O Herdeiro do Mundo

112 - Encontrando Laís

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

No café da manhã seguinte, Natalia estava um tanto envergonhada com o ocorrido da noite passada. Rael era sempre o último a se levantar, por isso, ela estava sozinha com Mara. Toda vez que Mara a olhava, ela desviava o rosto.

― Prima, se você contar sobre aquilo pra alguém, eu não vou perdoá-la. ― ameaçou Mara que ficou impaciente com Natalia.

― Eu não ousaria. Mas por que ele estava batendo em você? Estavam brigando? ― perguntou Natalia, aproveitando a questão. Como Mara ia explicar para Natalia que gostava de apanhar quando transava? Aquilo ia ser muito estranho.

― Só estávamos nos divertindo. ― disse ela. O rosto de Mara ainda estava vermelho devido os tapas de Rael. Ela não podia esconder. Tinha até passado um creme de ervas mas não adiantou muita coisa.

― Desculpe atrapalhar vocês naquela hora, eu achei que estivessem brigando. ― disse Natalia sem jeito.

― Foi culpa nossa ter deixado a porta aberta, não se preocupe. Apenas não vá abrir essa boca. ― disse Mara de volta.

― Bom dia, meninas! ― Rael entrou em cena chegando sorrindo. Ele chegou próximo a cada uma delas e deu um selinho nos lábios, depois sentou-se na cadeira de bom humor. Para ele estava tudo numa boa.

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Rael explicou para as duas que voltaria um pouco tarde, ele pretendia fazer um passeio no qual preferia não mencionar onde. Isso deixou Mara e Natalia preocupadas, porque quando Rael dizia isso, as vezes ele não voltava no mesmo dia.

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Logo, Rael cruzava os céus com Ralf. Ainda era de manhã, mas o clã Sangnos não era lá muito próximo. Então Rael iria demorar mesmo com Ralf.

                Com seis horas de voo em alta velocidade seguindo sempre ao norte, Rael avistou um grande rio que cruzava algumas pequenas cidades. No mapa que ele tinha visto, o clã ficaria em uma cidade chamada Esmeralda, próxima a esse rio.

― É amigão, aqui já está bom. ― disse Rael para Ralf e o puxou de volta. Ralf sumiu e Rael começou a cair no ar. Em seguida, ele controlou seu elemento vento e foi se estabilizando, fazendo um pouso suave.

                Rael desceu perto de uma cidade pequena, era hora de colher informações.

                Depois de caminhar poucos minutos, Rael alcançou a cidade. Era a cidade que ele tinha visto de cima, havia várias pessoas e carruagens passando, o que não era condizente com o tamanho do lugar.

                Rael avançou pela estrada principal que cruzava e encontrou um grande número de pessoas cercando um homem  perto de algumas jaulas. Eram os mesmos tipos de jaulas que Rael tinha visto quando salvou Rose tempos atrás. Havia seis delas: quatro tinham bestas divinas e nas outras, duas bestas demoníacas mais raras.

                Bestas divinas são diferenciadas pela sua aura, que geralmente é mais do tipo elemental, sendo raio, vento (Ralf por exemplo), terra e por ai vai. Já as bestas demoníacas são conhecidas por terem auras mais gélidas e escurecidas, sem qualquer tipo de elemento exato. Não que elas não possam ter, mas é indetectável até que elas as usem. Enquanto as bestas divinas são muito mais fáceis de ser reconhecidas.

                Rael entendeu rapidamente que estava rolando uma espécie leilão no meio da rua. O homem gritava anunciando a besta que estava sendo leiloada:

― Besta Leão Vermelho de Fogo, Rank B. Vendida por quinhentas e cinquenta moedas de ouro! ― anunciou o tal homem bem vestido, animado enquanto se aproximava do comprador.

Bestas que geralmente eram vendidas assim tinham muitas utilidades diferentes, algumas seriam levadas para testes, outras teriam seu sangue usado para remédios, outras serviriam para futuras armaduras mágicas e outras série de coisas. Apesar de ser uma besta Rank B, mais fraca que Ralf, uma besta dessas era difícil ser capturada viva porque elas ainda são perigosas, mesmo para cultivadores mais fortes.

                Rael ficou um tempo assistindo ao próximo leilão e virou-se saindo da multidão sem achar nada interessante. Encontrando uma senhora que passava no caminho, ele perguntou como poderia chegar na cidade Esmeralda e recebeu as informações. Ele agradeceu e partiu seguindo o caminho indicado.

Rael não percebeu, mas três figuras ali próximas o reconheceram e passaram a segui-lo. Rael era culpado por fazer eles perderem uma quantia de milhares de moedas de ouro algum tempo atrás. Eles eram os três que tentaram sequestrar Rose.

