O Herdeiro do Mundo

116 - A Partida

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

                Rael ficou surpreso com o pedido de Laís. Ele sabia que ela se importava com a sua família, mas não imaginou que fosse tanto ao ponto de entregar a si própria, sob o medo de Rael tomar o pouco que eles conquistaram.

― Se você está disposta a ir tão longe, acredito que não teremos problemas daqui para frente. Eu quero sim sua lealdade, mas não como escrava. ― disse Rael calmamente.

― Lealdade? Do que está falando?

― É simples: Quero que você se torne a minha discípula. ― disse Rael mantendo o mesmo tom sério. Laís abriu a boca e arregalou os olhos. Esse não era o pedido que ela esperava.

― Eu nunca pensei a respeito, mas vou formar um grupo ou uma seita, quero treinar pessoas da minha confiança e ajudar a ficarem fortes. Você será minha primeira discípula. Então, o que você me diz? Aceita? ― perguntou Rael.

                Laís ficou um tempo mergulhada naquela questão. Ela não sabia se acreditava que o motivo de Rael salvá-la seria para tê-la como discípula.

― Você não é muito novo para ser um mestre? Qual a sua idade? ― perguntou ela, curiosa.

― Eu tenho quinze, já quase dezesseis. Mas o que isso importa?

― Não importa em nada, só é estranho. Como discípula, o que você irá fazer comigo?

― Irei treinar você. O que mais eu faria? ― perguntou Rael de volta. Laís continuava lutando, tentando descobrir se Rael tinha más intenções sobre ela.

― Eu não sei se acredito em você. ― disse ela virando o rosto para o outro lado.

― Que legal da sua parte. Quando eu finalmente conto o porquê de ter te ajudado, você me ignora e ainda acha que eu tenho planos maléficos. ― reclamou Rael, que já estava um pouco irritado com aquele tratamento contínuo dela sobre ele.

― Acha mesmo que eu sou boba? Passei cinco anos sob uma doença que ninguém parecia ter meios de me curar; Você aparece, me cura e diz que não quer nenhuma recompensa. Depois, você chega e diz que me quer como discípula. Como acha que eu vou acreditar nisso?

― Tá bom, Laís, Eu cansei! Eu sou casado com Natalia, a filha do patriarca do clã Torres, e minha primeira esposa é Mara, filha do primeiro elder Rayger do clã Torres; eles são ricos e eu nado em dinheiro, basicamente. Se eu preciso de alguma coisa, falo com a mãe da minha esposa e ela me consegue de imediato. O que você acha que vou querer de uma família pobre como a sua? Agora, me diz e acaba logo com essa brincadeira! ― reclamou Rael, ficando sério. Se tinha uma coisa que ele não suportava era alguém ficar duvidando dele.

                Depois de ouvir aquilo, Laís ficou atordoada. Ela havia pensado antes sobre essas coisas que ele disse, e por isso não fazia sentido. Agora, sendo colocada contra a parede, ela teve que encarar aquilo de frente. Rael tinha mesmo ajudado ela sem qualquer segunda intenção, a não ser o fato de querer que ela virasse sua discípula.

                Rael não estava fazendo isso para se aproveitar da menina, ele queria protegê-la agora e ainda continuar fazendo isso mesmo depois de partir. Ele a deixaria sozinha, mas ainda queria manter contato e nada melhor do que ser seu mestre. Tendo-a como discípula, ele teria que cuidar dela daquele momento em diante.

― Você pretende me ter como esposa também? ― perguntou a moça, depois de pensar um pouco. Ao contrário das outras, ela não ficou envergonhada. Rael olhou para o chão e respirou lentamente pensando se tinha feito algo para parecer tão estranho assim.

― Não, Laís. Não foi esse o motivo que me fez te curar. Meu único pedido é esse, se você não quiser ser minha discípula eu não vou te forçar, está bem? Mas ai você ficará por sua própria conta. ― disse Rael.

― Você quer mesmo que eu me torne sua discípula? ― perguntou a moça em um tom mais calmo.

― Quero sim.

― Se é o seu pedido eu não recusarei. ― disse ela.

― Ótimo! A partir de agora eu começarei a preparar você. ― disse Rael se levantando.

