O Herdeiro do Mundo

109 - Contando a Verdade

Autor: Edson Fernandes da Costa | Revisor: Nego

Naquela tarde, Violeta havia cruzado várias cidades em busca do local indicado no papel que Rael entregou a ela. Num futuro próximo os devoradores iriam aparecer. Se tudo era como Rael explicou, então seria em cerca de um ano. O surgimento deles criaria futuros anos de desgraça e era melhor evitar isso.

                Violeta voou próximo pelas primeiras regiões que seriam afetadas como escrito nas cartas. Eram pequenas cidade e vilas cercadas de várias montanhas.

                Violeta mantinha os seus olhos negros ativados para seus sentidos alcançarem muito mais longe. Ela não demorou muito para sentir uma pequena vibração da energia dos Devoradores. Era tão pequena que poderia ser facilmente ignorado por cultivadores de baixo nível.

                A vibração vinha de cima de uma mina de mineração próximo a uma pequena cidade. Ela chegou por cima do local mais próximo e atirou sua energia vermelha fazendo um buraco no topo do lugar. Ela entrou flutuando lentamente no lugar escuro, a única luz que vinha era essa do teto que ela tinha acabado de liberar.

                Era uma caverna com passagens apertadas, pela falta do sol não tinha qualquer coisa além de rochas e um pouco de areia. Os olhos de Violeta facilmente encontraram uma espécie de buraco oval. Dentro do buraco tinha uma larga raiz cristalina vermelha espalha pelo chão, em cima dela, vários cristais vermelhos como frutas nascendo em uma árvore. Violeta sentiu o vírus de longe, se qualquer pessoa tocasse aquelas coisas na mesma hora seria infectada.

― Vamos acabar com isso diretamente pela raíz do problema! ― disse Vileta enquanto mirava a mão. Ela não ousaria chegar perto uma vez que a transmissão poderia ser feita tão facilmente.

Vruuuuuuum!

Com um único tiro de uma rajada de laser vermelha, um buraco muito maior surgiu no lugar. O buraco podia ser visto a quase um quilômetro de profundidade descendo em lateral. Os cristais vermelhos foram completamente destruídos e não havia restado mais nenhuma vibração deles.

                Violeta saiu voando por cima pelo mesmo buraco que entrou e continuou lançando seus sentidos. Ela não tinha certeza se seriam apenas aqueles, e para não ter imprevistos desnecessários no futuro era melhor ser cuidadosa.

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Na cidade ali próxima, as pessoas estavam apavoradas com o tremor ocorrido a pouco. Todas elas tinham corrido para fora de suas casas para ver o que tinha ocorrido. Elas não podiam imaginar que aquele tinha sido um ataque de uma poderosa violadora que voava pelas regiões próximas.

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                Rayger e Neide mantiveram uma distância de dez metros de Rael. Eles não carregavam qualquer expressão no rosto. Eles sabiam que Rael agora iria contar a verdade e estavam preparados para ouvirem, seja ela qual fosse:

― Muitas coisas aconteceram nesses últimos dias e a maioria quase me fugiu do controle. Um tempo atrás eu não estaria dando a vocês qualquer chance de conversar, mas depois de ver o mundo melhor eu decidir não agir da maneira que sempre planejei há anos. ― começou Rael.

― Genro, eu não me importo com o que você esteja planejando, só quero que você continue mantendo a promessa de manter Mara segura. ― disse Neide.

― Se eu não estivesse mantendo vocês mesmos não iriam destruir ela? Já esqueceram disso? ― perguntou Rael soando um pouco frio.

― Samuel, nos fale qual é o seu propósito e porque isso é pessoal. Seja lá o que for, iremos ouvir pacificamente. ― garantiu Rayger.

― Vocês ainda se lembram da história que agora é proibida, aquela de cinco anos atrás. De Rael, o filho aleijado do patriarca? ― perguntou Rael.

― Genro, por que está perguntando isso? ― perguntou Neide curiosa.

― Porque essa é minha história. Eu sou o Rael que desapareceu há cinco anos. Fui levado por cinco guardas a noite. Eles estavam disfarçados, mas mostraram seus rostos e disseram que estavam a mando dos meus próprios pais. Depois me esfaquearam por trás e me mandaram penhasco abaixo… Eu tive uma morte miserável.

                Disse Rael deixando Neide e Rayger de olhos arregalados. Os dois ficaram verdadeiramente chocados. É claro que eles se lembravam daquele garoto magrelo, baixinho e aleijado. Mas nunca esperaram que ele tinha se tornado esse jovem poderoso de tão brilhante destino em sua frente.

― É você mesmo Rael? Porque você não se parece muito com o Rael que conheci? ― disse Rayger mantendo a seriedade, ele estava se segurando para não se tremer. O choque ainda era muito grande.