                Enquanto caminha atravessando a cidade, Rael sentiu Ana tentando contato, mas era impossível ele atendê-la agora, estava de manhã e não havia nenhum local escuro a não ser algumas casas fechadas e as poucas abertas continham pessoas. Rael apenas ignorou, avançando. Os três continuavam o seguindo esperando o momento certo. Mesmo que nessa cidade não tivesse guardiões imperiais não seria bom chamar atenção desnecessária.

                Quando Rael saiu da cidade os três ainda continuavam o seguindo mantendo uma curta distância de cinquenta metros. Rael realmente não se lembrava deles pelo fato de já ter feito algum tempo por isso no primeiro instante ele nem levou isso em consideração.

Aqueles três também reconheceram que havia um pedido pela cabeça de Rael. Era cultivadores do sétimo reino, (Força da Terra).

                Quando já estavam longe o suficiente da cidade os três saltaram tomando a frente de Rael, obrigando-o a parar.

― O que vocês querem? Eu estou com pressa. ― perguntou Rael parando.

― Você não se lembra de nós? Você nos roubou algo de valor e queremos de volta! ― disse o homem barbudo do sétimo reino nível sete.

― Roubei?! ― Rael ficou curioso porque ele realmente não se lembrava.

― Pare de se fazer de bobo e nos entregue nosso filhote de Lendário Unicórnio Volutivo agora! ― exigiu o mesmo homem, fazendo Rael se lembrar.

― Oh, então vocês são aqueles três idiotas daquele dia. ― observou Rael.

― Jovem, você não tem amor pela vida? Por acaso não sabe quem somos? ― perguntou o homem branco mais magro a esquerda do barbudo. ― Eu sou Eduardo, este é Jeremias, ― disse ele apontando para o barbudo e depois para o moreno do lado: ― e este é Mario. Reconheceu agora? Nós somos o Trio Caça Fácil. Um dos maiores grupos de caça a bestas que você certamente já ouviu falar. ― disse Eduardo.

― Sério? Que estranho, eu realmente nunca ouvi falar de vocês. ― admitiu Rael.

― Besteira tentar botar alguma coisa na cabeça de gente tapada, Eduardo. ― disse Jeremias, o barbudo. ― Apenas nos devolva nosso filhote e talvez nós o deixaremos ir.

― Oh, sério? É uma pena, ela não está mais comigo. ― disse Rael sem muita paciência.

― Jovem, é melhor pensar melhor. Temos um cartaz dizendo que sua cabeça vale mil moedas de ouro e a entrega não é muito longe. ― disse o mesmo homem.

― Lamento informar vocês, mas não estou interessado em virar ouro de ninguém. Entretanto, acho que vou gostar de levar o de vocês comigo. ― disse Rael e abriu um sorriso. Ele tinha deixado mil moedas de ouro com a Rita do outro mundo e nesse momento ele não tinha muito.

― O nosso? Você deve está sonhando! ― disse Jeremias irritado.

― Sério? Vamos ver então. ― disse Rael. Como ele estava com pressa já começou logo ativando sua técnica de velocidade. (Brisa Leve): técnica do tipo vento que aumenta a velocidade de movimento.

                Os três cultivadores sacaram suas armas e se prepararam, como Rael era um quinto reino na vista deles, eles nem imaginavam que teriam qualquer problema.

Zuuuuup!

Rael apareceu no meio dos os três como um vulto:

Booom! Booom! Booom! Booom! Booom! Booom! Booom!

Uma rápida sucessão de socos nos peitos e os três voaram para trás, caindo de costas no chão. Dois deles soltaram suas armas e já nem se levantariam mais, ficaram sentindo dores horríveis em seus órgãos.

                Jeremias se levantou com os dentes travados, ele ainda segurava sua espada mas mal conseguia se mexer. Rael se virou para ele:

― Eu mal comecei e vocês já estão assim? Eu não estou afim de matá-los, então me passem tudo que vocês têm e eu os deixo viverem. ― propôs Rael, mostrando as mãos nuas.

― Seu desgraçado! ― rugiu Jeremias, avançou explodindo sua aura cinza contra Rael, o golpeando na vertical. Rael levantou o braço direito e a espada se quebrou facilmente em seu antebraço.

Booom! Brashs!

Rael não estava animado por aquela batalha sem significado. Ele não queria matar aqueles homens; preferia deixá-los vivos e contar para Rika, quem sabe isso pudesse acalmar a fúria que ela estava sentindo de Rael nesses dias?

Boooom!

Outro soco mais forte e Jeremias voou para o chão de novo.

― Então, como eu estava dizendo, vocês vão querer ficar vivos? ― perguntou Rael sem qualquer expressão.

                Minutos depois os homens entregaram seus braceletes com tudo que possuíam. Eles mal estavam conseguindo se levantar, o que dirá tentar lutar ou fugir?