― Mas saiba que eu sou muito devagar nesse tipo de coisa. Minha própria liberação não é muito voltada ao combate. Quem tinha mais apego a essa parte era minha irmã. ― explicou a moça.

― Não se preocupe, nós vamos com calma. ― disse Rael tranquilamente.

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Valda ficou feliz em saber que Rael seria mestre de sua filha, mesmo sabendo que ele era muito novo pra tal, afinal, depois do que ele havia feito por eles, ela não se importava. Ele teve que contar antes de levar a filha dela para fora da cidade. Ele não pretendia fazer tudo que precisava fazer abaixo de um teto que não suportaria.

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Rael levou Laís para um local afastado e deserto fora da cidade para não chamar atenção. Lá, ele fez todos os processos na garota. Começou dando a ela um anel de bloqueio. Depois, ensinou uma técnica de cultivo de acordo com as veias dela. Liberou os Pontos de Poder, curou suas veias, deu a ela pílulas e a deixou cultivando. É claro que Laís teve seus momentos de surpresa com as coisas que Rael fez por ela, mas ela se acalmou rápido com os pedidos de Rael para cessar as perguntas e focar no cultivo. Sem mencionar o fato de que ela não sabia nada sobre os Pontos de Poder, apenas um pouco sobre as veias e pílulas.

                Agora que Rael tinha pensado melhor, seria bom ele criar sua própria rede de comunicação. Ele queria desenvolver anéis de comunicação melhores que os já existentes. Por exemplo, ele não conseguiria mandar uma mensagem privada para sua esposa sem que todos os envolvidos pudessem ouvir. Pensando nisso, Rael sentou-se, separou alguns anéis que tinha conseguido ao longo do caminho.

                A primeira coisa que ele fez ativando a habilidade especial herdada por Emilia, “Mundo da Simbologia”, foi remover todos os traços mágicos de seus anéis. Por enquanto ele começaria com somente três.

                A habilidade de Emilia permitia que Rael adicionasse efeitos a alguns itens. As vezes ele precisava fundir itens, outras vezes não. Emilia tinha dito que conforme o tempo ele ficaria melhor com essa habilidade e que no futuro ele não teria muitos problemas com a criação de artefatos totalmente do zero. Rael queria tentar isso exatamente agora. A simbologia da comunicação era algo simples e seria seu primeiro teste.

                Rael tentou criar o primeiro anel que daria início a sua rede de comunicação. Ele se concentrou e forçou o símbolo, porém o anel não aguentou o processo e se partiu em pedaços, sendo destruído. Rael não desistiu e passou para o segundo, acontecendo a mesma coisa.

                No terceiro e último dos que separou, ele finalmente conseguiu, em um processo que durou quase trinta minutos. Mesmo sendo uma simbologia simples, Rael chegou a suar. No fim, ele levantou o anel no ar e viu um símbolo incrustado na parte giratória interna, o símbolo lembrava uma flecha (>->). Rael ficou feliz, mas ainda teria algum trabalho: aquele era apenas o primeiro anel.

                A noite finalmente chegou e Rael tinha conseguido criar três perfeitos anéis de sua rede de comunicação. Ele teve que incluir outros depois de destruir aqueles dois.

                Laís tinha avançado do reino um nível nove para o segundo reino nível cinco em apenas poucas horas de cultivação. O poder dela já estava sobre controle.

                Rael achou estranho que Laís não teve o mesmo problema de Natalia (de ter as roupas destruídas). Embora o poder dela explodiu com a tomada da pílula, as roupas dela não foram destroçadas. Rael acreditou que isso era devido a ela seguir o Caminho da Iluminação (Luz). Como era um elemento mais harmônico, parecido com o da vida, ele não chegava a ser tão feroz como os outros sete.

― Esse é um anel de comunicação e só funcionará em você. ― explicou Rael depois de colocar no dedo da garota e fazer o registro. O anel brilhou confirmando o registro bem sucedido.

― Não sei se você entende dos anéis de comunicação, mas esse, pra você falar com alguém precisa dizer um nome antes. Por exemplo, ‘Ativar: Samuel’. Dizendo isso, eu vou ser chamado e você poderá falar que eu ouvirei. Mesmo que tenha dez pessoas com esses anéis, somente eu ouvirei você. ― explicou Rael.

