O Herdeiro do Mundo

115 - Uma noite no Clã Sangnos (Parte 2)

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

As memórias de Rael eram enraizadas em sua cabeça. Ele nunca esquecera nada do que havia aprendido e, naquele momento, isso o fez se lembrar de uma erva que Violeta uma vez o apresentou:

― Se quer ter uma pessoa na palma de sua mão por um tempo, conheça a Erva Ilusa!― disse Violeta mostrando um conjunto de ervas verde com tons laranja: ― Uma vez misturada com a erva do lírio, terá um efeito devastador em uma pessoa, mas só funcionará com um pequeno detalhe extra: O seu alvo deverá ter tomado um pouco de álcool antes ou depois desse chá. A mistura junto com a bebida alcoólica faz a pessoa entrar em hipnose. Durante esse tempo, essa pessoa responderá e fará qualquer coisa que a outra pedir. Logo após a expiração do efeito, então o alvo se esquecerá de tudo que fez em transe. Não é incrível? ― Naquela época, Violeta tinha perguntado isso com um sorriso. Rael nunca pensou que chegaria o dia em que teria seu caminho cruzado justamente com essa mistura. O vinho foi o álcool que ativou a erva, e agora Rael sabia o porquê de Samara insistir que ele o bebesse.

                Lembrando da explicação, Rael entendeu o propósito de Samara. Mas ele não conhecia toda a extensão do que ela queria.

                Entretanto, havia uma grande falha no plano de Samara: Rael era o Herdeiro do Mundo Completo. Nenhum poder existente poderia controlá-lo, mesmo que estivesse a muitos níveis acima de sua capacidade. Apesar de parecer que Rael seria controlado, seu poder latente começou a lutar imediatamente a fim de proteger Rael.

                Rael sentiu seus próprios símbolos trabalhando duro para combater os efeitos da droga por dentro. E em segundos todo o efeito desapareceu. Samara voltou a ser apenas Samara. Durante esses curtos segundos ele ficou olhando para o chão, pensativo.

― Estamos sozinhos, você não precisa ter vergonha de mim… ― disse Samara e tocou no queixo de Rael o levantando para olhá-la: ― Você não gostaria de ficar mais um tempo comigo? ― perguntou ela. Era o primeiro teste para saber se Rael já estava sob o seu controle. A droga induzia o alvo a pensar que estava com a pessoa de sua maior confiança. Por isso, antes ele havia imaginado Violeta em Samara. Se ele estivesse ainda sobe feito da droga, iria começar a responder qualquer coisa para Samara e não poderia resistir a ela. A droga duraria pelo menos duas horas inteiras dentro de seu organismo.

― Sim, eu gostaria. ― respondeu Rael se fazendo de bobo. Ele fez uma expressão de quem estava levemente embriagado. Rael queria saber quais eram os planos de Samara. Ela não podia imaginar que ele seria imune a erva Ilusa.

                Os olhos de Rael já tinham voltado ao normal, o que era algo natural de acontecer depois que o efeito estivesse ativo. Agora Rael já não sentia mais qualquer coisa.

― Por que você pediu Natalia em casamento? ― perguntou Samara em um tom frio. Ela não acreditava que Rael não teria planos sobre isso. Mesmo que ele tentasse se fazer de inocente, ela jamais acreditaria. No mundo que ela vive, as pessoas lutam pelo poder e sacrificam qualquer coisa pelo mesmo.

― Eu me apaixonei por ela. ― disse Rael, limitando as respostas para as mais curtas possíveis. Alguém hipnotizado só responderia o básico.

A resposta de Rael chocou Samara, mas não muito. A beleza de Natalia era afinal conhecida por todo o continente. Era a garota mais nova com maior beleza já vista. Muitas garotas com mais de vinte anos morriam de inveja dela.

― Então você acredita mesmo em amor? ― perguntou ela um pouco irritada.

― Acredito. ― disse Rael sempre no mesmo estado sério e inexpressivo.

― Eu não pensei que você seria tão idiota assim. Alguém como você tem a capacidade de crescer ilimitadamente, mas fica pensando nessa coisa inútil chamada amor. Você deveria saber que ele não existe. Mas deixa pra lá, você nem vai se lembrar dessa nossa conversa mesmo… ― disse ela impaciente olhando em volta.

― Mas alegre-se! Me ter como sua esposa deixará você ainda mais poderoso. Você será aquele que unirá as famílias Torres e Sangnos no futuro próximo, então nós dois seremos os maiores lideres da história! ― disse ela em um tom mais para si mesma do que para Rael, que continuava se fazendo de idiota, parado sem qualquer expressão.

                Depois de ponderar por alguns segundos sem olhar para Rael, ela voltou a se virar para ele. Ela tinha algumas perguntas pra fazer e não poderiam ser esquecidas.

― Qual é a sua liberação? ― Samara fez a mesma pergunta que fizeram durante o jantar.

― Caminho do Poder. ― respondeu Rael. Samara fez uma leve careta mostrando um pouco de decepção. Ela imaginava que no jantar Rael tivesse mentido para esconder segredos.