― Em mais ou menos duas horas vocês estarão bem de novo. Oh, sim! Apareçam novamente, desde que vocês tenham coisas boas como agora eu os deixarei viver de novo. ― disse Rael se afastando.

                Eles só puderam ficar assistindo Rael partir com suas coisas e se lamentar. Era a segunda vez que Rael ferrava com a vida deles. Eles não entendiam como um mero quinto reino os venceu tão facilmente.

                Rael ficou muito animado com seus ganhos nessa batalha. Cada um daqueles homens tinham um pouco mais que duas mil moedas de ouro, ou seja, Rael saiu com mais de seis mil moedas de ouro. Algumas armas, cinco jaulas de bestas tamanho grande, algumas redes de caça feitas de linhas de metal, alguns remédios, alguns tipos de armaduras especiais e alguns anéis de aumento, que são inúteis para Rael.

                Para Rael, enfrentar pessoas do sétimo reino como aquelas tinha virado brincadeira de criança, ainda mais esses que o subestimavam. Isso foi a razão dele vencer todos tão facilmente sem usar quase nada.

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Assim que se afastou o suficiente e tendo a certeza de estar sozinho, Rael chamou Ralf novamente.

                Com um curto voo de dez minutos ele finalmente chegou na cidade. Ele chamou Ralf de volta e mergulhou pousando suavemente como antes.

                Rael pousou na entrada da cidade e dois homens do clã Sangnos rapidamente o cercaram. Quem fazia a segurança daquela cidade não eram guardiões, e sim o próprio clã Sangnos.

― Você aí, parado! ― disse o guarda com roupas cor de vinho e armadura de prata cobrindo o peito. O outro estava vestido do mesmo jeito.

― Me chamo Samuel, sou o jovem mestre casado com Mara e Natalia do clã Torres, será que os senhores não me reconhecem? ― perguntou Rael.

                Os dois guardas se olharam e imediatamente conheceram as roupas e os cabelos vermelhos. Tudo se encaixava, menos os protetores que Rael não tinha.

― Se o senhor seria mesmo este jovem mestre, onde estaria seus protetores e sua carruagem? ― perguntou o segundo guarda, ele usou um tom amigável e cuidadoso.

― Eu não sou muito de andar acompanhado e não gosto de carruagens. Agora, podem permitir que eu passem? A propósito, eu gostaria de saber como faço para encontrar a casa de Valda e do senhor Reis, eles são os pais de Thais e Laís. Vim aqui porque desejo ver Laís, eu já sei que ela está doente.  ― explicou Rael.

                Todas as informações dada por Rael batiam. Rael não parecia ninguém suspeito afinal e estava muito calmo para não ser a pessoa que ele se descrevia.

― Jovem mestre, permita-me acompanhá-lo, eu o levarei até a residência do senhor Reis. ― o guarda educadamente se ofereceu. O outro saiu correndo para anunciar a visita de Rael para o clã o mais rápido possível.

― Oh, isso é maravilhoso. Eu ficarei muito grato. ― disse Rael e seguiu o guarda que seguia na frente.

                A cidade tinha um tamanho médio comum, a grande maioria das casas parecia ser de classe média para cima. E por onde Rael passava, sempre via um ou outro guarda do clã Sangnos passando. Eles tinham os símbolos das taças de vinhos em suas calças. O símbolo ficava em um tom laranja mais claro.

                Não demoraram muito para chegar em frente a uma casa amarela de portões cinzas. Antes da casa havia um quintal espaçoso com duas pequenas árvores.

― Senhora Valda! ― o guarda gritou do portal e esperou. Rael ficou ao lado esperando junto pacientemente.

― Já estou indo! ― uma voz feminina gritou de dentro da casa. Depois, uma mulher com boa aparência surgiu abrindo a porta. Ela era uma cultivadora comum com aparência de uns vinte e cinco anos, mas era muito mais velha do que aparentava.

― No que posso ajudá-los? ― perguntou ela educadamente se aproximando do portal. Como o guarda estava junto, ela não teve nenhum receio.

― Esse é Samuel, um jovem mestre do clã Torres. Ele é casado com a filha do patriarca e também com a filha do elder mais poderoso do mesmo clã. Eu o trouxe aqui porque ele deseja ver sua filha Laís. ― explicou o guarda sem rodeios. A mulher abriu a boca surpresa e tentou se conter o mais rápido que pôde.

― É uma honra recebê-lo, jovem mestre, mas minha filha está doente faz mais de cinco anos. Ela está em coma e não há nada que podemos fazer por ela. ― explicou Valda com um tom triste.

― Eu poderia vê-la mesmo assim? É muito importante para mim. ― pediu Rael educadamente. A mulher ficou um pouco ansiosa e depois abriu o portão, liberando a entrada.