― Que estranho… ― disse Laís olhando o anel na mão. Sobre os anéis ela entendia porque seus pais sempre trabalhavam entregando várias coisas assim.

― E caso você queira falar com todos então você diz ‘Ativar:Geral’, e assim todos serão chamados. ― explicou Rael.

                Rael ficou aliviado por Laís não ser dessas que ficam fazendo drama para aceitar algo, pelo menos ela aceitava de uma vez e fim de jogo.

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Samara continuou fazendo investidas em Rael: Convites de encontro, pedidos de passeios, convites para jantares na casa dela. Rael recusou todos educadamente e sempre foi inventando as mais inusitadas desculpas.

                Nos últimos dias, Rael preparou um anel de apoio para Laís, depois de gastar mil moedas comprando as coisas necessárias para fazer.

                Com pressa e querendo voltar para casa, ele criou uma barreira no quarto de Laís para ela poder cultivar sem problemas. Marcou ela e os pais que poderiam entrar na barreira. Passou também algumas técnicas baseadas no seu elemento e pílulas para os próximos cultivos. Rael deixou tudo explicado pra ela, e que todas essas coisas deveriam ser mantidas no mais absoluto sigilo.

― Se tiver qualquer problema, pode me chamar. Não importa o quê, eu ouvirei você. ― disse Rael. Ele temia que o clã Sangnos fosse fazer seu movimento, principalmente depois dele ter ignorado Samara tantas vezes. Mas ele não podia ficar ali cuidando para sempre dos mesmos, e seria muito estranho, além de arriscado, Rael querer arrastar Laís com ele, o clã Torres também não seria um lugar seguro para ela no futuro.

Os pais dela tentaram recompensar Rael com itens e dinheiro. Ele recusou tudo e ainda deu a eles cinco mil moedas de ouro que era equivalente a cinco casas dessa que eles possuíam.

Os pais dela tentaram recusar a todo custo, afinal Rael estava fazendo tanto por eles que aquilo parecia até um sonho.

― Se vocês recusarem eu me sentirei extremamente ofendido. ― disse Rael para que eles nem pensassem em não aceitar: ― Usem esse dinheiro da forma que vocês quiserem, e cuidem bem de sua filha. ― disse Rael diante dos três. Agora, Laís acreditava em Rael, ele não estava ajudando por segundas intenções. Depois de tudo o que ele fez, era impossível a moça não acreditar. Só naquele momento, ela percebeu que estava gostando dele de uma forma diferente. Rael tinha o sangue de uma Violadora no corpo e, mesmo com pouca presença, ele atraía facilmente o coração de uma garota inocente.

― Você tem mesmo que ir embora agora? ― perguntou Laís.

― Se eu não for, é capaz dos pais da minha esposa virem me buscar pela orelha. ― brincou Rael, lembrando de Neide. É claro que durante esse tempo aqui e ali eles incomodavam Rael, perguntando se ele estava bem.

― É possível que o clã Sangnos incomodem vocês. Se eles forem muito longe, vocês podem dizer que Laís, além de minha discípula, é também minha futura noiva. Mas isso é só para assustá-los. ― explicou Rael antes que causasse um mal entendido. Ele certamente não tinha nenhum plano de casamento com Laís.

― E, por último… ― Rael agachou a cabeça em uma posição de respeito: ― Eu sinto muito pelo que fiz a vocês. Sei que nunca serão capazes de me perdoar, assim como eu também nunca me perdoarei. Agora tenho que ir. ― disse Rael, recuperando a postura e se virando sem explicar o porquê do pedido de desculpas, enquanto pensava em Thais.

                Todos ficaram confusos e nem faziam ideia do que Rael se desculpava, os pais até olharam Laís mais uma vez como se buscassem tal motivo. Esse motivo, à vista deles, não existia porque a filha deles estava bem saudável agora.

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Na mansão do patriarca no salão principal do trono, o patriarca Arthur estava conversando com alguns elders a respeito de um problema em sua caverna de mineração. Um guarda chegou correndo e anunciou agitado:

― Senhores, com licença! Samuel acabou de partir da cidade. Dessa vez parece que ele está indo embora, vimos a família Reis se despedindo dele. ― disse o guarda.

