de liberar seu instinto assassino, e isso facilitou sua vida.

Treves partiu correndo enquanto cercava o corpo com sua aura vermelha, aumentando seu poder. Ele sacou a mesma espada de porte médio de antes e a cobriu de aura rocha, para ampliar seu poder de ataque. Ele só tinha a combinação do apoio (amplificação) com seu Caminho das Chamas.

― Treves, não! ― Sauro tentou pará-lo, mas já era tarde demais. Seu companheiro já tinha percorrido mais da metade do caminho.

Rael virou-se para Treves que saltou atacando. Helks e todos os elders ficaram ansiosos sem tirar os olhos do que estava prestes a vir.

― Corte em Forma de Luz! ― rugiu Treves ativando sua técnica de ataque especial. A espada se moveu soltando uma onda de luz vermelha no ar, muito mais rápido do que olhos humanos podiam acompanhar.

Booooom!

O braço direito de Rael se moveu deixando um rastro de sombra no ar e parou o golpe que explodiu com força no antebraço de Rael.

Brash!

A espada não aguentou e foi destruída no impacto. Pedaços de lâminas saíram voando pelo ar.

Quando Treves pousou no chão ele viu Rael passando como um vulto por ele e parando dois passos atrás com as garras da mão monstruosa amostra viradas para cima como se tivessem segurando algo.

― Aaaaaaaaaaaah! ― Treves gritou vendo sangue espirrar de todas as direções do seu peito aberto. Treves foi rasgado em quatro lugares no peito. Os ferimentos foram graves e profundos, quebrando até alguns ossos. Foi tão rápido que por em um instante quase ninguém notou a velocidade de Rael. Não havia nem mesmo sangue nas garras brancas estendidas no ar, mesmo o ataque tendo sido feito por elas.

Rael virou o rosto encarando os outros elders, esses tremeram sob o olhar de Rael no mesmo instante, como se tivessem tomado um choque. O corpo de Treves caiu no chão com o peito em pedaços. Uma poça de sangue foi rapidamente formada.

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Capitulo liberado por doações. Agradeçam a: Marcos Vinicius Mota Kliemann




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