― Claro, entre. ― disse a mulher educadamente. Ela não sabia qual era o interesse de Rael, apenas passou pela cabeça dela que de repente a filha dela poderia ter cruzado com esse rapaz um tempo antes de entrar em coma.

― Jovem mestre, o que deseja que eu faça? Quer que eu espere pelo senhor aqui fora? ― perguntou o guarda quando viu Rael entrando.

― Pode voltar para seu posto, quando eu terminar por aqui eu falo com você de novo. Obrigado por me guiar. ― agradeceu Rael educadamente. Se uma pessoa era educado com ele, Rael era educado de volta. O guarda o cumprimentou e saiu em seguida.

                Valda fechou o portão enquanto Rael a esperava. Depois, ela tomou a frente liberando o caminho e os dois entraram na casa.

― Ela está nesse quarto. ― disse Valda guiando Rael que a seguiu.

                A casa por dentro era básica, não chegava a ser pobre nem rica, essa família não parecia estar tendo dificuldades, mas até esse ano eles ainda tinham Thais. Rael se encheu de tristeza de novo por ter lembrado que tirou a vida dela.

                O quarto da jovem de dezessete anos estava muito bem cuidado. Ela estava em uma cama no fundo do quarto, ao lado de uma janela com as frestas abertas. A bela garota – de pele branca, altura media, magra, cabelos loiros, longos e caracolados – dormia profundamente de costas para cama. A cabeça dela estava confortavelmente deitada em um travesseiro, enquanto o corpo estava coberto por um lençol branco da ponta dos pés até altura do pescoço.

― Essa é minha anjinha que você queria ver. Ela está dormindo assim faz cinco anos. ― disse a mulher. A doença, apesar de causar coma, não afetava o desenvolvimento da pessoa, que ainda continuaria crescendo ou envelhecendo. Laís não era feia, ela só estava bem magra, um corpo nesse estado afinal não teria como estar em melhores condições.

― Eu posso olhar o estado dela? ― perguntou Rael. Valda ficou curiosa. Rael parecia ser um bom jovem, mas por que ele queria ver o estado de sua filha?

― Por que você tem interesse na minha filha? ― perguntou a mulher por fim.

― Eu acho que posso curá-la. Estou estudando sobre essa doença há algum tempo.

―Você é medico? ― perguntou a mulher e seu coração já tinha disparado no peito. Porque mesmo que fosse um jovem que não parecia ter experiência em sua frente, ele ainda disse que talvez pudesse curá-la e naquela altura qualquer um que dissesse tal coisa despertaria o coração de uma mãe desesperada.

― Eu peço para que me deixe tentar, você não tem nada a perder. ― disse Rael calmamente. Valda olhou Rael por um tempo e ela não podia ver através dele. O olhar de Rael era sério e sem qualquer vacilo, ele não parecia estar inventando. Valda sabia que não havia médicos jovens como ele, mas o que custava deixar ele tentar?

― Pode olhar. ― disse ela, concedendo.

                Rael fez um sim com a cabeça, tirou a luva da mão esquerda e tocou no rosto dela. Rael concentrou sua energia e lançou sobre ela. Mesmo de leve, Rael sentiu a consciência da garota. Laís estava apenas no reino um nível nove e não podia lutar contra Rael, mesmo se ela quisesse. Rael chegou a sentir que ela tentou lutar, ela estava em coma mas por dentro sua consciência parecia estar funcionando. Como ele já havia lido sobre isso, não era nenhuma surpresa.

― Preciso que você me deixe olhar a barriga dela. Eu não consigo ver tudo pelo rosto. ― disse Rael. Ele não tinha certeza o se seu poder poderia curá-la ou se teria que usar o sangue do dragão que ainda tinha, por isso ele queria confirmar.

― Tudo bem. ― disse a mulher concordando e ela mesma puxou o lençol liberando o corpinho magro da jovem.

                Ela estava vestida com uma calça folgada vermelha e uma blusa curta branca, deixando um espaço no umbigo que era perfeito para Rael. Rael encostou a mão e lançou novamente sua energia enquanto fechava os olhos, dessa vez não houve luta. Rael conseguiu sentir todas as raízes espirituais da garota contaminada pelo vírus que se espalhava. Através daquele ponto Rael já sentiu que seu poder conseguiria curar sem o uso do sangue de dragão. Os danos eram semelhantes ao estado de sua esposa Mara antes.

― Ótimo, eu vou poder curá-la com toda a certeza. ― disse Rael abrindo os olhos. Quando Valda ouviu aquilo ela teve que se segurar na parede. Porque Rael não parecia mentir e era a primeira pessoa que dizia aquilo depois de olhar o estado corporal da filha.