― Bom trabalho, já pode voltar ao seu posto. ― disse o patriarca. O guarda o reverenciou e partiu em seguida.

― Senhores elders, queiram me desculpar, mas vou precisar tomar um ar, volto em um instante. ― disse o patriarca, saindo lentamente, sem apresentar muita pressa.

                Ele se dirigiu para um corredor sem ninguém, ativou um dos anéis em mãos e disse:

― Faça como combinamos. Ele está saindo agora.

― Como o senhor desejar. ― respondeu uma voz masculina em seu pensamento.

                Arthur relaxou completamente, enquanto abria um sorriso pensando na vergonha que Rael o fez passar. Arthur era o tipo de homem que não deixava humilhações passar, e como Rael não aderiu ao seu plano de fundir as famílias, agora Rael era considerado um caso perdido. Se ele não iria conseguir fundir sua família com a Torres então ninguém mais iria. Era hora de pôr um fim em um futuro jovem problemático.

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Rael saiu despreocupado do território Sangnos. O maior empecilho dele era pensar que Samara poderia segui-lo de novo e isso não aconteceu. Agora, ele só precisava tomar mais distância de qualquer presença, chamar Ralf e voltar. Ele pretendia passar na cidade de Elunia e ver Rita antes de voltar para o próprio clã.

                Quando Rael finalmente chegou em um local que aparentava não ter ninguém, ele se preparou para convocar Ralf e sentiu uma presença se aproximando rapidamente. Olhando para a estrada de terra quase deserta, Rael sentiu a aura de um oitavo reino nível quatro. Ele chegou em poucos segundos correndo como um vulto depois de Rael perceber, e parou à frente de Rael, a cerca de uns quinze metros. Era um homem jovem com aparência de uns vinte anos, mas certamente seria mais velho.

― Fico feliz de ter encontrado o jovem mestre Samuel do clã Torres. ― disse um homem abrindo um sorriso.

― E quem seria o senhor? ― perguntou Rael curioso, mas já desconfiado do que seria.

― Sou Eric. Não é nada pessoal, eu apenas fui pago para tirar sua vida. ― disse ele sacando uma adaga do bracelete, em seguida ele já sacou uma garrafa com um líquido vermelho e começou a banhar a lâmina: ― Não se preocupe, eu darei a você uma morte rápida, você não terá que se preocupar. Esse é o veneno Beijo Ardente e em você, que tem a Liberação do Poder,morrerá em menos de dois minutos uma vez atingido em qualquer parte do corpo. ― explicou o homem despreocupado.

O veneno era feito exclusivamente para quem tinha a liberação citada pelo homem. Rael não era burro e ligou os fatos rapidamente: os únicos que pensavam que Rael tinha essa liberação eram do clã Sangnos.

― Tenho que desapontar o senhor, mas eu não tenho planos para morrer agora. ― disse Rael e sorriu por dentro pensando que agora seria um bom teste para ele. Seria a primeira vez que ele enfrentaria um oitavo reino em níveis intermediários.

                O oitavo reino (Força do Céu) era um nível de respeito, e não era alcançado por qualquer um tão facilmente. Alguém dentro desse nível tinha todas as vantagens dos outros anteriores e tinha uma a mais: ele podia usar a força do ar, assim como a força da terra. Era o primeiro passo para voar, embora só fosse fazer isso no décimo reino.

― Isso não é você que escolhe, jovem mestre. ― disse o homem depois de terminar de molhar a lâmina. Ele manteve aquele meio sorriso e avançou como um vulto sobre Rael, preparando a adaga.

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Nota Autor: Capítulo liberado por doação.

A partir de agora, tentarei garantir um capítulo semanal aos sábados (Não darei a certeza de ser em todos!). Os outros capítulos serão liberados através de doações, com um limite claro. Eu avisarei se a cota ficar alta.

Agora o valor do capítulo diminuiu para R$30,00 (a cada 30 reais de doação, eu irei liberar um novo capítulo), mas fiquem atentos na página do livro no Facebook para obter mais informações.

Até o momento, foram doados R$125,00 (estarei considerando os $25 como esse capítulo, então, estamos zerados ^^).

Boa leitura a todos, eu continuarei correndo atrás dos meus objetivos!


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