― Oh, vocês duvidam? Não se lembram da minha cabana na muralha do clã? Talvez vocês não sabiam, mas até para comer eu tinha que entrar de fininho em casa e quando me viam me colocavam para fora. Eu era humilhado, pisado, espancado… ― disse Rael e tirou o sobretudo depois a camiseta mostrando o braço azul: ― Eu não tinha esse braço antes, isso foi um presente da minha mestra. ― disse ele estendendo a mão a frente e agarrando o ar na direção deles. ― A dor que sofri naquela noite sendo morto não foi nada comparado com a notícia de saber que eram meus próprios pais os mandantes!

― Então você é mesmo, Rael! ― disse Neide. Ela estava de olhos arregalados e a respiração dela estava alterada. Rayger ainda estava alarmado mas já estava ficando mais firme.

― Claro que sou. Eu jurei vingança, jurei que acabaria com todo o clã se tivesse uma chance. ― disse Rael.

― Meu amor eu sinto muito por tudo o que você sofreu, eu sei que isso não ajuda agora mas eu sinto muito. Eu fiquei muito triste quando soube que você tinha desaparecido, eu estou falando isso de verdade. Mesmo você tendo sido um aleijado, eles nunca deveriam ter feito isso. ― disse Neide e seus olhos lacrimejaram. Rael não conseguia saber se era verdade ou não, a expressão dela parecia mesmo ser de verdade.

― Não importa agora. Tudo já passou. ― disse Rael de mau humor.

― Agora é compreensível porque você quer essas pessoas mortas. ― admitiu Rayger depois de ficar um tempo em silêncio pensando.

― Meu amor. Isso é um absurdo! O que seu irmão fez com ele não se faz com ninguém, eu sempre disse que aquela família não presta. ― reclamou Neide olhando Rayger.

― Meu irmão sempre agiu pelos próprios extintos, meu bem. Naquela época o nome do clã estava manchado de vergonha devido ao filho aleijado, ele não viu outro meio melhor, a não ser dar um fim ao próprio filho. ― explicou Rayger, mas não era em tom de defesa. Era mais como uma explicação dos fatos.

― Eu sei, e se você fosse como ele eu jamais teria me casado com você. ― disse Neide.

― De um extremo ninguém, você se tornou um grande alguém. Isso é admirável para um homem e você merece meus sinceros parabéns. ― disse Rayger.

― Então vocês não acham certo o que ele fez? Ou só estão me dizendo isso porque agora sou o genro de vocês? Melhor, talvez vocês estejam com medo da minha mestra ou quem sabe do que eu possa me tornar futuramente? ― perguntou Rael. Porque ele achava aquelas duas pessoas confiáveis, mas eles aceitarem tão facilmente também não parecia algo natural.

― Nós não temos nenhum medo de você. O que temos é respeito: Você me salvou, salvou nossa filha, melhorou a cultivação dela. Se vingou do homem que a feriu. Você nos provou ser merecedor desse lugar que agora tem em nossa família, Rael. Mesmo agora sabendo que você é meu sobrinho, eu não tenho nada contra você e nenhuma mágoa. Espero que você não tenha nenhuma contra mim também. Como pai, eu só fiz o que foi preciso pela minha filha e pela minha família, eu não teria tempo para me preocupar com os de fora. ― disse Rayger.

― É os de fora? Sobre isso você tem razão, para alguém que preza tanto sua família você nunca nem olhou para mim mesmo. Bom, pelo menos isso foi melhor do que os seus filhos que me empurravam e me machucavam quando era criança. Eu posso perdoar Mara por ela ser quem é agora na minha vida, mas não vou perdoar seus filhos tão facilmente, eu ainda irei surrá-los para que eles se arrependam do que fizeram a mim.

― Rael, perdoe nossos filhos, eles não são ruim de verdade. ― disse Neide apreensiva.

― Eu vou perdoá-los. O fato deu deixá-los viver já será um perdão porque nem isso eles iriam merecer. Mas não vou deixar de esfregar a cara deles no chão. Então vocês ficarão contra mim nessa hora? Ou ficarão afastados?

                Neide olhou para o marido apreensiva. Rayger continuava com o olhar fixo em Rael. Era um olhar de um homem para o outro.

― Nós nunca ensinamos nossos filhos a pisar em ninguém. Você tem o direito de fazer isso mas não vá muito longe, como pai eu não posso permitir que você os machuque demais. ― disse Rayger por fim. Neide olhou para o chão sem saber o que dizer.

― Vocês estão tão bonzinhos. ― observou Rael.

― É seu direito. O que esperava que fizéssemos?

― Vocês acabaram de dizer que família era tão importante então eu imaginei que vocês não me deixariam fazer nada com eles. ― disse Rael.

― Eu entendo seu lado, apesar de não compreender toda a sua raiva. Meus filhos já são de maior e na época que eles o humilharam eles já tinham noção da vida. Eu não posso defender dizendo que eles eram completamente inocentes, mas não os aleije e nem os mate, é apenas isso que te peço. ― repetiu Rayger.