― Por que seus olhos ficam escuros durante a batalha? O que aquilo tem haver com o seu poder? ― perguntou ela.

― Herança passada de mestra para discípulo. ― disse Rael que na hora não teve nenhuma ideia melhor. Era uma verdade que, de uma maneira geral, Samara não poderia fazer nada com aquela resposta.

― Que tipo de herança seria essa? E como alguém poderia consegui-la caso você quisesse passar a frente?

― É um tipo especial que aumenta o poder momentaneamente, não conheço métodos para passar adiante. ― disse Rael deixando Samara ainda mais decepcionada. Rael teve que dizer a verdade porque Samara esteve lá e viu o poder dele aumentar, isso ele não podia esconder, e se tentasse seria descoberto.

― Então tudo por trás de você se refere a sua mestra. Que péssimo, eu achei que teria mais sorte. ― reclamou a mulher visivelmente chateada. Rael sempre se mantinha em silêncio e sereno quando ela não falava diretamente com ele.

― Agora, me diga, o que veio fazer em nossa cidade? ― perguntou ela, se voltando de novo para ele. Se Rael estivesse mesmo sobre o efeito da droga agora ele seria descoberto, porque ele iria acabar contando tudo para a moça.

― Vim testar a cura que minha mestra pediu. ― disse Rael. Samara ficou indignada, porque tudo que Rael havia dito durante o jantar estava se mostrando ser verdade.

― Você está escondendo algum segredo de mim?

― Sim. Eu gosto de mulheres mais novas e que tenham idades próximas a minha. ― mentiu Rael propositalmente. Se ele não dissesse nada seria muito estranho.

― Credo! Você é muito nojento! ― disse ela em um tom mal humorado. Cada vez mais ela mostrava sua verdadeira natureza. Ela não era aquela garota legal que Rael tinha pensado que fosse.

― Vamos para o meu quarto fazer o que deve ser feito. Amanhã, quando acordarmos juntos, você terá que se casar comigo. ― disse ela seguindo em frente. Rael gelou naquele momento, apesar de Samara ser linda e ter belas pernas, Rael não queria deitar-se com ela por causa desses motivos. Ainda por cima depois de ouvir tudo que ela disse. Mas o que ele iria fazer? Ele não sabia se existia reações sobre o efeito da erva que ele pudesse inventar, além da conversa com Violeta ele não procurou mais informações. Tudo que ele sabia é que obedeceria a pessoa a frente.

                Enquanto seguia ela, prestes a entrar de volta na mansão, Rael pensou um pouco. Se ele não sabia se existia efeitos colaterais não quer dizer que não poderiam existir, ainda mais para ele que carregava um poder que eles não conheciam, algo de sua mestra. Isso fez Rael sorrir encontrando uma rota de fuga.

                Rael parou de caminhar e levou as mãos para o peito. Isso fez Samara parar um pouco antes de entrar no corredor, ela se virou para Rael curiosa.

― O que foi? ― perguntou ela.

― Estou com dor. ― disse Rael. Em seguida fingiu um desmaio caindo para frente, de cara no chão. Ele fez tudo parecer bem real.

― Mas o quê..? ― Samara correu para ajudar Rael, agora caído. Ela já foi encostando a mão no pescoço de Rael, lançando sua energia. É claro que Rael lutou facilmente contra ela, evitando que ela recebesse qualquer informação. Antes de Samara ter qualquer chance de ficar incomodada com o fato, Rael abriu os olhos de repente:

― Samara? O que aconteceu? ― perguntou Rael se levantando e fazendo sua voz soar mais viva que antes. Samara ainda estava em um estado de surpresa.

― O que aconteceu? Responda! ― exigiu ela ainda um pouco perdida.

― Do que está falando Samara? E porque você está falando assim? ― perguntou Rael se fazendo de preocupado. Samara ficou desconcertada, percebendo que algo estava fora do comum.

― Você não se lembra de nada? ― perguntou ela preocupada, já controlando o tom de sua voz para a que Rael conheceu no começo. Um tom mais natural e legal. Ela começou a achar que o efeito da erva em Rael tinha se acabado como ele mesmo queria que ela pensasse.

― Se lembrar do quê? Tudo que me lembro era de termos tomado um chá. ― mentiu Rael, olhado de lado se fazendo de preocupado. Samara ficou parada de boca aberta, sem saber o que dizer. Ela não tinha entendido o que acabou de acontecer, mas aparentemente Rael passou mal e o efeito da erva havia desaparecido. Ela não podia desconfiar de que tudo tinha sido apenas um truque. Ela não sabia que Rael conhecia essa erva e nem mesmo que conhecia os efeitos, com apenas quinze anos não seria possível ele já ter tamanho conhecimento.

― Que estranho, acho que devo ter adormecido de repente…Bem, eu estou indo embora.Obrigado pela companhia! ― disse Rael já se retirando. Samara ficou sem palavras enquanto via Rael seguir andando.

― Espera, eu acompanho você!

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Rael conseguiu sair da mansão depois de se despedir de Samara com um aceno. Ele nem queria chegar mais perto dela depois de descobrir como ela era de verdade. Ela tinha feito aquilo para descobrir os segredos de Rael e nem percebeu que na verdade foi Rael que descobriu coisas sobre ela. Rael partiu o mais apressado possível, sempre com um sorriso bobo na cara para não levantar suspeitas.

                Samara ficou parada olhando Rael indo embora. Ela estava insatisfeita com o resultado e não podia fazer nada. Tudo que ela pôde fazer foi ver seu pai, o elder Ariel, encostar ao lado dela.

― Então, você falhou filha?

― Desculpe papai, algo saiu errado e eu ainda não sei o que foi. ― respondeu ela de volta, olhando desanimada para a rua que Rael acabou de desaparecer.

― Aparentemente ele não irá embora, se você causou uma boa impressão a ele ainda terá tempo de fazer algo a respeito. ― observou o homem.

― E eu farei! ― disse ela se virando e saindo enquanto pensava.

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Rael voltou para a casa dos pais de Laís e os chamou. A porta foi aberta por Valda, que o recebeu com um sorriso.

                Ela perguntou como foi o jantar, se Rael não estava com fome. Rael disse que foi bem e só queria um lugar para dormir.

― Você pode dormir aqui, é o quarto de nossa filha Thais. ― disse Valda, apresentando um quarto bem arrumado para Rael. Havia uma cama de solteiro no canto da parede com uma coberta rosa e alguns bichinhos de pelúcia na cama.

― Eu acho que prefiro dormir no sofá. ― disse Rael sem graça tentando voltar, mas Valda o barrou, forçando-o a desistir.

― Não tenha vergonha, jovem mestre. Quando ela retornar não se sentirá ofendida. Nossa filha tem um bom coração.

                No fim, Rael acabou sendo forçado a aceitar e fingiu que ia mesmo se deitar na cama dela. Mas quando Valda saiu do quarto fechando a porta, ele tirou um colchão e o armou no chão. Ele não era tão descarado assim de dormir na cama de uma pessoa que ele tirou a vida injustamente.

                Antes de dormir, Rael se lembrou de Ana, ela tinha tentado contato mais cedo, mas com tanta coisa que aconteceu, ele nem lembrou de fazer o retorno.

                Ele esperou e esperou depois de chamar. Ela não parecia estar conseguindo atender naquele momento então ele desistiu.

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Pelos próximos três dias, Rael não conseguiu contatar Ana, e isso começou a incomodá-lo. Se ela estivesse o traindo, demorando a responder propositalmente, já teria sido morta pela sombra e a mesma teria retornado. Se ela não estava conseguindo atender ao chamado por causa de algum problema, então não era traição.

Rael continuou cuidando de Laís. Ela voltou a ganhar peso e ficar mais bonita, saindo da aparência esquelética.

                Ele tinha estudado sobre massagens especiais usadas pelo elemento vida e, com isso, a recuperação dela foi grandiosamente acelerada. Apenas com esses três dias, tudo que ela parecia ser, era uma simples garota magra de boa aparência, sem mostrar tantos ossos.

                Os pais dela estavam felizes de ter Rael ajudando, mas a garota não estava. Ela continuava sem confiar em Rael, embora não lutasse contra nenhuma coisa que ele quisesse fazer, como massageá-la, fazê-la tomar vitaminas, esses tipos de coisas. Ela não tinha nojo de Rael e nem medo nesse sentido, até porque Rael não mandava ela se despir, mas ela ocasionalmente o olhava de canto, imaginando o que Rael iria pedir de recompensa.

                Rael tinha percebido que Laís continuava desconfiada dele, e por mais que ele se esforçasse, ela não cedia. Até que chegou um ponto que ele mesmo teve uma ideia para ganhar a confiança dela:

                Levando ela a um quarto longe da mãe, Rael pediu que ela se sentasse e ouvisse o que ele iria pedir. Naquele momento, Laís até concentrou o olhar, como se percebesse que Rael finalmente iria fazer seu movimento que ela tanto havia esperado.

Apesar de ter passado cinco anos em coma, durante todo o tempo ela esteve ativa em sua mente, ouvindo conversas e evoluindo a si mesma. Ela teve um longo tempo pra pensar na vida, mesmo presa em seu corpo. Ela não tinha confiança nas pessoas, além de seus pais e de sua irmã desaparecida.

Ela até mesmo ouviu a irmã dizer para a mãe que ia se vender como escrava para conseguir o dinheiro para a sua cura. Laís ficou tão desesperada que desejou morrer na época e não podia.

― Você está certa. Eu quero algo em troca por te ajudar a se curar e não aceito de forma nenhuma que você pense em recusar isso. Eu salvei sua vida, recuperei sua saúde e ainda farei muito mais por você. Está disposta a ouvir o meu pedido?

― Meus pais pretendem vender essa casa e dar todo o dinheiro que puderem em troca do que você fez por mim. Eu imploro a você, isso é tudo o que eles possuem e, sem isso, eles não terão nem onde morar. Eu já tenho idade para ser escrava, você pode me tomar como sua escrava se desejar, mas não leve o dinheiro deles! ― disse a moça em um tom de suplicação.

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Nota: Capitulo liberado esporadicamente


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