― Genro, você não pode mesmo perdoar isso? Eu prometo eu irei falar com eles, mesmo que você não vá machucá-los muito eu imploro que você evite fazer isso. Eu sou mãe e não gostaria de ver meus filhos sofrerem, mesmo que eles mereçam. Se você quiser pode castigar a mim no lugar deles, se isso fizer você se sentir melhor. ― disse Neide pedindo o mais educadamente possível.

― Vou pensar nisso depois. ― disse Rael um pouco bolado. Afinal, ela estava pedindo em um tom amigável. Eles mantinham o respeito com Rael mesmo tendo os filhos sobre ameaça, embora não fosse uma ameaça pesada.

― Agora, nos conte os seus planos para o clã. O que vai fazer depois que cumprir sua vingança? O que vem depois disso? ― perguntou Rayger.

― Eu irei abolir a escravidão. Começaremos pelo nosso clã e expandiremos para todos os outros, aqueles que não cumprirem o meu desejo vão encontrar o fim. ― disse Rael.

― Isso não será uma tarefa fácil. A escravidão já está enraizada nesse mundo e ela se faz extremamente necessária. ― disse Rayger.

― Houve um tempo que famílias pobres eram punidas com a morte apenas por não poderem pagar suas dívidas. Mesmo que essa família hoje percam alguns membros para a escravidão, eles ainda poderão lutar por um futuro melhor. Ela foi criada como uma solução, genro. ― disse Neide.

― Vocês defendendo a escravidão? Eu não acredito nisso! ― reclamou Rael.

― Ela é a solução de muitos problemas, mesmo que você não entenda. Podemos entender que esteja zangado pelo passado que teve, mas querer acabar com a escravidão não será uma tarefa fácil, será muito mais difícil do que cumprir sua própria vingança. ― disse Rayger.

― Solução? Eu já vi bandidos sequestrando pessoas inocentes para escravizá-los apenas para lucrarem. Já vi família perdendo suas mulheres e filhas para famílias maiores por armação apenas para tomá-las para si. Vocês acham que isso é solução? Vocês sempre viveram olhando as pessoas de cima e por isso suas visões não alcançam as partes mais baixas da escravidão. ― reclamou Rael.

― Rael, não estamos dizendo que somos contra o que você quer fazer. Nossa família tem condições de pagar empregados como nos tempo antigos, não serão tão confiáveis mas ainda servirão. O que estamos tentando dizer é que talvez não seja um boa solução, as pessoas não aceitarão isso tão facilmente. ― disse Rayger.

― E daí que não aceitem agora? Eu os farei aceitar. Se eles não conhecem a escravidão como ela realmente é então eu mesmo vou apresentá-las para eles.

― Genro, porque escolheu nos contar isso antes de contar pra minha filha? ― perguntou Neide.

― Porque eu não sei como ela irá reagir quando eu contar. E vocês são os únicos que podem segurá-la caso eu não possa. Mesmo que ela me recuse e queira se separar de mim, é do direito dela fazer isso, mas se ela tentar atrapalhar meus planos eu não poderei apenas ficar assistindo sem poder fazer nada. É ai que vocês entram. ― disse Rael.

― Minha filha não é assim, ela vai se chocar com a notícia mais você já está no coração dela. Então não terá esse problema. ― disse Neide com um ar tranquilo.

― Espero que esteja certa, porque ela será a próxima a saber. De qualquer modo, vocês estarão comigo sim ou não? Ouviram meus planos e agora já sabem o que pretendo fazer. ― disse Rael.

― Antes disso, veja isso: ― Rayger retirou um Criador de Fumaça do bracelete. Um item de metal verde com uma alça em cima, muito parecido com um bule de café tanto no tamanho quanto no formato. Havia uma alça e uma tampa em cima, em volta continha vários pequenos furinhos. Rayger concentrou sua energia e imediatamente uma fumaça branca foi liberada no ar se espalhando rapidamente.

― O que é isso? ― perguntou Rael preocupado sentindo o cheiro estranho de uma erva.

                O espaço ao lado da árvore tremulou e vidros no ar pareceram ser quebrados. A energia oculta de Emilia foi exposta e ela surgiu caminhando com dificuldade. Ela tentou se aproximar de Rael, mas acabou caindo um pouco antes de cara no chão. Emilia estava toda tonta com os olhos escuros amostra e respirando com dificuldade.

― Rael meus poderes sumiram, você precisa fugir agora, esses dois ele… ― Emilia tentou dizer mas acabou desmaiando. Rael correu para perto dela e se agachou preocupado, a virando de peito para cima, ele já estendeu a mão e mediu o pulso do pescoço dela sentindo alivio por ela só parecer desmaiada. Ele calculou que aquilo ocorreu depois de Rayger apresentar o Criador de Fumaça.

― O que vocês fizeram?Estão me traindo? ― perguntou Rael irritado se levantando. Ele já se concentrou no poder de seu bracelete que estava agora dentro do braço direito.

                O bracelete azul de Rael sumiu no braço azul dele sendo sugado, mas Rael tinha o controle da armadura através do pensamento. Ele só precisava se concentrar e a armadura surgiria e sumiria ao desejo dele.

 


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